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A RESTAURAÇÃO
DE PORTUGAL
HUMBERTO DE CAMPOS.
(*)
No primeiro quartel do século XVII, a situação de
Portugal era de profunda decadência. Sob o reinado de Filipe III, de
Espanha, príncipe apático e doente, que entregara a direção de todos os
negócios ao Duque de Lerma, os esplendores das conquistas portugueses haviam
desaparecido.
Aquele povo minúsculo e heróico, cuja coragem acendera nova luz em todos os
departamentos de trabalho do Ocidente, encontrava-se agora reduzido à quase
penúria.
Foi por esse tempo que Henrique de Sagres, o antigo Helil, mensageiro de
Jesus, que levantara as energias portuguesas com a sua escola de navegação,
procurou o Senhor, tocado de compaixão e de angústia, a implorar a bênção da
sua misericórdia para a nação de que se tornara o gênio renovador.
_
Mestre _ diz ele compungidamente _ venho pedir o vosso auxílio paternal para
a terra portuguesa, cujas experiências amargas tocam, agora, ao auge das
penosas provações coletivas. Humilhada e vencida, ela implora a vossa divina
providência, através de minhas palavras, no sentido de lhe ser possível
aproveitar as forças derradeiras, para uma reorganização política e
econômica que a possa esquivar de tão angustiosa situação.
_
Helil _ replicou-lhe Jesus _ sabes que a minha piedade não se reveste de
excessivas exigências. Enviei-te a Portugal com o fim de lhe reerguer as
energias, compensando os seus grandes esforços de povo humilde e laborioso.
Infelizmente, apesar de suas grandes qualidades de coração, os portugueses
não souberam corresponder à nossa expectativa, provocando, eles próprios, a
situação em que se encontram, pela fraqueza com que se entregaram à sinistra
embriaguez da fortuna e da posse. Depois de teres ajudado Vasco da Gama a
franquear o caminho marítimo das Índias, as forças lusas, após receberem os
favores da cidade de Calicut, ali regressam, algum tempo mais tarde, para
bombardeá-la, inundando-a num mar de crueldade e sangue. No Brasil, onde
lançamos os fundamentos da Pátria do Evangelho, introduziram o tráfico de
homens livres, forçando as falanges de Isamael a despender todos os esforços
possíveis para que as ordens divinas não se subvertessem pelas iniqüidades
humanas. Em Lisboa, permitiram a entrada de terrível instituto da
inquisição, que comete no mundo todos os crimes em meu nome, que deveria
ser, para todas as criaturas, um sinônimo de brandura e de amor.
_
É verdade, Senhor _ exclama Helil amargurado _ quando o primeiro português
aprisionou, nas Canárias, alguns pobres africanos, para vende-los como
escravos aos brancos da Europa, ordenei fossem imediatamente repatriados,
enchendo-se-me o coração de amargura após tantos entusiasmos no período dos
descobrimentos, quando eu vos confiava, no Restelo, as lágrimas do meu
reconhecimento e da minha esperança. Mas, a grande pátria que me confiaste,
Senhor, muito tem aprendido no caminho das experiências dolorosas. Nas suas
cidades importantes escasseiam os espíritos de eleição, aptos à tarefa do
governo; as nações ambiciosas se assenhoreiam de todas as suas
possibilidades econômicas; suas riquezas são pilhadas pela pirataria do
século; seu povo se acha esmagado pelos impostos; seus filhos abatidos e
humilhados. Apiedai-vos, meu Jesus, de tanta miséria que nos enche o coração
de infinita amargura! Permiti possamos restaurar-lhe as forças políticas, a
fim de que ela cumpra as vossas determinações sábias e justas, na terra do
Evangelho!
_
Essas experiências dolorosas _ explicou-lhe o Divino Mestre _ dotarão
Portugal de novos sentimentos, acrisolando nele as concepções de brandura e
de fraternidade, a fim e que possa corresponder ao nosso esforço, na
edificação da pátria dos meus ensinamentos. Quais os elementos encarnados
que utilizarás nessa restauração?
