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RESGATE
INTERROMPIDO
André Luiz
Acompanhando o Assistente, passamos a
cooperar na rearmonização de pequena família domiciliada em subúrbio de
populosa capital.
Ildeu, o chefe da casa, homem que
mal atingira a madureza física, pouco além dos trinta e cinco de idade,
encontrara em Marcela a esposa abnegada e mãe de seus três filhinhos,
Roberto, Sônia e Márcia; entretanto, seduzido pelos encantos da jovem
Mara; moça leviana e inconseqüente, tudo fazia para que a esposa o
abandonasse.
Marcela, porém, educada na escola
do Dever, dedicava-se ao lar e tudo fazia para não deixar perceber a
própria dor.
Pelos gestos rudes e pela
deplorável conduta em casa, não desconhecia a modificação do pai de seus
filhos, e, recebendo cartas insultuosas da rival que lhe disputava o
companheiro, sabia chorar em silêncio, confiando-nas no fogo para que não
caíssem sob o olhar do esposo.
Doía-nos, cada noite, vê-la em
prece, ao lado das criancinhas.
Roberto o primogênito; com nove
anos de idade acariciava-lhe a cabeça, adivinhando-lhe os soluços
imobilizados na garganta, e as duas pequeninas, na inconsciência infantil,
repetiam maquinalmente as orações ditadas pela nobre senhora,
oferecendo-as a Jesus, em favor do “papai”.
Em atormentada vigília até noite
alta, agoniava-se-lhe o espírito, observando Ildeu, estróina, alcançando o
lar, tresandando a licores alcoólicos e exibindo os sinais de aventuras
inconfessáveis.
Erguia-se a voz, lembrando alguma
necessidade dos meninos, retorquia ele, irritado:
-Vida infame! Sempre você a
recriminar-me, a aborrecer-me, à perseguir-me com censuras e
petitórios!... Se quiser dinheiro, trabalhe. Se eu soubesse que o
casamento seria isso, teria preferido estourar os miolos a assinar um
contrato que me escraviza a existência inteira!...
E gritando, intemperante,
mostrava-nos a tela das suas recordações, em que Mara, a jovem sedutora,
lhe surgia à mente, como sendo a mulher ideal. Cotejava-a com a esmaecida
figura da esposa que as dificuldades acabrunhavam e, governado pela imagem
da outra, entregava-se a chocantes excitações, ansiando fugir do lar.
Marcela, em pranto, suplicava-lhe
tolerância e serenidade, acentuando que não desdenhava o serviço.
Despendia o tempo de que dispunha
na cooperação mal remunerada, em favor de lavanderia modesta, contudo, os
afazeres domésticos não lhe permitiam fazer mais.
-Hipócrita! – berrava o marido
que a cólera transtornava – e eu? Que pretende você de mim? Posso, acaso,
fazer mais? Sou um homem dependurado em lojas e armazéns... Devo a
todos!... Por sua causa, simplesmente em razão do seu desperdício... Não
sei até quando poderei atura-la. Não será mais aconselhável regresse você
à terra que teve a infelicidade de vê-la nascer? Seus pais estão vivos...
A pobre criatura em lágrimas
emudecia, mas, sendo a voz dele estentórica. Quase sempre o pequeno
Roberto acordava e acorria em socorro da mãezinha, enlaçando-a,
estremunhado.
Ildeu avançava sobre o miúdo
interventor a sopapos, clamando com insofreável revolta:
-Saia daqui! Saia daqui!...
E qual se a petiz lhe não fora
filho, mas adversário confesso, acrescentava, cerrando os punhos:
-Tenho gana de mata-lo!...
Mata-lo!... Todas as noites, esta mesma pantomima, Bandido! Palhaço!...
E o menino, agarrado ao colo
materno, sofria pancadas até recolher-se, de novo, ao leito, em pranto
convulsivo.
Entretanto, se as filhinhas
choramingassem, eis que o genitor se desfazia em ternura, ainda mesmo
quando plenamente embriagado, proferindo bondoso:
-Minhas filhas!... Minhas pobres
filhas!... Que será de vocês no futuro? É por vocês que ainda me encontro
aqui, tolerando a cruz desta casa!...
E, não raro, ele próprio ia
reacomoda-las no berço.
Silas e nós entrávamos em ação, a
benefício de Marcela e dos filhinhos.
