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OS NEGROS
NO BRASIL
HUMBERTO DE CAMPOS.
(*)
Sob o domínio espanhol, Portugal sofria todas as conseqüências da sua
desídia e imprevidência. A Espanha guardava o cetro de um império
resplandecente e maravilhoso. Suas frotas poderosas cobriam as águas de
todos os mares, carregando os tesouros do México e do Peru, do Brasil e das
Índias, os quais faziam afluir para Madrid a mais elevada percentagem de
ouro do mundo inteiro.
Até hoje, comenta-se com espírito a célebre frase de Francisco I, exprimindo
o seu desejo de conhecer a disposição testamentária de Adão, que dividira o
mundo entre espanhóis e portugueses e o deserdara.
A
esse tempo, a terra do Evangelho não é mais conhecida pelo nome suave de
Santa Cruz. À força das expressões comuns, dos negociantes que vinham
buscar as suas fartas provisões de pau-brasil, seu nome se prende agora ao
privilégio das suas madeiras. Os missionários da colônia protestaram contra
a inovação adotada; mas, as falanges do Infinito sancionaram a novidade
imposta pelo espírito geral, considerando as terríveis crueldades cometidas
na Baía de Guanabara, em nome do mais caridoso dos símbolos. A sanção de
Ismael à escolha da nova expressão objetivava resguardar a pátria do
Cruzeiro dos perigos da Inquisição, que na Europa fomentava os mais
hediondos movimentos em nome do Senhor.
A
situação, no Brasil, sob todos os pontos de vista, como a da metrópole
portuguesa, era dolorosa e cruel, embora governado por funcionário de
Lisboa, segundo as combinações estipuladas na Península.
A
raça aborígine e a raça negra sofriam toda sorte de humilhações e vexames.
Os índios procuravam o Norte, em busca dos seus amigos franceses, que,
expulsos do Rio por Mem de Sá, concentravam suas atividades no Maranhão,
onde pretendiam fundar a França Equinocial, preocupado seriamente as
autoridades da colônia. A situação gera era a mais deplorável. Ismael e seus
abnegados colaboradores sofrem intensamente em seus trabalhos árduos e quase
improfícuos, no sentido de organizar o Instituto sagrado da família nas
florestas inóspitas, onde os brancos não dispensavam consideração às leis
humanas ou divinas, na condição de superioridade que se atribuíam.
Aos céus ascendem os aflitivos apelos dos obreiros invisíveis.
_
Senhor! _ exclama Ismael nas suas preocupações _ estendei até nós o manto da
vossa infinita misericórdia. Enviai-nos o socorro das vossas bênçãos
divinas, para que as nossas vozes sejam ouvidas pelos espíritos que aqui
procuram edificar uma pátria nova. Vêem-se os infortúnios das raças
flageladas e sofredoras.
Uma voz suave e meiga lhe responde do Infinito:
_
Ismael, nas tuas obrigações e trabalhos, considera que a dor é a eterna
lapidária de todos os espíritos e que o Nosso Pai não concede aos filhos
fardo superior às suas forças, nas lutas evolutivas. Abriga aí, na sagrada
extensão dos territórios do país do Evangelho, todos os infortunados e todos
os infelizes. No meu coração ecoam as súplicas dolorosas de todos os seres
sofredores, que se agrupam nas regiões inferiores dos espaços próximos da
Terra. Agasalha-os no solo bendito que recebe as irradiações do símbolo
estrelado, alimentando-os com o pão substancioso dos sofrimentos depuradores
e das lágrimas que lavam todas as manchas da alma. Leva a essas
coletividades espirituais, sinceramente arrependidas do seu passado obscuro
e delituoso, a tua bandeira de paz e de esperança; ensina-lhes a ler os
preceitos da minha doutrina, nos códigos dourados do sofrimento.
Ismael sente que luzes compassivas e misericordiosas lhe visitam o coração e
parte com os seus companheiros, em busca dos planos da erraticidade mais
próximas da Terra. Aí se encontram antigos batalhadores das cruzadas,
senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e
revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das usas consciências
polutas. O emissário do Senhor desdobra nessas grutas do sofrimento sua
bandeira de luz, como uma estrela d’alva, assinalando o fim de profunda
noite.
