FILHO ADOTIVO
Espírito Augusto Cezar Netto
Compreendo o que a senhora quer dizer. Manejando as melhores palavras, a sua
sensibilidade feminina contorna o desgosto que lhe corrói os sentimentos.
A
senhora queria um filho adotivo e o seu marido, inesperadamente, foi
constrangido por amigos a trazer-lhe um meninão crescido, em desacordo com o
seu ideal.
A
senhora aceitou a decisão do esposo mas vem adiando a adoção definitiva.
E, com isso, a prezada irmã, há dois anos, tem no lar um rapazinho difícil,
complicado e rebelde.
Além da pedreira de inquietações que lhe impõe, parece um flagelo para os
vizinhos. Aborrece crianças, espanca animais, destrói plantas e apedreja
vidraças. Expressa-se em palavrões que lhe estragam as horas e tem horror ao
banho, persistindo em manter a cabeleira em labirinto. O esposo, dedicado ao
escritório, não lhe acompanha os momentos difíceis q quando a senhora lhe
expõe os seus cuidados, ei-lo a lhe pedir paciência e tolerância.
Creio que por isso é que lhe recebo as perguntas confiantes e afetuosas:
-
“Que fazer, meu amigo? Estou farta... Só por não ter filhos propriamente
meus, devo suportar este que é um retrato da indisciplina?”
Entendo os seus contratempos, no entanto, coloco-me no lugar desse menino
infeliz, a fim de lhe rogar benevolência para ele.
A
estimada irmã, em sua carta, se declara profundamente cristã, sempre apoiada
na confiança em Jesus.
Por que não dialogarmos na base da fé?
Pensando nisso, peço-lhe permissão para transmitir-lhe uma historinha das
que coleciono na Vida Espiritual.
Conta-se que certa dama, extremamente ligada ao Cristo, foi impelida a
acolher na própria residência um rapazelho de maus costumes, que passou a
arrasar-lhe a tranqüilidade.
O
pequeno era um feixe de impulsos lamentáveis, ao mesmo tempo que assombrava
pelo absoluto desrespeito à higiene.
A
senhora começou a orar, pedindo a Jesus que a livrasse dele de maneira que o
remorso não lhe pesasse na consciência.
Foi assim que, em certa noite, sonhou que se achava num campo engrinaldado
de relva, onde Jesus se achava com uma legião de garotos.
Ela abeirou-se do Eterno Amigo e cientificou-se de que todos os
adolescentes, ali, se lhe faziam tutelados.
Sinceramente enternecida, dirigiu-se ao Divino Mestre e inquiriu:
-
Senhor, que posso fazer para lhe ser útil? Não poderei ser mãe espiritual ou
tutora, pelo menos de um dos seus protegidos?
Jesus respondeu afirmativamente e complementou:
-
Tenho aqui um pequeno companheiro a quem muito amo e só o entregaria a quem
igual modo me quisesse... Poderia o seu coração de mulher recebê-lo por
filho, qual se fosse a mim próprio?
-
Como não, Senhor? – respondeu a dama lisonjeada. Estou pronta.
O
Divino Benfeitor solicitou a presença do garoto a que se referia e
apresentou-o.
A
senhora espantada notou que aquele era o mesmo rapaz agressivo e menos
simpático que o marido lhe trouxera para dentro de casa.
Fitou-o de alto a baixo sem esconder o próprio desagrado e, observando que
Jesus a contemplava significativamente, voltou a perguntar:
-
Senhor, por que devo ficar com este e não outro?
O
Cristo sorriu e considerou, por fim:
-
Porque se a senhora que diz amar-me não puder aceitar a ele, a quem tanto
amo, já sei que ninguém mais o aceitará.
Nesse justo instante, a dama despertou em sua própria casa, guardando o
ensinamento e, desde aquele dia, acolheu o jovem com carinho e tolerância,
reconhecendo que a renovação dele, em bases de amor, era o serviço que Jesus
lhe reservava.
Aí está o que lhe posso dizer com referência à sua carta sobre a adoção de
um garoto desventurado e difícil.
O
resto, creio eu que a senhora interpretará.
Psicografia Francisco
C. Xavier – Espírito Augusto Cezar Netto – Livro “Augusto Vive”.
(Digitado por Alice
Muniz) |