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PROVAÇÃO DE
UM HOMEM
Maria Dolores
Na casa estilo antigo, austera e
reservada,
Acontecera assalto revoltante.
Tudo fora ocorrência de um instante.
Caira a noite espessa em garoa gelada
Um homem qual se fosse conhecido
Abrira facilmente um aporta de entrada,
Sem qualquer alarido,
E ganhara o interior,
Atirando no dono, um pobre professor,
A quem aparecera mascarado,
Furtando-lhe o dinheiro resguardado,
E jóias de valor,
Que se mantinham numa caixa forte...
Em seguida, fugira o malfeitor...
Fizeram-se tumulto e burburinho.
A polícia viera num momento
Num grupo de severos patrulheiros.
O antigo educador, aos oitenta janeiros,
Duramente atingido, estava quase à morte
No quarto em desalinho,
Sob a assistência de uma filha em pranto,
Pediu fosse chamado o seu filho, mais
velho, um magistrado,
Pois queria falar-lhe na hora extrema.
A patrulha expediu prestimoso soldado...
Quase que de repente,
Um cavalheiro de alto porte
Adentrou-se na casa em revolta evidente.
Beijou as mãos paterna, comovido,
E após ouvir detalhes do ocorrido,
Clamou, exasperado.
-Hoje, de qualquer jeito,
Saberemos punir o celerado
E guarda-lo, a preceito...
Mas, na perde de sangue que o domina,
Embora a proteção da Medicina,
Sabendo-se a morrer, o pai lhe implora:
-Meu filho, ouve-me bem!...
Já não posso falar bastante agora...
Não persigas ninguém.
Deixa de lado
O infeliz companheiro mascarado...
Que seria de nós se o delinqüente
Fosse de nossa gente?!...
Quero partir abençoando os meus...
É preciso perdoar,
Esquecer, entender e auxiliar,
Para estarmos com Deus...
Entretanto, o ferido fez-se mudo.
Calou-se-lhe a voz clara.
A parada cardíaca chegara
E, depois dela, a morte apareceu,
Lançando sombra em tudo.
Ao ver o genitor imóvel sobre o leito,
O filho magistrado
Exclamou revoltado:
-Não, não posso perdoar o terrível sujeito
Que aniquilou meu pai covardemente.
E chamando a patrulha, incontinenti,
Determinou, em voz desesperada:
-Precisamos concluir a tremenda caçada,
Contratem populares... Quero isso:
Mais gente habilitada no serviço.
Seja alcançado e preso
O homem que matou meu pai, velho e
indefeso...
Preso e depressa!... É o que lhes digo...
Esse monstro é um perigo!...
Partem homens dispersos sob a noite.
Sirenes gritam alto;
Rodam carros rangendo sobre o asfalto,
O vento frio corta qual açoite...
Mais algum tempo decorrido,
E um emissário surge espavorido.
Pede licença ao chefe e lhe fala: -
Doutor,
Prendemos finalmente o malfeitor...
Foi, porém, alvejado
A tiros de um rapaz que nos seguia,
Um popular não identificado;
Mas preciso aviar-lhe que o detento
Está em grande sofrimento,
Sob a pressão de forte hemorragia...
É um rapaz muito moço, um menino a
chorar...
Creia o senhor, é um caso singular...
Nosso grande empecilho
É que o jovem declara ser seu filho
E roga-lhe a presença na prisão!...
O magistrado em pleno desconforto,
No velório do pai, agora morto,
Exclama em fúria para o mensageiro:
-Meu filho? Nunca. Desde tenra idade,
Teve em meu cofre o que quis, à vontade,
Meu rapaz foi criado ao valor do
dinheiro...
E acrescentou: - esse ladrão
É um patife de lenda;
Meu filho nestes dias
Está de férias na fazenda,
A dezoito quilômetros daqui...
-Doutor, e o ferimento?
É dos mais graves que já vi,
Esclarece o emissário, calmo e atento,
-Devo buscar o médico ainda agora?
O interpelado irritadiço
Respondeu, prontamente:
-Nada de mimos para o delinqüente,
Depois do sol nascer, cogitaremos disso.
A manhã refulgia, clara e bela,
Quando, cercado de assessores,
O magistrado entrou na cela...
Mas ao ver o rapaz que um guarda lhe
apresenta,
Ofegando, cansado, em agonia.
Numa poça sangrenta,
Reconhece, assombrado, à luz daquele olhar
Que a morte recolhia,
Agindo devagar
Então se pôs a rugir, a tremer e a clamar
-Deus!...Pai de Bondade e de infinito
Amor,
Que fiz para sofrer tamanha dor?
Em seguida, abraçou-se ao jovem,
ternamente,
No modesto colchão que o servia por
leito...
A beijar-lhe, ansioso, as feridas do
peito.
Nas rudes convulsões que a mágoa lhe
consente,
Rebuscava-lhe, em vão, o olhar agora já
sem brilho...
O nobre magistrado, em pranto ardente,
Encontrara no morto o próprio filho.
Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco
Cândido Xavier
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