A SANTÍSSIMA
TRINDADE
A trindade, dogma da união de três pessoas distintas
- Pai, Filho e Espírito Santo - em um só Deus,
o Mistério da Santíssima Trindade, tem sua origem
em antigas religiões; logo, é anterior ao cristianismo,
bem como outros dogmas que as religiões cristãs
acolheram numa espécie de herança daqueles que
elas julgam como religiões pagãs. Não
é um contra-senso?
Assim, as religiões dogmáticas cristãs
copiaram as trindades originadas das religiões mais
antigas, das quais, citaremos apenas três: brahmânica,
egípcia e babilônica. Brahma, Siva e Vishnu,
dos hindus; Osíris, Ísis e Orus dos egípcios;
Ea, Istar e Tamus, dos babilônios. Existem outras, mas,
para abreviar, ficamos com estas. Importa-nos considerar,
aqui, a Santíssima Trindade, um dogma ou "artigo
de fé", decidida pelo Concílio de Nicéia
em 325 d.C. Notem bem: evento bem posterior às escrituras
do Evangelho de Jesus. Pela ordem, vejamos:
PAI
É a "primeira pessoa" da Santíssima
Trindade: Deus. Na Gênese de Moisés, Deus criou
o homem a sua imagem e semelhança (cap. 1, vs. 26 e
27); porém, parece-nos que houve uma inversão
de valores: o homem é quem criou um Deus a sua imagem...
Como pode a criatura, limitada, limitar o ilimitado, o criador,
colocando-o como pessoa unida à duas outras! Por isso
que alguém disse que "o homem é a medida
de todas as coisas". Personificar Deus - o Deus antropomorfo
-, confundi-lo com os fenômenos da natureza, foi próprio
de criaturas das eras primevas, porém, aqui, parece-nos
que é inviável, salvo se o estão considerando
como "pessoa jurídica" ou fictícia...Nós,
espíritas, não ficamos com essas complicações
que denunciam, tão somente, os interesses sectários
em prol de classes sacerdotais ou pastorais, nada mais que
profissionais das religiões. Ficamos com a Religião
em Espírito e Verdade - Religião do Espírito
- que, com respeito ao nosso criador, postula: "Deus
é a inteligência suprema, causa primeira de todas
as coisas". (1)
FILHO
É a "segunda pessoa" da Santíssima
Trindade: Jesus. Para nós, filho de quem? De José
e Maria, segundo a carne; de Deus, segundo o Espírito.
Como pessoa, apenas é o nosso irmão mais velho,
por existir antes da formação da Terra, quiçá
do Sistema Solar. Por isso, foi confundido com o próprio
Deus. A sua divindade não está circunscrita
numa posição intermediária da Trindade.
Vejamos:
"Transformado em parte intrínseca de Deus, Jesus
de Nazaré perdeu a sua personalidade própria,
"ensanduichado" entre Deus e o Espírito Santo.
O Deus uno de Jesus, o Pai, cuja concepção simples
e clara abalou o mundo antigo e revelou a fraternidade universal
dos povos e das raças, fragmentou-se em três
pessoas, o que vale dizer em três deuses, iniciando
a hierarquia da Igreja, que se prolongaria indefinidamente
no tempo". (2)
Temos que reconhecer que passamos por fases primitivas do
conhecimento no processo evolutivo, no qual estamos inseridos.
As questões dos mitos e dos símbolos foram úteis
até certo ponto; porém, a partir deste, tornaram-se
pedras de tropeço. O homem só permanece neles
por comodismo ou interesses mesquinhos. É o caso da
permanência no mito irracional da Trindade, daí
a origem da mitologia cristã e do sectarismo religioso.
"A superioridade de Jesus sobre os homens não
se prendia às particularidades de seu corpo, mas às
de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira
absoluta, e à de seu perispírito, haurida na
parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres." (3)
Jesus, como ficou dito acima, é o nosso irmão
mais velho, não é Deus. Em várias passagens
evangélicas ele fez referência ao Pai, citamos
apenas esta:
"Vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo
para meu Pai, e vosso Pai; para meu Deus, e vosso Deus."
