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O MOVIMENTO ABOLICIONISTA
Espírito: Humberto de Campos
O Brasil prosseguia na sua marcha evolutiva sob a carinhosa direção de D.
Pedro II. Estadistas notáveis pelo seu amor à causa pública assistiam o
imperador em seus nobres afazeres, caracterizando as suas atitudes e atos
com o mais sagrado interesse pelo bem coletivo.
Haviam terminado os movimentos bélicos da guerra com o Paraguai e o país
voltava a respirar os ares da esperança. Então, nessa época e nos anos
posteriores, todos os espíritos cultos da pátria se levantaram com
desassombro, para amparar o movimento abolicionista.
Os gênios tutelares do mundo espiritual inspiravam a todos os políticos e
escritores e, se havia fazendeiros constituindo o mais sério sustentáculo da
escravidão, dentro das classes conservadoras, inúmeros outros elementos
existiam, como no Amazonas e no Ceará, que alforriavam os seus servidores,
nos mais belos gestos de filantropia.
As falanges de Ismael contavam colaboradores decididos no movimento
libertador, quais Castro Alves, Luiz Gama, Rio Branco e Patrocínio. A
própria Princesa Isabel, cujas tradições de nobreza e bondade jamais serão
esquecidas no coração do Brasil, viera ao mundo com sua tarefa definida no
trabalho abençoado da abolição. Os espíritos em prova no cárcere da carne
têm a sua bagagem de sofrimentos expiatórios e depuradores, mas têm
igualmente a possibilidade necessária para o cumprimento dos deveres
meritórios, aos olhos misericordiosos do Altíssimo.
Todos os ânimos se inflamavam ao contacto das grandes idéias de liberdade.
Publicações e discursos, com a amplitude que a opinião da crítica
conquistara nos tempos do Império, exortavam as classes conservadoras ao
movimento de emancipação de todos os cativos.
D. Pedro se reconfortava com essas doutrinações das massas, no seu
liberalismo e na sua bondade de filósofo. Desejaria antecipar-se ao
movimento ideológico, decretando a liberdade plena de todos os escravos;
mas, os terríveis exemplos da guerra civil, que ensangüentara os Estados
Unidos da América do Norte durante longos anos, na campanha abolicionista,
faziam-no recear a luta das multidões apaixonadas e delinqüentes. Foi,
pois, com especial agrado, que acompanhou a deliberação de sua filha, de
sancionar, a 28 de setembro de 1871, a Lei do Ventre Livre que garantia no
Brasil a extinção gradual do cativeiro, mediante processos pacíficos. Seu
grande coração, no âmbito de suas impressões divinatórias, sentia que a
abolição se faria nos derradeiros anos de seu governo. Com efeito, a Lei do
Ventre Livre não bastara aos espíritos exaltados no sentimento de amor pela
abolição completa. Quase todas as energias intelectuais da nação se
encontravam mobilizadas a serviço dos escravos sofredores. O ambiente geral
era de perspectiva angustiosa e de profundas transições na ordem política.
A idéia republicana se consolidava cada vez mais no espírito da
nacionalidade inteira. O bondoso imperador nunca lhe cortara os vôos
prodigiosos no coração das massas populares; aliás, alimentava-os com os
seus alevantados exemplos de democracia.
Nos espaços, Ismael e suas falanges procuravam orientar os movimentos
republicanos e abolicionistas, com alta serenidade e esclarecida prudência,
no propósito de evitar os abomináveis derramamentos de sangue por desvarios
fratricidas.
A esse tempo, já Ismael possuía a sua célula construtiva da obra do
Evangelho no Brasil, célula que hoje projeta a sua luz de dentro da
Federação Espírita Brasileira, e de onde, espiritualmente, junto dos seus
companheiros desvelados, procurava unir os homens na grandiosa tarefa de
evangelização. Esperando o ensejo de se fixar na instituição venerável, que
lhe guarda as tradições e continua o seu santificado labor ao lado das
criaturas, a célula referida permanecia com Antônio Luiz Sayão e Bittencourt
Sampaio, desde 24 de setembro de 1885, até que Bezerra de Menezes, com os
seus grandes sacrifícios e indescritíveis devotamentos, eliminasse as mais
sérias divergências e aplainasse obstáculos, utilizando as suas inesgotáveis
reservas de paciência e de humildade e consolidando a Federação para que se
formasse uma organização federativa. Enquanto, lá fora, muitos
companheiros da caravana espiritual se deixavam levar por inovações e
experiências estranhas aos preceitos evangélicos, o Grupo Ismael esperava
uma época de compreensão mais elevada e harmoniosa para o desdobramento de
suas preciosas atividades. Todavia, nas lutas pesadas do mundo, Bezerra de
Menezes era o impávido desbravador, no seu apostolado de preparação,
fraternizando com todos os grupos para conduzi-los, suavemente, à sombra da
bandeira do grande emissário de Jesus.