Do atormentado lar, ameaçado de
completa destruição, demandávamos outros setores de serviço, sem que o
Assistente encontrasse oportunidade de administrar-nos esclarecimentos
mais amplos.
Todavia, quase que diariamente, à
noite, ali aplicávamos alguns minutos em tarefas que nos falavam aos
refolhos do coração.
Contudo, apesar de nosso esforço,
o chefe da família mostrava-se, cada dia, mais indiferente e distante.
Enfadado e irritadiço, não
concedia à esposa nem mesmo a gentileza de leve saudação. Fascinado pela
outra, passara a odiá-la. Pretendia desobrigar-se do compromisso assumido
e trilhar nova senda...
No entanto, como atender ao
problema do amor às pequeninas?
- “Sinceramente – pensava de si
para consigo – não amava a Roberto, o filho cujo olhar o acusava sem
palavras, lançando-lhe em rosto o censurável procedimento, mas, adorava
Sônia e Márcia, com desvelada ternura... Como se ausentar delas no
desquite provável? Decerto, a companheira teria assegurado, perante a lei,
os direitos de mãe... Senhora de nobre conduta, Marcela contaria com o
favor da Justiça...”.
Refletia, refletia...
Ainda assim, não renunciava ao
carinho de Mara, cuja dominação lhe empolgava o sentimento enfermiço.
Fosse onde fosse, registrava-lhe
a influência sutil, a desfibrar-lhe o caráter e a dobrar-lhe a cerviz de
homem que, até encontra-la, fora honrado e feliz.
Por vezes, tentava
subtrair-se-lhe ao jugo, ms debalde.
Marcela apresentava o semblante
da disciplina que lhe competia observar e da obrigação que lhe cabia
cumprir, quando Mara, de olhos em fogo, lhe acenava à liberdade e ao
prazer.
Foi assim que lhe nasceu no
cérebro doentio uma idéia sinistra: assassinar a esposa, escondendo o
próprio crime, para que a morte dela aos olhos do mundo passasse como
sendo autêntico suicídio.
Para isso alteraria o roteiro
doméstico.
Procuraria abolir o regime de
incompreensão sistemática, daria tréguas à irritação que o senhoreava e
fingiria ternura para ganhar confiança... E, depois de alguns dias, quando
Marcela dormisse, despreocupada, desfechar-lhe-ia uma bala no coração,
despistando a própria polícia.
Acompanhamos-lhe a evolução do
tresloucado plano, porquanto é sempre fácil penetrar o domínio das
formas-pensamentos, vagarosamente construídas pelas criaturas que as
edificam, apaixonadas e persistentes em torno dos próprios passos.
Na aparente calmaria que
sustentava, Ildeu, embora sorrisse, exteriorizava ao nosso olhar o
inconfessável projeto, armando mentalmente o quadro criminoso, detalhe por
detalhe.
Para defender Marcela, porém cuja
existência era amparada pela Mansão que representávamos, o Assistente
reforçou na casa o serviço de vigilância.
Dois companheiros nossos, zelosos
e abnegados, alternativamente ali passaram a velar, dia e noite, de modo a
entravar o pavoroso delito.
Achávamo-nos; certa feita, em
atividade assistencial ao pé de alguns doentes, quando o irmão em serviço
veio até nós, comunicando, inquieto, a precipitação dos acontecimentos.
De alma aturdida pela influência
de homicidas desencarnados que lhe haviam percebido os pensamentos
expressos, intentaria Ildeu aniquilar a companheira naquela mesma noite.
Silas não vacilou.
Demandamos, de imediato, a casa
singela em que se reunia a equipe doméstica atormentada.
Dispondo da extensa autoridade de
que se achava investido, o nosso orientador, empregando o concurso de
entidades amigas, em rotina de trabalho nas vizinhanças, inicialmente
baniu os alcoólatras e delinqüentes desencarnados que ali se acolhiam.
Apesar da providência, o plano
infernal na cabeça de nosso pobre amigo evidenciava-se integralmente
maduro.
A madrugada ia alta.
Com o coração precipitei,
relanceando o olhar medroso pelas paredes nuas do gabinete em que
examinava o pente de uma pistola, qual se nos adivinhasse a presença, o
chefe da família revelava-se disposto à consumação do ato execrável.
