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POMBAL E
OS JESUÍTAS
Após o
reinado de esbanjamento de D. João V, sobe ao trono de Portugal D. José I,
como o quinto rei da dinastia bragantina. O soberano escolhe para seu
primeiro ministro a Sebastião José de Carvalho e Melo, depois Conde de
Oeiras e, mais tarde Marquês de Pombal.
As
falanges espirituais, desvelando-se pela evolução portuguesa, haviam
escolhido previamente esse homem, para a reconstrução das energias da
pátria, após os desvarios de D. João V, o monarca esbanjador e arbitrário,
que nunca reuniu as cortes para uma consulta, necessária aos interesses do
povo. O escolhido, porém, não soube corresponder integralmente às sagradas
expectativas dos gênios espirituais da terra portuguesa. Se construiu,
cometeu graves injustiças com a sua ditadura renovadora.
Pombal
ascendera à posição de ministro depois de absorver as idéias novas que
percorriam os setores de todas as atividades do Velho Mundo, ao sopro dos
enciclopedistas. O campo diplomático já lhe dera a conhecer a técnica
política de um Roberto Walpole e, enquanto a sua pátria se algemava aos
tribunais da Inquisição, com sérios prejuízos para a educação nacional, o
cérebro se lhe povoava de planos audazes e reformadores.
Elevando-se ao trono em 1750, D. José I escolhe-o, imediatamente, para chefe
supremo de seu governo e, quando em 1755 foi Lisboa parcialmente destruída
por um terremoto, o ministro renovador teve oportunidade de demonstrar a sua
capacidade criadora, reedificando a cidade, que renasceu dos seus esforços
mais engrandecida e mais bela.
O Marquês
de Pombal, todavia, desde os primórdios de sua ação no governo, não tolerava
os jesuítas que, nas cortes européias, se intrometiam em todos os negócios
da política do século, com a pretensão de imunizar o mundo inteiro das
correntes de pensamento da Reforma.
Os
missionários humildes da célebre Companhia, radicados no Brasil, diga-se em
honra da verdade, estavam muito longe das criminosas disputas em que se
empenhavam seus irmãos no outro lado do Atlântico; mas, sofreram com eles a
incessante perseguição, tão logo se apossou do governo o famoso ministro.
Surge,
afinal, o atentado contra a vida de Dom José I, em 1758. No dia 3 de
setembro desse ano, quando regressava de uma entrevista ao Palácio da Ajuda,
o soberano foi alvejado a tiros de bacamarte, partidos de um grupo de
pessoas desconhecidas. As suspeitas recaíram no Marquês de Távora e seus
filhos, no Conde de Atouguia e no Duque de Aveiro. Conquanto fosse este
último um dos implicados no movimento regicida, o mesmo não acontecia aos
Távoras, inocentes daquele delito. Instaurou-se um processo que terminou,
apesar de todas as suas clamorosas irregularidades, com a sentença de morte
para todos os implicados. Em vão, procuram os portugueses influentes na
corte modificar a decisão do ministro. Os condenados sofrem os mais
horrorosos suplícios em Belém e a própria D. Leonor Tomásia, Marquesa de
Távora, foi decapitada.
Pombal
aproveita o ensejo que se lhe oferece para justificar a expulsão dos
jesuítas, apontando-os como autores indiretos do atentado e D. José I, a
instâncias do seu valido, assina sem hesitar o decreto de banimento.
Esse ato
de Pombal se reflete largamente na vida do Brasil. Todo o movimento de
organização social se devia, na colônia, aos esforços dos dedicados
missionários. O clero comum possuía escravos numerosos e chegava a defender
o suposto direito dos escravagistas, incentivando a caça aos índios e
abençoando a carga misérrima dos navios negreiros. Os jesuítas porém, sempre
trabalharam, no início da organização brasileira, dentro dos mais amplos
sentimentos de humanidade. Aldeavam os índios, aprendiam a “língua geral”, a
fim de influenciarem mais diretamente no ânimo deles, trazendo as tabas
rústicas às comunidades da civilização e foram, talvez, naqueles tempos
longínquos, os únicos refletores dos ensinamentos do Alto, advogando o seu
verbo inspirado a causa de todos os infelizes. A sua expulsão do Brasil,
retardou de muito tempo a educação das classes desfavorecidas e, se o
ministro D. José I estendeu algumas vezes o seu dinamismo renovador até à
Pátria do Evangelho, sua ação poucas vezes ultrapassou o terreno material,
tanto que, foram por ele destruídos, à força de decretos que constituíam
sérios obstáculos à facilidade de educação no território da colônia.