Ismael trazia então a sua atenção carinhosa voltada para a solução do
problema abolicionista, que deveria resolver-se dentro da harmonia de todos
os interesses e estreme do sangue das guerras civis. Confiando ao Senhor as
suas expectativas, falou-lhe o Mestre:
_ Ismael, o sonho de liberdade de todos os cativos deverá concretizar-se
agora, sem perda de tempo. Prepararás todos os corações, a fim de que as
nuvens sanguinolentas não manchem o solo abençoado da região do Cruzeiro.
Todos os emissários celestes deverão conjugar esforços nesse propósito e, em
breve, teremos a emancipação de todos os que sofrem os duros trabalhos do
cativeiro na terra bendita do Brasil.
O grande enviado redobrou suas atividades nos bastidores da política
administrativa.
A estatística oficial de 1887 acusava a existência de mais de setecentos e
vinte mil escravos em todo o país. O ambiente geral era de apreensão em
todas as classes, ante a expectativa da promulgação da lei que extinguiria a
escravidão para sempre, o que constituiria duro golpe na fortuna pública do
Brasil. Mas, Ismael articula do Alto os elementos necessários à grande
vitória. O generoso imperador é afastado do trono, nos primeiros meses de
1888, sob a influência dos mentores invisíveis da pátria, voltando a
Regência à Princesa Isabel, que já havia sancionado a lei benéfica de 1871.
Sob a inspiração do grande mensageiro do Divino Mestre, a princesa imperial
encarrega o Senador João Alfredo de organizar novo ministério, que veio a
compor-se de espíritos nobilíssimos do tempo. Os abolicionistas compreendem
que lhes chegara a possibilidade maravilhosa e a 13 de maio de 1888 é
apresentada à regente a proposta de lei para imediata extinção do cativeiro,
lei que D. Isabel, cercada de entidades angélicas e misericordiosas,
sanciona sem hesitar, com a nobre serenidade do seu coração de mulher.
Nesse dia inesquecível, toda uma onda de claridades compassivas descia dos
céus sobre as vastidões do Norte e do Sul da Pátria do Evangelho. Ao Rio de
Janeiro afluem multidões de seres invisíveis, que se associam às grandiosas
solenidades da abolição. Junto do espírito magnânimo da princesa, permanece
Ismael com a bênção da sua generosa e tocante alegria. Foi por isso que
Patrocínio, intuitivamente, no arrebatamento do seu júbilo, se arrastou de
joelhos até aos pés da princesa piedosa e cristã. Por toda parte,
espalharam-se alegrias contagiosas e comunicativas esperanças. O marco
divino da liberdade dos cativos erguia-se na estrada da civilização
brasileira, sem a maré incendiária da metralha e do sangue.
Os negros e os mestiços do Brasil sentiram no coração o prodigioso potencial
de energias da sub-raça, com que realizariam gloriosos feitos de trabalho e
de heroísmo, na formação de todos os patrimônios da Pátria do Evangelho,
olhando o caminho infinito do futuro. E, nessa noite, enquanto se entoavam
hosanas de amor no Grupo Ismael e a princesa imperial sentia, na sua grande
alma, as comoções mais ternas e mais doces, os pobres e os sofredores,
recebendo a generosa dádiva do céu, iam reunir-se, nas asas cariciosas do
sono, aos seus companheiros da imensidade, levando às Alturas o preito do
seu reconhecimento a Jesus que, com a sua misericórdia infinita, lhes
outorgara a carta de alforria, incorporando-se, para sempre, ao organismo
social da pátria generosa dos seus sublimes ensinamentos.
Livro –
“Brasil – Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”n - Espírito: Humberto de
Campos
Psicografia: Francisco C. Xavier
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