A  OBRA  DE  ISMAEL

 

Humberto de Campos

 

O grande movimento preparatório do Espiritismo em todo o mundo tinha, no Brasil, a sua repercussão, como era natural.

Por volta de 1840, ao influxo das falanges de Ismael, chegavam dois médicos humanitaristas ao Brasil. Eram Bento Mure e Vicente Martins, que fariam da medicina homeopática verdadeiro apostolado. Muito antes da codificação kardeciana, conheciam ambos os transes mediúnicos e o elevado alcance da aplicação do magnetismo espiritual. Introduziram vários serviços de beneficiência no Brasil e traziam por lema, dentro da sua maravilhosa intuição, a mesma inscrição divina da bandeira de Ismael — “Deus, Cristo e Caridade”. Indescritível foi o devotamento de ambos à coletividade brasileira, à qual se haviam incororado, sob os altos desígnios do mundo espiritual.

Nas suas luminosas pegadas, seguiram, mais tarde, outros pioneiros da homeopatia e do Espiri­tismo, na Pátria do Evangelho. Foram eles, os mé­dicos homeopatas, que iniciaram aqui os passes magnéticos, como imediato auxílio das curas. Hahnemann conhecia a fonte infinita de recursos do mag­netismo espiritual e recomendava esses processos psicoterápicos aos seus seguidores.

Os primeiros fenómenos de Hydesville, na Amé­rica do Norte, em 1848, não passaram despercebidos à corte do segundo reinado. A febre de experimenta­ções que se lhes seguiu, nas grandes cidades euro­peias, incendiou, igualmente, no Rio de Janeiro, alguns cérebros mais destacados no meio social. Em 1853, a cidade já possuía um pequeno grupo de estu­diosos, entre os quais se podia notar a presença do Marquês de Olinda e do Visconde de Uberaba. Em Salvador, esses núcleos de experimentação também existiam, em idênticas circunstâncias. Em 1860 sur­gem as primeiras publicações espiritistas. Em 1865, o Dr. Luís Olímpio Teles de Menezes, com alguns colegas, replicava pelo "Diário da Bahia" a um ar­tigo algo irónico de um cientista francês, desfavorável ao Espiritismo, publicado na Gazette Médicale e transcrito no jornal referido. As publicações brasi­leiras não passaram despercebidas ao próprio Allan Kardec, que delas teve conhecimento, com a mais justa satisfação íntima.

A doutrina seguia marcha vitoriosa, através de todos os ambientes cultos da Europa e da América, quando o grande codificador se desprendeu dos laços que o retinham à vida material, em 1869. Justamen­te nesse ano surgira o primeiro periódico espírita brasileiro — "O Eco de Além-Túmulo". O desapare­cimento do mestre deixara algo desorientado o campo geral da doutrina em organização. Em Paris, como nos grandes centros mundiais, quiseram inutilmente substituir-lhe a autoridade. As falanges de Ismael estavam vigilantes.

Sugeriram aos espiritistas brasileiros a necessi­dade de criar, no Rio, um núcleo central das atividades, que ficasse como o órgão orientador de todos os movimentos da doutrina no Brasil. Um dos emis­sários de Ismael, que dispunha de maiores elemen­tos no terreno das afinidades mediúnicas, para se comunicar nos grupos particulares organizados na cidade, adotou o pseudónimo de Confúcio, sob o qual transmitia instrutivas mensagens e valiosos ensina­mentos. Em 1873 fundava-se, com estatutos impres­sos e demais formalidades exigidas, o "Grupo Confúcio", que constituiria a base da obra tangível e determinada de Ismael, na terra brasileira. Por esse grupo passaram, na época, todos os simpatizantes da doutrina e, se efémera foi a sua existência como sociedade organizada, memoráveis foram os seus trabalhos, aos quais compareceu pessoalmente o próprio Ismael, pela primeira vez, esclarecendo os grandes objetivos da sua elevada missão no país do Cruzeiro.

