CANÇÃO  DO  SERVIÇO

 

Maria Dolores

 

Ouve, alma irmã:

Se pretendes realizar

Uma empresa de amor,

Não te deites à sombra do pesar,

Nem te ponhas a ouvir

O peito fatigado e sofredor...

Para elevar e redimir,

Varar e edificar,

Em demanda ao porvir,

Sempre melhor sorrir que lastimar.

 

Sobre e terra, trabalha com teu sonho,

Como o escultor brunindo a pedra bruta,

E nos dias do circulo enfadonho

De amargura, tristeza, cinza e luta,

Lembra-te sempre disso:

Tudo o que a vida guarda

De belo, grande e bom

É força de bondade inflamada em serviço...

 

Se a calúnia te espia,

Serve mais, dia a dia.

 

Esmera- te a esquecer aquilo que te ofende,

Pois quem ama, em verdade,

Naquilo em que se agrade ou desagrade,

Tanto mais serve quanto mais compreende.

 

Se a injúria te atrapalha e a incompreensão te humilha,

Lê a doce cartilha

Que a Natureza escreve, maternal:

Da lama ao céu, por Lei de Clemência

O serviço domina

Onde o bem vence o mal.

 

O regato que alenta

Frondes, frutos, raízes,

Tento quanto sustenta

As serpentes e os mormos inferes,

Serve cativo ao chão...

 

 

A planta que supri,e o martírio da fome

Nasce, cresce, trabalha e se consome,

Torturada e esquecida

Sem aguardar qualquer compensação,

Para suster-te a vida.

 

O Sol dissipa as trevas sem barulho,

Dá-se, esplendora e, sem que a noite o vença,

Serve, triunfante e bom, sem migalha de orgulho,

Da cúpula anilada, acolhedora e imensa,

Às furnas abismais!...

 

Se queres atingir a concretização

Doe teus mais belos ideais,

Alma irmã, serve mais!...

 

E, alcançando a vitória,

Do teu sonho na senda transitória,

Perceberás, então,

Por mais servir e mais aprimorar-te,

Que a presença de Deus, onde transites,

É serviço brilhando em toda a parte

Para o bem sem limites.

 

Do livro Antologia da Espiritualidade. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.