SALVAÇÃO
DOS RICOS
A riqueza, em si mesma, não é um mal; pelo
contrário, pode ser uma bênção.
Considerando-se os povos, basta-nos observar a situação
dos países pobres em relação aos países
ricos. É interessante observar que os países
pobres mal cuidam de si mesmos e não têm como
interferir nos assuntos alheios. Inversamente, alguns paises
ricos interferem nos assuntos dos outros, face aos interesses
econômicos e políticos; em razão disso
(imperialismo), ocorreram, no passado, as guerras de conquistas
territoriais. O continente africano, por exemplo, foi retalhado
em colônias; mais recentemente tivemos as ingerências
e conseqüentes guerras da Coréia, Vietinan e,
atualmente, a invasão e ocupação do Iraque
e daí temos o caos reinante... Tudo isso é o
aspecto material, importa-nos o moral e espiritual.
Temos um trinômio: trabalho, progresso e riqueza. Numa
seqüência, um leva ao outro e importa considerarmos
o indivíduo inserido neste contexto.
Primeiro, o trabalho - lei natural - não é apenas
imposto ao homem. "É uma conseqüência
da sua natureza corporal; é uma expiação
e, ao mesmo tempo, um meio de aperfeiçoar sua inteligência.
Sem o trabalho, o homem permaneceria na infância da
inteligência. Por isso, ele não deve seu sustento,
sua segurança e seu bem estar senão ao seu trabalho
e a sua atividade." (...) (1)
Segundo, o progresso - lei natural - é o resultado
do trabalho, pois o homem, a rigor, não fica na inércia,
consoante o movimento molecular constante em todos os corpos
da natureza. "(...) O homem se desenvolve, ele mesmo,
naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e da
mesma forma; é então que os mais avançados
ajudam o progresso dos outros, pelo contato social."
(2)
Terceiro, a riqueza, que normalmente é a conseqüência
do trabalho e do progresso, pelas considerações
iniciais, é uma bênção, porquanto,
evidentemente, não fomos criados para a penúria
e o sofrimento, estas são o resultado do que merecemos
e podemos afirmar que ninguém está no lugar
errado; ao contrário, está no lugar merecido,
isto é, numa das posições sociais que
merecemos ocupar.
Existem dois tipos de riqueza: de berço é aquela
que o indivíduo a possui por sucessão legítima
ou testamentária e de conquista, em que o indivíduo
a conquistou pelo trabalho honesto ou desonesto...
"A desigualdade das riquezas não tem sua fonte
na desigualdade das faculdades que dá a uns maiores
meios de aquisição que a outros? Sim e não;
e a velhacaria e o roubo, que dizes deles?" (...) (3)
A riqueza se traduz na propriedade de bens móveis e
imóveis, enfim, tudo quanto é capaz de satisfazer
às necessidades humanas; porém, somos meros
depositários dos bens materiais e de nada adianta o
cofre cheio e o coração vazio, visto que a verdadeira
propriedade é composta pelos bens morais ou espirituais
que levaremos conosco, quando partirmos para outra dimensão
da vida.
O direito de propriedade - causa de dissidências sociais,
políticas e econômicas - é, contudo, desde
que adquirido pelo trabalho honesto, legítimo e "(...)
um direito natural tão sagrado como o de trabalhar
e de viver." (4)
Acrescenta-se ao direito de propriedade o seguinte:
"(...) Não há propriedade legítima,
senão aquela que foi adquirida sem prejuízo
para outrem." (5)
O nosso mundo, ainda, é de provas e expiações.
As provas, excluindo-se as reencarnações compulsórias,
nós as escolhemos objetivando o nosso progresso e,
muitas vezes, a nossa escolha se torna inábil, consoante
a recaída nas mesmas faltas. Parece-nos que o que mais
ressalta na escolha, são as provas da riqueza e da
pobreza, duas situações diametralmente opostas:
daí a maior extensão do erro...
"(...) Há ricos e pobres porque Deus, sendo
justo, cada um deve trabalhar a seu turno; a pobreza é
para uns a prova da paciência e da resignação;
a riqueza é para outros a prova da caridade e da abnegação."
(6)
Continuando com a escolha das provas, parece-nos, a priori,
que a escolha da riqueza seria a melhor, porquanto vislumbramos
somente o aspecto material em que nos sentimos plenamente
realizados, segundo o adágio popular: "o dinheiro
resolve tudo"; porém, ela é igualada à
prova da pobreza, pelo seguinte:
"Qual das duas provas é a mais terrível
para o homem, a da infelicidade ou da fortuna?Tanto uma quanto
outra o são. A miséria provoca o murmúrio
contra a Providência, e a riqueza leva a todos os excessos."
(7)
A parábola do rico e Lázaro (Lucas 16: 19 -
31), magistralmente interpretada pelo nosso Cairbar Schutel,
ilustra perfeitamente as provas da riqueza e da pobreza.
"Este rico (...) é o símbolo daqueles que
querem tratar da vida do corpo e esquecem da vida da alma.
(...) é a personificação daqueles que
são escravos do reino do mundo, (...) Lázaro
representa os excluídos da sociedade terrena, (...)
Os Lázaros não são esses pobres orgulhosos
do mundo, que não têm muitas vezes o que comer
e o que vestir, mas estão cobertos com a púrpura
do orgulho; não é essa gente que não
tem dinheiro, mas tem vaidade; não tem palácios,
mas tem egoísmo; (...) os pobres, de que Lázaro
serviu de símbolo na parábola, são os
que sofrem com resignação, (...) (8)
Pelos excertos acima, o rico da parábola fracassou
na prova da riqueza e deu mau exemplo aos ricos; ao passo
que o pobre (Lázaro) saiu vitorioso da prova da pobreza
e serviu de bom exemplo aos pobres que, pelo visto, também
podem fracassar como pobres...
Assim, podemos colocar a seguinte proposição
em termos dicotômicos:
Temos o "rico-rico", isto é, rico de bens
materiais e espirituais e o "rico-pobre", isto é,
rico de bens materiais, mas pobre espiritualmente; em contrapartida,
temos o "pobre-pobre", isto é, pobre de bens
materiais e espirituais e o "pobre-rico", isto é,
pobre de bens materiais, mas rico espiritualmente.
Sobre o dinheiro, após vários itens considerados,
Bezerra de Menezes terminou a sua mensagem, dizendo:
"(...) Em suma, o dinheiro, associado à consciência
tranqüila, alavanca do trabalho e fonte de beneficência,
apoio da educação e alicerce da alegria, é
uma bênção do Céu que, de modo
imediato, nem sempre faz felicidade, mas sempre faz falta."
(9)
Pelo exposto, os ricos, que observarem o proposto na presente
lição, "estão salvos", desde
que, também, tenham em mente o seguinte ensino de Jesus:
"(...) Porque onde está o teu tesouro, aí
estará também o teu coração."
(10)
(1) O Livro dos Espíritos, questão 676;
(2) Idem, 779;
(3) Ibidem, questão 808;
(4) Ibidem, questão 882;
(5) Ibidem, questão 884;
(6) O Evangelho Seg. o Espiritismo, Cap. XVI, nº 8;
(7) O Livro dos Espíritos, questão 815;
(8) Parábolas e Ensinos de Jesus, Cairbar Schutel,
págs. 105/106, 13ª Ed. O Clarim;
(9) Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier;
e
(10) O Evangelho de Mateus, cap. 6, v. 21.
(as.) Julio Laurentino de Lima - juliollima@gmail.com
(Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo,
Dez/2007, pág. 596 - Editora O Clarim)
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