A esse
tempo, observando a anulação dos seus esforços, os missionários humildes da
cruz procuram Ismael com instantes apelos. Seus trabalhos eram abandonados,
por força das determinações do ministro arbitrário. Suas intenções ficavam
incompreendidas, suas ações baldadas, no sentido de espalharem entre os
sofredores as claridades consoladoras do ensino de Jesus. Mas o generoso
mensageiro pondera bondosamente aos seus dedicados colaboradores:
- Irmãos –
diz ele – muitas vezes, os próprios espíritos que escolhemos para
determinados labores terrestres não resistem à sedução do dinheiro e da
autoridade. Sentem-se traídos em suas próprias forças e se entregam, sem
resistência, ao inimigo oculto que lhes envenena o coração. Deixai aos
déspotas da Terra a liberdade de agir sob o império da sua prepotência. Por
mais que operem dentro das suas possibilidades no plano físico, a vitória
pertencerá sempre a Jesus, que é a luminosidade tocante de todos os
corações. Temos, porém, de considerar, a par da tirania política que tenta
destruir a nossa nação, o lamentável desvio dos nossos irmãos incumbidos de
velar pelo patrimônio do Evangelho, no mundo europeu. Infelizmente, não tem
eles procurado levar a luz espiritual às almas aflitas e sofredoras,
clareando a estrada dos ignorantes e abençoando o rude labor dos simples; ao
contrário, buscam influenciar os princípios do planeta, disputando os mais
altos lugares de domínio no banquete dos poderes temporais, em todos os
países onde milita a igreja do Ocidente. Peçamos a Jesus pelos tiranos e
pelos nossos companheiros desviados da consciência retilínea. Se terminamos,
agora, uma etapa da nossa tarefa, em que aproveitamos os elementos que nos
oferecia a disciplina da Companhia fundada por Loiola, prosseguiremos o
nosso trabalho dentro de novas modalidades. Deixemos aos mortos o cuidado de
enterrar seus mortos, como ensinou o Divino Mestre em suas lições sublimes.
Vossos irmãos, transformando a cruz do Cristo num símbolo de opressão e
despotismo, nos tribunais malditos da Inquisição, cavam a sepultura moral de
suas almas, que se amoldam ao sacrilégio e à ignomínia. Quanto aos
políticos, esses têm uma órbita de ação que não lhes é possível ultrapassar;
o tempo e a experiência, com a dor, eterna aliada de ambos, ensinarão às
suas consciências a lei de fraternidade e de amor, que esqueceram nos dias
do fastígio e da glória efêmera sobre a face do mundo. Oremos por eles e que
Jesus, na sua bondade infinita, nos acolha os corações sob o manto da sua
misericórdia.
Enquanto
oravam, gotas suaves de luz se derramavam do céu sobre os caminhos
tenebrosos da Terra e a palavra profética de Ismael teve, em breve, a sua
confirmação.
A
Companhia de Jesus foi suprimida pelo próprio Papa Clemente XIV, em 1773,
para reaparecer somente em 1814, com Pio VII. Nunca mais, todavia, puderam
os jesuítas readquirir o imenso prestígio que possuíram no Ocidente. Quanto
ao Marquês de Pombal, conheceu no silêncio a lição do abandono e do olvido
dos homens. No dia em que agonizava D. José I, o cardeal de Lisboa, D. João
Cosme da Cunha, que devia ao famoso ministro a altura da sua posição
eclesiástica, lhe declara no aposento do moribundo: - “V. Ex.ª já nada mais
tem que aqui fazer”, testemunhando-lhe venenosa ingratidão. Daí a algum
tempo, em subindo ao trono, D. Maria I destituía o marquês de todas as suas
funções no reino, banindo-o da corte após rumoroso processo, em que procurou
fundamentar a sua condenação. Retirando-se para a vila do Pombal,
desprendeu-se do mundo em 1782, humilhado e esquecido, sob o jugo dos mais
pungentes desgostos.
Livro “Brasil – Coração do
Mundo – Pátria do Evangelho”
Psicografia Francisco C. Xavier
– Espírito Humberto de Campos
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