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A INVASÃO
HOLANDESA
HUMBERTO DE CAMPOS.
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Se à raça negra eram impostas as mais dolorosas torturas, nos primórdios da
organização do Brasil, não menores sacrifícios se exigiam dos indígenas,
acostumados à amplitude da terra, propriedade deles.
As “estradas” pelo sertão, com o fito de escravizar os selvagens indefesos,
se realizavam, naquele tempo, em todos os recantos.
Tabas prósperas eram incendiadas de surpresa, no silêncio da noite. São
famosas e comovedoras as descrições que desses fatos guardam os documentos
antigos. Somente de uma vez, uma caravana de portugueses capturou mais de
sete mil homens válidos, mulheres, velhos e crianças. E quando os mamelucos
guiadores não convenciam os naturais de que deviam acompanha-los às cidades
mais próximas, para que as caçadas humanas se verificassem com pleno êxito,
as cenas de selvajaria nodoavam a floresta virgem, enchendo de pavor os
caminhos atapetados de cadáveres e de sangue coagulado. Como represália a
tantas crueldades, os Tamoios nunca se harmonizaram com os portugueses.
Desde o princípio da ação destes, foram seus declarados inimigos.
No seio dessas lutas devastadoras, em que venciam, a maior parte das vezes,
as criminosas astúcias dos colonos, eram os padres piedosos os que mais
sofriam, experimentando a angústia de se verem desprezados pelos seus
próprios companheiros da raça branca, nos sertões ínvios e hostis. A alma
simples dos naturais se mostrava maleável aos seus ensinamentos. Aos seus
apelos, aproximavam-se dos núcleos de civilização. Aldeavam-se para uma vida
ordeira que os colonizadores destruíam com as suas taras infames e
seculares. Anchieta e quase todos os outros missionários das selvas
brasileiras sustentaram demoradas lutas, defendendo os indígenas fraternos.
A verdade, porém, é que, embora esfacelassem os púlpitos na pregação da
piedade cristã, suas vozes se perdiam na imensidade do céu, sem que seus
irmãos da terra as escutassem com a idéia generosa de lhes praticar os
carinhosos ensinos. Os primeiros brancos que aportaram à América do Sul, na
sua generalidade, não tinham em conta a existência da lei nas extensas
florestas do Novo Mundo.
Os portugueses prosseguiam, incessantemente, na faina ingrata de “descer os
índios”.
Regressando ao Além, os primeiros missionários da caravana luminosa de
Ismael pedem a sua colaboração misericordiosa, para que semelhante situação
se modifique. Mas, o grande apóstolo de Jesus explica:
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Irmãos, não podemos tolherá a liberdade dos nossos semelhantes. Não sou
indiferente a esses movimentos hediondos, nos quais os índios, simples e
bons, são capturados para os duros trabalhos do cativeiro. Esperemos no
Senhor, cujo coração misericordioso e augusto agasalhará todos aqueles que
se encontram famintos de justiça. Contudo, poderemos, com os nossos
esforços, auxiliar os encarnados na compreensão das leis fraternas,
enviando-lhes o coração de modo indireto, quanto aos seus divinos deveres.
Infelizmente, não encontramos, na atualidade do planeta, outro povo que
substitua os portugueses na grande obra de edificação da Pátria do
Evangelho. Todas as demais nações, como o próprio Portugal, se encontram
presas da cobiça, da inveja e da ambição. Os vícios de todas as identificam
perfeitamente umas com as outras, e no povo lusitano temos de considerar a
austera honradez aliada a grandes qualidades de valor e de sentimento, que o
habilitam, conforme a vontade do Senhor, a povoar os vastos latifúndios que
constituirão mais tarde o pouso abençoado da lição de Jesus. Colonizadores
desalmados estão em todos os países dos tempos modernos, que não reconhecem
outro direito a não ser o da força desumana e impiedosa. Recorrendo, pois,
às possibilidades ao nosso alcance, buscaremos, na Europa, um príncipe
liberal, trabalhador e justo, que não esteja subordinado à política romana,
a fim de caracterizar a nossa ação indireta. Traremos a sua personalidade de
administrador para a parte mais flageladas da nova pátria, a fim de que seus
exemplos possam servir aos que se encontram na direção das atividades
sociais e políticas da colônia e beneficiem, de maneira gera, a não inteira.
