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NO LIMIAR
DA INDEPENDÊNCIa
HUMBERTO DE CAMPOS.
(*)
Novamente em Portugal, D. João VI se deixa levar ao
sabor das circunstâncias.
Lisboa vivia sob grande terror, devido aos julgamentos sumários que se
haviam verificado contra todos os implicados no movimento que visava depor a
ditadura de Beresford. Inúmeros fuzilamentos se executavam, sem que as
sentenças de morte fossem bafejadas pelas sanção régia, constituindo
verdadeiros assassínios, com os mais hediondos requintes de crueldades.
O
soberano, que trazia constantemente na memória a figura de Luís XVI colada à
guilhotina, sujeita-se a todas as imposições dos revolucionários. Jura a
Constituição portuguesa, sem o assentimento da Rainha D. Carlota, que é
exilada para a Quinta do Ramalhão, onde ficará com o filho D. Miguel,
urdindo novos planos inspirados pela sua desmesurada ambição.
Os portugueses influentes consideram o perigo da independência brasileira. A
mais preciosa gema que se engastara à coroa da Casa de Bragança estava
prestes a desprender-se, para sempre. Todas as providências contrárias à
pretensão dos brasileiros são adotadas imediatamente. Um período agitado
surge na política da época, entre os pólos antagônicos do absolutismo e da
democracia. As cortes portuguesas, com 130 deputados, impunham as sua
vontade despótica aos 72 deputados brasileiros, que assistiam, com
verdadeiro heroísmo, ao desenvolvimento dos projetos de franca hostilidade à
direção do príncipe regente do Brasil, que, aos poucos, se ia inflamando ao
calor das idéias liberais. Aqueles poucos deputados apresentam um projeto
criando na América um congresso independente das câmaras organizadas na
Europa, projeto que é recebido pelos portugueses como um insulto à dignidade
nacional. Declara um dos parlamentares que D. Pedro deveria abandonar o Paço
de São Cristóvão, onde respirava a peçonha da bajulação dos inimigos do
regime, e voltar a Lisboa, a fim de aprimorar a sua educação em viagens pela
Europa. As agitações se intensificam num crescendo espantoso. Alguns
deputados brasileiros, como Araújo Lima e Antônio Carlos, agredidos pela
população, se vêem coagidos a emigrar para a Inglaterra.
A
caravana de Ismael desvela-se pelo cultivo das idéias liberais no coração da
pátria e, através de processos indiretos, procura espalhar por todos os
setores da terra do Cruzeiro as sementes da fraternidade e do amor.
É
então que a personalidade espiritual daquele que fora o Tiradentes procura o
mensageiro de Jesus, solicitando-lhe o conselho esclarecido, quanto à
solução do problema da independência:
_
Anjo amigo _ inquireele _ não será agora o instante decisivo para nossa
atuação? Por toda parte há uma exaltação patriótica nos ânimos. As
possibilidades está dispensas, mas poderíamos reunir todas as forças, para o
fim de derrubar as últimas muralhas que se opõem à liberdade da Pátria do
Evangelho.
_
Meu irmão, pondera Ismael sabiamente _ o momento da emancipação brasileira
não tardará no horizonte de nossa atividade; todavia, precisamos articular
todos os movimentos dentro da ordem construtiva, a fim de que não se percam
as finalidades do nosso trabalho. O problema da liberdade é sempre uma
questão delicada para todas as criaturas, porque todos os direitos
adquiridos se fazem acompanhar de uma série de obrigações que lhes são
correlatas. Cumpre considerar que toda elevação requer a plena consciência
do dever a cumprir; daí a delicadeza da nossa missão, no sentido de repartir
as responsabilidades. Precisamos difundir a educação individual e coletiva,
dentro das nossas possibilidades, formando os espíritos antes das obras. No
problema em causa, temos de aproveitar a autoridade de um príncipe do mundo,
para levar a efeito a separação das duas pátrias com o mínimo de lutas, sem
manchar a nossa bandeira de redenção e de paz com o pungente espetáculo das
lutas fratricidas. Cerquemos o coração desse príncipe das claridades
fraternas da nossa assistência espiritual. Povoemos as suas noites de sonhos
de amor à liberdade, desenvolvendo-lhe no espírito as noções da
solidariedade humana. Individualmente considerando, na representa ele o tipo
ideal, necessário à realidade dos nossos projetos; voluntarioso e doente,
não tem, para nós outros, um cérebro receptivo que facilite o nosso
trabalho; mas, ele encarna o princípio da autoridade e temos de mobilizar
todos os elementos ao nosso alcance, para evitar os desvarios criminosos de
uma guerra civil. Trabalhemos mais um pouco, junto ao seu coração
irrequieto, procurando, simultaneamente, abrir caminho novo à educação
geral. Em breves dias, poderemos concentrar as forças dispersas, para a
proclamação da independência e, após semelhante realização, enviaremos nosso
apelo ao coração misericordioso de Jesus, implorando das suas bênçãos novo
rumo para nossa tarefa, a fim de que a liberdade, bem aproveitada e bem
dirigida, não constitua elemento de destruição na pátria dos seus sublimes
ensinamentos.
As sábias ponderações de Ismael foram rigorosamente observadas por seus
abnegados companheiros de ação espiritual.
Os emissários invisíveis buscam, piedosamente, distribuir os elementos de
paz e de concórdia geral, harmonizando todos os pensamentos para a
edificação dos monumentos da liberdade.
As agitações, porém, se avolumam em movimentos espantosos, empolgando a
nação inteira. Debalde Portugal procurava reprimir a idéia da independência,
que se firmara em todos os corações.
Assim, enquanto os brasileiros discutiam e conspiravam secretamente, a frota
do Vice-Almirante Francisco Maximiano de Sousa, sob o comando do Coronel
Antônio Joaquim Rosado, com 1.200 homens, partia de Lisboa para o Rio de
Janeiro, com ordem terminante de repatriar o Príncipe D. Pedro.
(*) Espírito.
LIVRO: “BRASIL, CORAÇÃO DO
MUNDO PÁTRIA DO EVANGELHO”
ESPÍRITO: Humberto de
Campos.
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