PROBLEMA  DE  QUEIXAS

 

Cornélio Pires

 

Tenho aqui sua consulta,

Meu caro Raimundo Seixas;

Você pede opinião

Quanto ao problema das queixas.

 

Sem rodeios sobre o assunto,

Posso afirmar, meu irmão,

Toda queixa, quase sempre,

É conversa gasta em vão.

 

A gente chora, reclama,

No entanto, o caso é sabido:

Lamentação sem trabalho

É voz de tempo perdido.

 

Cada pessoa recebe

Certo serviço a fazer,

Somos nós servos da vida,

Cada qual em seu dever.

 

Se o espírito é rebelde,

Perante o mínimo encargo,

Inclina-se para a fuga

Começando em verbo amargo.

 

Lastima-se contra o tempo

Em tudo, seja onde for,

Censura-se o pó, a pedra,

O vento, o frio, o calor...

 

Mas nessa história de queixas,

Você pode registrar:

Quem caminha reclamando

Principia a piorar.

 

Dever é um fardo do Céu

E a quem o vote a desprezo,

Surge uma lei vigorosa

Impondo ao fardo mais peso.

 

Parece que Deus nos cede

Uma cruz de dons extremos,

Fugindo a ela, encontramos

As cruzes que merecemos.

 

Você recorda o Alexandre,

Clamava contra chefias...

Depois, ficou sem trabalho

Por mais de quinhentos dias.

 

Chorando quatro cruzeiros,

Saiu Antonico Brotas,

Vindo logo a tromba d'água

Levou-lhe o colchão de notas.

 

Reclamando anel perdido,

A irada Dona Rosenda,

Transportando vela acesa,

Incendiou a fazenda.

 

Ao queixar-se contra a esposa,

Laurindo da Conceição

Atirou dez mil cruzeiros

Na fogueira de São João.

 

Zangando-se contra a chuva

Dona Liquinha Pastura,

Ao correr, teve uma queda

De quatro metros de altura.

 

Penso hoje, caro irmão,

Pelas provas que já vi:

A pessoa, em se queixando,

Perde o controle de si.

 

Após a morte do corpo

É que se vê quanta gente

Lastima o tempo perdido

Ao zangar-se inutilmente.

 

Anote o caso em você,

Em você e em derredor:

Na vida de quem se queixa

A vida fica pior.

 

Se você quer ser feliz

Na terra e no Mais Além,

Trabalhe, siga e prossiga

Sem se queixar de ninguém.

 

Livro "Baú de Casos" - Psicografia de Francisco Cândido Xavier - Espírito Cornélio Pires