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DÉBITO
ALIVIADO
André Luiz
Em nossos estudos da lei de causa e
efeito, não nos esqueceremos de Adelino Correia, o irmão da fraternidade
pura.
Na véspera do belo acontecimento
que nos permitiremos narrar, visitamo-lo em companhia de Silas, que no-lo
apresentou nas atividades de um templo espírita-cristão.
Ouvimo-lo em preciosos
comentários do Evangelho sob o influxo de iluminados instrutores, dos
quais assimilava as correntes mentais com docilidade confiante de um homem
profundamente habituado à oração.
Falara com mestria,
arrancando-nos lágrimas pela emotividade com que nos tangia as fibras mais
íntimas. Singelamente trajado, denotava a condição do trabalhador em
experiências difíceis. Mas, o estágio de prova a que parecia enredar-se
era mais amplo. Adelino revelava longa faixa de eczema na pele à mostra.
Certa porção da cabeça, os ouvidos e muitos pontos da face exibiam placas
vermelhas, sobre as quais se formavam diminutas vesículas de sangue, ao
passo que as demais regiões da epiderme surgiam gretadas, evidenciando uma
afecção cutânea largamente cronicificada. Além disso, acanhado e
tristonho, indicava tormentos ocultos a lhe dominarem a mente. Contudo,
trazia nos olhos, maravilhosamente lúcidos, a marcada da humildade.
Vários amigos espirituais
assistam-no, atentos.
Doce velhinha desencarnada
abeirou-se de nós e, demonstrando gozar da intimidade do orientador de
nossas excursões, falou-lhe, afetuosa:
-assistente amigo, venho
rogar-lhe socorro em benefício da saúde de nosso Adelino. Noto-o mais
incomodado ultimamente, pela dor das feridas não cicatrizadas...
-Sim, sim... – respondeu Silas,
cordialmente – o caso dele merece de todos nós especial carinho.
-Porque pensa ele nas
necessidades dos outros, sem refletir nas necessidades próprias... –
acrescentou a anciã, comovida.
O assessor de Druso prosseguiu,
com carinho:
-Dois de nossos médicos o vêm
assistindo atenciosamente, quando se encontra ausente do vaso físico por
influência do sono.
E, afagando-lhe a cabeça:
-Esteja tranqüila. Correia, em
breve, estará plenamente restaurado.
Os múltiplos serviços da casa
desdobravam-se, eficientes, e Adelino dentro deles, atraia-nos a atenção
pela segurança espiritual com que se conduzia.
Cercado pelas vibrações radiantes
dos seus pensamentos, centralizados no santo objetivo do bem, afigurava-se
um companheiro vestido de luz.
Alguns instantes após, o
afastamento da velhinha; apareceu-nos simpático rapaz, igualmente já
desenfaixado da matéria física, que, depois de saudar-nos, rogou,
reverente, ao nosso orientador:
-Peço vênia para solicitar-lhe
valioso obséquio...
-Fale sem receio.
E o jovem recém-chegado explicou,
de olhos úmidos:
-Meu caro Assistente; sei que o
nosso Adelino vem atravessando certa crise financeira... Pelo muito que
auxilia os outros se descura das suas próprias necessidades. Pelo amparo
que ele oferece constantemente à minha pobre mãe encarnada, insisto no
apoio de sua amizade para que seja favorecido. Ainda na semana passada,
ouvindo as súplicas de minha genitora viúva, em grande penúria para
atender ao tratamento de dois dos meus manos enfermos, procurei-o, em
lágrimas, transmitindo-lhe apelos mentais para que nos protegesse e sem
qualquer vacilação, acreditando obedecer aos seus impulsos, visitou-nos a
casa, entregando à minha sofredora mãezinha a importância de que
necessitava... Ó meu Assistente, rogo-lhe por amor a Jesus!... Não deixe
em dificuldade quem tanto nos auxilia!...
Silas acolheu a petição com
risonha benevolência e disse:
-Descansemos. Adelino permanece
na rede de simpatia fraternal que teceu para o asilo de si mesmo.
