Junto da cruz, o
vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indelével impressão. Com o
pensamento ansioso e torturado, olhos fixos ao madeiro das perfídias
humanas, a ternura materna regredia ao passado em amarguradas
recordações. Ali estava o filho bem-amado, na hora extrema.
Maria deixava-se
ir na corrente infinda das lembranças. Eram as circunstâncias
maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade
de Isabel, as profecias do velho Simeão, reconhecendo que a assistência
de Deus se tornara incontestável, nos menores detalhes de sua vida.
Naquele instante supremo, revia a manjedoura, na sua beleza agreste,
sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o
cântico de glória daquela noite inolvidável. Através do véu espesso das
lágrimas, repassou, uma por uma, as cenas da infância do filho
estremecido, observando o alarma interior das mais doces reminiscências.
Nas menores
coisas, reconhecia a intervenção da Providência celestial; entretanto,
naquela hora, seu pensamento vagava também pelo vasto mar das mais
aflitivas interrogações.
Que fizera Jesus
por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos
imaculados, sob o calor de seu coração? Desde os mais tenros anos,
quando o conduzia a fonte tradicional de Nazaré, observava o carinho
fraterno que dispensava a todas as criaturas. Frequentemente, ia
buscá-lo nas ruas empedradas, onde a sua palavra carinhosa consolava os
transeuntes desamparados e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua
casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as
bênçãos do Céu. Com que enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas
mãos minúsculas conduziam a carpintaria de José!... Lembrava-se bem que,
um dia, a divina criança guiara à casa dois malfeitores, publicamente
reconhecidos como ladrões do vale de Mizhep. E era de ver-se a amorosa
solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como
se fossem seus irmãos. Muitas vezes, comentara a excelência daquela
virtude santificada, receando pelo futuro de seu adorável filhinho.
Depois da
cariciosa paisagem doméstica, era a missão celestial, dilatando-se em
colheita de frutos maravilhosos. Eram paralíticos que retomavam os
movimentos da vida, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da
vista, criaturas famintas de luz e de amor que se saciavam na sua lição
de infinita bondade.
Que profundos
desígnios haviam conduzido seu filho adorado cruz do suplicio?
Uma voz amiga lhe
falava ao espírito, dizendo das determinações insondáveis e justas de
Deus, que precisam ser aceitas, para a redenção divina das criaturas.
Seu coração rebentava em tempestades de lagrimas irreprimíveis; contudo,
no santuário da consciência, repetia a sua afirmação de sincera
humildade: “Faça-se na escrava a vontade do Senhor!”
De alma
angustiada, notou que Jesus atingira o último limite dos padecimentos
inenarráveis. Alguns dos populares mais exaltados multiplicam as
pancadas, enquanto as lanças riscavam o ar, em ameaças audaciosas e
sinistras. Ironias mordazes eram proferidas a esmo, dilacerando-lhe a
alma sensível e afetuosa.
Em meio de algumas
mulheres compadecidas que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria
reparou que alguém lhe Pousara as mãos, de leve, sobre os ombros.
Deparou-se-lhe a
figura de João que, vencendo pusilanimidade criminosa em que haviam
mergulhado os demais companheiros lhe estendia os braços amorosos e
reconhecidos Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se aquele
triturado coração maternal Maria deixou-se enlaçar pelo discípulo
querido e ambos, ao pé do madeiro, em gesto súplice, buscaram
ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no cúmulo dos
tormentos Foi aí que a fronte do divino supliciado se moveu
vagarosamente revelando perceber a ansiedade daquelas duas almas em
extremo desalento.
-“Meu filho! Meu
amado filho!..." . Exclamou a mártir, em aflição, frente Serenidade
daquele olhar de melancolia intraduzível
O Cristo pareceu
meditar no auge de suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no
instante derradeiro a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunhão
com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos vigilantes:
-Mãe, eis ai teu
filho!... — E, dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno, ao
apóstolo, disse: — “Filho, eis ai tua mãe!”
Maria envolveu-se
no véu de seu pranto doloroso, mas o grande evangelista Compreendeu que
o Mestre, na sua derradeira lição, ensinava que o amor universal era o
sublime coroamento de sua obra. Entendeu que, no futuro, a claridade do
Reino de Deus revelaria aos homens a necessidade da cessação de todo
egoísmo e que, no santuário de cada coração, deveria existir a mais
abundante cota de amor, não só para o circulo familiar, senão para todos
os necessitados do mundo, e que no templo de cada habitação permaneceria
a fraternidade real, para que a assistência recíproca se praticasse na
Terra, sem serem precisos os edifícios exteriores, consagrados a uma
solidariedade claudicante.
Por muito tempo,
conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, até que o Mestre,
exânime, fosse arrancado à cruz, antes que a tempestade mergulhasse a
paisagem castigada de Jerusalém num dilúvio de sombras.
Após a separação
dos discípulos, que se dispersaram por lugares diferentes, para a
difusão da Boa-Nova, Maria retirou-se para a Batanéia, onde alguns
parentes mais próximos a esperavam com especial carinho.
Os anos começaram
a rolar, silenciosos e tristes, para a angustiada saudade de seu
coração.
Tocada por grandes
dissabores, observou que, em tempo rápido, as lembranças do filho amado
se convertiam em elementos de ásperas discussões entre os seus
seguidores. Na Batanéia, pretendia-se manter uma certa aristocracia
espiritual, por efeito dos laços consangüíneos que ali a prendiam, em
virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém, degladiavam-se os
cristãos e os judeus, com Veemência e acrimônia. Na Galiléia, os antigos
cenáculos simples e amoráveis da natureza estavam tristes e, desertos.
Para aquela mãe
amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Cana se
transformara no vinagre do martírio, o tempo assinalava sempre uma
saudade maior no mundo e uma esperança cada vez mais elevada no
céu.
Sua vida era uma
devoção incessante ao rosário imenso da saudade, às lembranças mais
queridas. Tudo que o passado feliz edificara em seu mundo interior
revivia na tela de suas lembranças, com minúcias somente conhecidas do
amor, e lhe alimentavam a Seiva da vida.
Relembrava, o seu
Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em que o
recebera nos braços maternais, iluminado pelo mais doce mistério.
Figurava-se-lhe escutar ainda o balido das ovelhas que vinham apressadas
acercar-se do berço que se formara de improviso. E aquele primeiro
beijo, feito de carinho e de luz? As reminiscências envolviam a
realidade longínqua de singulares belezas para o seu coração sensível e
generoso. Em seguida, era o rio das recordações desaguando, sem cessar,
na sua alma rica de sentimentalidade e ternura. Nazaré lhe voltava à
imaginação, com as suas paisagens de felicidade e de luz. A casa
singela, a fonte amiga, a sinceridade das afeições, o lago majestoso e,
no meio de todos os detalhes, o filho adorado, trabalhando e amando, no
erguimento da mais elevada concepção de Deus, entre os homens da Terra.
De vez em quando, parecia vê-lo em seus sonhos repletos de esperança.
Jesus lhe prometia o júbilo encantador de sua presença e participava da
caricia de suas recordações.
A esse tempo, o
filho de Zebedeu, tendo presentes as observações que o Mestre lhe fizera
da cruz, surgiu na Batanéia, oferecendo àquele espírito saudoso de mãe o
refúgio amoroso de sua proteção. Maria aceitou o oferecimento, com
satisfação imensa.
E João lhe contou
a sua nova vida. Instalara-se definitivamente em Éfeso, onde as idéias
cristãs ganhavam terreno entre almas devotadas e sinceras. Nunca
olvidara as recomendações do Senhor e, no intimo, guardava aquele titulo
de filiação como das mais altas expressões de amor universal para com
aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e carinhosos.
Maria escutava-lhe
as confidências, num misto de reconhecimento e de ventura.
João continuava a
expor-lhe os seus planos mais insignificantes. Levi-la-ia consigo,
andariam ambos na mesma associação de interesses espirituais. Seria seu
filho desvelado, enquanto que receberia de sua alma generosa a
ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Demorara-se a vir,
explicava o filho de Zebedeu, porque lhe faltava uma choupana, onde se
pudessem abrigar; entretanto, um dos membros da família real de
Adiabene, convertido ao amor do
Cristo, lhe doara uma casinha pobre, ao sul de Éfeso, distando
três léguas aproximadamente da cidade. A habitação simples e pobre
demorava num promontório, de onde se avistava o mar. No alto da pequena
colina, distante dos homens e no altar imponente da Natureza, se
reuniriam ambos para cultivar a lembrança permanente de Jesus.
