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D. JOÃO VI NO
BRASIL
HUMBERTO DE CAMPOS.
(*)
Enquanto as falanges espirituais de Henrique de
Sagres se reuniam em Portugal, revigorando as forças lusitanas para a escola
de energia, que foi a guerra peninsular, o exército de Ismael voltava-se
para o Brasil, a fim de inspirar o primeiro soberano do Velho Mundo que
pisava as terras americanas.
A
esses esclarecidos agrupamentos do mundo invisível, aliava-se agora a
personalidade do Tiradentes, que se transformara em gênio inspirador de
todos os brasileiros. Ismael reúne os seus colaboradores e fala assim aos
devotados mensageiros:
_
Amigos, um novo período surgirá agora para as nossas atividades na terra do
Evangelho. Ao sopro das inspirações divinas, reformar-se-á toda a vida
política da pátria onde edificaremos, mais tarde, a obra de Jesus.
Procuremos inspirar a quantos se conservam à frente dos interesses do povo,
iluminado-lhes o caminho com as idéias generosas e fraternas da liberdade.
Sobre os nossos esforços há de pairar a direção do Senhor, que se desvela
amorosamente pelo cultivo da árvore sagrada dos ensinamentos, transplantada
da Palestina para o coração do Brasil.
Aquela caravana de abnegados espalha-se então, por todos os recantos da
pátria, distribuindo com os seus esforços fraternais as sementes de uma vida
nova.
A
22 de janeiro de 1808, aporta na Bahia a maior parte das embarcações que
constituíam a frota real. O povo baiano recebe o príncipe-regente e sua
comitiva com as mais carinhosas demonstrações de amizade. Clarins e
bandeiras anunciam, sob um sol quente e amigo, a presença da família real
nas terras do Cruzeiro. A cidade do Salvador julga-se de novo nos seus
grandes dias, contando com a honra de ser outra vez a capital da colônia;
mas, os navios descem ao longo da costa para o Rio Janeiro.
Logo, porém, ao seu primeiro contacto com o Brasil, sob o influxo das
falanges do Infinito, o príncipe generoso sente-se tocado da mais alta
simpatia para com a Pátria do Evangelho.
Ainda na Bahia, graças ás suas ralações com o Conde de Aguiar, ministro de
D. João VI, José da Silva Lisboa, mais tarde Visconde de Cairu, consegue do
soberano a abertura de todos os portos da colônia ao comércio universal. E
note-se que semelhante providência, a base primordial da autonomia
brasileira, teve seus antecedentes, indiscutivelmente, na atuação das forças
espirituais que presidiam aos movimentos iniciais da emancipação, porque, na
convenção secreta de Londres, em 22 de outubro de 1807, um dos pontos
essenciais que deveriam ser observados, em troca da proteção de Jorge III à
Casa de Bragança, no sentido de sua fuga para a colônia distante, era o da
abertura dos portos do Brasil à livre concorrência da Inglaterra,
reservando-se tal direito somente aos interesses britânicos. O soberano e
sue ministros conheciam essas estipulações, através de Lorde Strangford;
mas, com o auxílio das influências salutares do plano invisível,
reconsideraram a tempo o absurdo de semelhantes exigências e cuidaram de
realizar as primeiras aspirações dos patriotas brasileiros.
A
maravilha dos céus americanos deslumbra os olhos de D. João, que se
entusiasma com a beleza natural da paisagem magnífica.
Acompanhado de numeroso séqüito de fidalgos, onde se destacavam o Visconde
de Anadia, elegante da época, inimigo implacável de todas as feições
indígenas da colônia, o Marquês de Belas, o Marquês de Ângela, o Duque de
Cadaval e toda uma comitiva enorme de vassalos e nobres, de guardas e
criados, o soberano aportou ao Rio de Janeiro, num ambiente de geral
alegria.
Nos seus novos paços, sentia-se o rei confortado e satisfeito com a
magnificência do panorama e com a fartura da terra. Apenas D. Carlota
Joaquina, com a sua educação deficiente, a sua megalomania e apego aos
prazeres requintados da época, não se conformava com a situação, protestando
contra todos os elementos, demonstrativos aridez de espírito e lamentável
agressividade.
As caravanas do infinito não descansaram junto das autoridades supremas da
política administrativa. Todas as possibilidades foram aproveitadas pela sua
operosidade infatigável. A 1.º de abril de 1808, levantava-se a proibição
que incidia sobre as indústrias nacionais, que foram declaradas livres, o
que facilitou a colaboração dos estrangeiros estabelecidos nas costas
marítimas da Pátria do Cruzeiro, surgindo um novo período trabalho
construtivo do país, prestes a celebrar sua núpcias com a liberdade.