Incumbem-se muitos amigos de supri-lo com os recursos indispensáveis ao
fiel desempenho da tarefa a que se dedicou. As circunstâncias na luta
material harmonizar-se-ão em favor dele, atendendo-lhe aos méritos
conquistados.
Efetivamente, o serviço
espontâneo na afetuosa defesa do amigo que ali enxergávamos; prestativo e
confiante, era um tema de amizade e gratidão a estudar.
-Dir-se-ia – observou Hilário,
intrigado – que todos os tarefeiros, em trânsito nesta casa, são devedores
do irmão sob nossa vista...
-Sim – aprovou Silas, paciente -,
os créditos de Adelino são realmente enormes, não obstante os débitos a
que ainda está preso... Cultiva, no entanto, a ventura de substancializar
a fé e o conhecimento superior que os Mensageiros de Jesus lhe confiam em
obras de genuíno amor fraternal, a lhe granjearem larga soma de
reconhecimento.
Logo após, o mentor amigo
recomendou-nos aproveitar os minutos em atuação fraternal, no instituto
evangélico em que nos abrigávamos, até que pudéssemos tomar contactos mais
amplos com o servidor, cuja existência atual se desdobrava sob os
auspícios da Mansão que nos patrocinava os estudos.
Em face da simpatia que Adelino
despertava igualmente em nós, acercamo-nos dele, a fim de ofertar-lhe de
algum modo, o contingente de nossas forças, na movimentação dos passes
magnéticos que passara agora a administrar, em favor de alguns enfermos.
Era curioso pensar que nós
mesmos, no primeiro encontro fortuito, nos sentíamos prontos a
partilhar-lhes as tarefas, tão-somente atraídos por sua irradiante
bondade.
A abnegação, em toda a parte, é
sempre uma estrela sublime. Basta mostrar-se para que todos gravitemos em
torno de sua luz.
Findo o serviço da noite. Silas e
nós acompanhamo-lo ao reduto doméstico.
Esperava-o, no limiar, a genitora
que, evidentemente, ultrapassava os sessenta de idade.
Silas deu-se pressa em no-la
apresentar, explicando:
-É nossa irmã Leontina, carinhosa
mãe de Correia, mãe e amiga a tutelar-lhe a existência.
Reparando na avançada madureza do
amigo que nos tomava a atenção, meu colega indagou:
-Adelino não é casado?
-Sim, nosso irmão é casado, mas
não conta com a presença da esposa.
A resposta nos dava a entender
que o companheiro atravessava provas perante as quais nos cabia respeitosa
discrição.
E enquanto mão e filho se
entregavam a doce entendimento, Silas fez-nos penetrar em aposento
próximo.
Junto à porta de entrada,
alinhavam-se três leitos ocupados por outras tantas criancinhas.
Laura menina de seus nove a dez
anos presumíveis, ao lado de dois petizes de escura tez, recordava a
Branca de Neve, entre dois anões.
Todos dormiam, placidamente.
Afagando a boneca viva, o
Assistente informou:
-Esta é Marisa, a filhinha de
Correia, de quem a mãezinha se distanciou em definitivo, há seis anos.
Designando, em seguida, os dois
meninos de cor, aduziu:
-E estes pequeninos são Mário e
Raul, dois enjeitados que Adelino abraçou por filhos do coração.
Hilário e eu, adivinhando as
aflições ocultas que decerto enxameavam na existência do chefe da casa,
silenciávamos, de propósito, em reverente expectativa.
Entendendo-nos a atitude, Silas
passou a falar-nos mais longamente, aclarando:
-Para exaltar o santificante
esforço de um amigo, a fim de estudarmos juntos um processo de dívida
aliviada; permitimo-nos algo dizer em torno do passado recente do
companheiro que visitamos; agora empenhado ao labor do seu resgate.