Estabeleceriam um pouso e refúgio aos desamparados, ensinariam as
verdades do Evangelho a todos os espíritos de boa vontade e, como mãe e
filho, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade universal.
Maria aceitou
alegremente.
Dentro de breve
tempo, instalaram-se no seio amigo da Natureza, em frente do oceano.
Éfeso ficava pouco distante; porém, todas as adjacências se povoavam de
novos núcleos de habitações alegres e modestas. A casa de João, ao cabo
de algumas semanas, se transformou num ponto de assembléias adoráveis,
onde as recordações do Messias eram cultuadas por espíritos humildes e
sinceros.
Maria externava as
suas lembranças. Falava dele com maternal enternecimento, enquanto o
apóstolo comentava as verdades evangélicas, apreciando os ensinos
recebidos. Vezes inúmeras, a reunião somente terminava noite alta,
quando as estrelas tinham maior brilho. E não foi só. Decorridos alguns
meses, grandes fileiras de necessitados acorriam ao sitio singelo e
generoso. A noticia de que Maria descansava agora entre eles espalhara
um clarão de esperança por todos os sofredores. Ao passo que João
pregava na cidade as verdades de Deus, ela atendia, no pobre santuário
doméstico, aos que a procuravam, exibindo-lhes suas úlceras e
necessidades·.
Sua choupana era,
então, conhecida pelo nome de “Casa da Santíssima”.
O fato tivera origem
em certa ocasião, quando um miserável leproso, depois de aliviado em
suas chagas, lhe osculou as mãos, reconhecidamente murmurando:
—“Senhora,
sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe Santíssima”.
A tradição criou
raízes em todos os espíritos. Quem não lhe devia o favor de uma palavra
maternal nos momentos mais duros? E João consolidava o conceito,
acentuando que o mundo lhe seria eternamente grato, pois Fora pela sua
grandeza espiritual que o Emissário de Deus pudera penetrar a atmosfera
escura e pestilenta do mundo para balsamizar os sofrimentos da criatura,
Na sua humildade sincera, Maria se esquivava às homenagens afetuosas dos
discípulos de Jesus, mas aquela confiança filial com que lhe reclamavam
a presença era para sua alma um brando e delicioso tesouro do coração. O
titulo de maternidade fazia vibrar em seu espírito os cânticos mais
doces. Diária mente, acorriam os desamparados, suplicando a sua
assistência espiritual. Eram velhas trôpegas e desenganadas do mundo,
que lhe vinham ouvir as palavras confortadoras e afetuosas, enfermos que
invocavam a sua proteção, mães infortunadas que pediam a bênção de seu
carinho.
—
“Minha mãe
— dizia um dos
mais aflitos
—
como poderei vencer
as minhas dificuldades? Sinto-me abandonado na estrada escura da
vida...”.
Maria lhe enviava o
olhar amoroso da sua bondade, deixando nele transparecer toda a
dedicação enternecida de seu espírito maternal.
—“Isso
também passa!
—
dizia ela,
carinhosamente
—
só o Reino de Deus
bastante forte para nunca passar de nossas almas, Como eterna realização
do amor celestial.”.
Seus conceitos
abrandavam a dor dos mais desesperados, desanuviavam o pensamento
obscuro dos mais acabrunhados.
A igreja de Éfeso
exigia de João a mais alta expressão de sacrifício pessoal, pelo que,
com o decorrer do tempo, quase sempre Maria estava só, quando a
legião humilde dos necessitados descia o promontório desataviado, rumo
aos lares mais confortados e felizes. Os dias e as semanas, os meses e
os anos passaram incessantes, trazendo-lhe as lembranças mais ternas.
Quando sereno e azulado, o mar lhe fazia voltar memória o
Tiberiades distante. Surpreendia no ar alquiles perfumes vagos que
enchiam a alma da tarde, quando seu filho, de quem nem um instante se
esquecia, reunindo os discípulos amados, transmitia ao coração do povo
as louçanias da Boa-Nova. A velhice não lhe acarretara nem cansaços, nem
amarguras. A certeza da proteção divina lhe proporcionava ininterrupto
consolo. Como quem transpõe o dia em labores honestos e proveitosos, seu
coração experimentava grato repouso, iluminado pelo luar da esperança e
pelas estrelas fulgurantes da crença imorredoura. Suas meditações eram
suaves colóquios com as reminiscências do filho muito amado.