O
Rio de janeiro, sob a direção do bondoso príncipe que, debaixo das
influências poderosas do Alto, adotara um regime muito mais liberal do que
as formas de governo existentes em Lisboa, enche-se de obras notáveis.
Grandes instituições se fundam na cidade da mais maravilhosa baía do mundo.
Surgem a Escola de Medicina, o Real Teatro São João, o Banco do Brasil;
organizam-se os primórdios da Escola de Belas Artes, cria-se a Academia de
Marinha, o Conselho Militar, a Biblioteca Real; desenha-se o Jardim
Botânico, como novo encanto da cidade, e, sobretudo, inicia-se, com a
Imprensa Régia, a vida do jornalismo na Terra de Santa Cruz.
Entidades benevolentes e sábias, sob a direção de Ismael, espalham
claridades novas em todos os espíritos e, sob os seus generosos e
imponderáveis impulsos, as grandes realizações do progresso brasileiro se
avolumar por toda parte, nas mais elevadas demonstrações evolutivas.
O
príncipe, contudo, não soube manter-se constantemente dentro das linhas de
sua autoridade. Com as suas liberalidades na América, criava-se em derredor
da sua corte toda uma sociedade de parasitas e de inúteis. Os reinóis
abastados do Rio de Janeiro e das outras grandes cidades coloniais receberam
títulos e condecorações de toda natureza. As cartas honoríficas eram
expedidas quase que diariamente. Por toda parte, havia comendadores da Ordem
do Cristo e cavaleiros de São Tiago dando lugar a um grande menosprezo pelas
instituições. Os nobres da época eram os novos ricos do mundo moderno.
Conquistados os títulos, sentiam-se no direito de viver colados ao orçamento
da despesa, apodrecendo longe do trabalho. Só os gastos da despesa da corte,
dos quais vivia a multidão dos criados, no Rio de Janeiro, ao tempo de D.
João VI, se aproximavam da respeitável importância de mais de quinze mil
contos de réis! O alojamento dos fidalgos e de suas famílias exigiu, por
vezes a fio, as mais enérgicas providências da autoridade, no capítulo das
expropriações. A chamada lei das aposentadorias a cederem suas casas de
residência aos favoritos e aos fâmulos reais. Bastava que qualquer fidalgote
desejasse este ou aquele prédio, para que o Juiz Aposentador efetuasse a
necessária intimação, a fim de que fosse imediatamente desocupado. Ao
oficial de justiça, incumbido desse trabalho, bastava escrever na porta de
entrada as letras “P. R.”, que se subentendiam por “Príncipe Regente”,
inscrição que a malícia carioca traduzia como significado _ “Ponha-se na
rua”.
Moreira de Azevedo conta em sua páginas que Agostinho Petra Bittencourt era
um dos juízes aposentados ao tempo de D. João VI, quando lhe apareceu um
fidalgo da corte, exigindo pela segunda vez uma residência confotável,
apesar de já se encontrar muito bem instalado. Decorridos alguns dias, o
mesmo homem requer a mobília e, daí a algum tempo, solicita escravos.
Recebendo a terceira solicitação, o juiz, indignado em face dos excessos da
corte do Rio, exclama para a esposa, gritando para uns dos apartamentos da
casa:
_
Prepare-se, D. Joaquina, porque por pouco tempo poderemos estar juntos.
E, indicando à mulher, que viera correndo atender ao chamado, o fidalgo que
ali esperava a decisão, concluiu com ironia:
_
Este senhor já por duas vezes exigiu casa; depois pediu-me mobília e agora
vem pedir criados. Dentro em breve, desejará também uma mulher e, como não
tenho outra senão a senhora, serei forçado a entrega-la.
Todavia, a despeito de todos os absurdos e de todos os dispêndios, que
seriam de muito excedidos nos odiosos processos revolucionários, coso o país
fosse obrigado a exigir pelas armas a sua emancipação, a corte de D. João Vi
ai prestar ao Brasil os mais inestimáveis serviços, no capítulo de sua
autonomia e de sua liberdade, sem os abusos criminosos das lutas
fratricidas.
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(*) Espírito.
LIVRO: “BRASIL, CORAÇÃO DO
MUNDO PÁTRIA DO EVANGELHO”
ESPÍRITO: Humberto de
Campos.
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