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O
CORAÇÃO DO MUNDO
Humberto de CampoS
O mundo político e social do Ocidente encontra-se exausto.
Desde as pregações de Pedro, o Eremita, até a morte do Rei Luís IX,
diante de Túnis, acontecimento que colocara um dos derradeiros marcos
nas guerras das Cruzadas, as sombras da idade medieval confundiram as
lições do Evangelho, ensangüentando todas as bandeiras do mundo cristão.
Foi após essa época, no último quartel do século XIV, que o Senhor
desejou realizar uma de suas visitas periódicas à Terra, a fim de
observar os progressos de sua doutrina e de seus exemplos no coração dos
homens.
Anjos
e Tronos lhe formavam a corte maravilhosa. Dos céus à Terra, foi
colocado outro símbolo da escada infinita de Jacob, formado de flores e
de estrelas cariciosas, por onde o Cordeiro de Deus transpôs as imensas
distâncias, clarificando os caminhos cheios de treva. Mas, se Jesus
vinha do coração luminoso das esferas superiores, trazendo nos olhos
misericordiosos a visão dos seus impérios resplandecentes e na alma
profunda o ritmo harmonioso dos astros, o planeta terreno lhe
apresentava ainda aquelas mesmas veredas escuras, cheias da lama da
impenitência e do orgulho das criaturas humanas, e repletas dos espinhos
da ingratidão e do egoísmo. Embalde seus olhos compassivos procuraram o
ninho doce do seu Evangelho; em vão procurou o Senhor os remanescentes
da obra de um de seus últimos enviados à face do orbe terrestre. No
coração da Umbria haviam cessado os cânticos de amor e de fraternidade
cristã. De Francisco de Assis só haviam ficado as tradições de carinho e
de bondade; os pecados do mundo, como novos lobos de Gúbio, haviam
descido outra vez das selvas misteriosas das iniqüidades humanas,
roubando às criaturas a paz e aniquilando-lhes a vida.
- Helil - disse a voz suave e meiga do Mestre a um dos seus mensageiros,
encarregado dos problemas sociológicos da Terra - meu coração se enche
de profunda amargura, vendo a incompreensão dos homens, no que se refere
às lições do meu Evangelho. Por toda parte é a luta fratricida, como
polvo de infinitos tentáculos, a destruir todas as esperanças;
recomendei-lhes que se amassem como irmãos, e vejo-os em C movimentos
impetuosos, aniquilando-se uns aos outros como Cains desvairados.
- Todavia - replicou o emissário solícito, como se desejasse desfazer a
impressão dolorosa e amarga do Mestre - esses movimentos, Senhor,
intensificaram as relações dos povos da Terra, aproximando o Oriente e o
Ocidente, para aprenderem a lição da solidariedade nessas experiências
penosas; novas utilidades da vida foram descobertas; o comércio
progrediu além de todas as fronteiras, reunindo as pátrias do orbe.
Sobretudo, devemos considerar que os príncipes cristãos, empreendendo as
iniciativas daquela natureza, guardavam a nobre intenção de velar pela
paisagem deliciosa dos Lugares Santos.
- Mas - retornou tristemente a voz compassiva do Cordeiro - qual o lugar
da Terra que não é santo? Em todas as partes do mundo, por mais
recônditas que sejam, paira a bênção de Deus, convertida na luz e no pão
de todas as criaturas. Era preferível que Saladino guardasse, para
sempre, todos os poderes temporais na Palestina, a que caísse um só dos
fios de cabelo de um soldado, numa guerra incompreensível por minha
causa, que, em todos os tempos, deve ser a do amor e da fraternidade
universal.
E, como se a sua vista devassasse todos os mistérios do porvir,
continuou:
- Infelizmente, não vejo senão o caminho do sofrimento para modificar
tão desoladora situação. Aos feudos de agora, seguir-se-ão as coroas
poderosas e, depois dessa concentração de autoridade e de poder, serão
os embates da ambição e a carnificina da inveja e da felonia, pelo
predomínio do mais forte.
A amargura divina empolgara toda a formosa assembléia de querubins e
arcanjos. Foi quando Helil, para renovar a impressão ambiente,
dirigiu-se a Jesus com brandura e humildade: _
- Senhor, se esses povos infelizes, que procuram na grandeza material
uma felicidade impossível, marcham irremediavelmente para os grandes
infortúnios coletivos, visitemos os continentes ignorados, onde
espíritos jovens e simples aguardam a semente de uma vida nova. Nessas
terras, para além dos grandes oceanos, poderíeis instalar o pensamento
cristão, dentro das doutrinas do amor e da liberdade.
E a caravana fulgurante, deixando um rastro de luz na imensidade dos
espaços, encaminhou-se ao continente que seria, mais tarde, o mundo
americano.
O Senhor abençoou aquelas matas virgens e misteriosas. Enquanto as aves
lhe homenageavam a inefável presença com seus cantares harmoniosos, as
flores se inclinavam nas árvores ciclópicas, aromatizando-lhe as
eterizadas sendas. O perfume do mar casava-se ao oxigênio agreste da
selva bravia, impregnando todas as coisas de um elemento de força
desconhecida. No solo, eram os silvícolas humildes e simples, aguardando
uma era nova, com o seu largo potencial de energia e bondade.
Cheio de esperanças, emociona-se o coração do Mestre, contemplando a
beleza do sublimado espetáculo.
- Helil - pergunta ele - onde fica, nestas terras novas, o recanto
planetário do qual se enxerga, no infinito, o símbolo da redenção
humana?
- Esse lugar de doces encantos, Mestre, de onde se vêem, no mundo, as
homenagens dos céus aos vossos martírios na Terra, fica mais para o sul.
E, quando no seio da paisagem repleta de aromas e de melodias,
contemplavam as almas santificadas dos orbes felizes, na presença do
Cordeiro, as maravilhas daquela terra nova, que seria mais tarde o
Brasil, desenhou-se no firmamento, formado de estrelas rutilantes, no
jardim das constelações de Deus, o mais imponente de todos os símbolos.
Mãos erguidas para o Alto, como se invocasse a bênção de seu Pai para
todos os elementos daquele solo extraordinário e opulento, exclama então
Jesus:
- Para esta terra maravilhosa e bendita será transplantada a árvore do
meu Evangelho de piedade e de amor. No. Seu solo dadivoso e
fertilíssimo, todos os povos da Terra aprenderão a lei da fraternidade
universal. Sob estes céus serão entoados os hosanas mais ternos à
misericórdia do Pai Celestial. Tu, Hélil, te corporificarás na Terra, no
seio do povo mais pobre e mais trabalhador do Ocidente; instituirás um
roteiro de coragem, para que sejam transpostas as imensidades desses
oceanos perigosos e solitários, que separam o velho do novo mundo.
Instalaremos aqui uma tenda de trabalho para a nação mais humilde da
Europa, glorificando os seus esforços na oficina de Deus. Aproveitaremos
o elemento simples de bondade, o coração fraternal dos habitantes
destas terras novas, e, mais tarde, ordenarei a reencarnação de muitos
Espíritos já purificados no sentimento da humildade e da mansidão, entre
as raças oprimidas e sofredoras das regiões africanas, para formarmos o
pedestal de solidariedade do povo fraterno que aqui florescerá, no
futuro, a fim de exaltar o meu Evangelho, nos séculos gloriosos do
porvir. Aqui, Helil, sob a luz misericordiosa das estrelas da cruz,
ficará localizado o coração do mundo!
Consoante a vontade piedosa do Senhor, todas as suas ordens foram
cumpridas integralmente.
Daí a alguns anos, o seu mensageiro se estabelecia na Terra, em 1394,
como filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, e foi o heróico
Infante de Sagres, que operou a renovação das energias portuguesas,
expandindo as suas possibilidades realizadoras para além dos mares. O
elemento indígena foi chamado a colaborar na edificação da pátria nova;
almas bem-aventuradas pelas suas renúncias se corporificaram nas costas
da África flagelada e oprimida e, juntas a outros Espíritos em prova,
formaram a falange abnegada que veio escrever na Terra de Santa Cruz,
com os seus sacrifícios e com os seus sofrimentos, um dos mais belos
poemas da raça negra em favor da humanidade.
Foi por isso que o Brasil, onde confraternizam hoje todos os povos da
Terra e onde será modelada a obra imortal do Evangelho do Cristo, muito
antes do Tratado de Tordesilhas, que fincou as balizas das possessões
espanholas, trazia já, em seus contornos, a forma geográfica do coração
do mundo.
Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.
Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.
Digitado: Mara Penadez |
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