|
|
AS BANDEIRAS
HUMBERTO DE CAMPOS.
(*)
No desdobramento da ação espiritual que deveria
restaurar a pátria portuguesa, Ismael congregou os espíritos que chegavam
aos espaços depois do primeiro contacto com a vida de Piratininga, a fim de
elaborar novos projetos de trabalho naquele setor da Pátria do Evangelho.
Almas decididas e heróicas, postas ali para construção da grande obra,
apesar dos sues característicos de bondade e de energia, necessitavam
regressar à luta terrestre, em seu próprio benefício.
O
mensageiro divino as reuniu em grandes círculos, de onde lhe ouviram a
palavra amiga e esclarecedora.
_
Meus irmãos _ disse ele _ regressareis dentro de breves dias aos núcleos de
trabalho estabelecidos no planalto piratiningano. Prosseguireis atuando no
mesmo campo de labor e liberdade com que caracterizastes a primeiras
iniciativas aí desenvolvidas. Agora, levareis mais longe e vossa coragem e
o vosso heroísmo. Penetrareis o coração da terra do Cruzeiro, rasgando as
sombras de suas florestas imensuráveis. Com a vossa dedicação, novas
atividades serão descobertas e novas possibilidades hão de felicitar a
existência dos colonizadores do país, onde nos desvelaremos pela conservação
da bandeira de Jesus, desfraldada lá sobre todas as frontes e sobre todos
os corações. Até hoje, tem-se multiplicado as tristes caçadas humanas em que
os índios misérrimos são colhidos de surpresa, na sua simplicidade, para os
penosos trabalhos do cativeiro; desvendareis, agora as fontes de riqueza dos
vastos latifúndios do Brasil, interessando a colonização e fazendo
desabrochar com mais intensidade os núcleos valorosos desse movimento de
intensificação dos órgãos de progresso da pátria e do seu povo. Muitos de
vós conhecereis a penúria e o sofrimento; sacrificareis a fortuna e os
afetos mais santos da família, para construirdes a base do porvir com as
lágrimas abençoadas dos vossos martírios e das vossas renúncias exemplares.
Vossa tarefa será rasgar as selvas remotas, patenteando o ouro depositado no
seio da terra generosa.
Houve um interregno na sua alocução.
Ali se encontravam as entidades que seriam, mais tarde, entre muitos outros,
Antônio Rodrigues Arzão, Marcos de Azeredo, Bartolomeu Bueno e Fernão Dias
Paes. Este último, quebrando o silêncio da grande assembléia, exclamou,
provocando geral interesse:
_
Anjo bom, que faremos com o outro da terra, se o no mundo ele é a causa
sinistra de todas as lutas e o demônio de todas as ambições? Aqui, na vida
espiritual, compreendemos semelhantes realidades; mas, no orbe das sombras,
a nossa consciência mergulha nas mais aflitivas perturbações e bem sabeis
que a água mais pura, misturando-se com a terra, se reduz quase sempre a um
punhado de lama.
Ismael não se demorou para esclarecer:
_
A Terra é a escola abençoada, onde aplicamos todos os elevados conhecimentos
adquiridos no Infinito. É nesse vasto campo experimental que devemos
aprender a ciência do bem e aliá-la à sua divina prática. Nos nevoeiros a
carne, todas as trevas serão desfeitas pelos nossos próprios esforços
individuais, dentro delas, o nosso espírito andará esquecido de seu passado
obscuro, para que todas as nossas iniciativas se valorizem. Precisamos
entender essas brandas disposições das leis divinas, para que o determinismo
do amor e da fraternidade constitua a lei da existência de todas as coisas e
de todos os seres. Quanto ao ouro escondido no seio da terra exuberante, sua
existência não significa senão um estímulo à ilusão dos homens, ainda muito
distantes da concepção da verdadeira fraternidade, a fim de que as criaturas
possam buscar os tesouros espirituais pelo trabalho fecundante da evolução
do mundo. Procurando a grandeza ilusória do ouro, edificareis as cidades
novas, fomentareis a pecuária e a agricultura, desbravando caminhos
inóspitos em favor de outras almas. Um mundo novo se erguerá sobre os vossos
ombros dilacerados nas disciplinas austeras, ao sol causticante das
caminhadas penosas; mas, o futuro se voltará para os vossos esforços, com as
suas bênçãos de agradecimento.
