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AMOR E
VIDA
Maria Dolores
Na sala extensa da delegacia,
Estavam de plantão
O chefe e um escrivão
Agindo atentamente.
Diante deles se reconhecia
Um nobre advogado em companhia
De um filho adolescente.
Algo distantes, lado a lado,
Erguia-se um soldado,
Guardando a prisioneira, uma doente,
Triste e pobre mulher, maltratada e
abatida
Que, conquanto sentada,
Parecia a visão da dor, ansiosa e
conformada,
Entre a ronda da morte e a presença da
vida.
-Doutor, - falou o chefe vigilante,
Dirigindo a palavra ao visitante,
-Embora o furto confessado,
Não sei o que fazer da velha, aqui detida,
Todo o processo crime está formado,
Mas a infeliz não tem qualquer defesa...
Já nomeei um bacharel amigo
Que lhe proteja a causa
De mulher sofredora, em extrema pobreza,
Mas a doença dela é febre sem pausa,
Segundo o nosso médico em serviço,
É um caso grave de pneumonia...
Que fazer? Conserva-la na prisão?
Aguardar do juiz alguma decisão?
Recolhe-la em asilo hospitalar?
Ou guarda-la em custódia no seu lar?
O causídico explode em tom severo:
-Absolutamente, não a quero;
Trata-se aqui de ladra astuta e estranha
Que desde a meninice me acompanha...
Lavadeira na cada de meus pais,
Confesso que em meus tempos de menino
Ela foi ama generosa e boa,
Ajudou-me e serviu-me em pequenino,
Algum tempo de amparo, cousa à toa...
Mas foi sempre um trambolho em meu
caminho.
Desorientada e analfabeta,
Sempre me pareceu a burrice completa.
Minha mãe há dez anos, falecida,
Pediu-me, antes da morte, agasalhar-lhe a
vida.
Tornei-a lavadeira em minha residência...
Infelizmente agora,
Furtou minha senhora
Em jóias no valor de alguns milhões!...
Fale, pois Excelência.
Como ampara-la com paciência,
Se esta velha se dez agora simples ladra?
Resguarda-la em meu lar? Isso não quadra.
Ouvindo a acusação, a pobre estarrecida,
Caiu, desfalecida.
Enternecido, o próprio delegado
Fitou o advogado,
Como a lhe perguntar de que modo agiria;
Ele apenas, porém, respondeu friamente:
-Que se lhe dê qualquer enfermaria...
Desmaio de gatuno é antigo expediente...
Depois, erguendo mais a voz:
-Pode espantar aos tolos, não a nós...
Nada posso fazer,
Devo esperar meu pai que volta ainda hoje
De uma visita a Portugal.
Coloquem esta ladra no hospital,
A Polícia dispõe de ação segura e pronta,
A despesa será por minha conta.
Pai e filho, no carro, a deslizar lá fora,
Eis que o rapaz revela, enquanto chora:
-Papai, ao ver Tia Lina desmaiada,
(Lina era o nome da acusada),
Já não devo ocultar o erro que fiz,
Num momento infeliz,
Roubei todas as jóias da Mãezinha,
Tenho-as todas em minha escrivaninha;
E Tia lina me viu quando as furtei,
Sabe o erro que fiz
E porque se calou, realmente não sei...
Pálido, o genitor espantado e abatido,
Colhe das mãos do filho o tesouro
escondido...
Quer gritar, acusar, mas a hora é de ação;
O pai estava à porta,
Regressando feliz da ditosa excursão.
Depois das manifestações de amor e de
alegria,
Ambos se trancaram numa sala;
O velho escuta a história e, ao
registra-la,
Tanto mais chora, quanto mais a ouvia...
Em silenciando o filho, o distinto senhor,
Sem poder disfarçar a profunda emoção,
Falou-lhe, coração a coração:
-Filho, de qualquer modo, és sempre, o
nosso amor,
Eis chegado, no entanto, o instante justo,
Em que devo contar-te, mesmo a custo,
Algo que foi passado...
Minha esposa, depois de nosso enlace,
Precisava de alguém que lhe compartilhasse
Os cuidados do lar, a limpeza, o
serviço...
Nossa querida Lina
Surgiu-nos, certo dia...Era quase menina,
No entanto, estava grávida e solteira
Nela encontramos nobre companheira,
Dela nasceste em nosso próprio lar,
Minha mulher beijou-te a sorrir e a
cantar...
Desde então, tua mãe – tua mãe verdadeira,
Deu-se, de todo, a nós, de espírito
cativo,
Esqueceu-se por nós, nunca pôde estudar,
Ela era o serviço, o apoio em nosso lar...
Nada nos reclamou, nem mesmo uma só vez,
Declarava-te o filho de nós três,
Nunca foste adotivo...
Criança recém-nata, eras fraco e doente;
Lina te resguardou, constantemente.
Mãe, servidora, irmã e escrava pelo afeto
Agora, certamente,
Aceitou a prisão para salvar o neto...
Sufocado de pranto, acompanhando o pai,
O advogado na delegacia
Apagou toda a queixa
Que já não mais vigoraria...
Perguntou por notícias da acusada,
Soube que Lina foi transportada
Para uma enfermaria de indigentes.
Correm os dois, ansiosos e impacientes,
Querem Lina de volta, por sinal;
Mas sobre o leito humilde do hospital,
Acham-na muda e inerte...Esclarece a
enfermeira
Que a doente chegara à hora derradeira...
Põem-se os visitantes a chorar,
Mas Lina lhes dirige um último olhar...
E nesse último olhar que envolve os três
A verdade se fez...
Descem-lhe grossas lágrimas na face,
Qual se a pobre ao verte-las,
Por elas encontrasse
Um caminho de luz para a luz das
estrelas...
O filho a soluçar, sem conforto e sem voz,
Reconheceu, por fim, de alma abatida,
Que a mais simples mulher, em renúncia na
vida,
Pode ser nossa mãe, junto de nós...
Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco
Cândido Xavier
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