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FIM
DO PRIMEIRO REINADO
Humberto de CampoS
Um dos
traços característicos do povo brasileiro é o seu profundo amor à
liberdade. A largueza da terra e o infinito dos horizontes dilataram os
sentimentos de emancipação em todas as almas chamadas a viver sob a luz
do Cruzeiro. Desde que se esboçaram os primeiros movimentos nativistas,
a mentalidade geral do Brasil obedeceu a esse nobre imperativo de
independência e, ainda hoje, todas as ações revolucionárias que se
verificam no país, lamentavelmente embora, trazem no fundo esse anseio
de liberdade como o seu móvel essencial.
A atitude
de D. Pedro l, ordenando a dissolução da Constituinte, em 1823, tivera
funda repercussão no espírito geral.
Se bem
ignorasse o que vinha a ser uma constituição boa e justa, o povo a
reclamava, dentro do seu conhecimento intuitivo, acerca da transformação
dos tempos.
O
imperador, apesar das suas paixões tumultuárias e das suas fraquezas
como homem, possuía notável acuidade, em se tratando de psicologia
política. Os estudiosos, que viram na sua personalidade somente o
amoroso insaciável, muitas vezes não lhe reconhecem o espírito
empreendedor na direção das coisas públicas, inaugurando a era
constitucional do Brasil e Portugal, com as suas valorosas iniciativas.
São de lamentar os seus transviamentos amorosos e a tragédia da sua vida
conjugal, quando a seu lado tinha uma nobre mulher, cujas renúncias e
dedicações se elevaram ao heroísmo supremo; mas, nos instantes em que
seu coração se tocava das idéias generosas, criando-lhe no íntimo um
estado receptivo propício às inspirações do mundo invisível, as falanges
de Ismael aproveitavam o minuto psicológico para auxilia-lo na tarefa de
consolidação da liberdade da Pátria do Evangelho. Foi assim que muitos
decretos saíram de suas mãos, objetivando, inegavelmente, a
tranqüilidade geral.
Como
dizíamos, a sua resolução extrema de dissolver a Assembléia e exilar os
Andradas cavara um abismo entre ele e a opinião pública,
intransigentemente apaixonada pela emancipação do país. As lutas
isoladas se multiplicavam assustadoramente. No Rio e nas províncias,
tudo era um clamor surdo de protestos contra os atos de D. Pedro, que,
aliás, não poderia manter outra atitude em face do ambiente confuso do
país.
A
Província de Pernambuco, onde se plantaram, inicialmente, as balizas dos
grandes sentimentos da liberdade e da democracia sob a influência de
Maurício de Nassau, alimentava, mais que nunca, o sentimento de
independência e de autonomia. Todas as grandes idéias encontravam, no
Recife, o clima apropriado ao seu desenvolvimento e foi justamente aí
que as deliberações de D. Pedro feriram mais fundo. A 24 de julho de
1824 estalam, na terra pernambucana, os primeiros movimentos da
Confederação do Equador, que se ramificava por toda a região do Norte a
proclamar as generosas idéias republicanas. Paes de Andrade coloca-se à
frente da ação revolucionária, com o fim de agir contrariamente ao
imperador, a quem se atribuía o propósito de reunir as coroas do Brasil
e de Portugal, reintegrando-se o primeiro na vida colonial. Mas, o
governo central providencia energicamente. Lorde Cochrane e Lima e Silva
são enviados com urgência para extinguir a insurreição. Em Pernambuco, o
futuro Marques do Recife, com todo o seu prestígio entre os lavradores,
inicia a defesa do governo imperial e prestigia as tropas enviadas, que
sufocam o movimento. Os republicanos são vencidos e presos. Paes de
Andrade refugia-se num navio inglês, conseguindo escapar à ação
repressiva do Império; mas João Ratcliff e Frei Caneca pagam com a vida
o sonho republicano. Executados militarmente, são eles o doloroso
escarmento para os companheiros. Ambos iam, porém, associar-se aos
trabalhos do Infinito, sob a direção de Ismael, cuja misericórdia
alentava as energias da pátria brasileira.
Não
terminaram, com o desaparecimento da Confederação do Equador, as
agitações intestinas. Os reinóis, espalhados por todos os recantos do
país, esperavam um golpe de unificação das duas pátrias, sonhando com o
regresso à vida colonial, em benefício dos seus interesses econômicos.
Os brasileiros, todavia, entravam em luta com os portugueses,
constituindo esses movimentos uma ameaça constante à paz coletiva,
durante vários anos.
