Curada pelo Mestre Divino, a sogra de Simão Pedro ficara
maravilhada com os poderes ocultos do Nazareno humilde, que falava em
nome de Deus, enlaçando os corações com a sua fé profunda e ardente.
Restabelecida em sua saúde, passou a reflexionar mais atentamente acerca
do Pai que está nos céu-, sempre proveito a atender às súplicas dos
filhos. Chamando certo dia o genro para um exame detido do assunto,
consultou-o sobre a possibilidade de pedirem a Jesus favores
excepcionais para a sua família. Lembrava-lhe a circunstância de ser o
Mestre um emissário poderoso do Reino de Deus que parecia muito próximo.
Concitava-o a ponderar ao Messias que eles eram dos seus primeiros
colaboradores sinceros e a enumerar-lhe as necessidades prementes da
família, a exigüidade do dinheiro, o peso dos serviços domésticos, a
casa pobre de recursos, situação a que as imensas possibilidades de
Jesus, cheio de poderes prodigiosos, seriam capazes de remediar.
O pescador simples e generoso, tentado em seus
sentimentos humanos, examinou aquelas observações destinadas a lhe abrir
os olhos com referência ao futuro. Entretanto, refletiu que Jesus era
Mestre e nunca desprezava qualquer ensejo de bem ensinar o que era
realmente proveitoso aos discípulos. Acaso, não saberia ele o melhor
caminho? Não viam em sua presença alguma coisa da própria presença de
Deus? Guardando, contudo, indeciso o espírito, em face das ponderações
familiares, buscou uma oportunidade de falar com o Messias acerca do
assunto.
***
Chegada que foi a ocasião, o apóstolo procurou provocar
muito de leve a solução do problema, perguntando a Jesus, com a sua
sinceridade ingênua:
– Mestre, será que Deus nos ouve tôdas as orações?
– Como não, Pedro? – respondeu Jesus solicitamente –
Desde que começou a raciocinar, observou o homem que acima de seus
poderes reduzidos, havia um poder ilimitado, que lhe criara o ambiente
da vida. Tôdas as criaturas nascem com tendência para o mais alto e
experimentam a necessidade de comungar com êsse plano elevado, donde o
Pai nos acompanha com o seu amor, todo justiça e sabedoria, onde as
preces dos homens o procuram sob nomes diversos. Acreditarias, Simão,
que, em todos os séculos da vida humana, recorreriam as almas,
incessantemente, a uma porta silenciosa e inflexível, se nenhum
resultado obtivessem?... Não tenhas dúvida : tôdas as nossas orações são
ouvidas!...
– No entanto – exclamou respeitoso o discípulo – se Deus
ouve as súplicas de todos os seres, por que tamanha diferenças na sorte?
Por que razão sou obrigado a pescar para prover à subsistência, quando
Levi ganha bom salário no serviço dos impostos, com a sabedoria dos
livros? Como explicar que Joana disponha de servas numerosas, quando
minha mulher é obrigada a plantar e cuidar a nossa horta?
Jesus ouviu atento essas suas palavra e retrucou :
– Pedro, precisamos não esquecer que o mundo pertence a
Deus e que todos somos seus servidores. Os trabalhos variam, conforme a
capacidade do nosso esforço. Hoje pescas, amanhã pregarás a palavra
divina do Evangelho. Todo trabalho honesto é de Deus. Quem escreve com a
sabedoria dos pergaminhos não é maior do que aquele que traça a leira
laboriosa e fértil, com a sabedoria da terra. O escriba sincero, que
cuida dos dispositivos da lei, é irmão do lavrador bem intencionado que
cuida do sustento da vida. Um cultiva as flores do pensamento, outro as
do trigal que o Pai protege abençoa. Achas que uma casa estaria completa
sem as mãos abnegadas que lhe varrem os detritos?
Se todos os filhos de Deus se dispusessem a cobrar
impostos, quem os pagaria? Vês, portanto, que, antes de qualquer
consideração, é preciso santificar todo trabalho útil, como quem sabe
que o mundo é morada de Deus.
“Já pensaste que, se a tua esposa cuida das plantas de
tua horta, Joana de Cuza educa as suas servas?! A qual das duas cabe
responsabilidade maior, à tua mulher que cultiva os legumes, ou à nossa
irmã que tem algumas filhas de Deus sob sua proteção? Quem poderá
garantir que Joana terá essa, responsabilidade por toda a vida? No
mundo, há grandes generais que apesar das suas vitórias passam também
pelas duras experiências de seus soldados. Assim, Pedro, precisamos
considerar, em definitivo, que somos filhos e servos de Deus, antes de
qualquer outro título convencional, dentro da vida humana. Necessário é,
pois,que disponhamos o nosso coração a bem servi-lo, seja como rei ou
como escravo, certos de que o Pai nos conhece a todos e nos conduz ao
trabalho ou à posição que mereçamos.”
O discípulo ouvindo aquelas explicações judiciosas e,
confortado com os esclarecimentos recebidos, interrogou :
– Mestre, como deveremos interpretar a oração?
