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PICA- PAU
Hilário Silva
I
Quando o Dr. Cristiano Rosa, engenheiro moço e
recém-casado, chegou à sede do serviço, encontrou o Pica-Pau na
improvisada estação.
- Doutor, quero
levar suas malas.
Dona Moema, a
esposa, teve um movimento de recuo.
O homem que assim
falava era horrível.As mãos retorcidas e o rosto monstruoso no corpo, que
gingava de estranho modo, davam notícia de pavorosas queimaduras.
O Dr. Crisanto não
gostou da recepção.
Dispensou rudemente.
- Não preciso –
explicou, sério.
O pobre homem,
contudo, voltou à carga:
- Ora, doutor,
deixe-me carregar! Já estou esperando o senhor há tantos dias.
Tanta humildade
transpareceu da voz suplicante, que o engenheiro sorriu, vencido,
entregando-lhe parte da bagagem.
E Pica-Pau,
suportando peso enorme, saiu carregando três grandes malas, na direção da
graciosa casa de madeira que esperava o novo chefe.
O Dr. Crisanto fora
comissionado para dirigir o avanço da grande rodovia interestadual em
construção, e deveria morar ali, em plena mata, entre as famílias de
alguns trabalhadores.
Não haveria, porém,
dificuldade maior.
A poucos
quilômetros, vilarejo florescente e movimentado fornecia de tudo.
O engenheiro e a
esposa, encantados, ocupam a residência pequenina que os aguardava, e
Pica-Pau, sempre agitado e alegre, gingava daqui para acolá.
Sem que o casal lhe
pedisse, varreu as adjacências da casa, fez lume no fogão externo,
conseguiu grande porção de lenha cortada e retirou larga quantidade de
água do poço.
Dona Moema,
modificada pelo comportamento dele, ofertou-lhe alguns restos de refeição,
que o servidor humilde comeu com vontade.
II
A noite começava a descer, fria e rápida.
Sentara-se Pica-Pau
numa tora de madeira, ao pé da casa, com a cabeça apoiada nas mãos, quando
o Dr. Crisanto e a esposa o chamaram à sala.
- Pica-Pau, sei que
você tem esse nome, porque mo disseram quando cheguei... – começou o
engenheiro.
- É sim, doutor. Meu
trabalho é na lenha. Todos me chamam Pica-Pau...
- E onde é que você
mora?
- Não tenho lugar
certo.
- Onde dorme?
- Desde que a turma
da estrada chegou, durmo nas máquinas.
O engenheiro fitou a
esposa, expressivamente, e continuou:
- Conversei com
Moema a seu respeito. Não lhe posso dar abrigo em casa, mas temos a
coberta do despejo. Se você quiser dormir lá, temos colchão...
Pica-Pau mostrou o
sorriso de quem descobrira a felicidade.
- Quero sim – foi
toda a resposta.
- Moema ficou
satisfeita pelo modo com que você agiu hoje... Precisamos de alguém para
serviço caseiro...
- Posso ajudar, sim
senhor.
- E quanto recebe
você por mês?
- Ora, doutor, não
pense nisso – replicou alegre -, trabalharei para o senhor a troco de
comida...
Marido e mulher
entreolharam-se comovidos.
E, desde então,
Pica-Pau foi o serviçal amigo, instalado no telheiro.
O Dr. Crisanto, por
mais que indagasse, não colheu outra notícia senão aquela que toda a gente
conhecia.
Pica-Pau fora vítima
de queimaduras em cidade distante e aparecera, por ali, como um tipo
anônimo.
O engenheiro,
condoído, já que lhe receberia a cooperação, submeteu-o a exame de saúde
por um dos médicos de serviço e o médico atestou-lhe absoluta sanidade
física.
- Foi pena
queimar-se tanto – disse o clínico bem-humorado -, podia ser um gigante no
serviço.
III
Pica-Pau mostrava-se
agora outro.
Dona Moema,
reconhecida, mandava ajustar para ele as roupas e os sapatos que o marido
lançasse ao desuso.
