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COMO NUMA
ATMOSFERA DE SONHO
Maria João de
Deus
Amanhecia... Afigurou-se-me, então,
alcançar uma trégua a tantos padecimentos. Parecia prestes a dormir, mas,
sob as mesmas impressões de dor e mal-estar, envolvia-me nas influências
do sono, embora sendo presa de indescritíveis pesadelos. Ouvi tudo quanto
se pronunciou ao redor de meu leio e vi a ansiedade de quantos dele se
abeiravam, mas todas essas impressões eu as recebia como se estivesse
mergulhada em mau sonho.
Desejei falar, manifestar vontades e
pensamentos; isso, porém. Era impossível. Contemplei pesarosa a imagem do
Crucificado, que me puseram nas mãos enlanguecidas e quis sinceramente
pensar nele, orar com unção, segundo os meus hábitos. Todavia,
reconhecendo-me cheia de vida, não obstante as dores, pairavam os meus
sentidos como numa esquisita atmosfera de sonho...
Percebi todos os carinhos que dispensaram
ao meu corpo e que me foram igualmente proporcionados em vida; e ouvi as
lamentações de quantos deploravam a minha ausência. Ansiava por
movimentar-me sem que membro algum obedecesse aos meus impulsos, e, outras
vezes, fazia inauditos esforços para despertar-me, fugindo de tão singular
pesadelo. Afigurava-se que me cobriam de flores e sentia a carícia dos
braços dos meus filhos, enlaçando-me com amargurada ternura; e dizia-lhes,
mentalmente, entre lágrimas:
- Meus filhos, eu não morri!... Aqui
estou e sinto-me realmente mais forte para vos proteger e amar. Por que
chorais aumentando a minha angústia?
Mas tinha a boca hirta e os braços gelados
para retribuir aquelas expansões de desvelado carinho! Apenas
possuía a sensação de lágrimas ardentes, que me rolavam sobre as faces
descoloridas, como a estátua viva da amargura e do silêncio.
Livro Cartas de uma Morta - Psicografia Chico Xavier |
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