A condenação das riquezas se firmara no espírito dos
discípulos com profundas raízes, a tal ponto que, por várias vezes, foi
Jesus obrigado a intervir, de maneira a pôr termo a contendas
injustificáveis.
De vez em quando, Tadeu parecia querer impor aos
assistentes das pregações do lago a entrega de todos os bens aos
necessitados; Felipe não vacilava em afiançar que ninguém deveria
possuir mais que uma camisa, constituindo uma obrigação tudo dividir com
os infortunados, privando-se cada qual do indispensável à vida.
– E quando o pobre nos surge somente nas aparências? –
replicava judiciosamente Levi – Conheço homens abastados que choram na
coletoria de Cafarnaum, como miseráveis mendigos, apenas com o fim de se
eximirem dos impostos. Sei de outros que estendem as mãos à caridade
pública e são proprietários de terras dilatadas. Estaríamos edificando o
Reino de Deus, se, favorecêssemos a exploração?
– Tudo isso é verdade. – Redargüia Simão Pedro. –
Entretanto, Deus nos inspirará sempre, nos momentos oportunos, e não é
por essa razão que deveremos abandonar os realmente desamparados.
Levi, porém, não se dava por vencido e retrucava:
– A necessidade sincera deve ser objeto incessante de
nosso carinhoso interesse; mas, em se tratando dos falsos mendigos, é
preciso considerar que a palavra de Deus nos tem vindo pelo Mestre, que
nunca se cansa de nos aconselhar vigilância. É imprescindível não
viciarmos o sentimento de piedade, ao ponto de prejudicarmos os nossos
irmãos no caminho da vida.
O antigo cobrador de impostos supunha, assim, a sua
maneira de ver ; mas Felipe, agarrando-se à letra dos ensinos, replicava
com ênfase:
– Continuarei acreditando que é mais fácil a passagem de
um camelo pelo fundo de uma agulha do que a entrada de um rico no Reino
do Céu.
Jesus não participava dessas discussões, porém, sentia as
dúvidas que pairavam no corarão dos discípulos e, deixando-os entregues
ao seus raciocínios próprios, aguardava oportunidade para um
esclarecimento geral.
***
Passava-se o tempo e as pequenas controvérsias
continuavam acesas.
Chegara, porém, o dia em que o Mestre se ausentaria da
Galiléia para a derradeira viagem a Jerusalém. A sua última ida a
Jericó, antes do suplício, era aguardada cora curiosidade imensa.
Grandes multidões se apinhavam nas estradas.
Um publicano abastado, de nome Zaqueu, conhecia o renome
do Messias e desejava vê-la. Chefe prestigioso na sua cidade, homem rico
e enérgico, Zaqueu era, porém, de pequena estatura, tanto assim que,
buscando satisfazer ao seu desejo ardente, procurou acomodar-se sobre um
sicômoro, levado pela ansiosa expectativa com que esperava a passagem de
Jesus. Coração inundado de curiosidade e de sensações alegres, o chefe
publicano, ao aproximar-se o Messias, admirou-lhe o porte nobre e
simples, sentindo-se magnetizado pela sua indefinível simpatia.
Altamente surpreendido, verificou que o Mestre estacionara a seu lado e
lhe dizia com acento íntimo :
– Zaqueu, desce dessa árvore, porque hoje necessito de
tua hospitalidade e de tua companhia.
Sem que pudesse traduzir o que se passava em seu coração,
o publicano de Jericó desceu de sua improvisada galeria, possuído de
imenso júbilo.
Abraçou a Jesus com prazer espontâneo e ordenou tôdas as
providências para que o querido hóspede e sua comitiva fossem recebidos
em casa com a maior alegria. O Mestre deu o braço ao publicano e
escutava atento as suas observações mais insignificantes, com grande
escândalo da maioria dos discípulos. “Não se tratava de um rico que
devia ser condenado?” Perguntava. Felipe a si próprio.
E Simão Pedro refletia intimamente : – “Como justificar
tudo isto, se Zaqueu é um homem de dinheiro e pecador perante a lei?”
A breves instantes, porém, toda a comitiva perpetrava na
residência do publicano, que não ocultava o seu contentamento
inexcedível. Jesus lhe seduzira as atenções, tocando-lhe as fibras mais
íntimas do Espírito, com a sua presença generosa. Tratava-se de um
hóspede bem-amado, que lhe ficaria eternamente no coração.
Aproximava-se o crepúsculo, quando Zaqueu mandou oferecer
uma leve refeição a todo o povo, em sinal de alegria, sentando-se com
Jesus e os seus discípulos sob um vasto alpendre. A palestra versava
sobre a nova doutrina e, sabendo que o Mestre não perdia ensejo de
condenar as riquezas criminosas do mundo, o publicano o esclarecia, com
toda a sinceridade de sua alma :
– Senhor, é verdade que tenho sido observado como um
homem de vida reprovável; mas, desde muitos anos, venho procurando
empregar o dinheiro de modo que represente benefícios para todos os que
me rodeiem na vida. Compreendendo Que aqui em Jericó havia muitos pais
de família sem trabalho, organizei múltiplos serviços de criação de
animais e de cultivo incessante da terra. Até de Jerusalém, muitas
famílias já vieram buscar, em meus trabalhos, o indispensável recurso à
vida!...