Súbito recebeu
noticias de que um período de dolorosas perseguições se havia aberto
para todos os que fossem fiéis à doutrina do seu Jesus divino. Alguns
cristãos banidos de Roma traziam a Éfeso as tristes informações. Em
obediência aos éditos mais injustos, escravizavam-se os seguidores do
Cristo, destruiam-se-lhes os lares, metiam-nos a ferros nas prisões.
Falava-se de festas públicas, em que seus corpos eram dados como
alimento a feras insaciáveis, em horrendos espetáculos.
Então, num
crepúsculo estrelado, Maria entregou-se às orações, como de costume,
pedindo a Deus por todos aqueles que se encontrassem em angústias do
coração, por amor de seu filho.
Embora a
solenidade do ambiente, não se sentia só; uma como força singular lhe
banhava a alma toda. Aragens suaves sopravam do oceano, espalhando os
aromas da noite que se povoava de astros amigos e afetuosos e, em poucos
minutos, a lua plena participava, igualmente, desse concerto de harmonia
e de luz.
Enlevada nas suas
meditações, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte.
— “Minha mãe —
exclamou o recém-chegado, como tantos outros que recorriam ao seu
carinho venho fazer-te companhia e receber a tua bênção”.
Maternalmente, ela
o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que lhe inspirava
profunda simpatia. O peregrino lhe falou do céu, confortando-a
delicadamente Comentou as bem-aventuranças divinas que aguardam a todos
os devotados e sinceros filhos de Deus, dando a entender que lhe
compreendia as mais ternas saudades do coração. Maria sentiu-se
empolgada por tocante surpresa. Que mendigo seria alquile que lhe
acalmava as dores secretas da alma saudosa, com bálsamos tão dulçurosos?
Nenhum lhe surgira até então para dar; era sempre para pedir alguma
coisa. No entanto, aquele viandante desconhecido lhe derramava no intimo
as mais santas consolações. Onde ouvira aquela voz meiga e carinhosa,
noutros tempos?! Que emoções eram aquelas que lhe faziam pulsar o
coração de tanta caricia? Seus olhos se umedeceram de Ventura, sem que
conseguisse explicar a razão de sua terna emotividade.
Foi quando o
hóspede anônimo lhe estendeu as mãos generosas e lhe falou com profundo
acento de amor:
— “Minha mãe, vem
aos meus braços!”.
Nesse instante, fitou as mãos nobres que se lhe
ofereciam, num gesto da mais bela ternura. Tomada de comoção profunda,
viu nelas duas chagas, como as que seu filho revelava na cruz e,
instintivamente, dirigindo o olhar ansioso para os pés do peregrino
amigo, divisou também ai as viceras causadas pelos cravos do suplicio.
Não pode mais. Compreendendo a visita amorosa que Deus lhe enviava ao
coração, bradou com infinita alegria:
— “Meu filho”! meu
filho! as úlceras que te fizeram!...
E, precipitando-se
para ele, como mãe carinhosa e desvelada, quis certificar-se, tocando a
ferida que lhe fora produzida pelo último lançaço, perto do coração.
Suas mãos ternas e solicitas o abraçaram na sombra visitada pelo luar,
procurando sofregamente a úlcera que tantas lagrimas lhe provocara ao
carinho maternal. A chaga lateral também lá estava, sob a caricia de
suas mãos. Não conseguiu dominar o seu intenso júbilo. Num ímpeto de
amor, fez um movimento para se ajoelhar. Queria abraçar-se aos pés do
seu Jesus e osculá-los com ternura. Ele, porém, levantando-se, cercado
de um halo de luz celestial, se lhe ajoelhou aos pés e, beijando-lhe as
mãos, disse em carinhoso transporte:
—“Sim, minha mãe,
sou eu!... Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu reino a
Rainha dos Anjos!...”.
Maria cambaleou,
tomada de inexprimível ventura. Queria dizer da sua felicidade,
manifestar seu agradecimento a Deus; mais, o corpo como que se lhe
paralisara, enquanto aos seus ouvidos chegavam os ecos suaves da
saudação do Anjo, qual se a entoassem mil vozes cariciosas, por entre as
harmonias do céu.
Ao outro dia, dois
portadores humildes desciam a Éfeso, de onde regressaram com João, para
assistir aos últimos instantes daquela que lhes era a devotada Mãe
Santíssima.