Qual se quisesse centralizar os
recursos da memória; emudeceu por instantes e, finalmente, continuou:
-Em meados do século precedente,
Adelino era filho bastardo de um jovem muito rico que o recebeu das mãos
da genitora escrava, que descerrou ao traze-lo à luz. Martim Gaspar, o
moço afazendado que lhe foi pai solteiro, era homem de coração,
enrijecido, muito cedo acostumado ao orgulho tiranizante, em face da
incúria do lar em que nascera. Abusava das donzelas cativas a seu talante
e, em muitas ocasiões, vendeu-as com os próprios filhos recém-natos para
lhes não ouvir os choros e petitórios. Temido na casa grande da qual se
fizera absoluto senhor, por morte do velho pai, que, em vão, buscara
tardiamente controlar-lhe os instintos, sabia usar o tronco e o chicote,
sem qualquer compaixão. Era execrado pela maioria dos servos e bajulado de
quantos lhe obtinham os favores, a troco de lisonja servil. Entretanto,
para o filho Martim – o mesmo Adelino de agora -, a sua ternura e
dedicação não mostravam limites. Inexplicavelmente para ele mesmo, amava-o
com desvelado enternecimento, a ponto de providenciar-lhe educação
esmerada na própria fazenda. Entre pai e filho estabeleceram-se, dessa
forma, os mais santos laços afetivos. Eram companheiros inseparáveis nos
jogos e nos estudos, no serviço e na caça. Foi assim que Gaspar, não
obstante cruel para com os outros rebentos da própria carne, nas senzalas
sofredoras, não hesitou em legitima-lo como filho, perante as autoridades
do tempo, tornando-o participe de seu nome e de sua herança. Pai e filho
contavam, respectivamente, quarenta e três e vinte e um anos de idade,
quando Gaspar, embora solteirão amadurecido, resolvei casar-se, em grande
metrópole, desposando Maria Emília, leviana jovem de vinte primaveras que,
trazida à grande casa rural, desenvolveu sobre o enteado estranha
fascinação. Martim, extremamente amado pelo genitor, atraído agora para os
encantos feminis da madrasta, passou a experimentar torturantes conflitos
sentimentais. Ele, que se julgava o melhor amigo de Gaspar, entrou a
detesta-lo.. Não lhe tolerava a posse sobre a mulher que desejava,
sabendo-se por ela ardentemente querido, porquanto Maria Emília,
pretextando essa ou aquela necessidade, sabia isola-lo em viagens
diversas, nas quais lhe exacerbava a afeição juvenil. Ambos souberam
furtar-se a qualquer desconfiança e, totalmente entregue à paixão que o
seqüestrava, o jovem Martim, desprevenido, planejou o medonho parricídio
em que se enliçou, desventurado. Sabendo o genitor acamado, em tratamento
do fígado enfermo, tomou a cooperação de dois capatazes da sua inteira
confiança, Antonio e Lucídio, igualmente verdugos de meninas cativas, e,
certa noite, administrou-lhe uma poção entorpecente, com aprovação da
madrasta... Tão logo se pós o doente a dormir, coadjuvado pelos dois
cúmplices que odiavam o patrão, espalhou substâncias resinosas no leito
paterno, simulando, logo após, o incêndio no qual o mísero Gaspar, em
horríveis padecimentos, se ausentou do corpo. Conduzido o pai ao sepulcro
e apoderando-se-lhe dos haveres, tentou a felicidade ao pé dae Maria
Emília; todavia, o genitor desencarnado, a inflamar-se em cólera,
envolveu-o em nuvens de fluídos inflamados, contra os quais o infeliz não
possuía defesa... Apegando-se ao afeto da companheira, Martim procurou
anestesiar a consciência e esquecer... Esquecer... Confiou a fazenda aos
cuidados de ambos os cúmplices do tenebroso delito e, arrimando-se à
companhia da mulher, demandou à Europa, em busca de repouso e distração.