_
Senhor, com o vosso apoio e com o vosso amparo, esperamos realizar essa
reorganização buscando para o trono os descendentes de D. Afonso, primeiro
Duque de Bragança, que atualmente detêm a maior fortuna portuguesa e em cuja
Casa vivem mais de oitenta mil vassalos. Quanto ao nosso plano, constará de
uma larga ação dos agrupamentos espirituais sob a minha direção, combinados
com as falanges de Ismael, no sentido de intensificarmos os pensamentos
cristão em Portugal, projetando as mais nobres realizações no Brasil,
disseminando-nos entre os colonizadores, a fim de que as concepções de
fraternidade se intensifiquem, cimentando as bases da pátria das vossas
lições divinas. Nossos apelos se estenderão aos companheiros reencarnados,
que se encontram nas cortes espanholas e nas selvas americanas, para
levantarmos a bandeira de Ismael sobre todas as frontes, como sublime legado
do vosso coração compassivo e misericordioso.
_
Sim, Helel _ retrucou Jesus, bondoso _ teu plano se realizará com a minha
benção, efetuando-se essa ação espiritual conforme a idealizas. Temos, no
entanto, de considerar que os elementos a serem utilizados são os mais
representativos, porém, não constituem os mais necessários. Não acho que a
Casa de Bragança esteja preparada, espiritualmente, para a sublime
realização; todavia, somos obrigados, igualmente, a reconhecer que pesadas
trevas invadem atualmente todas as atividades políticas da Terra e tu te
esforçarás por ampara-la nos grandes deveres que assumirá, neste e nos
próximos séculos. Terás o cuidado de inspira-la, no propósito de se
organizarem as precisas combinações com as outras nacionalidades do mundo,
para que a Pátria do Evangelho não sofra novos choques de raças, além dos
até agora sofridos. Bem sabes que, enquanto os homens não se integrarem no
conhecimento pleno da minha doutrina de amor e de fraternidade, os tratados
comerciais serão os necessários jogos de interesses a equilibrarem as
ambições, em proveito dos setores da verdadeira evolução espiritual.
Auxiliarei os teus empreendimentos com a minha misericórdia, pedindo a Nosso
Pai que se digne de guardar-nos sob o pálio da sua bondade infinita.
Henrique de Sagres organizou as sua falanges e, em 1640, Portugal era
restaurada, subindo ao trono D. João IV, chamado dos seus regalos e prazeres
de Vila Viçosa, para os cuidados do reino.
Ao cabo de um período de lutas ferrenhas, a restauração se consolida na
batalha de Montijo e a grande nação do Ocidente prossegue em seu labor
abençoado por Jesus, na formação da Pátria do Cruzeiro.
Sob a orientação do mundo invisível, Portugal estabelece tratados
comerciais, entre eles, alguns como o de Methuen, que mais tarde se
verificou se ruinoso para a indústria portuguesa, mas colocava o Brasil a
salvo de lutas com o poderio da Inglaterra.
Toda uma ação espiritual se conjuga, harmoniosamente, nessa época, e as
falanges de Ismael e de Helil buscam, no silêncio e na obscuridade, o grande
coração de Antônio Vieira, que se constituiu poderoso organismo mediúnico
para as revelações de suas verdades.
Vieira toma posição ascendente na corte de D. João IV e, daí a algum tempo,
contra a vontade do soberano, que desejava conservar a sua palavra de
sabedoria e de amor junto do seu coração, o grande missionário embarca para
o Brasil.
Sua voz, saturada de suave magnetismo, ilumina todas as consciências,
esclarecendo todos os corações. Em momento de sagrada eloqüência, exclama
ele: _ No Evangelho de Jesus, ofereceu o demônio todos os seus reinos pela
posse de uma alma; mas, no Maranhão, não é necessário ao demônio tanta
bolsa, para compra-las todas. Basta acenar o diabo com um tijupar de pindoba
e dois tapuias para que seja adorado com ambos os joelhos.
E
não foram poucos os senhores que, tocados dessas claridades divinas, cuja
origem profunda estava nas lições de Ismael e de seus abnegados mensageiros,
correram ás suas propriedades, envergonhados do crime de manter escravos os
seus irmãos, e devolveram para sempre, aos pobres cativos a liberdade.
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(*) Espírito.
LIVRO: “BRASIL, CORAÇÃO DO
MUNDO PÁTRIA DO EVANGELHO”
ESPÍRITO: Humberto de
Campos.
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