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NO TEMPO DOS VICE-REIS
A ação
espiritual das falanges de Ismael, reunidas ao esforço dos elevados
espíritos que reconstruíam as energias portuguesas, intensifica-se cada vez
mais no coração das duas almas irmãs.
Pelo
tratado de Methuen, assinado em 1703, a Inglaterra, cujo poderio marítimo se
consolidava depois dos grandes feitos das armadas de Portugal, da Espanha e
da Holanda, passaria a amontoar o ouro do Brasil, como principal fornecedora
do primeiro e de suas colônias. No capítulo financeiro, o Brasil era, de
fato, uma das suas fontes de riqueza, pois que todas as suas reservas se
escoavam para o tesouro inglês. Uma sábia disposição do mundo invisível
regulamentara a questão dessa forma, adotando essas providências para que a
Pátria do Evangelho fosse colocada a cavaleiro de novos choques de ambição,
nos seus territórios. A combinação de Mathuen era ruinosa para a indústria
portuguesa; mas, nos grandes jogos dos interesses internacionais,
semelhantes acordos se faziam necessários. A Inglaterra ficaria com o ouro
tangível. Enquanto Portugal guardaria o ouro imperecível dos corações,
ditando a sua fé e as suas fronteiras, eternizando o patrimônio das suas
tradições e das suas esperanças, no tempo e no espaço.
Nessa
época, o Rio de Janeiro já eclipsava todas as cidades do Brasil. Aí, ao lado
das águas claras e puras da Carioca, onde os Tamoios encontravam sagradas
virtudes para a beleza de suas mulheres e para a voz dos seus cantores, já
se erguia o casario imenso, a descer do cume dos morros para o lençol
arenoso das praias.
Aí, sob o
céu azul que cobre as paisagens tranqüilas, os governadores podem fazer, com
serenidade imperturbável, seus longos expedientes para a metrópole e os
padres podem rezar beatificamente, nos seus breviários, entre as paredes
coloniais do Convento de Santo Antônio.
A
sociedade tratava de aprender as regras de bem viver, de civilidade, nos
livros encomendados especialmente do reino.
Ao
entardecer, não se cuidava de outra coisa que não fosse a iluminação dos
oratórios das esquinas, únicos pontos onde, às vezes, se concentravam alguns
transeuntes retardatários, que afrontavam sem receio os capoeiras ocultos no
silêncio das ruas ermas. De qualquer modo, porém, às oito horas da noite não
se encontrava mais ninguém pelas vielas escuras, com exceção dos dias de
grande gala, em que o governador comparecia pessoalmente às festas
populares, tendo todos os cuidados de ir a esses folguetos de rua com os
elementos precisos para a iluminação do caminho, no regresso a casa.
O Rio de
então, como as demais cidades não só do Brasil, mas também de Portugal, não
primava pela higiene e pela limpeza. Os igarapés que conheci, ainda em
princípio deste século, em algumas pequenas cidades do Norte brasileiro,
onde se viam, em pleno dia, homens e crianças acertando contas com a
natureza, se localizavam então nos recantos mais afastados das ruas, em
grandes valas dentro das quais os pobres escravos depositavam, todas as
tardes, o conteúdo malcheiroso dos largos potes de barro, carregados à
cabeça.
Alguns
forasteiros ilustres, que nos visitaram naquela época, arquivaram tristes
impressões do Brasil dos vice-reis, cheio dos mais espantosos quadros de
imundícies. Todavia, um dos espetáculos mais dolorosos e comovedores
ofereciam-no os mercados de escravos, como o do Valongo, onde os miseráveis
se amontoavam aos magotes, esperando o comprador que lhes examinava os
pulsos e os dentes, selecionando os mais fortes para os duros trabalhos das
fazendas. Ali, encontravam-se representantes dos negros de Guiné, de Cabinda
e de Benguela, que eram separados dos pais e das mães, dos irmãos e dos
filhos, nos sucessivos martirólogos da raça negra, na qual os próprios
padres de Portugal não viam irmãos em humanidade, mas os amaldiçoados
descendentes de Cam. Até há pouco tempo, podia-se ver na Luanda a cadeira de
pedra do bispo, de onde um prelado português abençoava os navios negreiros,
prontos para se fazerem ao mar largo, com a pesada carga de desgraçados
cativos. A benção religiosa visava conservá-los vivos até aos portos de
destino, a fim de que os mais fartos lucros compensassem os trabalhos dos
hediondos mercadores. Estes últimos, no entanto, além da benção, adotavam
outras precauções, amontoando os desditosos africanos nos porões infectos,
onde viajavam como animais ferozes, trancafiados na prisão, para que não
vissem, pela última vez, os horizontes do berço ingrato em que haviam
nascido, vacinando-se contra as dores supremas da desesperação, que os
arrastaria para os abismos do oceano.
Ismael,
com as suas hostes do mundo invisível, consegue harmonizar lentamente os
interesses espirituais de quantos se haviam estabelecido na Pátria do
Cruzeiro. Sob a sua inspiração, a igreja torna-se a protetora necessária da
mentalidade infantil daquela época. Os templos das colônias abrem as portas
para todos os infelizes e para todos os tristes. Os retinóis organizam
festanças periódicas, missas e procissões da fé, bem como folganças
profanas, quais as da “Serração da Velha”.
Sob as
vistas condescendentes da igreja, os mensageiros do espaço se fazem sentir
mais fortemente junto aos senhores, amenizando a situação amargurada dos
míseros cativos. Sob as suas influências indiretas, organizam-se correntes
de filantropia, do mais elevado alcance. Costumes fraternos surgem
espontaneamente no seio da população de todas as cidades brasileiras. O
hábito de apadrinhar os negros faltosos, ou fugitivos, nunca é desrespeitado
pelo senhor. Reconhece-se o direito de propriedade dos escravos, e o costume
de se conceder um dia ou dois aos trabalhos dos cativos é confirmado por
lei, em 1700. Alastra-se o precioso movimento das alforrias na pia batismal,
onde, com um óbulo insignificante, são declarados livres os filhos dos
escravos. As associações dos negros nas grandes cidades do país, para
realização das suas festas de saudade das paisagens africanas, são
numerosas, com permissão de todas as autoridades. Os festejos originais do
Rei do Congo se levam a efeito com brilho, a expensas dos senhores.
A igreja,
no Brasil, abre o seu culto a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário,
tornando-se um refúgio de doce consolação para os pobres africanos. As
ordens religiosas possuíam os seus pretos, que eram bem tratados e jamais
poderiam ser vendidos. Nas fazendas, agrupavam-se eles em famílias, as mais
das vezes eram plenamente alforriados em testamento dos proprietários. Todos
os hábitos em voga, na época, dão testemunho da liberdade brasileira,
porquanto, em nosso país, nunca a emancipação foi impedida por lei, como em
outras nações. A filantropia dos brasileiros cedo começou o movimento
abolicionista, e a prova da profunda assistência espiritual que acompanhava
essas ações na Pátria do Evangelho é que nunca teve o Brasil um código
negro, à maneira da França e da Inglaterra. E a verdade espiritual, que
paira acima das considerações de todos os historiadores, é que Ismael
preparou aqui a oficina da fraternidade, onde os negros incompreendidos
vinham erguer a pátria da sua descendência. Se sofreram nas mãos de alguns
escravocratas impiedosos, seus prantos e sacrifícios iam florescer ao tênue
rocio das bênçãos do céu, na terra do Evangelho, clarificando-lhes, mais
tarde, os caminhos, quando seus corações resignados e sofredores se
dilatassem, na alma fraterna dos filhos e dos netos.
Livro “Brasil – Coração do
Mundo – Pátria do Evangelho”
Psicografia Francisco C. Xavier
– Espírito Humberto de Campos
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