Tudo, porém, debalde... Ao fim de cinco anos de resistência, tombou
integralmente vencido, sob o jugo do Espírito paternal que o cercava,
incessantemente, apesar de invisível. Abriu-se-lhe a pele em chagas, como
se chamas ocultas o requeimassem. Circunscrito ao leito de dor e
constantemente empolgado pelo remorso, recapitulava mentalmente a morte do
genitor, em urros de martírio selvagem... Não sabia, desse modo, senão
chorar, gritando a esmo o arrependimento de que se via possuído, no que
foi interpretado à conta de louco pela própria companheira, que se dava
pressa em conhecer-lhe perante os amigos e servidores. Foi algemado a
semelhante suplício que Martim recebeu escárnio e abandono, dentro do
próprio círculo doméstico, vindo a expiar em tremenda flagelação. Martim
Gaspar, o genitor assassinado, aguardou-o no túmulo, arrastando-o para as
sombras infernais, onde passou a exercer pavorosa vingança... O desditoso
filho desencarnado sofreu terríveis humilhações e indescritíveis
tormentos, durante onze anos sucessivos, em cárceres de treva, até que,
amparado por Mensageiros de Jesus, que lhe promoveram o resgate, ingressou
em nosso instituto, ao que fui informado, em lamentável situação. Tendo
entrado em sintonia com o genitor, sequioso de vindita, através das
brechas mentais do remorso e do arrependimento tardio, foi hipnotizado por
gênios perversos, que o fizeram sentir-se dominado de chamas torturantes.
Fixada a imaginação dele em semelhante quadro de angústia, o próprio
Martim nutria com o pensamento culposo, as labaredas em que se torturava
sem consumir-se, até que foi convenientemente aliviado e socorrido por
nossos instrutores, através de recursos magnéticos que lhe sanaram o
doloroso desequilíbrio. Devotou-se, então, depois de melhorado, aos
serviços mais duros de nossa organização, conquistando com o tempo
apreciáveis lauréis que lhe valeram a volta à esfera humana, com o direito
de iniciar o pagamento da larga dívida em que onerou, desavisado.
Cultuando a prece com a renovação do mundo íntimo, renasceu de espírito
inclinado à fé religiosa, ardente e operante, encontrando no Espiritismo
com Jesus, ao influxo dos amigos desencarnados que o assistem, precioso
campo de fortalecimento moral e trabalho digno, no qual tem sabido
estender, com louvável aproveitamento das horas, o seu raio de ação no
estudo edificante e na caridade pura, atraindo em seu favor as mais amplas
simpatias, por parte de irmãos encarnados e desencarnados, que lhe devem
generosidade e carinho. Atirado a imensas dificuldades materiais, desde
cedo cresceu órfão de pai, de vez que não valorizou no passado à ternura
paterna, lutando com extrema pobreza e com enfermidade constante...
Custodiado, porém, por benfeitores da nossa Mansão, foi conduzido, a um
templo espírita, ainda muito jovem, onde submetido a tratamento da
epiderme esfogueada, entrou no conhecimento de nossa Renovadora
Doutrina... A leitura dos princípios espíritas, ao sol do Evangelho do
Senhor, constituiu para ele recordações naturais dos ensinamentos
assimilados em nossa casa, antes da reencarnação. Desde ai, aceitou
nobremente a responsabilidade de viver e buscou, acima de tudo, aplicar a
si próprio as diretrizes regeneradoras da fé que abraça. Disciplinou-se.
Rendeu sincero preito às suas obrigações e, não obstante os entraves
orgânicos; muito moço se dedicou às representações comerciais, de cujo
labores retira os abençoados recursos que sabe repartir com necessitados
numerosos, reservando para si tão-somente o indispensável. Não é um rico
da Terra, na acepção do conceito, mas um trabalhador da fraternidade que
sabe dar o próprio coração naquilo que distribui. Trilhando o caminho da
simplicidade e da renúncia edificante, modificou as impressões de muitos
dos companheiros de outro tempo, que nas baixas camadas da sombra, se lhe
haviam transformado em perseguidores e desafetos, obsessores esses que, em
lhe observando os exemplos novos, se sentiam moralmente desarmados para os
conflitos que se propunham manter. É assim que não deixa de ressarcir as
suas culpas, sofrendo-lhes o gravame em si mesmo. Entretanto, pelos
valores que entesoura, devotado ao bem alheio, resgata o pretérito com o
alívio possível, ganhando tempo e adquirindo novas bênçãos. Ajudando aos
outros, desbasta, dia a dia, o montante dos seus débitos, de vez que a
Misericórdia do Pai Celestial permite que os nossos credores atenuem o
rigor da cobrança, sempre que nos vejam oferecendo ao próximo necessitado
aquilo que lhes devemos...
