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BEZERRA DE
MENEZES
Humberto de Campos
O século
XIX, que surgira com as últimas agitações provocadas no mundo pela Revolução
Francesa, estava destinado a presenciar extraordinários acontecimentos.
No seu
transcurso, cumprir-se-ia a promessa de Jesus, que, segundo os ensinamentos
do seu Evangelho, derramaria as claridades divinas do seu coração sobre toda
a carne, para que o Consolador reorganizasse as energias das criaturas, a
caminho das profundas transições do século XX.
Mal não
haviam terminado as atividades bélicas da triste missão de Bonaparte e já o
espaço se movimentava, no sentido de renovar os surtos de progresso das
coletividades. Assembléias espirituais, reunindo os gênios inspiradores de
todas as pátrias do orbe, eram levadas a efeito, nas luzes do infinito, para
a designação de missionários das novas revelações. Em uma de tais
assembléias, presidida pelo coração misericordioso e augusto do Cordeiro,
fora destacado um dos grandes discípulos do Senhor, para vir à Terra com a
tarefa de organizar e compilar ensinamentos que seriam revelados, oferecendo
um método de observação a todos os estudiosos do tempo. Foi assim que Allan
Kardec, a 3 de outubro de 1804, via a luz da atmosfera terrestre, na cidade
de Lião. Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande
missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a
cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados
particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista
Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Leon Denis, que efetuaria o
desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada
científica e de Camille Flammarion, que abriria a cortina dos mundos,
desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na
codificação kardeciana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários
complementos.
Ia
resplandecer a suave luz do espiritismo, depois de certificado o Senhor da
defecção espiritual das igrejas mercenárias, que falavam no globo em seu
nome.
Todas as
falanges do Infinito se preparam para a jornada gloriosa.
As
abnegadas coortes de Ismael trazem as suas inspirações para as grandes
cidades do país do Cruzeiro, conseguindo interessar indiretamente grande
número de estudiosos.
As
primeiras experiências espiritistas, na Pátria do Evangelho, começaram pelo
problema das curas. Em 1818, já o Brasil possuía um grande círculo
homeopático, sob a direção do mundo invisível. O próprio José Bonifácio se
correspondia com Frederico Hahnemann. Nos tempos do segundo reinado, os
mentores invisíveis conseguem criar, na Bahia, no Pará e no Rio de Janeiro,
alguns grupos particulares, que projetavam enormes claridades no movimento
neo-espiritualista do continente, talvez o primeiro da América do Sul.
Antes
dessa época, quando prestes a findar o primeiro reinado, Ismael reúne no
espaço os seus dedicados companheiros de luta e, organizada a venerável
assembléia, o grande mensageiro do Senhor esclarece a todos sobre os seus
elevados objetivos.
— Irmãos,
expôs ele, o século atual, como sabeis, vai ser assinalado pelo advento do
Consolador à face da Terra. Nestes cem anos se efetuarão os grandes
movimentos preparatórios dos outros cem anos que hão de vir. As rajadas de
morticínio e de dor avassalarão a alma da humanidade, no século próximo,
dentro dos imperativos das transições necessárias, que serão o sinal do fim
da civilização precária do Ocidente. Faz-se mister amparemos o coração
atormentado dos homens nessas grandes amarguras, preparando-lhes o caminho
da purificação espiritual, através das sendas penosas. É preciso, pois,
preparemos o terreno para a sua estabilidade moral nesses instantes
decisivos dos seus destinos. Numerosas fileiras de missionários encontram-se
disseminadas entre as nações da Terra, com o fim de levantar a palavra da
Boa-Nova do Senhor, esclarecendo os postulados científicos que surgirão
neste século, nos círculos da cultura terrestre. Uma verdadeira renascença
das filosofias e das ciências se verificará no transcurso destes anos, a fim
de que o século XX seja devidamente esclarecido, como elemento de ligação
entre a civilização do futuro, que assentará na fraternidade e na justiça,
porque a morte do mundo, prevista na Lei e nos Profetas, não se verificará
por enquanto, com referência à constituição física do globo, mas quanto às
suas expressões morais, sociais e políticas. A civilização armada terá de
perecer, para que os homens se amem como irmãos. Concentraremos, agora, os
nossos esforços na terra do Evangelho, para que possamos plantar no coração
de seus filhos as sementes benditas que, mais tarde, frutificarão no solo
abençoado do Cruzeiro. Se as verdades novas devem surgir primeiramente,
segundo os imperativos da lei natural, nos centros culturais do Velho Mundo,
é na Pátria do Evangelho que lhes vamos dar vida, aplicando-as na edificação
dos monumentos triunfais do Salvador. Alguns dos nossos auxiliares já se
encontram na Terra, esperando o toque de reunir de nossas falanges de
trabalhadores devotados, sob a direção compassiva e misericordiosa do Divino
Mestre.
Houve na
alocução de Ismael uma breve pausa.
Depois,
encaminhando-se para um dos dedicados e fiéis discípulos, falou-lhe assim:
— Descerás
às lutas terrestres com o objetivo de concentrar as nossas energias no país
do Cruzeiro, dirigindo-as para o alvo sagrado dos nossos esforços.
Arregimentarás todos os elementos dispersos, com as dedicações do teu
espírito, a fim de que possamos criar o nosso núcleo de atividades
espirituais, dentro dos elevados propósitos de reforma e regeneração. Não
precisamos encarecer aos teus olhos a delicadeza dessa missão; mas, com a
plena observância do código de Jesus e com a nossa assistência espiritual,
pulverizarás todos os obstáculos, à força de perseverança e de humildade,
consolidando os primórdios de nossa obra, que é a de Jesus, no seio da
pátria do seu Evangelho. Se a luta vai ser grande, considera que não será
menor a compensação do Senhor, que é o caminho, a verdade e a vida.
Havia em
toda a assembléia espiritual um divino silêncio. O discípulo escolhido nada
pudera responder,
com o coração palpitante que sãs emoções, mas as lágrimas de reconhecimento
lhe caíam copiosamente dos olhos.
Ismael desfraldara a
sua bandeira à luz gloriosa do Infinito, salientando-se a sua inscrição
divina, que parecia constituir-se de sóis infinitésimos. Uma vibração de
esperança e de fé fazia pulsar todos os corações, quando uma voz, terna e
compassiva, exclamou das cúpulas radiosas do Ilimitado:
— Glória a Deus nas
Alturas e paz na terra aos trabalhadores de boa-vontade!
Relâmpagos de
luminosidade estranha e misericordiosa clareavam o pensamento de quantos
assistiam ao maravilhoso espetáculo, enquanto uma chuva de aromas inundava
a atmosfera de perfumes balsâmicos e suavíssimos.
Sob aquela bênção
maravilhosa, a grande assembleia dos operários do Bem se dissolveu.
Daí a algum tempo,
no dia 29 de agosto de 1831, em Riacho do Sangue, no Estado do Ceará, nascia
Adolfo Bezerra de Menezes, o grande discípulo de Ismael, que vinha cumprir
no Brasil uma elevada missão.
Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.
Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.
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