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A ÁRVORE
E A FONTE
Maria Dolores
Era uma laranjeira de alto porte.
Muito perto da fonte que a nutria,
No recanto obscuro de um pomar...
Aves faziam dela um reino de alegria
Sobre o apoio do tronco largo e forte.
Quadro de paz e amor da Natureza:
A Árvore a farfalhar, entre as frondes
felizes,
Os melros, os sabiás e os gaturamos
Tecendo ninhos nos seus ramos,
Uma fonte, alentando-lhe as raízes
E o céu azul ao Sol, cobrindo-lhe a
beleza!...
Vegetal esquecido pelo dono,
Não se queixava de abandono,
Muito contrariamente, ao invés disso,
Era um palácio verde em constante
serviço...
Abelhas tinham nele um refúgio e um
tesouro,
A sorverem-lhe o mel dos frutos que
lembravam
Pomos vestidos de ouro...
Mas, um dia, surgiu extenso bando
De homens sedentos e famintos
Que deram pasto franco aos seus próprios
instintos,
Depois de enlamear a fonte de águas claras
Agrediram a nobre laranjeira,
Manobrando facões, pedras e varas
E, em estreitos minutos,
Despojaram-na, inteira,
De todos os seus frutos.
A fonte sempre calma
Guardou manchas e mágoas,
Lavando sobre a areia as suas próprias
águas...
A árvore fez silêncio.
Maltratada e ferida,
Deitava a seiva em pingos quais se fossem
Densas gotas de pranto...
Os pássaros, no entanto,
Não choravam somente os estragos nos
ninhos;
Entre arbustos vizinhos,
Lastimavam as duas benfeitoras:
A fonte que os mantinha em constante
alegria
E a árvore de bênçãos protetoras
Que lhes doava o pão de cada dia...
E pipilavam com tamanha dor
Que pareciam todos juntos
Numa prece de amor,
Rogando a Deus, em voz enternecida,
Que a protegesse
E as refizesse para a luz da vida.
E Deus lhes atendeu aos rogos de ternura
Dentro de tempo breve, em verdes
resplendores,
O tronco era, de novo, um palácio de
flores
E a fonte era mais pura.
Nesse quadro do campo, alma querida,
Vejo-te a vida, - o tronco, - e a fé que
sintetiza
A fonte linda do teu belo ideal,
Entre os pobres irmãos adversários
Da crença que nos guarda e nos eleva,
Sem saber que se fazem
Intérpretes da treva
E empreiteiros do mal
Tristes amigos irritados!...
Sei que te ferem, alma boa,
Entretanto, trabalha, ama e perdoa;
No tempo que se altera sobre o tempo,
Surgirão transformados!...
Os descrentes e os maus, na condição de
ateus
São sempre corações desesperados
Com saudades de Deus.
Livro ALMA E VIDA – Psicografia: Francisco
Cândido Xavier
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