Silas confiou-se a pausa breve,
mas Hilário, tanto quanto eu fascinado por sua exposição clara e sensata;
rogou, sedento de ensino:
-Continue, Assistente. Essa lição
viva ilumina-nos de esperança... Como se explica estar Adelino ganhando
tempo?
Nosso amigo sorriu e acrescentou:
-Correia, que não merecia a
ventura do lar tranqüilo por haver arruinado o lar paterno, casou-se e
padeceu o abandono da companheira que lhe não entendeu o coração.
Avançando para a terna Marisa que
dormia, acentuou:
-Assim, pela vida útil a que se
consagra e pela caridade incessante que passou a exercer, atraiu para
junto de si, como filha da sua carne, a antiga madrasta que desviou dos
braços paternos; hoje reencarnada junto dele para reeducar-se ao calor de
seus exemplos nobres, guardando a dor de saber-se filha de pobre mulher
que renegou o tálamo conjugal, tanto quanto ela mesma o menosprezou no
passado recente. Mas... Não é apenas essa a vantagem de Adelino...
Silas passou levemente a destra
nos pequenos que ressonavam e prosseguiu -Dedicando-se de alma e corpo à
sua renovação com o Cristo, nosso amigo recolheu como filhos adotivos os
dois cúmplices do parricídio tremendo, os antigos capatazes Antônio e
Lucídio, que, abusando de humildes donzelas escravizadas, de quem furtavam
os filhinhos para exterminar ou vender, não encontraram senão o alcoice
por berço, vindo para o círculo afetivo do companheiro de outro tempo, no
sangue, africano que tanto enxovalharam, de modo a lhe receberem o amparo
moral à reforma precisa.
Enquanto nos edificávamos com o
precioso ensinamento, Silas observou:
-Como é fácil de reconhecer,
nosso irmão, através da responsabilidade espírita-cristã, corretamente
sentida e vivida, conquistou a felicidade de reencontrar os laços do
pretérito criminoso para o necessário reajuste, ao passo que, se houvesse
desertado da luta pela irreflexão da companheira ou se tivesse cerrado a
porta do coração aos dois meninos infelizes, teria adiado para futuros
séculos o nobre trabalho que está fazendo agora...
Dispúnhamo-nos a formular novas
indagações, mas Correia despedira-se da mãezinha e viera ocupar um leito
modesto, não longe das crianças.
Demonstrando hábitos
respeitáveis, sentou-se em prece.
Foi quando Silas,
recomendando-nos cooperação, abeirou-se dele e, aplicou-lhe passe
magnético; nos esclarecendo, logo após:
-Ainda pela utilidade que sabe
imprimir aos seus dias. Adelino mereceu a limitação da enfermidade
congenial de que é portador. Tendo sofrido, por longo tempo, o trauma
perispirítico do remorso, por haver incendiado o corpo do próprio pai,
nutriu em si mesmo estranhas labaredas mentais que, como já lhes disse, o
castigaram intensamente além-túmulo... Renasceu, por isso, com a epiderme
atormentada por vibrações calcinantes que, desde cedo, se lhe expressaram
na nova forma física por eczema de mau caráter... Semelhante moléstia, em
face da dívida em que se empenhou, deveria cobrir-lhe todo o corpo,
durante muitos e angustiosos lustros de sofrimento, mas, pelos méritos que
ele vai adquirindo, a enfermidade não tomou proporções que o impeçam de
aprender e trabalhar, porquanto granjeou a ventura de continuar a servir,
pelo seu impulso espontâneo na plantação constante do bem.
A essa altura, talvez porque o
dono da casa se dispusesse ao refúgio dos travesseiros, o Assistente
convidou-nos à retirada.
De volta à Mansão, prosseguiu
nosso amável mentor tecendo brilhantes comentários em torno do “amor que
cobre a multidão dos pecados”, como ensinou o Apóstolo, quando Hilário;
interpretando-me as indagações; considerou de improviso:
-Assistente, com uma elucidação
assim tão clara, é justo aspiremos, a saber, determinadas minudências que
a ela digam respeito. Poderemos, a caso, inteirar-nos quanto à situação de
Martim Gaspar, o genitor que padeceu o martírio do fogo em sua carne?
