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A
INDEPENDÊNCIA
Humberto de CampoS
O
movimento da emancipação percorria todos os departamentos de atividades
políticas da pátria; mas, por disposição natural, era no Rio de Janeiro,
cérebro do país, que fervilhavam as idéias libertárias, incendiando
todos os espíritos. Os mensageiros invisíveis desdobravam sua ação junto
de todos os elementos, preparando a fase final do trabalho da
independência, através dos processos pacíficos.
Os
patriotas enxergavam no Príncipe D. Pedro a figura máxima, que deveria
encarnar o papel de libertador do reino do Brasil. O príncipe, porém,
considerando as tradições e laços de família, hesitava ainda em optar
pela decisão suprema de se separar, em caráter definitivo, da direção da
metrópole.
Conhecendo as ordens rigorosas das Cortes de Lisboa, que determinavam o
imediato regresso de D. Pedro a Portugal, reúnem-se os cariocas para
tomarem as providências de possível execução e uma representação com
mais de oito mil assinaturas é levada ao príncipe regente, pelo Senado
da Câmara, acompanhado de numerosa multidão, a 9 de janeiro de 1822. D.
Pedro, diante da massa de povo, sente a assistência espiritual dos
companheiros de Ismael, que o incitam a completar a obra da emancipação
política da Pátria do Evangelho, recordando-lhe, simultaneamente, as
palavras do pai no instante das despedidas. Aquele povo já possuía a
consciência da sua maioridade e nunca mais suportaria o retrocesso à
vida colonial, integrado que se achava no patrimônio das suas conquistas
e das suas liberdades. Em face da realidade positiva, após alguns
minutos de angustiosa expectativa, o povo carioca recebia, por
intermédio de José Clemente Pereira, a promessa formal do príncipe de
que ficaria no Brasil, contra todas as determinações das Cortes de
Lisboa, para o bem da coletividade e para a felicidade geral da nação.
Estava, assim, proclamada a independência do Brasil, com a sua audaciosa
desobediência às determinações da metrópole portuguesa.
Todo o
Rio de Janeiro se enche de esperança e de alegria. Mas, as tropas fiéis
a Lisboa resolvem normalizar a situação, ameaçando abrir luta com os
brasileiros, a fim de se fazer cumprirem as ordens da Coroa. Jorge de
Avilez, comandante da divisão, faz constar, imediatamente, os seus
propósitos, e, a 11 de janeiro, as tropas portuguesas ocupam o Morro do
Castelo, que ficava a cavaleiro da cidade. Ameaçado de bombardeio, o
povo carioca reúne as multidões de milicianos, incorpora-os às tropas
brasileiras e se posta contra o inimigo no Campo de Santana. O perigo
iminente faz tremer o coração fraterno da cidade. Não fosse o auxilio do
Alto, todos os propósitos de paz se teriam malogrado numa pavorosa maré
de ruína e de sangue. Ismael acode ao apelo das mães desveladas e
sofredoras e, com o seu coração angélico e santificado, penetra as
fortificações de Avilez e lhe faz sentir o caráter odioso das suas
ameaças à população. A verdade é que, sem um tiro, o chefe português
obedeceu, com humildade, à intimação do Príncipe D. Pedro, capitulando a
13 de janeiro e retirando-se com suas tropas para a outra margem da
Guanabara, até que pudesse regressar com elas, para Lisboa.
Os
patriotas, daí por diante, já não pensam noutra coisa que não seja a
organização política do Brasil. Todas as câmaras e núcleos culturais do
país se dirigem a D. Pedro em temos encomiásticos, louvando-lhe a
generosidade e exaltando-lhe os méritos. Os homens eminentes da época, a
cuja frente somos forçados a colocar a figura de José Bonifácio, como a
expressão culminante dos Andradas, auxiliam o príncipe regente,
sugerindo-lhe medidas e providências necessárias. Chegando ao Rio por
ocasião do grande triunfo do povo, após a memorável resolução do “Fico”,
José Bonifácio foi feito ministro do reino do Brasil e dos Negócios
Estrangeiros. O patriarca da independência adota as medidas políticas
que a situação exigia, inspirando, com êxito, o príncipe regente nos
seus delicados encargos de governo.