Ele virá na qualidade de invasor, porquanto não encontramos outro recursos
para a adoção de providências dessa natureza; mas, a sua permanência no
Brasil será curta e eventual, apenas durante os anos necessários a que suas
lições sejam prodigalizadas aos administradores da nova terra.
Preliminarmente, porém, devemos considerar que os seus companheiros não
serão melhores que os portugueses, no sentido da educação espiritual. A
época é de profundo atraso de quase todos os indivíduos e é para expelir
essas trevas da consciência do mundo que nos teremos de sacrificar nas
atmosferas próximas da Terra, trabalhando pela vitória do Senhor em todos os
corações.
Os fatos se verificaram, consoante as afirmações do iluminado preposto de
Jesus.
Em 1624, a pretexto de sua guerra com a Espanha, os holandeses tomavam de
assalto a Bahia, sob o comando de Johan Van Dorth.
Importa notar que as cenas dolorosas e lastimáveis, decorrentes da invasão,
não foram organizadas pelas abnegadas falanges do mundo invisível. As causas
profundas desses fatos residiam no estado evolutivo da época. Os morticínios
nas praças incendiadas e destruídas se verificavam, todos os dias, entre
inevitáveis atritos das raças chamadas a povoar aqueles recantos
desconhecidos.
Em 1637, entrava em Pernambuco o general holandês João Maurício, Príncipe de
Nassau. Inumeráveis benefícios e imensos frutos produziu a sua administração
no Norte do Brasil, que foi sempre a zona mais sacrificada do país.
O
Recife se ostenta diante da Europa, como uma das mais belas cidades da
América do Sul. Olinda é reedificada. Uma assembléia de mecânicos, de
pintores, de arquitetos e artistas acompanha o Príncipe de Nassau, enchendo
a sua cidade de singulares esplendores. Mas, o espírito construtivo do
administrador holandês não se cristaliza nas expressões materiais da sua
cidade predileta. O amor e o respeito que vota à liberdade fazem-no venerado
de todos os brasileiros e portugueses de Pernambuco, cujas terras, naquela
época, desciam até à região do Paracatu, em Minas Gerais. Todos os escravos
que procuram abrigo à sombra da sua bandeira de tolerância ele os declara
livres para sempre, e os índios encontram, no seu coração, o apoio de um
nobre e leal amigo. Maurício de Nassau estabelece a liberdade religiosa e
administra Pernambuco, inaugurando aí a primeira liberal-democracia nas
terras americanas, tais a justiça e a liberdade com que se houve sem seu
governo.
Os Albuquerques e outros elementos em evidência não Norte muito aprenderam
com ele para as suas atividades do porvir.
A
realidade, todavia, é que a lição de Nassau fora preparada no plano
invisível, para que os colonizadores da terra brasileira recebessem um novo
clarão no seu caminho rotineiro e obscuro.
Em socorro da nossa afirmativa, podemos invocar o testemunho da própria
história, porque, terminado o tempo necessário à sua administração no
Brasil, o grande Príncipe holandês regressava à pátria, por imposição dos
espíritos avarentos, que militavam, nessa época da Companhia das Índias, na
política holandesa, sem que encontrassem substituto para a sua obra na
América. Apesar de suas frotas extraordinárias e poderosas, a Holanda
retirou-se do Brasil sem a intervenção de Portugal, bastando, para isso, o
concurso dos habitantes da colônia. Quando a questão ficou definitivamente
resolvida na Corte de Haia, em 1661, os holandeses, embora a sua soberania
marítima perdurasse até antão, em troca dos seus imensos trabalhos no Norte
do Brasil e dos milhões de florins aí abandonados, apenas receberam, a
título de indenização, a importância de cinco milhões de cruzados.
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(*) Espírito.
LIVRO: “BRASIL, CORAÇÃO DO
MUNDO PÁTRIA DO EVANGELHO”
ESPÍRITO: Humberto de
Campos.
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