Porque Silas se detivesse em
silêncio, meu colega continuou:
-Terá ciência do trabalho
renovador de Adelino? Devotar-lhe-á, ainda, menosprezo e ódio?
-Martim Gaspar – respondeu por
fim o interlocutor -, infatigável que era na violência, foi igualmente
tocado pelos exemplos de nosso amigo. Observando-lhe a transformação,
abandonou as companhias indesejáveis a que se adaptara e rogou asilo, em
nosso instituto, vai para alguns anos, onde aceitou severas disciplinas...
-E onde se encontra agora? –
insistiu Hilário ansioso – porventura será permitido vê-lo, para
anotar-lhe as alterações?
Nesse instante, porém, varávamos
a entrada do santuário de nossas obrigações, e Silas, sem mais
possibilidades de alongar-se, afagou os ombros de nosso companheiro,
dizendo:
-Acalme-se, Hilário, É possível
estejamos de regresso ao assunto em breve horas.
Despedimo-nos, conservando as
anotações à maneira de estudo interrompido, aguardando sequência.
No dia seguinte, porém, grata
surpresa visitou-nos o coração.
Quando o relógio anunciou alta
noite na extensa faixa planetária em que se mantinha o nosso domicílio, o
Assistente veio buscar-nos, prestimoso.
Demandaríamos à esfera carnal,
mas, naquela hora, em companhia de Druso, o orientador da instituição.
Regozijamo-nos, embora curioso.
Era a primeira vez que
viajaríamos junto ao grande mentor que nos conquistara a mais ampla
reverência. E, se é verdade que o privilégio nos alegrava, ao mesmo tempo
indagávamos do motivo pelo qual se ausentaria ela da casa que não lhe
dispensava a presença;
Entretanto, não houve
oportunidade para longas divagações.
Em companhia de Druso, que se
fazia seguir por Silas, por duas das irmãs altamente responsáveis em
serviços da Mansão e por nós outros, utilizamo-nos do meio mais rápido
para a excursão, cujo objetivo desconhecíamos, porquanto a maior
autoridade nos trabalhos normais do instituto decerto não disporia de
tempo para uma viagem que não fosse a mais curta possível.
Grande era o meu desejo de
provocar o verbo do Assistente para a conversação educativa em torno do
problema que abordáramos na noite anterior; todavia, a presença de Druso
como que nos inibia a disposição de ferir qualquer tema que não partisse
dele mesmo, cuja dignidade não nos provava da expressão livre, mas nos
infundia incoercível respeito.
Foi assim que no trajeto ligeiro
lhe ouvimos a conceituação oportuna e sábia, em torno de múltiplas
questões de justiça e trabalho, admirando-lhe, cada vez mais, a cultura e
a benevolência.
Espantado, no entanto, reconheci
que a nossa equipe estacionou à porta do lar de Adelino, que deixáramos na
véspera.
Dois auxiliares que conhecíamos
de perto esperavam-nos no limiar.
Depois de recíprocas saudações,
um deles avançou para Druso e anunciou, reverente:
-Diretor, o pequenino recém-nato
estará conosco dentro de meia hora.
O grande mentor agradeceu e
convidou-nos a acompanha-lo.
Na paisagem doméstica que nos era
familiar, o relógio marcava duas horas e vinte minutos da madrugada.
Atônitos, seguimos o orientador
que tomara a vanguarda, penetrando o aposento em que Adelino, ao que nos
foi permitido supor, começava a dormir.
Druso acariciou-lhe a fronte por
momentos e vimos Correia erguer-se do corpo de carne, qual se fora movido
por alavancas magnéticas poderosas, caindo nos braços do grande
orientador, à maneira de criança enternecida e feliz.
-Meu amigo – disse-lhe Druso,
entre grave e terno -, chegou à hora do reencontro...
Correia começou a chorar,
aterrorizado, sem conseguir desenfaixar-se-lhe dos braços acolhedores.