– Abençoado seja o teu esforço! – Replicou Jesus, cheio
de bondade.
Zaqueu ganhou novas forças e murmurou:
– Os servos de minha casa nunca me encontraram sem a
sincera disposição de servi-los.
– Regozijo-me contigo – exclamou o Messias – porque todos
nós somos servos de Nosso Pai.
O publicano, que tantas vezes fora injustamente acusado,
experimentou grande satisfação. A palavra de Jesus era uma recompensa
valiosa à sua consciência dedicada ao bem coletivo. Extasiado,
levantou-se e, estendendo ao Cristo as mãos, exclamou alegremente :
– Senhor, Senhor, tão profunda é a minha alegria, que
repartirei hoje com todos os necessitados a metade dos meus bens e se
nalguma coisa tenho prejudicado a alguém, indenizá-lo-ei,
quadruplicadamente!...
Jesus o abraçou com um formoso sorriso e respondeu :
– Bem-aventurado és tu que agora contemplas em tua, casa
a verdadeira salvação.
Alguns dos discípulos, notadamente Felipe e Simão, não
conseguiam ocultar as suas deduções desagradáveis. Mais ou menos
aterrados às leis judaicas e atentando somente no sentido literal das
lições do Messias, estranhavam aquela afabilidade de Jesus, aprovando os
atas de um rico do mundo, confessadamente publicano e pecador. E, como o
dono da casa se ausentasse da reunião por alguns minutos, afim de
providenciar sobre a vinda de seus filhos para conhecerem o Messias,
Pedro e outros prorromperam numa chuva de pequeninas perguntas: Por que
tamanha aprovação a um rico mesquinho? As riquezas não eram condenadas
pelo Evangelho do Reino? Por que não se hospedaram numa casa humilde e
sim naquela vivenda suntuosa, em contraposição aos ensinos da humildade?
Poderia alguém servir a Deus e ao mundo de pecados?
O Mestre deixou que cessassem as interrogações e
esclareceu, com generosa firmeza :
– Amigos, acreditais, porventura, que o Evangelho tenha
vindo ao mundo para, transformar todos os homens em miseráveis mendigos?
Qual a esmola maior: a que socorre as necessidades de um dia ou a que
adota providências para uma vida inteira?
No mundo vivem os que entesouram na terra e os que
entesouraram no céu. Os primeiros escondem suas possibilidades no cofre
da ambição e do egoísmo e, por vezes, atiram moedas douradas ao faminto
que passa, procurando livrar-se de sua presença; os segundos ligam suas
existências a vidas numerosas, fazendo de seus servos e dos auxiliares
de esforços a continuação de sua própria família.
Estes últimos sabem empregar o sagrado depósito de Deus e
são seus mordomos fiéis, à face do mundo.
Os apóstolos ouviam-no espantados. Felipe, desejoso de se
justificar, depois da argumentação incisiva do Cristo, exclamou:
– Senhor, eu não compreendia bem, porque trazia o meu
pensamento fixado nos pobres que a vossa bondade nos ensinou a amar.
– Entretanto, Felipe – elucidou o Mestre – é necessário
não nos perdermos em viciações do sentimento. Nunca ouviste falar numa
terra pobre, numa arvore pobre, em animais desamparados? E, acima de
tudo, nesses quadros da natureza a que Zaqueu procura atender, não vês o
homem, nosso irmão? Qual será o mais infeliz: o mendigo sem
responsabilidade, a não ser a de sua própria manutenção, ou de pai
carregado de filhinhos a lhe pedirem pão?
Como André o observasse, com grande brilho nos olhos,
maravilhado com as suas explicações, o Mestre acentuou:
– Sim, amigos! ditosos os que repartirem os seus bens com
os pobres; mas, bem-aventurados também os que consagrarem suas
possibilidades aos movimentos da vida, cientes de que o mundo é um
grande necessitado, e que sabem, assim, servir a Deus com as riquezas
que lhes foram confiadas!
***
Em seguida, Zaqueu mandou servir uma grande mesa ao
Senhor e aos discípulos, onde Jesus partiu o pão, partilhando do
contentamento geral. Impulsionado por um júbilo insopitável, o chefe
publicano de Jericó apresentou seus filhos a Jesus e mandou que seus
servos festejassem aquela noite memorável para o seu coração.
Nos terreiros amplos da casa, crianças e velhos felizes
cantaram hinos de cariciosa ventura, enquanto jovens em grande número
tocavam flautas, enchendo de harmonias o ambiente.
Foi então que Jesus, reunidos todos, contou a formosa
parábola dos talentos, conforme a narrativa dos apóstolos, e foi também
que, pousando enternecido e generoso olhar sobre a figura de Zaqueu,
seus lábios divinos pronunciaram as imorredouras palavras: –
“Bem-aventurado sejas tu, servo bom e fiel!”
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido
Xavier.