ÚLTIMO  INSTANTE

 

 Manuel da SILVA LOBATO  *

 

     Tudo parece agora o termo do caminho...

     O velho carrilhão bate as horas na sala:

     É a palavra do tempo ao coração que estala,

4    Afirmando, cruel, que partirei sozinho.

 

     Lá fora, ruge o vento ululante e escarninho.

     Fito, além da janela. O céu de cinza e opala...

7    “ Adeus! Adeus! Adeus!...” – geme o peito sem fala,

     Algemado à aflição de estranho pelourinho.

 

     Desce, torva, no olhar, a noite em que me espanto,

     Ressume-se a existência às gotas de meu pranto.

     Silêncio, sombra, nada... A morte a despedida...

 

     Mas subido clarão rasga as trevas do            quarto.

     Ai !.. o corpo é grilhão de que enfim,me descarto, 

     Para exaltar, cantando, o esplendor de outra vida!

 

4.   Leia-se cru-el, como dissílabo.

7.” Adeus! Adeus ! Adeus!...” : Epizeuxe  -  “ Nome dado a FIGURA que resulta quando se repete a mesma palavra, sem intervalo...” ( Geir Campos, Op. Cit.)

 

                ( * ) Poeta notável.Um dos fundadores da revista Heliópolis, em sua cidade natal. Jornalista, desempenhou as funções de redator do Diário de Notícias, no Rio de Janeiro. Viveu e uma existência atribulada, mas com resignação, caracterizando-se pela sua simplicidade e bondade. Informa Mariano Lemos ( Poetas..., pág.326) que Silva Lobato foi membro da Academia Pernambucana de Letras, tendo ocupado a cadeira nº 26.( Recife, Pernambuco,10de Setembro de 1886 –Rio de Janeiro, GB, 4 de Junho de 1931.)

 

                BIBLIOGRAFIA : Flauta de Pã ; Céus do Brasil                ; e diversos livros inéditos.

 

 

Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira