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EU SÓ
Caetano PERO NETO
(*)
23 Eu
só e o surdo mundo...
O leito me veste em
branco.
As cadeiras repousam
em branco.
As paredes estão
levantadas em branco,
Sustentando o teto
parado, em branco.
As janelas talhadas em
branco
Deixam passar o vento
gárrulo e brincalhão,
Que desliza sem cor.
As cortinas, parecendo
longas mãos brancas,
Engastadas nos braços
rijos da porta,
Acenam adeus, em
branco.
34 Eu
só e o surdo mundo...
Quero fitar os rostos
que me cercam,
Mas vejo apenas
semblantes graves,
Semelhantes a camafeus
de cobre em placas de alumínio.
Quero gritar o terror
do desconhecido,
Mas a boca foi
trancada pelas chaves da névoa muito branca
Que me envolve de
todo...
Falam somente em mim
as grossas gotas brancas
Que me rolam da face.
Eu mudo e o surdo
mundo...
Depois de muitas horas
de expectativa em branco,
45 na
vazante branca em que ainda respiro,
surge a enchente das
sombras.
Tudo crepeia em
torno...
Céus! Não sou Deus
Que traduz a noite em
poema de estrelas,
Nem pirilampo humilde
que acende a lanterninha lucilante...
Eu cego e o surdo
mundo...
52 Levanto-me,
tateio, choro, clamo, esmagado pelas mós invisíveis da
escuridão,
Por muito tempo...
De improviso, porém,
nova luz rasga as trevas, e os fotônios,
Que me atingem as
pupilas cansadas, dizem-me sem palavras
Para que me aquiete,
anunciando, por fim
Que Deus é meu pai
E que a Vida é minha
mãe,
Guardando-me nos
braços, para sempre, para sempre!
Livro: “Antologia dos
Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira
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