Maria já não falava. Numa inolvidável expressão de
serenidade, por longas horas ainda esperou a ruptura dos derradeiros
laços que a prendiam à vida material.
A alvorada desdobrava o seu formoso leque de luz quando
aquela alma eleita se elevou da Terra, onde tantas vezes chorara de
júbilo, de saudade e de esperança. Não mais via seu filho bem-amado, que
certamente a esperaria, com as boas-vindas, no seu reino de amor; mas,
extensas multidões de entidades angélicas a cercavam cantando hinos de
glorificação.
Experimentando a sensação de se estar afastando do mundo,
desejou rever a Galiléia com os seus sítios preteridos. Bastou a
manifestação de sua vontade para que a conduzissem à região do lago de
Genesaré, de maravilhosa beleza. Reviu todos os quadros do apostolado de
seu filho e, só agora, observando do alto a paisagem, notava que o
Tiberíades, em seus contornos suaves, apresentava a forma quase perfeita
de um alaúde. Lembrou-se, então, de que naquele instrumento da Natureza
Jesus cantara o mais belo poema de vida e amor, em homenagem a Deus e à
humanidade. Aquelas águas mansas, filhas do Jordão marulhoso e calmo,
haviam sido as cordas sonoras do cântico evangélico.
Dulcíssimas alegrias lhe invadiam o coração e já a
caravana espiritual se dispunha a partir, quando Maria se lembrou dos
discípulos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abraçar os que
ficariam no vale das sombras, à espera das claridades definitivas do
Reino de Deus. Emitindo esse pensamento, imprimiu novo impulso ás
multidões espirituais que a seguiam de perto. Em poucos instantes, seu
olhar divisava uma cidade soberba e maravilhosa, espalhada sobre colinas
enfeitadas de carros e monumentos que lhe provocavam assombro. Os
mármores mais ricos esplendiam nas magnificentes vias públicas, onde as
liteiras patrícias passavam sem cessar, exibindo pedrarias e peles,
sustentadas por misérrimos escravos. Mais alguns momentos e seu olhar
descobria outra multidão guardada a ferros em escuros calabouços.
Penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, onde centenas de rostos
amargurados retratavam padecimentos atrozes. Os condenados
experimentaram no coração um consolo desconhecido.
Maria se aproximou de um a um, participou de suas
angústias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança.
Sentiu-se mãe daquela assembléia de torturados pela injustiça do mundo.
Espalhou a caridade misericordiosa de seu espírito entre aquelas
fisionomias pálidas e tristes. Eram anciães que confiavam no Cristo,
mulheres que por ele haviam desprezado conforto do lar, jovens que
depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes
o coração e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos
espíritos abatidos uma lembrança perene. Que possuía para lhes dar?
Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que
com ele todo jugo é suave e todo tardo seria leve, parecendo-lhe melhor
a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo.
Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder
incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogou ao Céu que lhe
desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da
alegria. Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto
descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:
— “Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!... Convertamos
as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!..”
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê
da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos
extáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades
poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo
e enternecido amor a Jesus, em que traduzia a sua gratidão pelas dores
que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em
consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a instantes, seu canto
melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no
cárcere, aguardando o glorioso testemunho.
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a
bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros,
os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo
e a sua alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima.
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Por essa razão, irmãos meus, quando ouvirdes o cântico
nos templos das diversas famílias religiosas do Cristianismo, não vos
esqueçais de fazer no coração um brando silêncio, para que a Rosa
Mística de Nazaré espalhe aí o seu perfume!
maravilhas do
santuário, antes alguns minutos de internar-se pelas estradas banhadas
de sol, a caminho de sua Galiléia distante.
Dai a algum tempo,
depois de haver passado por Nazaré, descansando igualmente em Cana,
Jesus se encontrava nas circunvizinhanças da cidadezinha de Cafarnaurn,
como se procurasse, com viva atenção, algum amigo que estivesse sua
espera.
Em breves
instantes, ganhou as margens do Tiberiades e se dirigiu, resolutamente,
a um grupo alegre de pescadores, como se, de antemão, os conhecesse a
todos.
A manhã era bela,
no seu manto diáfano de radiosas neblinas. As águas transparentes vinham
beijar os eloendros da praia, como se brincassem ao sopro das virações
perfumadas da Natureza. Os pescadores entoavam uma cantiga rude e,
dispondo inteligentemente as barcaças móveis, deitavam as redes, em meio
de profunda alegria.