_
Irmãos _ exorta ele comovido _ até ao coração do Divino Mestre chegaram os
vossos apelos de socorro espiritual. Da sua esfera de brandos arrebóis
cristalinos, ordena a sua misericórdia que as vossas lágrimas sejam
enxugadas para sempre. Um ensejo novo de trabalho se apresenta para a
redenção das vossas almas, desviadas nos desfiladeiros do remorso e do
crime. Há uma terra nova, onde Jesus implantará o seu Evangelho de caridade,
de perdão e de amor indefiníveis. Nos séculos futuros, essa pátria generosa
será a terra da promissão para todos os infelizes. Dos seus celeiros
inesgotáveis sairá o pão de luz para todas as almas; mas, preciso se faz nos
voltemos para o seu solo virgem e exuberante a construir-lhe as bases com os
nossos sacrifícios e devotamentos. Ali encontrareis, nos carreiros
aspérrimos da dor que depura e santifica, a porta estreita para o céu de que
nos fala Jesus nas suas lições divinas. Aprendereis, no livro dos
padecimentos salvadores, a gravar na consciência os sagrados parágrafos da
virtude e do amor, na epopéia da luz da solidariedade, na expiação e no
sofrimento. Sabei que todas as aquisições da filosofia e da ciência
terrestres são flores sem perfume, ou luzes sem calor e sem vida, quando não
se tocam das claridades do sentimento. Aqueles de vós que desejarem o
supremo cominho venham para nossa oficina de amor, de humildade e redenção.
E
aí, nas estradas escuras e tristes da angústia espiritual, viu-se, então,
que falanges imensas, ansiosas e extasiadas, avançavam com fervorosa coragem
para as clareiras abertas naquela mansão de dor e de sombras. Todos queriam,
no seu testemunho de agradecimento, beijar a bandeira sacrossanta do
mensageiro divino. O seu emblema _ Deus, Cristo e Caridade _ refulgia agora
nas penumbras, iluminando todas as coisas e clarificando todos os caminhos.
As esperanças reunidas, daqueles seres infortunados e sofredores, faziam a
vibração de luz que então aclarava todas as sendas e abriam todos os
entendimentos para a compreensão das finalidades, das determinações sublimes
do Alto.
Essas entidades evolvidas pela ciência, mas pobres de humildade e de amor,
ouviram os apelos de Ismael e vieram construir as bases da terra do
Cruzeiro. Foram elas que abriram os caminhos da terra virgem, sustentando
nos ombros feridos o peso de todos os trabalhos. Nesse filão de claridades
interiores, buscaram as pérolas da humildade e do sentimento com que se
apresentaram mais tarde a Jesus, no dia, que lhes raiou, de redenção e de
glória.
Foi por isso que os negros do Brasil se incorporaram à raça nova,
constituindo um dos baluates da nacionalidade, em todos os tempos. Com as
suas abnegações santificantes e os seus prantos abençoados, fizeram brotar
as alvoradas do trabalho, depois das noites primitivas. Na Pátria do
Evangelho têm eles sido estadistas, médicos, artistas, poetas e escritores,
representando as personalidades mais eminentes. Em nenhuma outra parte do
planeta alcançaram, ainda, a elevada e justa posição que lhes compete junto
das outras raças do orbe, como acontece no Brasil, onde vivem nos ambientes
da mais pura fraternidade. É que o Senhor lhes assinalou o papel na formação
da terra do Evangelho e foi por esse motivo que eles deram, desde o
princípio de sua localização no país, os mais extraordinários exemplos de
sacrifício à raça branca. Todos os grandes sentimentos que nobilitam as
almas humanas eles os demonstraram e foi ainda o coração deles, dedicado ao
ideal da solidariedade humana, que ensinou aos europeus a lição do trabalho
e da obediência, na comuna fraterna dos Palmares, onde não havia nem ricos
nem pobres e onde resistiram com o seu esforço e a sua perseverança, por
mais de setenta anos, escrevendo, com a morte pela liberdade, o mais belo
poema dos seus martírios nas terras americanas.
Por toda parte, no país, há um ensinamento caricioso do seu resignado
heroísmo, e foi por essa razão que a terra brasileira soube reconhecer-lhes
as abnegações santificadas, incorporando-os definitivamente à grande
família, de cuja direção muitas vezes participam, sem jamais se esquecer o
Brasil de que os seus maiores filhos se criaram para a grandeza da pátria,
no generoso seio africano.
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(*) Espírito.
LIVRO: “BRASIL, CORAÇÃO DO
MUNDO PÁTRIA DO EVANGELHO”
ESPÍRITO: Humberto de
Campos.
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