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OS
ESCRAVOS
Humberto de CampoS
Certo
dia, preparava-se, numa das esferas superiores do Infinito, o encontro
de Ismael com Aquele que será sempre caminho, verdade e vida.
Por
toda parte, abriam-se flores evanescentes, oriundas de um solo de
radiosas neblinas. Luzes policrômicas enfeitavam todas as paisagens
celestes, que se perdiam na incomensurável extensão dos espaços felizes.
Rodeado dos seres santificados e venturosos que constituem a coorte
luminosa de seus mensageiros abnegados, recebeu o Senhor, com a sua
complacência, o emissário dileto do seu amor nas terras do Cruzeiro.
Ismael, porém, não trazia no coração o sinal da alegria. Seus traços
fisionômicos deixavam mesmo transparecer angelical amargura.
-
Senhor – exclama ele – sinto dificuldades para fazer prevaleçam os
vossos desígnios nos territórios onde pairam as vossas bênçãos
dulcificantes. A civilização, que ali se inicia sob os imperativos da
vossa vontade compassiva e misericordiosa, acaba de ser contaminada por
lamentáveis acontecimentos. Os donatários dos imensos latifúndios de
Santa Cruz fizeram-se à vela, escravizando os negros indefesos da
Luanda, da Guiné e de Angola. Infelizmente, os pobres cativos,
miseráveis e desditosos, chegam à pátria do vosso Evangelho como se
fossem animais bravios e selvagens, sem coração e sem consciência.
O
mensageiro, porém, não conseguiu continuar. Soluços divinos lhe
rebentaram de peito opresso, evocando tão amargas lembranças...
O
Divino Mestre, porém, cingindo-o ao seu coração augusto e magnânimo,
explicou brandamente:
-
Ismael, asserena teu mundo íntimo no cumprimento dos sagrados deveres
que te foram confiados. Bem sabes que os homens têm a sua
responsabilidade pessoal nos feitos que realizam em suas existências
isoladas e coletivas. Mas, se não podemos tolher-lhes aí a liberdade,
também não podemos esquecer que existe o instituto imortal da justiça
divina, onde cada qual receberá de conformidade com os seus atos. Havia
eu determinado que a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do
planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões
africanas; todavia, para que essa cooperação fosse efetivada sem o
atrito das armas, aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem
violências de qualquer natureza. A colaboração africana deveria, pois,
verificar-se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas amorosas
determinações. O homem branco da Europa, entretanto, está prejudicado
por uma educação espiritual condenável e deficiente. Desejando
entregar-se ao prazer fictício dos sentidos, procura eximir-se aos
trabalhos pesados da agricultura, alegando o pretexto dos climas
considerados impiedosos. Eles terão a liberdade de humilhar os seus
irmãos, em face da grande lei do arbítrio independente, embora limitado,
instituído por Deus para reger a vida de todas as criaturas, dentro dos
sagrados imperativos da responsabilidade individual; mas, os que
praticarem o nefando comércio sofrerão, igualmente, o mesmo martírio,
nos dias do futuro, quando forem também vendidos e flagelados em
identidade de circunstância. Na sua sede nociva de gozo, os homens
brancos ainda não perceberam que a evolução se processa pela prática do
bem e que todo o determinismo de Nosso Pai deve assinalar-se pelo “amai
o próximo como a vós mesmos”. Ignoram voluntariamente que o mal gera
outros males com um largo cortejo de sofrimentos. Contudo, através
dessas linhas tortuosas, impostas pela vontade livre das criaturas
humanas, operarei com a minha misericórdia. Colocarei a minha luz sobre
essas sombras, amenizando tão dolorosas crueldades. Prossegue com as
tuas renúncias em favor do Evangelho e confia na vitória da Providência
Divina.
Calara-se a voz de Jesus por instantes; mais confortado, Ismael
continuou:
-
Senhor, não teríeis um meio direto de orientar a política dominante, no
sentido de se purificar o ambiente moral da Terra de Santa Cruz?
Ao
que o Divino Mestre ponderou sabiamente:
- Não
nos compete cercear os atos e intenções dos nossos semelhantes e sim
cuidar intensamente de nós mesmos, considerando que cada um será
justiçado na pauta de suas próprias obras. Infelizmente, Portugal, que
representa um agrupamento de espíritos trabalhadores e dedicados,
remanescente dos antigos fenícios, não soube receber as facilidades que
a misericórdia do Supremo Senhor do Universo lhe outorgou nestes últimos
anos. Até aos meus ouvidos têm chegado as súplicas dolorosas das raças
flageladas por sua prepotência e desmesuradas ambições. Na velha
Península já não existe o povo mais pobre e mais laborioso da Europa. O
luxo das conquistas lhe amoleceu as fibras criadoras e todas as suas
preciosas energias e qualidades de trabalho vêm esmorecendo sob o
amontoado de riquezas fabulosas. Entretanto, o tempo é o grande mestre
de todos os homens e de todos os povos, e, se não nos é possível cercear
o arbítrio livre das almas, poderemos mudar o curso dos acontecimentos,
a fim de que o povo lusitano aprenda, na dor e na miséria, as lições
sagradas da experiência e da vida.
Ismael retornou à luta, cheio de fervorosa coragem e os acontecimentos
foram modificados.
Os
donatários cruéis sofreram os mais tristes reveses no solo do Brasil.
Os tupinambás e os Tupiniquins, que se localizavam na
Bahia e haviam recebido Cabral com as melhores expressões de
fraternidade, reagiram contra os colonizadores, transformados, para
eles, em desalmados verdugos. Lutas cruentas desencadearam contra os
brancos, que lhes depravavam os costumes.
A
luxuosa expedição de João de Barros, que se destinava ao Maranhão, mas
que saíra de Lisboa com instruções secretas para conquistar o ouro dos
incas, no Peru, dispersou-se no mar, sofrendo os seus componentes
infinitos martírios e resgatando com elevados tributos de sofrimento as
suas criminosas intenções, na condenável aventura.
Os
tesouros das Índias levaram o povo português à decadência e à miséria,
pela disseminação dos artifícios do luxo e pelas campanhas abomináveis
da conquista, cheias de crueldade e de sangue. A sede de ouro acarretava
o abandono de todos os campos.
A
Casa de Avis, sob cujo reinado se iniciou o tráfico hediondo dos homens
livres, desapareceu para sempre, depois de sucessivos desastres. Após a
derrota de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, o trono caiu nas mãos do
Cardeal D. Henrique e, em 1580, Portugal, exâmine, entrega-se ao domínio
da Espanha, acentuando-se a sua decadência com Filipe II, o mais
fanático e o mais cruel de todos os príncipes da Europa do século XVI.
Na
formação da Pátria do Evangelho, o homem branco alterara os fatores, com
as suas taras estratificadas e com a sua vontade independente; Jesus, no
entanto, alterou os acontecimentos com o seu poder magnânimo e
misericordioso.
Os
filhos da África foram humilhados e abatidos, no solo onde floresciam as
suas bênçãos renovadoras e santificantes; o Senhor, porém, lhes
sustentou o coração oprimido, iluminando o calvário dos seus indizíveis
padecimentos com a lâmpada suave do seu inesgotável amor. Através das
linhas tortuosas dos homens, realizou Jesus os seus grandes e benditos
objetivos, porque os negros das costas africanas foram uma das pedras
angulares do monumento evangélico do Coração do Mundo. Sobre os seus
ombros flagelados, carrearam-se quase todos os elementos materiais para
a organização física do Brasil e, do manancial de humildade de seus
corações resignados e tristes, nasceram lições comovedoras, imunizando
todos os espíritos contra os excessos do imperialismo e do orgulho
injustificáveis das outras nações do planeta, dotando-se a alma
brasileira dos mais belos sentimentos de fraternidade, de ternura e de
perdão.
Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.
Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.
Digitado por: Rita de Cássia Ramos. |
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