EU  SÓ

 

Caetano PERO NETO (*)

 

 

23   Eu só e o surdo mundo...

O leito me veste em branco.

As cadeiras repousam em branco.

As paredes estão levantadas em branco,

Sustentando o teto parado, em branco.

As janelas talhadas em branco

Deixam passar o vento gárrulo e brincalhão,

Que desliza sem cor.

As cortinas, parecendo longas mãos brancas,

Engastadas nos braços rijos da porta,

Acenam adeus, em branco.

 

34   Eu só e o surdo mundo...

Quero fitar os rostos que me cercam,

Mas vejo apenas semblantes graves,

Semelhantes a camafeus de cobre em placas de alumínio.

Quero gritar o terror do desconhecido,

Mas a boca foi trancada pelas chaves da névoa muito branca

Que me envolve de todo...

Falam somente em mim as grossas gotas brancas

Que me rolam da face.

 

Eu mudo e o surdo mundo...

Depois de muitas horas de expectativa em branco,

45   na vazante branca em que ainda respiro,

surge a enchente das sombras.

Tudo crepeia em torno...

 

Céus! Não sou Deus

Que traduz a noite em poema de estrelas,

Nem pirilampo humilde que acende a lanterninha lucilante...

 

Eu cego e o surdo mundo...

52   Levanto-me, tateio, choro, clamo, esmagado pelas mós invisíveis   da escuridão,

Por muito tempo...

 

De improviso, porém, nova luz rasga as trevas, e os fotônios,

Que me atingem as pupilas cansadas, dizem-me sem palavras

Para que me aquiete, anunciando, por fim

Que Deus é meu pai

E que a Vida é minha mãe,

Guardando-me nos braços, para sempre, para sempre!

 

 

23-24.  Observem-se, versos mais abaixo, as variantes do ante canto – “Eu só e o surdo mundo”.

45.       Digno de nota o gosto obsessivo do poeta pelo vocábulo “branco”, chegando a praticar, quase, a batologia.

52.      Atente-se na dinamização expressiva dada pelo assíndeto.

 

 

(*)   Contista, romancista, e poeta do grupo dos <<novíssimos>>,, cursava o 5º ano da Faculdade de Direito de S. Paulo, quando desencarnou. Nos últimos tempos de ginásio, colaborava com jornais de Itápolis. Depois encetou a publicação de poesias e contos nos periódicos Álvares de Azevedo, Tribuna Liberal, XI de Agosto, etc. Orador oficial da Associação Acadêmica <<Álvares de Azevedo>>, aos 19 anos já <<era o representante intelectual do corpo discente da Faculdade>> (apud Xangô e ..., pág. 12). Em 1936, foi eleito presidente da referida Associação Acadêmica. Redigiu, com Osmar Pimentel e Mário da Silva Brito, a folha universitária Anhanguerra. Participou do movimento intelectual da <<Bandeira>>,chefiado por Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Membro da Academia de Letras da Faculdade.Ulisses Guimarães (apud Dic. Aut. Paul., pág. 469) disse que ele <<foi um lírico, como tal eminentemente subjetivo>>. <<Seus poemas,>> - escreveu Dulce Salles Cunha ( Auut. Contemp. Brasileiros, pág.229) - <<em geral muito pessoais, são quase todos isentos de senões,>> (Itajobi, Est.S.Paulo, 21 de agosto de 1916 –S.Paulo, Est.de S. Paulo, 23 de Dezembro de 1937.)

 

BIBLIOGRAFIA: Xangô e Outros Poemas, obra póstuma.

 

 

 

Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira