ALVORADA  DO  REINO

Maria Dolores

 

Tiago, filho de Alfeu, em desconforto,

No desapontamento que o invade,

Antes que se rompesse a tempestade

Prestes a desabar sobre Jerusalém,

Foi ver o Cristo morto.

 

O vento escorraçava a multidão,

Que descia tangida à chibatas de pó;

Vendo o topo do monte quase sem ninguém,

Sob certo disfarce,m o aprendiz de Jesus

Subiu, ansioso e só,

E falou para o Mestre, aos pés da cruz:

-Por que morrer assim, Jesus, se as profecias

De nossas tradições e de nossas memórias,

Falam de ti no Reino que previas,

Na condição de rei, cercado de vitórias?

O povo te saudou por Príncipe Perfeito,

Alto libertador da Terra Prometida...

Por que não combateste, ao menos, por respeito

Aos que disseste amar nas agruras da vida?

Perdoa-me, Senhor, a repulsa que tenho,

Nada vejo que a fé nos recomponha...

Ai de nós que ficamos!...Este lenho

Para sempre, será nossa própria vergonha.

 

O apóstolo pausara, cismarento,

Mas do próprio madeiro,

Varando o ribombar do firmamento,

Veio, em amargo acento,

A voz de um Mensageiro,

Dos muitos que velavam, na hora extrema,

Pela paz do Divino Companheiro:

-Silencia, Tiago!...O reino que esperavas

É o mesmo desta hora em que se escuta

O terrível clamor de sofrimentos e luta

Das vastas multidões de almas escravas...

De que vitória falas? As da guerra?

Da pilhagem no sangue sem que se alaga?

Da púrpura dos reis que refulge e se apaga,

Ante a cinza dos túmulos da Terra?

Jesus não trouxe ao mundo o império da opressão

E sim a luz do Reino Superior

De verdade e de paz, de esperança e de amor,

Alto Reino de Deus que deve se elevar

De nosso coração!...

 

Emudecera a voz, mas o apóstolo aflito

Voltou a perguntar:

-Então Jesus, o Ungido dos Ungidos,

Não veio proclamar

A terra em que nasci por nação de escolhidos?!...

 

O Emissário, porém, clamou da cruz, em tom profundo:

-Tiago, não te dês a preconceitos vãos,

Todo povo é de Deus, nos caminhos do mundo,

Todos somos irmãos!...Todos somos irmãos!...

 

O aguaceiro no céu, a jorros se destampa...

O apóstolo descia, pensativo,

Mas, na última rampa,

Encontra um pobre homem morto-vivo...

É um mendigo estirado, ao pé do morro,

A rogar por socorro...

Está febril, cansado, espancado e ferido.

Tiago enxerga nele um farrapo sangrento

E refletiu, de si para consigo:

-Será este, meu Deus, o divino momento

De compreender Jesus?

 

Inquieto e surpreendido,

A sentir-se, por dentro, em nova luz,

Toma o desconhecido

E, a carrega-lo nos seus próprios braços,

Registra estranha força a sustentar-lhe os passos...

Lembra a história do Bom Samaritano

E, na grandeza do seu gesto humano,

Leva o infeliz a humilde hospedaria...

 

Na rua, a tempestade atroava e rugia...

 

O apóstolo recorda o Cristo entre os doentes,

Desolados, sozinhos, maltrapilhos,

Que tratava por filhos,

Entre afagos e zelos permanentes...

 

Em seguida, contempla, enternecido,

Aquele companheiro anônimo e vencido;

Limpa-lhe o corpo em chaga e oferece-lhe um leito,

De inesperado amor inflama-se-lhe o peito...

Nessa transformação,

Abraça-se ao pedinte por irmão!...

 

Lá fora, o temporal estrugia, violento,

Apedrejando a Terra, entre os uivos do vento!...

 

Tiago se rendera à extrema compaixão...

Tocando de alegria excelsa e rara,

Sentiu, dentro do próprio coração,

Que a construção do reino começara...

 

Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco Cândido Xavier