O ato do Messias, lavando os pés de seus discípulos,
encontrou certa incompreensão da parte de Simão Pedro. O velho pescador
não concordava com semelhante ato de extrema submissão. E, chegada a sua
vez, obtemperou, resoluto:
– Nunca me lavareis os pés, Mestre; meus companheiros
estão sendo ingratos e duros neste instante, deixando-vos praticar êsse
gesto, como se fôsseis um escravo vulgar.
Em seguida a essas palavras, lançou à assembléia um olhar
de reprovação e desprezo, enquanto Jesus lhe respondia:
– Simão, não queiras ser melhor que os teus irmãos de
apostolado, em nenhuma circunstância da vida. Em verdade, assevero-te
que, sem o meu auxílio, não participarás com o meu espírito das alegrias
supremas da redenção.
O antigo pescador de Cafarnaum aquietou-se um pouco,
fazendo calar a voz de sua generosidade quase infantil.
Terminada a lição e retomando o seu lugar à mesa, o
Mestre parecia meditar gravemente. Logo após, todavia, dando a entender
que sua visão espiritual devassava os acontecimentos do futuro,
sentenciou :
– Aproxima-se a hora do meu derradeiro testemunho! Sei,
por antecipação, que todos vós estareis dispersados nesse instante
supremo.É natural, porquanto ainda não estais preparados senão para
aprender. Antes, porém, que eu parta, quero deixar-vos um novo
mandamento, o de amar-vos uns aos outros como eu vos tenho amado ; que
sejais conhecidos como meus discípulos, não pela superioridade no mundo,
pela demonstração de poderes espirituais, ou pelas vestes que envergueis
na vida, mas pela revelação do amor com que voa amo, pela humildade que
deverá ornar as vossas almas, pela boa disposição no sacrifício próprio.
Vendo que Jesus repetia uma vez mais aquelas
recomendações de despedida, Pedro, dando expansão ao seu temperamento
irrequieto,
adiantou-se, indagando :
– Afinal, Senhor, para onde ides?
O Mestre lhe lançou um olhar sereno, fazendo-lhe sentir o
interesse que lhe causava a sua curiosidade e redargüiu :
– Ainda não te encontras preparado para seguir-me. O
testemunho é de sacrifício e de extrema abnegação e somente mais tarde
entrarás na posse da fortaleza indispensável.
Simão, no entanto, desejando provar por palavras aos
companheiros o valor da sua dedicação, acrescentou, com certa ênfase, ao
propósito de se impor à confiança do Messias :
– Não posso seguir-vos? Acaso, Mestre, podereis duvidar
de minha coragem? Então, não sou um homem? Por vós darei a minha própria
vida.
O Cristo sorriu e ponderou :
– Pedro, a tua inquietação se faz credora de novos
ensinamentos. A experiência te ensinará melhores conclusões, porque, em
verdade, te afirmo que esta noite o galo não cantará, sem que me tenhas
negado por três vezes.
– Julgais-me, então, um espírito mau e endurecido a êsse
ponto? – Indagou o pescador, sentindo-se ofendido.
– Não, Pedro – adiantou o Mestre, com doçura – não te
suponho ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas, vais aprender,
ainda hoje, que o homem do mundo é mais frágil do que perverso.
***
Pedro não quis acreditar nas afirmações do Messias e tão
logo se verificara a sua prisão, no pressuposto de demonstrar o seu
desassombro e boa disposição para a defesa do Evangelho do Reino, atacou
com a espada um dos servos do sumo sacerdote de Jerusalém, compelindo o
Mestre a mais severas observações. Consoante as afirmativas de Jesus, o
colégio dos apóstolos se dispersara, naquele momento de supremas
resoluções. A humildade com que o Cristo se entregava desapontara a
alguns deles, que não conseguiam compreender a transcendência daquele
Reino de Deus, sublimado e distante.
Pedro e João, observando que a detenção do Mestre pelos
emissários do templo era fato consumado, combinaram, entre si,
acompanhar, de longe, o grupo que se afastava, conduzindo o Messias.
Debalde, procuraram os demais companheiros que, receosos da perseguição,
haviam debandado.
Ambos, no entanto, desejavam prestar a Jesus o auxílio
necessário. Quem sabe poderiam encontrar um recurso de salvá-lo? Era
mister certificar-se de tôdas as ocorrências. Mobilizariam suas humildes
relações em Jerusalém, a favor do Mestre querido. Compreendiam a
extensão do perigo e as ameaças que lhes s pesavam sobre a fronte. De
incitante a instante, eram surpreendidos por homens do povo que, em
palestra de caminho, acusavam a Jesus de feiticeiro e herético.
A noite caíra sobre a cidade ..
Os dois discípulos observaram que a expedição de servos e
soldados chegava à residência de Caifaz, onde o Cristo foi recolhido a
uma cela úmida, cujas grades davam para um pátio extenso.
O prisioneiro fora trancafiado, por entre zombarias e
impropérios. Ao grupo reduzido, juntava-se agora a massa popular, então
em pleno alvoroço festivo, nas comemorações da Páscoa. O pátio amplo foi
invadido por uma aluvião de pessoas alegres.