Jesus aproximou-se
do grupo e, assim que dois deles desembarcaram em terra, falou-lhes com
amizade:
Simão e André,
filhos de Jonas, venho da parte de Deus e vos convido a trabalhar pela
instituição de seu reino na Terra!
André lembrou-se
de já o ter visto, nas cercanias de Betsaida e do que lhe haviam dito a
seu respeito, enquanto que Simão, embora agradavelmente surpreendido, o
contemplava, enleado. Mas,quase a um só tempo, dando expansão aos seus
temperamentos acolhedores e sinceros, exclamariam, respeitosamente:
— Sede
benvindo!...
Jesus então lhes
falou docemente do Evangelho, com o olhar incendido de júbilos divinos.
Estando muitos
outros companheiros do lago a observar de longe os três, André,
manifestando a sua tocante ingenuidade exclamou comovido:
— Um rei? Mas em
Cafarnaum existem tão poucas casas!...
Ao que Pedro
obtemperou, como se a boa vontade devesse suprir todas as deficiências:
— O lago é muito
grande e há várias aldeias circundando estas águas.. O reino poderá
abrangê-las todas!.
Isso dizendo,
fixou em Jesus o olhar perquiridor, como se fora uma grande criança
meiga e sincera, desejosa de demonstrar compreensão e bondade. O Senhor
esboçou um sorriso sereno e, como se adiasse com prazer as suas
explicações para mais tarde, inquiriu generosamente:
— Quereis ser meus
discípulos?
André e Simão se
interrogaram a si mesmos, permutando sentimentos de admiração embevecida
Refletia Pedro: que homem seria aquele? onde já lhe escutara o timbre
carinhoso da voz intima e familiar? Ambos os pescadores se esforçavam
por dilatar o domínio de suas lembranças, de modo a encontrá-lo nas
recordações mais queridas. Não sabiam, porém, como explicar aquela fonte
de confiança e de amor que lhes brotava no âmago do espírito e, sem
hesitarem, sem uma sombra de dúvida, responderam simultaneamente.
— Senhor,
seguiremos os teus passos.
Jesus os abraçou
com imensa ternura e, como os demais companheiros se mostrassem
admirados e trocassem entre si ditérios ridicularizadores, o Mestre,
acompanhado de ambos e de grande grupo de curiosos, se encaminhou para o
centro de Cafarnaum, onde se erguia a Intendência de Antipas. Entrou
calmamente na coletoria e, avistando um funcionário culto, conhecido
publicano da cidade, perguntou-lhe:
— Que fazes tu,
Levi?
O interpelado fixou-o com surpresa; mas, seduzido
pelo suave magnetismo de seu olhar, respondeu sem demora:
—
Recolho os impostos
do povo, devidos a Herodes.
—
Queres vir comigo
para recolher os bens do céu?
—
Perguntou-lhe Jesus, com firmeza e doçura.
Levi, que seria
mais tarde o apóstolo Mateus, sem que pudesse definir as santas emoções
que lhe dominaram a alma, atendeu comovido:
— Senhor, estou
pronto!...
— Então, vamos. —
Disse Jesus, abraçando-o.
Em seguida, o
numeroso grupo se dirigiu para a casa de Simão Pedro, que oferecera ao
Messias acolhida sincera em sua residência humilde, onde o Cristo fez
a primeira exposição de sua consoladora doutrina, esclarecendo que a
adesão desejada era a do coração sincero e puro, para sempre,às
claridades do seu reino. Iniciou-se naquele instantea eterna união dos
inseparáveis companheiros.
Na tarde desse
mesmo dia, o Mestre fez a primeira pregação da Boa-Nova na praça ampla
cercada de verdura e situada naturalmente junto às águas.
No céu, vibravam
harmonias vespertinas, como se a tarde possuísse também uma alma
sensível. As arvores vizinhas acenavam os ramos verdes ao vento do
crepúsculo, como mãos da Natureza que convidassem os homens celebração
daquele primeiro ágape. As aves ariscas pousavam de leve nas
alcaparreiras mais próximas, como se também desejassem senti-lo, e na
praia extensa se acotovelava a grande multidão de pescadores rústicos,
de mulheres aflitas por continuadas flagelações, de crianças sujas e
abandonadas, misturados publica aos pecadores com homens analfabetos e
simples que haviam acorrido, ansiosos por ouvi-lo.