|
O CAMINHO
DO REINO
Maria Dolores
Após a última ceia, o discípulo João,
O mais jovem do Grande Apostolado,
Sob forte impressão
De tudo quanto ouvira do Senhor,
Tendo Jesus ao lado
Indagou, pensativo:
- “Mestre, é tão grande a luz da esperança
em que eu vivo,
Que me permito perguntar:
Onde posso encontrar,
Inda mesmo em estudo alto e profundo,
Nas instruções do mundo,
O caminho real para o Reino do Amor?”“.
O Cristo replicou: - “Medita, João,
Asserena teu próprio coração,
Aqui, ali, além, seja onde for,
Segue plantando o bem, a paz, o amor...
A vida é um livro aberto
E a própria vida te trará por certo,
Ante as inspirações que vertem das
Alturas,
A estrada para o reino que procuras “...”.
Depois do encontro amigo,
Tudo se transformou nas Boas Novas...
O grupo penetrou em grandes provas:
Medo, tristeza, angústia, inquietação,
perigo...
Jesus fora arredado da enxovia,
Em silêncio e à distância, João seguia
Todas as ocorrências, de hora a hora.
Por fim, notou, quase desatinado,
Que o Mestre, portador de tanto bem,
Vinha sendo espancado
Sob as injúrias de Jerusalém.
O apóstolo sem paz
Observou que a multidão
Lançava o Cristo na condenação
E absolvia Barrabás...
Perplexo anotou que a tantas zombarias
Não formulou Jesus quaisquer respostas...
O Mestre admitira a cruz às costas,
Por entre acusações e gritarias.
Depois, ei-lo a seguir fatigado a
hesitante...
Tropeçou, suarento.
O cortejo seguia, frio e lento,
A engrossar-se de gente, instante a
instante...
Para ajudar-lhe a marcha estranha e
triste,
Foi trazido até ele o cirineu...
A turba protestou, de dedo em riste,
Jesus, porém, calou-se e nada respondeu...
Terminado que foi o duro itinerário,
Alcançara o Senhor o cimo do Calvário...
João que a tudo assistia,
Antes de se achegar à bênção de Maria,
Esmagado de dor, surpresa e espanto,
Rememorava em pranto
Todo o amor que Jesus distribuira...
As pregações do lago, ante os céus de
safira,
O Sermão da Montanha, à luz da Natureza,
O pão multiplicado, o riso das crianças,
A exaltação das bem aventuranças,
Os doentes curados, a beleza
Da fé que renascia em tanto rosto
Que a provação cobria em névoa de
desgosto...
Lembrava os paralíticos reerguidos,
A gratidão de todos os caídos
Que o Mestre levantara para o bem...
Como entender, assim, Jerusalém
Que condenava o mensageiro
Da Bondade dos Céus para com o mundo
inteiro?
Tocado de emoção e sofrimento,
Abeirou-se do Cristo, então tranquilo e
atento,
E ponderou:- “Senhor, não posso crer...
Pelo bem que se faz, é preciso morrer?
Por haver plantado a paz e a luz
Deves achar a morte sobre a cruz?
Defende-te, Senhor, fala, protesta,
O teu ensinamento é a força que me resta,
Não me deixes, em dúvida, sozinho?”...”.
Mas Jesus, compreendendo o tempo escasso,
Respondeu, transpirando amargura e
cansaço;
-“Não te lamentes João!... Deus vive em
nós”...
Depois, erguendo a voz,
Disse, fitando o monte em pedra e espinho,
A refletir no olhar a própria dor:
-“Por enquanto, na Terra, este é o
caminho,
O caminho real para o Reino do Amor
“!...”.
Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco
Cândido Xavier
|