TIA  E  SOBRINHO

 

Jair Presente

 

Eis-me a trazer-vos a história,

Estranha como se diz,

Do fato que sucedeu

A um amigo- o Téo Muniz.

 

Ele chegara aos quarenta...

Morava com garbo e graça

Com velha tia, contando

Noventa e lá vai fumaça.

 

Ela, viúva, fizera

Testamento em pergaminho,

Sem outros quaisquer parentes,

Deixara tudo ao sobrinho.

 

O moço, olhando o futuro

Pela ambição desmedida,

Dava-lha os nomes mais ternos:

- “Meu tesouro”, “mãe querida...”

 

Ele adulava a velhinha,

Ela adorava o rapaz,

Unidos, constantemente,

Viviam em doce paz.

 

Mas veio um dia difícil...

A tia surgiu doente,

O rapaz fez-se-lhe apoio

No carinho permanente.

 

Exames. Medicamentos.

Inquietações. Agonias.

Problemas multiplicados

Chegavam, todos os dias.

 

A velhinha, certa noite,

Em silêncio, estremeceu...

Notando-o imóvel, de todo,

Disse a enfermeira: “morreu...”

 

O sobrinho desolado

Debruçou-se sobre a tia;

Chorando, viu-a parada,

O coração não batia.

 

Veio o médico. No exame,

Faz testes, explica, exorta...

Num colapso profundo

A doente estava morta.

 

Entretanto, quis mais provas,

Um companheiro traria;

Então, daria o atestado

De óbito no outro dia...

 

A casa, de imediato,

Transformou-se num velório,

Testemunhos de pesar,

Condolências. Falatório.

 

Téo chorava na aparência,

Pois, ganhando o paparico

De quantos vinham a ele,

]sabia-se muito rico.

 

A herança era muito grande.

A tia deixava rendas,

Muitas lojas de aluguel,

Terras, galpões e fazendas.

 

Entretanto, ao dia claro,

A morta estava a mexer,

Aquele corpo cansado

Começara a reviver.

 

Veio médico. Auscultou-a,

Dizendo com alegria

Que ela somente sofrera,

Grave catalepsia.

 

Desiludido e assustado,

Téo caiu, em desconforto...

Dando entrada no hospital,

O coitado estava morto.

  

 

 

LIVRO: BAZAR DA VIDA.  Psicografia de Francisco Cândido Xavier