(João 20: 17)
Acresce que, sobre a paternidade de Deus, Paulo, na sua Epístola
aos Romanos, escreveu "que somos filhos de Deus, portanto
seus herdeiros, acrescentando: e co-herdeiros de Cristo".
(Romanos, 8: 17)
A divindade de Jesus é pela sua realização
espiritual. É divino, porque já se depurou das
imperfeições humanas e está mais próximo
de Deus! É o nosso guia e modelo, segundo a questão
nº 625, de O Livro dos Espíritos.
ESPÍRITO SANTO
É a "terceira pessoa" da Santíssima
Trindade. Como vimos acima, personificar Deus ou confundi-lo
com Jesus é uma aberração; aqui, a personificação
do Espírito Santo continua na mesma, para não
dizer pior. Já não e sem tempo de compreender
que não se trata de uma pessoa, mas de um coletivo
inumerável de bons para espíritos puros, isto
é, seres atuantes como colaboradores diretos de Jesus
e da Espiritualidade Maior. Assim, o problema maior de interpretação
dos nossos opositores está relacionado ao "Espírito
Santo". Vejamos:
"As antigas escrituras não continham o qualificativo
santo, quando se falava do Espírito. Todos os apóstolos
reconheciam a existência de Espíritos, mas entre
estes, bons e maus. (...) Foi só com a tradução
das antigas escrituras e constituição da Vulgata
que esse qualificativo foi acrescentado, com certeza para
fortificar o "Mistério da Santíssima Trindade",
tirado de uma lenda hindu, (...). Esse mistério veio
criar uma doutrina nova sobre a concepção de
Espírito, atribuindo a este, quando revestido do qualificativo
Santo, um ser misterioso, incriado, também Deus e co-eterno
com o Pai." (4)
Como se vê, não há como nós espíritas
conciliarmos com o dogma da Santíssima Trindade e,
conseqüentemente, com o mistério da divisão
de Deus em três partes distintas. Deus é único:
"se houvesse vários deuses, não haveria
unidade de vistas, nem unidade de poder no ordenamento do
Universo", segundo a questão nº 13, de O
Livro dos Espíritos.
Encerrarmos estas considerações, com a seguinte
lição de Emmanuel:
"Os textos primitivos da organização cristã
não falam da concepção da Igreja Romana,
quanto à chamada "Santíssima Trindade".
(...) Por largos anos, antes da Boa Nova, o bramanismo guardava
a concepção de Deus, dividido em três
princípios essenciais, que os seus sacerdotes denominavam
Brama, Siva e Vishnu. Contudo, a Teologia, que se organizava
sobre os antigos princípios do politeísmo romano,
necessitava apresentar um complexo de enunciados religiosos,
de modo a confundir os espíritos mais simples, mesmo
porque sabemos que se a Igreja foi, a princípio, depositária
das tradições cristãs, não tardou
muito que o sacerdócio eliminasse as mais belas expressões
do profetismo, inumando o Evangelho sob um acervo de convenções
religiosas, e roubando às revelações
primitivas a sua feição de simplicidade e de
amor". (5)
(1) O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Questão
Nº 1.
(2) Revisão do Cristianismo, Herculano Pires, pág.
12, Ed. Paidéia - 1977.
(3) A Gênese, Allan Kardec, cap. XV, nºs 1 e 2,
pág. 270, 18ª Edição - IDE-1988.
(4) Vida e Atos dos Apóstolos, Cairbar Schutel, pág.
6, 8ª Ed. O Clarim - 1987.
(5) O Consolador, Emmanuel, F.C.Xavier, Q. 264, pág.
159, 6ª Ed. FEB-1976.
(as.) Julio Laurentino de Lima - juliollima@gmail.com
(Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo,
Fev/2008, pág. 15 - Editora O Clarim)
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