|
SONHO E
VIDA
Maria Dolores
Aquele solo agreste era o lugar remoto
Onde vivia a sós o anônimo devoto.
Jovem ainda, ele presenciara
A cena que jamais olvidaria:
O pai apunhalado em agonia
Ante o vizinho que o aniquilara
Por mínima questão
De terra, muro, água e plantação...
Depois disso, afirmou no vilarejo
Que todo o seu desejo
Era buscar Jesus, sem sombras, sem perigos
E consagrar-se ao Mestre, inteiramente:
Não lhe valeram rogos de carinho
Da família que o viu mudado, de repente,
Declarava querer o seu próprio caminho
E partir com destino ignorado...
Avançou e avançou por regiões distantes,
Até que se instalou num bosque descampado
Que pagou a dinheiro de contado...
A não ser velho servo surdo e mudo
Que lhe servia a mesa
E lhe prestava auxílio em quase tudo,
Vivia em prece pelos matagais
E através do silêncio
Na paisagem formada em verdura e beleza,
Dava-se, vez em vez, à Natureza,
Plantando flores, quanto às quais dizia
Serem todas ofertadas ao Senhor,
A quem se devotara pleno de alegria
E profundo fervor.
Nas orações de cada dia,
Após entretece-las,
Fitava, em voz alta, implorando a Jesus:
- “Revela-me, Senhor,
Seja onde for e seja com quem for,
A tarefa que eu deva realizar!...
Tudo quanto desejo é te bonorificar,
Em mim, tua vontade é um santo
compromisso,
Dá-me teu palmo, engaja-me em
serviço”...”.
O tempo desfolhou
vinte nove janeiros.
O devoto, porém, vivendo solitário,
Nunca mais consultou o calendário.
Dia-a-dia, o silêncio, a quietude e a
oração
Em que pediu aos Céus qualquer indicação
Do trabalho a fazer,
Que aceitaria, enfim, por sagrado dever...
Certa noite, no entanto, ele se viu em
sonho
Encantado e risonho,
Numa ilha de paz, no mar do firmamento;
Espantado, ele viu, piedoso e atento,
Que Jesus vinha vê-lo...
Ergue-se para ouvi-lo em recatado zelo
E eis que o Mestre lhe diz confiante e
amigo:
- “Filho, regressa ao lar, terás hoje
contigo
O encargo que pediste em oração...
Um companheiro, em vasta provação,
Virá pedir-te amparo e socorro em meu
nome;
É um pobre delinqüente
Que tem pagado no mundo, asperamente,
Os erros dos momentos de loucura
Já sofreu menosprezo, abandono, assalto,
desventura...
Hoje, é mendigo, um reprovo que erra
Nas veredas de lágrimas da Terra,
Sem meios de vencer a luta que o consome;
Dá-lhe de teu amor, na bênção de teu pão,
Ele te rogará consolo ao coração;
Mesmo em havendo empeço, ajuda-o mesmo
assim,
Faça isso, meu filho, em memória de
mim...”
Reconhecendo em Cristo a presença da Lei,
O devoto, extasiado e reverente,
Respondeu, claramente:
- “Obrigado, Senhor...” Assim farei...”“.
Nisso, ele voltou ao corpo... Enlevado,
desperta.
Manhã clara. Ouve alguém, batendo à porta,
Num choro que o agita e desconforta
Na morada deserta...
Recordando a visão do sonho iluminado,
Ergue-se, estremunhado,
Lembra Jesus com desvelado amor
E perguntou a si mesmo
Quem o procuraria
No amanhecer daquele dia,
Com tanta gritaria e tanta dor...
Atônito, ele sai
E encontra no infeliz, sem rumo e sem
caminho,
O antigo desafeto, o impiedoso vizinho
Que lhe amargara a vida e lhe arrasara o
pai.
Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco
Cândido Xavier
|