Bamboleante como
sempre, era visto aqui e ali, no vilarejo próximo, transportando grandes
sacolas para compras, ou no jipe de serviço, dando adeus com as mãos
recurvas.
Observando-o, o
engenheiro e a esposa notaram que o servidor possuía apenas um hábito
profundamente arraigado. Todas as noites, antes do sono, enquanto o Dr.
Crisanto permitisse o funcionamento do motor para a luz elétrica, relia um
livro surrado.
Certa feita, o casal
aproximou-se para ver, e ficou sabendo.
Pica-Pau compulsava
um exemplar de “O Evangelho segundo o Espiritismo”.
- Então, você gosta
desse livro? – perguntou o chefe, sorrindo.
- Sim, doutor –
respondeu, acanhado -, é a única coisa que eu tenho...
E acariciando o
volume ensebado:
- Este livro me
consola e me ajuda a pensar...
- Você é espírita? –
indagou Dona Moema, com inflexão de respeito.
- Sou um pobre homem
que já lutou muito – respondeu Pica-Pau -, mas encontrei no Espiritismo o
sossego da alma. Se posso responder à pergunta, Dona Moema, digo que sou
espírita, com muito desejo de praticar o que o Espiritismo me ensina...
Conquanto não
abraçassem os mesmos princípios, os amigos louvaram-lhe a fé, bondosos e
tolerantes.
Dona Moema passou a
esperar o primogênito e era de ver-se a dedicação de Pica-Pau.
O apagado
trabalhador desdobrava-se em concurso espontâneo.
Abeirando-se da
“délivrance”, a jovem senhora foi conduzida pelo esposo à casa de parentes
no Rio.
Começou, então, para
Pica-Pau uma experiência nova.
Distante da esposa,
o Dr. Crisanto não era o mesmo homem.
Sem dúvida não
diminuíra a consideração para com ele, mas estava diferente. Correto na
profissão, mudara a vida particular.
Noite a noite, o
engenheiro, como que faminto de novidade, buscava a cidadezinha próxima e
embriagava-se, levianamente, em companhia de supostos amigos.
Num certo sábado,
porque as horas avançassem madrugada a fora, sem que o chefe voltasse,
Pica-Pau fez cinco quilômetros a pé.
Procurou,
aflitamente, e encontrou-o num bar.
- Doutor – disse ao
engenheiro -, vim chamá-lo.
- Que há?
E Pica-Pau engrolou
a voz:
- Chegou um portador
com notícias de Dona Moema...
O chefe aboletou-se
no jipe e os dois viajaram, cada qual com a sua própria ansiedade.
Em casa, porém,
Pica-Pau falou, desconcertado:
- Doutor,
perdoe-me... Não há mensageiro algum... Estava preocupado com o senhor...
O Dr. Crisanto, algo
transtornado pelo copo farto, gritou:
- Era o que
faltava... Você, dirigindo! Não encomendei fiscalização alguma!... Não me
consta que espíritas andem mentindo... Nunca mais faça isso!...
Pica-Pau, humilhado,
preparou-lhe o café forte e o assunto ficou encerrado.
Entretanto, no
sábado seguinte, repetiu-se o problema.
As duas da
madrugada, Pica-Pau, arfando de fadiga, ante a longa caminhada, alcança o
bar, surpreende o chefe, e avisa, desapontado:
- Doutor, a casa das
máquinas está pegando fogo.
O engenheiro,
desconfiado, atende; e ambos se põem novamente no jipe.
Mas, em caminho, o
diretor do serviço fala, nervoso:
- Pica-Pau, se você
estiver mentindo, pagará caro...
Chegando à casa das
máquinas e observando a tranqüilidade ambiente, fez um gesto
interrogativo, ao que Pica-Pau respondeu, encabulado:
- Doutor, reconheço
que menti, mas não posso ver o senhor nessa vida...
- Ah! não me pode
ver? – replicou o Dr. Crisanto, irado. – Então não veja...
E vibrou-lhe
tremendo pescoção ao pé do ouvido.
Pica-Pau rodou sobre
os calcanhares e caiu com um filete de sangue a escorrer-lhe da boca, mas
não reagiu.