O mundo
invisível, porém, atua de maneira sensível entre os gabinetes políticos,
para que a Província Cisplatina fosse reintegrada em sua liberdade, após
a anexação indébita, levada a efeito pelas forças armadas de D. João Vl,
em 1821, por inspiração de D. Carlota Joaquina. A imposição para
submete-la era francamente impopular, porquanto, desde o início da
civilização brasileira, os mensageiros de Jesus difundiram o mais largo
conceito de fraternidade dentro da Pátria do Cruzeiro, onde todo o povo
guarda a tradição da solidariedade e da autonomia. A realidade é que
Ismael triunfa sempre. Apesar das primeiras vitórias das armas
brasileiras, a Província Cisplatina, que não era produto elaborado pela
Pátria do Evangelho nem fruto de trabalho dos portugueses, se separava
definitivamente do coração geográfico do mundo, graças à mediação
pacífica da Inglaterra, para formar o território que veio a constituir a
República Oriental do Uruguai.
Enquanto
se desenrolavam esses acontecimentos, a opinião pública do Brasil não
abandonava a crítica a todos os atos e deliberações do imperador. D.
Pedro, senhor da psicologia dos tempos novos, não ignorava quanta
decisão reclamavam os afazeres penosos do governo. Seus ministérios, no
Rio de Janeiro, se organizavam para se desfazerem em curtos períodos de
tempo. O país andava agitado e apreensivo, temendo-lhe as resoluções e
espreitando-lhe os menores gestos. As suas aventuras amorosas eram
perfidamente comentadas pelas anedotas da malícia carioca. O povo,
conhecendo alguma coisa da sua conduta particular, se encarregou de
elaborar a maior parte de todas as histórias ridículas em torno da sua
personalidade, que, se rude e sensual, não era diferente da generalidade
dos homens da época e tinha, não raras vezes, rasgos generosos, que
alcançavam os mais altos cumes do sentimento.
A
imprensa instituída pelo Conde de Linhares, em 1808, sob a proteção de
D. João Vl, no casarão da Rua do Passeio, não o abandonou,
transformando-se em sentinela dos seus menores pensamentos.
O
imperador era acusado de proteger, criminosamente, os interesses
portugueses, a despeito das suas ações em contrário.
Muitas
vezes, em momentos de meditação, no Paço de São Cristóvão, já ao tempo
de suas segundas núpcias, deixava ele vagar o espírito pelo mundo rico
das suas experiências, acerca dos homens e da vida, para reconhecer que
todo aquele ódio gratuito lhe adivinha da condição de português nato. O
Brasil era reconhecido ao seu feito, no que se referia à independência
política, mas não tolerava a origem do seu imperador, em se tratando dos
problemas da sua autonomia.
Dias após
as “noites de garrafadas”, em que os partidos políticos se engalfinharam
na praça pública, de 12 a 14 de março de 1831, D. Pedro compareceu a um
Te-Deum na igreja de São Francisco, sendo recebido, depois da cerimônia
religiosa, pelo povo que o rodeou, com algumas demonstrações de
desagrado.
Para
aplacar os ânimos exaltados do partidarismo, D. Pedro organiza novo
ministério, todo composto de homens de sua absoluta confiança. O povo,
entretanto, divisando dentro do novo gabinete ministerial somente os que
ele considerava os palacianos de São Cristóvão, reuniu-se no Campo de
Santana, capitaneado por demagogos e, em poucos minutos, a revolução se
alastrava pela cidade inteira. Deputações populares são enviadas ao
imperador, que as recebe com serenidade e indiferença. Entre os
revoltosos estão os seus melhores amigos. Os senhores da situação eram
os mesmos a quem o imperador havia amparado na véspera. O próprio
exército, que organizara com imenso desvelo, se voltava contra ele
naquela noite memorável. D. Pedro, depois de ouvir à meia-noite as
explicações do Major Miguel de Frias, que viera a palácio em busca da
sua decisão quanto às exigências do povo, que lhe impunha o antigo
ministério, mandou chamar o chefe da guarda do regimento de artilharia,
aquartelado em São Cristóvão, e lhe ordenou, com serena nobreza, que se
reunisse com seus homens às tropas revoltadas, acrescentando
generosamente:
-
Não quero que ninguém se sacrifique por minha causa.
Depois da
meia-noite, preferiu ficar só, na quietude do seu gabinete. Ali, atentou
no patrimônio das suas experiências. Através do silêncio e da sombra, a
voz de seu pai, já na vida livre dos espaços, lhe falava brandamente ao
coração. Os mensageiros de Ismael auxiliam-lhe o cérebro esgotado na
solução do grande problema e, às duas horas da madrugada de 7 de abril
de 1831, sem ouvir sequer os seus ministros e conselheiros, abdicava na
pessoa do filho, D. Pedro de Alcântara, que contava então cinco anos, e
ficaria sob a esclarecida tutela de José Bonifácio.
Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.
Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.
Digitado
por – Valeria Guida |
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