-Oremos juntos – acrescentou o
bondoso amigo.
E, levantando os olhos para o
Alto, sob nossa profunda atenção, Druso suplicou:
- “Deus de Bondade, Pai de
Infinito Amor, que criaste o tempo como incansável guardião de nossas
almas destinadas ao Teu seio, fortalece-nos para a renovação
necessária!...”.
“Tu, que nos conheces os crimes e
deserções, concede-nos a bênção das dores e das horas para redimi-los,
unge-nos com o entendimento de tuas leis, para que não repilamos as
oportunidades do resgate!”.
“Emprestaste-nos os tesouros do
trabalho e do sofrimento, como favores de Tua misericórdia, para que nos
consagremos à reabilitação dolorosa, mas justa...”.
“Nós, os prisioneiros da culpa,
somos também operários de nossa libertação, ao bafejo de Teu carinho”.
“Ó Pai, infunde-nos coragem para
que nossas fraquezas sejam esquecidas, inflama em nosso espírito o
entusiasmo santo do bem, para que o mal não nos apague os bons propósitos,
e conduze-nos pelo carreiro da renunciação para que a nossa memória não se
aparte de Ti!...”.
“Que possamos orar como Jesus, o
Divino Mestre, que nos enviaste aos corações, a fim de que nos redamos,
todo, aos Teus desígnios!”.
Depois de leve pausa, repetiu em
pranto a prece dominical:
- “Pai nosso, que estás nos Céus,
santificado seja o Teu nome. Venha a nós o Teu reino. Faça-se a Tua
vontade, assim na Terra como nos Céus. O pão nosso de cada dia dá-nos
hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos
devedores. Não nos deixeis cair em tentação e livra-nos de todo mal,
porque Teus são o reino, o poder e a glória para sempre. Assim seja”.
Quando a sua voz emudeceu,
profunda emotividade exercia sobre nós inexpressável domínio.
Reconduzido ao veículo carnal.
Adelino acordou em copiosas lágrimas...
Reconheceu-se-lhe o júbilo
íntimo, se bem não pudesse guardar a consciência integral da comunhão
conosco.
Findos alguns minutos de
expectação, que transcorreram céleres, escutamos lá fora o choro convulso
de uma criança tenra...
Enlaçado por Druso, o dono da
casa ausentou-se do leito e, incontinenti, abriu a porta que comunicava o
interior com a calçada externa, em cujas lajes; vigiado por amigos da
Mansão, pobre recém-nascido vagia aflitivamente.
Tomado de surpresa, Correia
ajoelhou-se, enquanto o grande orientador lhe dizia com segurança.
-Adelino, eis o pai ofendido que,
enjeitado pelo coração materno que ainda não mereceu, vem ao encontro do
filho regenerado!
Correia não lhe ouvia a palavra,
na acústica da carne, mas registrou-a no templo mental, como apelo do amor
celeste que lhe trazia ao coração mais uma criança abandonada e infeliz...
Tomado de alegria, para ele inexplicável, abraçou o pequerrucho com
espontâneo gesto de amor e, após aconchega-lo de encontro ao peito, voltou
para dentro, gritando jubiloso:
-Meu filho!... Meu filho!...
Silas, entre Hilário e eu,
comunicou-nos, emocionado:
-Martim Gaspar retorna à
experiência física, asilando-se nos braços do filho que o desprezou.
Não tivemos, contudo, qualquer
ensejo a mais dilatada conversação. Druso, enxugando as lágrimas,
advertiu-nos em voz alta, qual se estivesse falando para si mesmo:
-Oxalá, quando estivermos de novo
em pleno nevoeiro da carne, possamos, também nós, abrir o coração ao
excelso amor de Jesus, para que não venhamos a falir nas provas
necessárias!...
E havia tanto recolhimento e
tanta angústia naquele olhar que nos habituara ao mais doce enternecimento
e ao mais profundo respeito que, de volta à Mansão, nenhum de nós ousou
quebrar-lhe o doloroso e expressivo silêncio.
Da obra “AÇÃO E REAÇÃO” – ESPÍRITO: ANDRÉ LUIZ –
MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
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