– Em tudo – elucidou Jesus – deve a oração construir o
nosso recurso permanente de comunhão ininterrupta com Deus ; Nesse
intercâmbio incessante, as criaturas devem apresentar ao Pai, no segredo
das íntimas aspirações, os seus anelos e esperanças, dúvidas e
amargores. Essas confidencias lhes atenuarão os cansaços do mundo,
restaurando-lhes as energias, porque Deus lhes concederá de sua luz. É
necessário, portanto, cultivar a prece, para que ela se torne um
elemento natural da vida, como a respiração. É indispensável conheçamos
o meio seguro de nos identificarmos com o Nosso Pai.
“Entretanto, Pedro, observamos que os homens não se
lembram do céu, senão nos dias de incerteza e angústia do coração. Se a
ameaça é cruel e iminente o desastre, se a morte do corpo é
irremediável, os mais fortes dobram os joelhos ; Mas, quanto não deverá
sentir-se o Pai amoroso e leal de que somente o procurem os filhos nos
momentos do infortúnio, por eles criados com as suas próprias mãos? Em
face do relaxamento dessas relações sagradas, por parte dos homens,
indiferentes ao carinho paternal da Providência que tudo lhes concede de
útil e agradável, improfìcuamente desejará o filho uma solução imediata
para as suas necessidades e problemas, sem remediar ao longo afastamento
em que se conservou do Pai no percurso, postergando-Lhe os desígnios,
respeito às suas questões íntimas e profundas.”
Simão Pedro ouvia o Mestre com uma compreensão nova. Não
podia apreender a amplitude daqueles conceitos que transcendiam o âmbito
da educação que recebera, mas procurava perceber o alcance daquelas
elucidações, afim de cultivar o intercâmbio perfeito com o Pai sábio e
amoroso, cuja assistência generosa Jesus revelara, dentro da luz dos
seus Divinos ensinamentos.
***
Decorridos alguns dias, estando o Mestre a ensinar aos
companheiros uma nova lição referente ao impulso natural da prece, Simão
lhe observou:
– Senhor, tenho procurado, por todos os modos, manter
inalterável a minha comunhão com Deus, mas não tenho alcançado o
objetivo de minhas súplicas.
– E o que tens pedido a Deus? – Interrogou o Mestre, sem
se perturbar.
– Tenho implorado à sua bondade que aplaine os meus
caminhos, com a solução de certos problemas materiais.
Jesus contemplam longamente o discípulo, como se
examinasse a fragilidade dos elementos intelectuais de que podia dispor
para a realização da obra evangélica. Contudo, evidenciando mais uma vez
o seu profundo amor e boa vontade, esclareceu com brandura e convicção:
– Pedro, enquanto orares pedindo ao Pai a satisfação de
teus desejos e caprichos, é possível que te retires da prece inquieto e
desalentado. Mas, sempre que solicitares as bênçãos de Deus, afim de
compreenderes a sua vontade justa e sábia, a teu respeito,
receberás,pela oração os bens divinos do consolo e da paz.
O apóstolo guardou silêncio, demonstrando haver, afinal,
compreendido. Um dos filhos de Alfeu, porém, reconhecendo que o assunto
interessava sobremaneira à pequena comunidade ali reunida, adiantou-se
para Jesus, pedindo :
– Senhor, ensina-nos a orar!...
Dispondo-os então em círculo e como se mergulhasse o
pensamento num invisível oceano de luz, o Messias pronunciou, pela
primeira vez, a oração que legaria à humanidade.
Elevando o seu espírito magnânimo ao Pai Celestial e
colocando o seu amor acima de todas as coisas, Jesus nos ensinou a orar:
- “Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu
nome.”
E, ponderando que a redenção da criatura nunca se poderá
efetuar sem a misericórdia do Criador, considerada a imensa bagagem das
imperfeições humanas, continuou:
- “Venha a nós o teu reino.”
Dando a entender que a vontade de Deus, amorosa e justa,
deve cumprir-se em todas as circunstâncias, acrescentou:
- “Seja feita a tua vontade, assim na Terra como nos
céus,”
Esclarecendo que todas as possibilidades de saúde,
trabalho e experiência chegam invariavelmente, para os homens, da fonte
sagrada da proteção divina, prosseguiu:
- “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.”
Mostrando que as criaturas estão sempre sob a ação da lei
de compensações e que cada uma precisa desvencilhar-se das penosas
algemas obscuro pela exemplificação sublime do amor, acentuou:
- “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos
aos nossos devedores.”
Conhecedor, porém, das fragilidades humanas, para
estabelecer o princípio da luta eterna dos cristãos contra o mal,
terminou a sua oração, dizendo com simplicidade:
- “Não nos deixes cair em tentação e livra-nos de todo o
mal, porque teus são o reino, o poder e a glória para sempre”.
“Assim seja.”
Levi, o mais intelectual dos discípulos, tomou nota das
sagradas palavras, para que a prece do Senhor fosse guardada em seus
corações humildes e simples. A rogativa de Jesus continha, em síntese,
todo o programa de esforço e edificação do Cristianismo nascente. Desde
aquele dia memorável, a oração singela de Jesus se espalhou como um
perfume dos céus pelo mundo inteiro.
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido
Xavier.