Pedro e João compreenderam que as autoridades do Templo
imprimiam caráter popular ao movimento de perseguição ao Messias,
vingando-se de sua vitória na entrada triunfal em Jerusalém, como uma
nova esperança para o coração dos desalentados e oprimidos.
Depois de ligeiro entendimento, o filho de Zebedeu voltou
a Betânia, afim de colocar a mãe de Jesus ao corrente dos fatos,
enquanto Pedro se misturava à aglomeração, de maneira a observar em que
poderia ser útil ao Messias.
O ambiente estava já preparado pelo farisaísmo para os
tristes acontecimentos do dia imediato. Em tôdas as rodas, falava-se do
Cristo como de um traidor ou revolucionário vulgar. Alguns comentadores
mais exaltados o denunciavam como ladrão. Ridicularizava-se o seu
ensinamento, zombava-se de sua exemplificação e não faltavam os que
diziam, em voz alta, que o Profeta Nazareno havia chegado à cidade
chefiando um bando de salteadores.
O velho pescador de Cafarnaum sentiu a hostilidade com
que teria de lutar, afim de socorrer o Messias, e experimentou um frio
angustioso no coração. Sua resolução parecia vencida. A alma ansiosa se
deixava dominar por dúvidas e aflições. Começou a pensar nos seus
familiares, em suas necessidades comuns, nas convenções de Jerusalém que
ele não poderia afrontar sem pesados castigos. Com o cérebro fervilhando
de expectativas e cogitações de defesa própria, penetrou no pátio
extenso, onde se adensava a multidão.
Para logo, uma das servas da casa se aproximou dele e
exclamou, surpreendida:
– Não és tu um dos companheiros deste homem? – Indagou,
designando a cela onde Jesus se achava encarcerado.
O pescador refletiu um momento e, reconhecendo que o
instante era decisivo, respondeu, dissimulando a própria emoção :
– Estás enganada. Não sou.
O apóstolo ponderou aquela primeira negativa e pôs-se a
considerar que semelhante procedimento, aos seus olhos, era o mais
razoável, porquanto tinha de empregar tôdas as possibilidades ao seu
alcance, a favor de Jesus.
Fingindo despreocupação, o irmão de André se dirigiu a
uma pequena aglomeração de populares, onde cada qual procurava
esquivar-se ao frio intenso da noite, aquentando-se junto de um
braseiro.
Novamente um dos circunstantes, reconhecendo-o, o
interpelou nestes termos :
– Então, vieste socorrer o teu Mestre?
– Que Mestre? – perguntou o pescador de Cafarnaum, entre
receoso e assustado – Nunca fui discípulo desse homem. Fornecida essa
explicação, todo o grupo se sentiu à vontade para comentar a situação do
prisioneiro. Longas horas passaram-se para Simão Pedro, que tinha o
coração a duelar-se com a própria consciência, naqueles instantes
penosos em que fora chamado ao testemunho. A noite ia adiantada, quando
alguns servidores vieram servir bilhas de vinho. Um deles encarando o
discípulo com certo espanto, exclamou de súbito:
– É este!... É bem aquele discípulo que nos atacou à
espada, entre as árvores do horto!...
– Simão ergueu-se pálido e protestou :
– Estás enganado, amigo! Vê que isso não seria
possível!...
Logo que pronunciou sua derradeira negativa, os galos da
vizinhança cantaram em vozes estridentes, anunciando a madrugada.
Pedro recordou as palavras do Mestre e sentiu-se
perturbado por infinita angústia. Levantou-se cambaleante e, voltando-se
instintivamente para a cela em que o Mestre se achava prisioneiro, viu o
semblante sereno de Deus a contemplá-lo através das grades singelas.
***
Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se
envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros
exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre
homem ríspido e resoluto, que condenara invariàvelmente os transviados
da verdade e do bem, que nunca conseguira perdoar as mulheres mais
infelizes, ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua
própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências
dolorosas de seus irmãos em humanidade. Em seu espírito como que
desabrochava uma fonte de novas considerações pelos infortunados da
vida. Desejava, ansiosamente, ajoelhar-se ante o Messias e suplicar-lhe
perdão para a sua queda dolorosa.
Através do véu de lágrimas que lhe obscurecia os olhos,
Simão Pedro experimentou uma visão controladora e generosa.
Figurou-se-lhe que o Mestre vinha vê-lo, em espírito, na solidão da
noite, trazendo nos lábios aquele mesmo sorriso sereno de todos os dias.
Ante a emoção confortadora e divina, Pedro ajoelhou-se e murmurou:
– Senhor, perdoai-me!
Mas, nesse instante, não mais viu, na confusão de seus
angustiados pensamentos. Luar alvíssimo enfeitava de luz as vielas
desoladas. Foi ai que o antigo pescador refletiu mais austeramente,
lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia : – “Pedro,
o homem do mundo é mais frágil do que perverso!...”
Do livro “Boa Nova”. Psicografia de Francisco Cândido
Xavier.