Revestindo-lhe todo o cérebro,
surgia a cena do assassínio, calculadamente prevista, movimentando-se em
surpreendente sucessão de imagens...
Oh! Se as criaturas encarnadas
tivessem consciência de como se lhes exteriorizam as idéias, certamente
saberiam guardar-se contra o império do crime!
O irrefletido pai pensava
demandar o aposento dos filhos, para tranca-los à chave, de maneira a
evitar-lhes o testemunho, quando Silas, de improviso, avançou para o leito
das meninas e, utilizando os recursos magnéticos de que dispunha, chamou a
pequena Márcia, em corpo espiritual, a rápida contemplação dos pensamentos
paternos.
A criança, em comunhão com o
quadro terrível, experimentou tremendo choque e retornou, de pronto, ao
veículo físico, bradando, desvairada, como quem se furtasse ao domínio de
asfixiante pesadelo:
-Papai!... Paizinho! Não mate!
Não mate!...
Ildeu, a esse tempo, já se
encontrava à porta, sustentando a arma na destra e tentando manobrar a
fechadura com a mão livre.
Os gritos da menina ecoaram em
toda a casa, provocando alarido.
Marcela, num átimo, pôs-se de pé,
surpreendendo o marido ao pé da filha, e, junto deles, o revólver
augurando maus presságios.
A mulher bondosa e incapaz de
suspeitar das intenções dele recolheu cautelosamente a arma e, crendo que
o esposo pretendera suicidar-se, implorou em pranto:
-Oh! Ildeu - não te mates! Jesus
é testemunha de que tenho cumprido retamente com todos os meus deveres...
Não quero o remorso de haver cooperado para semelhante desatino, que te
lançaria entre os réprobos das leis de Deus!... Procede como quiseres, mas
não te despenhes no suicídio. Se for de tua vontade, monta nova casa em
que viva com a mulher que te faça feliz... Consagrarei minha existência
aos nossos filhos. Trabalharei, conquistando o pão de nossa casa com o
suor de meu rosto... Entretanto, suplico, não te mates!...
A generosa atitude daquela mulher
nos sensibilizava até as lágrimas.
O próprio Ildeu, não obstante o
sentimento empedernido, sentia-se tocado de piedade, agradecendo, no
íntimo, a versão que a esposa, digna e abnegada, oferecia aos
acontecimentos, cuja direção não conseguira prever.
E, encontrando a escapatória que,
de há muito, buscava, longe de ouvir os brados da consciência que o
concitavam à vigilância, exclamou, à feição de vítima:
-Realmente, não posso mais...
Agora, para mim, só restam dois caminhos, suicídio ou desquite...
Marcela; com o auxílio do
Assistente descarregou o revólver, reconduziu as crianças ao sono e
deitou-se atribulada. Nos olhos tristes, lágrimas borbulhavam na sombra,
enquanto orava, súplice, na torturada quietude do seu martírio,
silencioso: - “Ó meu Deus, compadece-te de mim, pobre mulher
desventurada!... Que fazer sozinha na luta, com três crianças
necessitadas?...”.
Todavia, antes que a dor pungente
se lhe metamorfoseasse em desânimo destruidor, Silas aplicou-lhe passes
balsamizantes, hipnotizando-a, com o que a flagelada senhora em
desdobramento, se colocou, inquieta, diante de nós.
Tomando-nos à consta de
mensageira do Céu, na cristalização dos hábitos em que comumente mergulham
as almas encarnadas, ajoelhou-se e rogou amparo.
Silas, porém, soergueu-a,
bondoso, e explicou:
-Marcela; somos apenas teus
irmãos... Reanima-te! Não te encontra sozinha. Deus Nosso Pai, jamais nos
abandona... Concede, sim, liberdade ao teu esposo, embora saibamos que o
dever é uma bênção divina da qual pagaremos caro a deserção... Que Ildeu
rompa os laços respeitáveis dos seus compromissos, se é que julga seja
essa a única maneira de adquirir a experiência que deve conquistar...
Haja, porém, o que houver, ajuda-o com tolerância e compreensão. Não lhe
queira mal algum. Antes, roga a Jesus o abençoe e ampare, onde esteja,
porque o remorso e o arrependimento, a saudade e a dor para os que fogem
das obrigações que o Senhor lhes confia convertem-se em fardos difíceis de
carregar. Sabemos que a ele te ligaste em sagrada aliança na empresa
redentora do pretérito próximo... Ainda assim, se ele esmorece, à frente
da luta, em pleno exercício da faculdade do escolher, não será justo lhe
violentes o livre arbítrio, impondo-lhe atitudes que a ele compete
cultivar. Ildeu ausenta-se agora dos contratos que abraçou, a benefício de
si mesmo, e interrompe o resgate das contas que lhe são próprias...
Voltará, porém, mais tarde aos débitos que olvida, talvez mais onerado
perante a Lei... Não te lamentes, contudo, e segue adiante. Sejam quais
forem as lutas que te descerem ao coração, resigna-te e não temas. Faça
dos filhinhos o apoio firme na caminhada. Todo sacrifício edificante no
mundo expressa enriquecimento de nossas almas na Vida Eterna... Renuncia,
pois, ao homem querido, respeitando-lhe os caprichos do coração, e aguarda
o futuro com esperança.
E porque Marcela chorasse,
receando o provir, em fase das contingências materiais, Silas afagou-lhe a
cabeça e asseverou, prestimoso:
-Para mãos dignas, jamais saltará
trabalho digno. Contemos com a proteção do Senhor e marchemos com
desassombro. Enxuga o pranto e ergue-te em espírito à Fonte do Sumo
Bem!...
Nesse ínterim, parentes
desencarnados da jovem senhora assomaram carinhosamente ao recinto,
estendendo-lhe as mãos...
E nosso orientador confiou-lhe
Marcela, chorosa, rogando-lhes ajuda para que a víssemos restaurada.
Retiram-nos, em seguida.
Foi então que nossas perguntas
explodiram, insopitáveis:
-Por que Marcela, meiga e honesta, era odiada pelo
esposo, assim tanto? Por que a preferência de Ildeu pelas filhinhas, com
tanto desdém pelo primogênito? E a separação em perspectiva? Seria justo
procurar o nosso mentor fortalecer aquela mãezinha desventurada para o
desquite, ao invés de incentiva-la à recuperação do amor e do devotamento
do companheiro?
O Assistente sorriu com manifesto
desencanto e obtemperou:
-Há nas anotações do Apóstolo
Mateus (8) certa passagem, na qual afirmam Jesus que o
divórcio na Terra é permitido a nós outros pela dureza dos nossos
corações. Aqui, a medida deve ser facultada à maneira de medicação
violenta em casos desesperadores de desarmonia orgânica. Na febre alta ou
no tumor maligno, por exemplo, a intervenção exige métodos drásticos, a
fim de que a crise de sofrimento não culmine com a loucura ou com a morte
extemporânea. Nos problemas matrimoniais, agravados pela defecção de um
dos cônjuges ou mesmo pela deserção de ambos do dever a cumprir, o
divórcio é compreensível como providência contra o crime, seja ele o
assassínio ou o suicídio... Entretanto, assim como o choque operatório
para o tumor e a quinina para certas febres é recursos de emergência, sem
capacidade de liquidar as causas profundas da enfermidade, as quais
prosseguem reclamando tratamento longo e laborioso, o divórcio não
soluciona o problema da redenção, porque ninguém se reúne no casamento
humano ou nos empreendimentos de elevação espiritual, no mundo, sem o
vínculo do passado, e esse vínculo, quase sempre significa débito no
Espírito ou compromisso vivo e delongado no tempo. O homem ou a mulher,
desse modo, pode provocar o divórcio e obtê-lo, como sendo o menor dos
piores males que lhes possam acontecer... Ainda assim, não se liberam da
dívida em que se acham incursos, cabendo-lhes voltar ao pagamento
respectivo, tão logo seja oportuno.