Dirigindo-se mais particularmente a Fernão Dias, Ismael sentenciou:
_
Serás o chefe da expedição mais difícil de todas; porém, da tua coragem há
de surgir um caminho novo para todos os espíritos. Muitas vezes verás
compelido a exercer a mais rigorosa justiça, despendendo todas as tuas
reservas de energia; mas, é preciso não esqueças a misericórdia divina, sem
exorbitar das funções que te forem confiadas, entregando a Jesus os teus
trabalhos de cada dia.
O
grande bandeirante recebeu submisso a determinação do divino emissário. Daí
a alguns anos, nos dois últimos quartéis do século XVII, as bandeiras
paulistas se espalharam por todas as regiões da terra virgem. Através das
selvas bravias, marcham, como se o fizessem ao longo e largos e
desconhecidos oceanos. As noites estreladas lhes servem de orientação e de
bússola. A cruz do Cristo vai, como um símbolo, à frente de todos os
expedicionários das novas tentativas de conquista. De Sorocaba, sobem por
Goiás até ao Amazonas longínquo; e de Taubaté demandam a Paraíba do Norte.
Em 1672, Fernão Dias Paes organiza, com todos os elementos de sua fortuna, a
mais célebre das expedições saídas de São Paulo. Caçando as esmeraldas, que
constituíam objeto das lendas de muitos aventureiros, visita todas as
regiões auríferas de Minas Gerais. Rebeliões e discórdias são dominadas pela
sua energia constante e severa. Para fortalecer a disciplina, o bandeirante
audacioso manda enforcar o próprio filho, que participara da rebeldia geral,
como escarmento aos companheiros, próximo à povoação do Sumidouro. As jóias
da mulher e das filhas são empregadas no seu arrojado empreendimento,
arruinando-se a família inteira. Fernão Dias, porém, segue um roteiro
luminoso. Por onde passa com as suas caravanas, florescem povoações asseadas
e alegres. Seus pontos de contacto com a terra paulista são os arraiais
prósperos e fartos, que vai edificando nos caminhos desertos. As esmeraldas
do seu sonho nunca foram encontradas e s pedras verdes que entregou ao genro
no instante da agonia, como única expressão da sua fortuna, representavam,
de certo, o símbolo suave das esperanças do seu labor e das suas lágrimas na
terra do Evangelho. Próximo do local onde mandara enforcar o filho, nas
margens do Rio da Velhas, o seu espírito de lutador se desprendeu igualmente
do corpo exausto, e quando, no íntimo do seu coração, implorava a
misericórdia do Altíssimo para o delito, com que exorbitara de suas funções
na Terra, a voz de Ismael falou-lhe do Infinito:
_
Irmão, as quedas, com as suas experiências sombrias, constituirão os degraus
do teu caminho para as mais gloriosas ascensões espirituais. Atrás dos teus
passos florescem cidades valorosas no coração das matas virgens, e os que
recebem os teus benefícios abençoam o teu esforço e a tua energia
perseverante. A essas mesmas paragens, onde turvaste a consciência por um
instante, levado pelos rigores da disciplina, voltarás com teu filho, sob as
asas cariciosas da fraternidade e do amor, a fim de reparares o passado
cheio de tribulações e lutas incontáveis, porque, no coração misericordioso
de Deus, repousam, eternamente, as luminosas esmeraldas da esperança e do
amor, que procuraste a vida inteira.
Fernão Dias Paes abre os olhos materiais, pela última vez. Uma lágrima
pesada e branca lhe corre pelas faces emagrecidas; mas, sobre o seu coração
paira a benção cariciosa da terra dourada das minas, e, sentindo-se na posse
das verdadeiras esmeraldas do seu grande sonho, o ínclito batalhador
regressa de novo à vida do Infinito.
____
(*) Espírito.
LIVRO: “BRASIL, CORAÇÃO DO
MUNDO PÁTRIA DO EVANGELHO”
ESPÍRITO: Humberto de
Campos.
|
|