Lágrimas rolavam-lhe
dos olhos, quando viu que o Dr. Crisanto movimentava o veículo, da volta
ao vilarejo distante.
V
Na manhã imediata, o engenheiro acreditava que o servidor
estivesse longe, mas, com surpresa, viu Pica-Pau abeirar-se dele, de rosto
inchado, a trazer-lhe calmamente a bandeja do café.
Dona Margarida, a
arrumadeira, ao vê-lo assim, perguntou, admirada:
- Mas Pica-Pau, onde
é que você arranjou esse rosto?
- Dor de dentes,
Dona Margarida...
- Dor de dentes, na
sua idade? – voltou ela, irônica.
- É sim, senhora...
Ainda tenho alguns casos...
A discrição e a
humildade de Pica-Pau comoveram o Dr. Crisanto, que mostrou expressiva
melhora.
Depois de dois
meses, no entanto, quando já se achava em vésperas de buscar a esposa e o
filhinho recém-nato, o engenheiro voltou às noitadas alegres.
Pica-Pau notou o
perigo, mas não se mexeu.
O serviço esperava a
visita de várias autoridades, quando o Dr. Crisanto, certa noite, foi
procurado no bar por Pica-Pau.
O pobre dizia-lhe,
inquieto:
- Doutor, com o
pagamento atrasado há dois meses, os operários estão acusando o senhor e
planejam uma cilada...
O engenheiro riu-se,
francamente.
- Que cilada?
- Querem dinamitar a
ponte em construção... É preciso salvar o nome do senhor... O pessoal não
tem razão...
O Dr. Crisanto
desferiu gargalhada irritante e observou:
- Suas mentiras,
Pica-Pau, não pegam mais...
Ponha também a sua
bomba...
O portador fez uma
expressão de amargura e regressou, coxeando, coxeando...
Não havia, porém,
decorrido duas horas, quando pequena comissão veio de jipe, à procura do
chefe, com a dolorosa notícia.
Pica-Pau, ao tentar
o salvamento da grande construção sobre o rio, conseguira preservar a
ponte, mas sofrera terrível acidente: ao arrastar a banana explosiva
colocada na edificação por mãos criminosas, verificara-se o estouro e teve
os braços decepados, além de ferimentos por todo o corpo.
Horrivelmente
surpreendido, o Dr. Crisanto voltou à pressa.
Trazido em padiola
improvisada, Pica-Pau estava no telheiro em que se acolhia. A cama pobre
empapava-se de sangue, embora os primeiros curativos tivessem sido feitos.
Arrasado de dor, o
engenheiro compreendeu a gravidade da situação.
Trancou-se no
recinto humilde com o ferido, que pousava nele os grandes olhos, e rogou:
- Pica-Pau,
perdoe-me pelo amor de Deus! Como não pude compreender você a tempo?!...
- Ora, doutor, não
pense nisso! – respondeu o mutilado em voz sumida – tudo está bem...
- Não! Não! Punirei
os culpados!
- Não faça isso!
Desculpe sempre, doutor...
Ninguém é mau porque
deseje...
- Mas foi um
crime...
- Ora, doutor, quem
pode julgar? – falou o acidentado, com voz doce, como se quisesse
acariciar o chefe com a palavra, já que não podia fazê-lo com as mãos. –
Às vezes, quem colocou a dinamite na ponte é um homem doente... obsidiado...
é preciso perdoar...
O Dr. Crisanto não
teve coragem de prosseguir exasperado, e perguntou, emocionado:
- Que quer você que
eu faça, Pica-Pau?
- Doutor, se o
senhor puder, leia para mim uma página do Evangelho... Estou agora sem
braços...
O engenheiro tomou o
livro semigasto, e, abrindo na parte final, fez a leitura, entre lágrimas
copiosas:
“Meu Deus, és soberanamente justo. O sofrimento, neste
mundo, há, pois, de ter a sua causa e a sua utilidade. Aceito a aflição
que acabo de experimentar, como expiação de minhas faltas passadas e como
prova para o futuro. Bons Espíritos que me protegeis, daí-me forças para
suportá-la sem lamentos. Fazei que ela me seja um aviso salutar; que me
acresça a experiência; que abata em mim o orgulho, a ambição, a tola
vaidade e o egoísmo, e que contribua para o meu adiantamento.”
Pica-Pau aquietara-se, muito calmo, mas o Dr. Crisanto, à
maneira de louco, providenciou o resto da noite e, no dia seguinte, pela
manhã, tomou o avião de serviço e rumou com o mutilado para o Rio,
tentando salvar-lhe a vida.
VI
Era mais de meio-dia, quando Pica-Pau deu entrada no grande
hospital carioca em que seria submetido a tratamento.
Dois médicos amigos
do Dr. Crisanto, no entanto, abanaram a cabeça, depois de minuciosa
inspeção.
O ferido
avizinhava-se do fim.
Agoniado, o
engenheiro foi à procura da família e contou à esposa e à velha mãezinha,
Dona Maria Cecília, os sucessos amargos.
Ambas quiseram
testemunhar carinho ao herói.
E, nas primeiras
horas da noite, o trio se dirigia para o confortável quarto em que
Pica-Pau encontrara acolhida régia.
Na luz indireta que
clareava frouxamente o recinto, Dona Moema foi a primeira a
cumprimentá-lo.
- Então, Pica-Pau, -
falou, emocionada -, quando voltarmos, teremos mais alguém... Você vai
ajudar-me a velar por nosso rapaz, que já estará crescidinho...
Ele voltou os olhos
muito abertos e respondeu, lúcido:
- Oh! sim... um belo
menino... Deus o abençoe.
Em seguida, o Dr.
Crisanto apresentou-lhe a sua velha progenitora.
A encanecida senhora
começou a dirigir-lhe palavras de consolo; entretanto, ao sentir-lhe a
fixidez do olhar profundo, desconcertou-se, pouco a pouco, e emudeceu em
pranto.
Ele, porém, com
serenidade indescritível, passou a dizer, com muito esforço:
- Sim, Cecília, você
não precisa perguntar...
Sou eu mesmo...
Pedro... Pedro, que você não vê há trinta anos... Deus escutou minhas
preces...Não queria morrer sem nosso encontro...Perdoe por todos os
males... que causei a você... Eu era moço, Cecília... Moço e ignorante...
Viciei-me em bebidas e esqueci o lar... humilhando você... Você tinha
razão, não me querendo mais... Mas creia que piorei, perdendo você... Você
foi o único amor de minha vida... Perdoe tudo... Mudei muito, Cecília...Um
dia... alcoolizado...fui vítima da maldade de alguns rapazes que me
atearam fogo às vestes...Tratado num hospital, aí conheci a Doutrina
Espírita, que reformou minha vida...Passei a ser outro homem...Todavia,
não tive coragem de procurá-la...Fiquei deformado...irreconhecível...Mas
consegui seguir o nosso Crisanto nos últimos tempos...Continue vivenda
para ele, Cecília...Eu, agora...estou no fim...Mas a vida prossegue depois
da morte...Um dia, Cecília, no mundo sem lágrimas, serei para você o que
devo ser...Confiemos em Deus...
Entretanto, fosse
pelo esforço enorme ou porque o Espírito do acidentado julgasse terminada
a sua tarefa entre os homens, a cabeça de Pica-Pau tornara-se imóvel.
Grossas lágrimas, a se lhe escorrerem dos olhos, agora desmesuradamente
abertos, misturavam-se ao suor álgido...
Dona Maria Cecília,
ajoelhada, em pranto silencioso, beijou-lhe a testa suarenta e Pica-Pau
sorriu pela última vez.
O Dr. Crisanto,
emocionado, tocou o braço materno e falou:
- Mas mamãe, que
houve?
A nobre senhora, no
entanto, após cobrir carinhosamente o corpo hirto, pode apenas responder,
entre soluços:
- Este homem, meu
filho, é seu pai...
Livro: “Almas em
Desfile” Psicografia: Francisco C. Xavier e Waldo Vieira Espírito: Hilário
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