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NESGA DE
PROVA
Maria Dolores
Foi num cenário de atualidade,
No recinto de luxo, o público à vontade,
Delirava e aplaudia
A jovem que aliava harmonia e beleza,
Qual se fosse uma flor da natureza,
Enquanto se despia...
A música ambiente
Escorria no espaço, docemente.
A atriz desajeitada
Que era o enfeite daquela madrugada,
No palco debruada a cores fascinantes,
Embora a movimentação cadenciada,
Passo leve de cisne pequenino,
Mantinha os olhos baixos,
Tentando recobrir o corpo alabastrino
Com os cabelos tecendo longos cachos,
Como se desejasse
Esconder no rubor da própria face
A dor com que guardava o seu próprio
destino.
O quadro da nudez artística surgia
Apenas por instantes
E, regressando a moça aos bastidores,
Um senhor de alto porte
Destacou-se de um grupo de senhores...
Homem moço a exibir gestos brejeiros
Parecia chegando aos quarenta janeiros...
Ausenta-se da sala e aguarda na saída
A jovem que desponta, ainda mais bela,
Nobremente vestida
Embora revelando fino trato,
Ele avança, zeloso, e diz à ela
Quanto lhe admirara a beleza e o recato
Na cena colorida
Que ela marcara de ternura e vida.
Ela agradece a saudação
E procura afastar-se;
Ele, porém, sem mais disfarce
Da educação que mostra atravessa o limite,
Faz-lhe estranho convite;
Mas jovem lhe fala, olhos em pranto:
-Não me ofenda, senhor,
Tenho somente dezessete anos...
Espero para breve um casamento
E se aceito está ingrata profissão
É pelo pagamento
Para a manutenção
De minha pobre mãe tuberculosa...
E acentuou mais triste e mais chorosa:
-Ainda agora fui chamada
Para vê-la, talvez, na despedida...
Um longo tratamento foi inglório...
Minha mãe, meu senhor,
Agoniza, exilada em sanatório.
Ela contrata um táxi, apressada...
O cavalheiro sob enorme assombro,
Liga o seu próprio carro e segue-a na
largada.
Entra a menina no hospital
E ouve as opiniões de estimada enfermeira,
depois, segue ligeira
Para o vasto aposento,
Onde a mãezinha, em rude sofrimento,
Aguarda a hora derradeira...
Entre as duas, o olhar é de angústia e de
pranto,
Repleto de aflição, de amor e espanto...
Mas nisso o cavalheiro esbaforido,
À custa do obséquio de um porteiro
Que peitara a dinheiro.
Rápido, alcança o quarto em forçado
alarido...
Vendo, porém, a dama quase morta,
Assusta-se, recua e quer voltar à porta,
Mas a doente ganha forças
E vencendo a terrível dispnéia,
Assombrada lhe diz!...
-Agenor!...Agenor!...
Não fujas, nem desprezes nessa dor!...
A santa mãe de Deus
É que te trouxe aqui,
Não te vás!... Nada temos contra ti!...
Vinte anos passaram de saudade,
O tempo para mim foi uma eternidade...
Esperei-te em serviço,
Sem jamais esquecer o nosso compromisso,
Até que o corpo frágil me traiu,
A saúde caiu
Mas nada me faltou...
Nossa filha, empregada de escritório,
É meu apoio neste sanatório...
Mas agora...Agenor...
A morte já vem perto...
Perdoa-me se levo o teu amor
No meu peito cansado, enfermiço e
deserto...
Mas... Se puder fazer-te algum apelo,
Ampara a nossa filha,
Protege-a, sob a força de teu zelo...
Jovem, quase menina,
Ela é a nossa heroína
Que nunca me deixou sem remédio e sem
pão...
Se é que vieste ver-me,
Vem por Deus a fim de recebe-la,
Como sendo no mundo a nossa estrela
E o nosso coração...
O cavalheiro pálido, suspenso,
Enxuga as próprias lágrimas num lenço.
Talvez pela energia despendida,
A senhora calou-se em paz indefinida...
Aquele corpo triste, enfim, morrera,
Guardando da alma ausente um sorriso de
cera...
Ante quatro enfermeiras espantadas
O homem agora em pranto
Humildemente busca a menina que chora,
Toma-lhe a mão da qual não mais se
desvencilha,
Abraçam-se depois,
Em soluços os dois...
E olhos postos talvez nas brumas do
passado
O cavalheiro transformado
Reconhece que achara a sua própria
filha!...
Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco
Cândido Xavier
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