Nem todos os espiritistas modernos conhecem o fecundo labor daqueles humildes arroteadores dos terrenos inférteis da sociedade humana. A realidade é que eles lutaram denodadamente contra a opinião hostil do tempo, contra o anátema, o insulto e o ri­dículo e, sobretudo, contra as ondas reacionárias das trevas do mundo invisível, para levantarem bem alto a bandeira de Ismael, como manancial de luz para todos os espíritos e de conforto para todos os cora­ções. As entidades da sombra trouxeram a obra in­grata da oposição ao trabalho produtivo da edificação evangélica no Brasil. Bem sabemos que, assim como Aquiles possuía um ponto vulnerável no seu calcanhar, o homem em si, pela sua vaidade e fra­queza, também tem um ponto vulnerável em todos os escaninhos da sua personalidade espiritual, e os seres das trevas, se não conseguiram vencer total­mente os trabalhadores, conseguiram desuni-los no plano dos seus serviços à grande causa. O "Grupo Confúcio" teve uma existência de três anos rápidos.

Os mensageiros de Ismael, triunfando da dis­córdia que destruía o grande núcleo nascente, fundavam sobre ele, em 1876, a "Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade", sob a direção esclarecida de Francisco Leite de Bittencourt Sam­paio, grande discípulo do emissário de Jesus, que, juntamente com Bezerra, tivera a sua tarefa previa­mente determinada no Alto. A ele se reuniu Antô­nio Luiz Sayão, em 1878, para as grandes vitórias do Evangelho nas terras do Cruzeiro. O trabalho maléfico das trevas, no plano invisível, é arrojado e perseverante. No seio desse redil de almas humil­des e simples, esclarecidas à luz dos princípios cris­tãos, onde militavam espíritas lúcidos e sábios como Bittencourt Sampaio, que abandonara os fulgores enganosos da sua elevada posição na literatura e na política para se apegar às claridades do ideal cristão, as entidades tenebrosas conseguem encontrar um médium, pronto para a dolorosa tarefa de fomentar a desarmonia e, estabelecida de novo a discórdia, os mensageiros de Ismael reorganizam as energias existentes, para fundarem, em 1880, a "Sociedade Espírita Fraternidade", com a qual se carregava em triunfo o bendito lema do suave estandarte do emis­sário do Divino Mestre. Em 1883, Augusto Elias da Silva, na sua posição humilde, lançava o "Reforma­dor", coadjuvado por alguns companheiros e com o apoio das hostes invisíveis. As mesmas reuniões do grupo humilde de Antônio Sayão e Bittencourt Sam­paio continuam. Uma plêiade de médiuns curadores, notáveis pela abnegação, iniciam, no Rio, o seu penoso apostolado. Elias da Silva e seus companheiros notam, entretanto, que a situação se ia tornando di­fícil com as polémicas esterilizadoras. A esse tempo, os emissários do Alto prescrevem categoricamente aos seus camaradas do mundo tangível:

— Chamem agora Bezerra de Menezes ao seu apostolado!

Elias bate, então, à porta generosa do mestre venerável, o que não era preciso, porque seu grande, coração já se encontrava a postos, no sagrado ser­viço da Seara de Jesus, na face da Terra.

Bezerra de Menezes traz consigo a palma da harmonia, serenando todos os conflitos. Estabelece a prudência e a discrição entre os temperamentos mais veementes e combativos.

A obra de Ismael, no que se referia às luzes sublimes do Consolador, estava definitivamente ins­talada na Pátria do Cruzeiro, apesar da precariedade do concurso dos homens. As divergências foram atenuadas, para que a tranquilidade voltasse a todos os centros de experimentação e de estudo. Os operários espalhavam-se pelo Rio, cada qual com a sua ferra­menta, dentro do grande plano da unificação e da paz, nos ambientes da doutrina, plano esse que eles conseguiram relativamente realizar, mais tarde, or­ganizando o aparelho central de suas diretrizes, que se consolidaria com a Federação Espírita Brasilei­ra, onde seria localizada a sede diretora, no plano tangível, dos trabalhos da obra de Ismael no Brasil.

 

Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.

Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.