Gonçalves
Ledo, Frei Sampaio e José Clemente Pereira, paladinos da imprensa da
época, foram igualmente grandes propulsores do movimento da opinião,
concentrando as energias nacionais para a suprema afirmação da liberdade
da pátria.
Todavia,
se a ação desses abnegados condutores do povo se fazia sentir desde
Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, o predomínio dos portugueses,
desde a Bahia até o Amazonas, representava sério obstáculo ao incremento
e consolidação do ideal emancipacionista. O governo resolve contratar os
serviços das tropas mercenárias de Lorde Cochrane, o cavaleiro andante
da liberdade da América Latina. Muitas lutas se travam nas costas
baianas e verdadeiros sacrifícios se impõem os mensageiros de Ismael,
que se multiplicam em todos os setores com o objetivo de conciliar seus
irmãos encarnados, dentro da harmonia e da paz, sempre com a finalidade
de preservar a unidade territorial do Brasil, para que se não
fragmentasse o coração geográfico do mundo.
José
Bonifácio aconselha a D. Pedro uma viagem a Minas Gerais, a fim de
unificar e serenar a luta acerba dos partidarismos. Em seguida, outra
viagem, com os mesmos objetivos, realiza o príncipe regente a São Paulo.
Os bandeirantes, que no Brasil sempre caminharam na vanguarda da
emancipação e da autonomia, recebem-no com o entusiasmo da sua paixão
libertária e com a alegria da sua generosa hospitalidade e, enquanto há
música e flores nos teatros e nas ruas paulistas, comemorando o
acontecimento, as falanges invisíveis se reúnem no Colégio de
Piratininga. O conclave espiritual se realiza sob a direção de Ismael,
que deixa irradiar a luz misericordiosa do seu coração. Ali se encontram
heróis das lutas maranhenses e pernambucanas, mineiros e paulistas,
ouvindo-lhe a palavra cheia de ponderação e de ensinamentos. Terminando
a sua alocução pontilhada de grande sabedoria, o mensageiro de Jesus
sentenciou:
-
A independência do Brasil, meus irmãos, já se encontra
definitivamente proclamada. Desde 1808, ninguém lhe podia negar ou
retirar essa liberdade. A emancipação da Pátria do Evangelho
consolidou-se, porém, com os fatos verificados nestes últimos dias e,
para não quebrarmos a força dos costumes terrenos, escolheremos agora
uma data que assinale aos pósteros essa liberdade indestrutível.
Dirigindo-se ao Tiradentes, que se encontrava presente, rematou:
-
- O nosso irmão, martirizado há alguns anos pela grande
causa, acompanhará D. Pedro em seu regresso ao Rio e, ainda na terra
generosa de São Paulo, auxiliará o seu coração no grito supremo da
liberdade. Uniremos assim, mais uma vez, as duas grandes oficinas do
progresso da pátria, para que sejam as registradoras do inesquecível
acontecimento nos fastos da história. O grito da emancipação partiu das
montanhas e deverá encontrar aqui o seu eco realizador. Agora, todos nós
que aqui nos reunimos, no sagrado Colégio de Piratininga, elevemos a
Deus nosso coração em prece, pelo bem do Brasil.
Dali, do
âmbito silencioso daquelas paredes respeitáveis, saiu uma vibração nova
de fraternidade e de amor.
Tiradentes acompanhou o príncipe nos seus dias faustosos, de volta ao
Rio de Janeiro. Um correio providencial leva ao conhecimento de D. Pedro
as novas imposições das Cortes de Lisboa e ali mesmo, nas margens do
Ipiranga, quando ninguém contava com essa última declaração sua, ele
deixa escapar o grito de “Independência ou Morte!”, sem suspeitar de que
era dócil instrumento de um emissário invisível, que velava pela
grandeza da pátria.
Eis por
que o 7 de setembro, com escassos comentários da história oficial que
considerava a independência já realizada nas proclamações de 1º de
agosto de 1822, passou à memória da nacionalidade inteira como o Dia da
Pátria e data inolvidável da sua liberdade.
Esse
fato, despercebido da maioria dos estudiosos, representa a adesão
intuitiva do povo aos elevados desígnios do mundo espiritual.
Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.
Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.
Digitado
por – Valeria Guida |
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