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PROTEÇÃO ESPIRITUAL
Hilário Silva
Marques, o
ex-presidente do templo espírita, falava ao companheiro:
— Teremos uma
assembléia geral depois de amanhã e estou colecionando os documentos.
Veremos quem pode mais. Desmoralizarei os mandriões.
E Osório, o amigo
fiel, ponderava:
— Mais calma. O
senhor foi presidente por muitos anos. Sempre respeitado. Sempre querido.
Recordemos nossas reuniões. Nosso Dias da Cruz, que o senhor conheceu tão
bem, quando neste mundo, prometeu ajudá-lo até ao fim...
— Sei que estou
protegido — dizia Marques, beliscando, nervoso, a barba branca —, mas vou
colocar a coisa em pratos limpos. A diretoria foi tomada de assalto. É
muita gente querendo transformar a casa em gamela gorda.
— Marques, a ironia
é veneno.
— Tenho fotocópias,
retratos, informações e muito papel importante para mostrar o passado
desses oportunistas. Todo o material será exibido na assembléia. Alguns
desses companheiros transviados são passíveis de xadrez.
— Medite, Marques,
medite! — pedia Osório. — O que passou, passou... Agitar o fundo de um
poço é fazer lama. Ore. Peça o amparo do Alto.
E, a convite do
amigo, os dois se puseram em prece, rogando proteção espiritual.
Em seguida, tornaram
à casa de Marques, onde Osório observaria como adoçar o calhamaço.
Ao procurar o libelo
escrito, o dono da casa ouviu a arrumadeira, que entrara na véspera, a
estranha explicação:
— Senhor Marques,
todos os papéis que o senhor deixou espalhados nas cadeiras, com retratos
e jornais velhos, eu entreguei ao lixeiro, quando o caminhão da Prefeitura
por aqui passou.
— Meu Deus! — gritou
o velhinho, entrelaçando as mãos na cabeça, ante Osório sorridente — era
serviço de oito meses!
E a jovem
inexperiente replicou, sem saber que fazia a definição moral:
— Mas era muita
sujeira!...
Livro: “Almas em
Desfile” Psicografia: Francisco C. Xavier e Waldo Vieira Espírito: Hilário
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