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OS DEGREDADOS
Humberto de CampoS
Todos
os espíritos edificados nas lições sublimes do Senhor se reuniram, logo
após o descobrimento da nova terra, celebrando o acontecimento nos
espaços do Infinito. Grandes multidões donairosas e aéreas formavam
imensos hífens de luz, entre a terra e o céu. Uma torrente impetuosa de
perfumes se elevava da paisagem verde e florida, em busca de firmamento,
de onde voltava à superfície do solo, saturada de energias divinas. Nos
ninhos quentes das árvores, pousavam as vibrações renovadoras das
esperanças santificantes, e, no Além, ouviam-se as melodias evocadoras
da Galiléia, ubertosa e agreste antes das lutas arrasadoras das
Cruzadas, que lhe talaram todos os campos, transformando-a num montão de
ruínas. Afigurava-se que a região dos pescadores humildes, que conheceu,
bastante assinalados, os passos do Divino Mestre, se havia transplantado
igualmente para o continente novo, dilatada em seus suaves contornos.
Uma
alegria paradisíaca reinava em todas as almas que comemoravam o advento
da Pátria do Evangelho, quando se fez presente, na assembléia augusta, a
figura misericordiosa do Cordeiro.
Complacente sorriso lhe bailava nos lábios angélicos e suas mãos liriais
empunhavam largo estandarte branco, como se um fragmento de sua alma
radiosa estivesse ali dentro, transubstanciando naquela bandeira de luz,
que era o mais encantador dos símbolos de perdão e de concórdia.
Dirigindo-se um dos seus elevados mensageiros na face do orbe terrestre,
em meio do divino silêncio da multidão espiritual, sua voz ressoou com
doçura:
-
Ismael, manda o meu coração que doravante sejas o zelador dos
patrimônios imortais que constituem a Terra do Cruzeiro. Recebe-a nos
teus braços de trabalhador devotado da minha seara, como a recebi no
coração, obedecendo a sagradas inspirações do Nosso Pai. Reúne as
incansáveis falanges do Infinito, que cooperam nos ideais sacrossantos
de minha doutrina, e inicia, desde já, a construção da pátria do meu
ensinamento. Para aí transplantei a árvore da minha misericórdia e
espero que a cultives com a tua abnegação e com o teu sublimado
heroísmo. Ela será a doce paisagem dilatada do Tiberíades, que os homens
aniquilaram na sua voracidade de carnificina. Guarda este símbolo da paz
e inscreve na sua imaculada pureza o lema da tua coragem e do teu
propósito de bem servir à causa de Deus e, sobretudo, lembra-te sempre
de que estarei contigo no cumprimento dos teus deveres, com os quais
abrirás para a humanidade dos séculos futuros um caminho novo, mediante
a sagrada revivescência do Cristianismo.
Ismael recebe o lábaro bendito das mãos compassivas do Senhor, banhado
em lágrimas de reconhecimento, e, como se entrara em ação o impulso
secreto da sua vontade, eis que a nívea bandeira tem agora uma insígnia.
Na sua branca sustância, uma tinta celeste inscrevera o lema imortal:
“Deus, Cristo e Caridade”. Todas as almas ali reunidas entoam um hosana
melodioso e intraduzível à sabedoria do Senhor do Universo. São
vibrações gloriosas da espiritualidade, que se elevam pelos espaços
ilimitados, louvando o Artista Inimitável e o Matemático Supremo de
todos os sóis e de todos os mundos.
O
emissário de Jesus desce então à Terra, onde estabelecerá a sua oficina.
Os exércitos dos seres redimidos e luminosos lhe seguem a esplêndida
trajetória e, como se o chão do Brasil fosse a superfície de um novo
Hélicon da imortalidade, a natureza, macia e cariciosa, toda se enfeita
de luzes e sombras, de sinfonias e de ramagens odoríferas, preparando-se
para um banquete de deuses.
Os
caminhos agrestes tornam-se sendas de maravilhosa beleza, rasgadas pelas
coortes do invisível.
Nessa
hora, a frota de Cabral foge das águas verdes e fartas da Baía de Porto
Seguro.
Entretanto, nas fitas extensas da praia choram, desesperadamente, os
dois degredados, dos vinte parias sociais que o Rei D. Manuel I
destinara ao exílio.
Os
homens do mar se distanciam daqueles sítios, levando amostras da sua
extraordinária riqueza. Em toda paisagem há um largo ponto de
interrogação, enquanto os dois infelizes se lastimam sem consolo e sem
esperança. Os silvícolas amáveis e fraternos lhes abrem os braços; é dos
seus corações rudes e simples que desabrocham, para a amargura deles, as
flores amigas de um brando conforto.
Mas,
Afonso Ribeiro, um dos condenados ao penoso desterro, avança numa piroga
desprotegida e desmantelada, sem que os olhos da História lhe anotassem
o gesto de profunda desesperação, a caminho do mar alto. Ao longe,
percebem-se ainda os derradeios mastros das caravelas itinerantes. O
infeliz degredado anseia por morrer. Os últimos gemidos abafados lhe
saem da garganta exausta. Seus olhos, inchados de pranto, contemplam as
duas imensidades, a do oceano e a do céu, e, esperando a morte o socorro
bondoso, exclama, do íntimo do coração:
-
Jesus, tende piedade da minha infinita amargura! Enviai a morte ao meu
espírito desterrado. Sou inocente, Senhor, e padeço a tirania da
injustiça dos homens. Mas, se a traição e a covardia me arrebataram da
pátria, afastando dos meus olhos as paisagens queridas e os afetos mais
santos do coração, essas mesmas calúnias não me separaram da vossa
misericórdia!
Nesse
instante, porém, o pobre exilado sente que uma alvorada de luz estranha
lhe nasce no âmago da alma atribulada. Uma esperança nova se apossa de
todas as suas fibras emotivas e, como por delicado milagre, a sua
jangada rústica regressa, celeremente, à praia distante. Em vão as ondas
sinistras e poderosas tentam arrebatá-lo para o oceano largo. Uma força
misteriosa o conduz a terra firme, onde o seu coração encontrará uma
família nova.
Ismael havia realizado o seu primeiro feito nas Terras de Vera Cruz.
Trazendo um náufrago e inocente para a base da sociedade fraterna do
porvir, ele obedecia a sagradas determinações do Divino Mestre.
Primeiramente, surgiram os índios, que eram os simples de coração: em
segundo lugar, chegavam os sedentos da justiça divina e, mais tarde,
viriam os escravos, como a expressão dos humildes e dos aflitos, para a
formação da alma coletiva de um povo bem-aventurado por sua mansidão e
fraternidade. Naqueles dias longínquos de 1500, já se ouviam no Brasil
os ecos acariciadores do Sermão da Montanha.
Livro: “Brasil, Coração do Mundo – Pátria do Evangelho”.
Espírito: Humberto de Campos. Psicografia: Francisco Candido Xavier.
Digitado por: Rita de Cássia Ramos. |
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