E porque as nossas muitas
interrogações pairavam no ar, o generoso orientador prosseguiu:
-No caso de Ildeu e Marcela, já meticulosamente
estudado em nossa Mansão, temos duas almas em processo de reajuste, há
vários séculos. Para não nos perdermos em compridas perquirições, convém
lembrar tão-somente algumas notas da existência última, em que ambos, como
marido e mulher, aqui mesmo no Brasil, se entregaram a difíceis
experiências. Ele, depois de casado, continuou irrequieto, entre a
irresponsabilidade e a aventura, nas quais seduziu duas moças, filhas do
mesmo lar. Primeiramente, enganou uma delas, abandonando a esposa que a
Lei lhe havia confiado. Passando, porém, ao convívio da segunda
companheira, que patrocinava o desenvolvimento da irmãzinha menor, que os
pais, à beira do túmulo, lhe haviam entregado, Ildeu, não vacilou em
aguardar-lhe a floração juvenil para submete-la igualmente aos seus
caprichos inconfessáveis. Entrando em franca decadência moral,
precipitou-as no meretrício em cujas correntes de sombra as pobres
criaturas se viram quais andorinhas aprisionadas na lama... Abandonada a
esposa, que era então a mesma companheira de agora, a sofredora mulher,
incapaz de sofrear-se no insulamento, após cinco anos de expectativa e
solidão, aceitou a companhia de um homem digno e trabalhador, com quem
passou maritalmente a viver... Os dias correram sobre os dias e, quando
Ildeu, ainda relativamente moço, mas integralmente vencido pela
intemperança e pelo deboche, regressou doente à cidade em que se havia
consorciado, buscando o aconchego da esposa, cuja fidelidade carinhosa ele
mesmo destruíra, não mais na ânsia de ajuda-la ou de ama-la e sim no
propósito de escraviza-la, por enfermeira de seu corpo abatido, eis que a
reencontra, feliz, junto de outro... Movido de incompreensível ciúme, de
vez que renegara o lar sem motivo justo, não suporta ver a alegria da
companheira, matando-lhe o eleito do coração. Dentro em breve, todo o
grupo que Ildeu infelicitou se reúne, inclusive ele próprio, na Esfera
Espiritual, onde a justiça da Lei sopesa os méritos e deméritos de cada
um... E, com o amparo de Abnegados Benfeitores, regressam as personagens
do drama doloroso ao resgate na reencarnação, com Ildeu à frente das
responsabilidades, por ter maiores culpas. Marcela concorda em auxilia-lo
e retoma o posto antigo, ajudando-o na condição de esposa fiel. Roberto é
o companheiro assassinado que volta, do qual Ildeu
é devedor da própria vida. Sônia e Márcia
são as duas irmãs que ele arrojou ao vício e a delinquência, dele
esperando hoje, como filhas queridas, o necessário auxílio para a
reabilitação.
O Assistente fez pequena pausa e
acrescentou:
-Vocês não ignoram, porém, que a
reencarnação no resgate é também recapitulação perfeita. Se não
trabalhamos por nossa intensa e radical renovação para o bem, através do
estudo edificante que nos educa o cérebro e do amor ao próximo que nos
aperfeiçoa o sentimento, somos tentados hoje pelas nossas fraquezas, como
éramos tentados ainda ontem, porquanto nada fizemos pelas suprimir,
passando habitualmente a reincidir nas mesmas faltas. Segundo observam,
Ildeu, displicente e surdo aos avisos da vida, é o mesmo homem do passado,
buscando a suposta felicidade, fora do templo doméstico, desprezando a
esposa, querendo estremecidamente as filhinhas nas quais revê as
companheiras do pretérito e nada faz por perder a instintiva aversão pelo
filhinho, em cujo contacto adivinha o antigo rival, que lhe foi vítima da
fúria arrasadora.
-Mas – indagou Hilário -, se ele
não encontra em Marcela o amor integral, por que razão, ainda agora, na
presente romagem terrena, a teria desposado? A afetividade juvenil não é
sinal de confiança e ternura?
-Sim – encareceu Silas, bondoso -
é preciso considerar que nos achamos ainda longe de adquirir o verdadeiro
amor, puro e sublime. Nosso amor é, por enquanto, uma aspiração de
eternidade encravada no egoísmo e na ilusão, na fome de prazer e na
egolatria sistemática, que fantasiamos como sendo a celeste virtude. Por
isso mesmo, a nossa efetividade terrestre, quando na primavera dos
primeiros sonhos da experiência física, pode ser um conjunto de estados
mentais, consubstanciando simplesmente os nossos desejos. E nossos desejos
se alteram todos os dias... Em razão disso, recordemos o imperativo da
recapitulação. Nessa ou naquela idade física, o homem e a mulher, com a
supervisão da Lei que nos governa os destinos, encontram as pessoas e as
situações de que necessitam para superarem as provas do caminho, provas
indispensáveis ao burilamento espiritual de que não prescindem para a
justa ascensão às Esferas Mais Altas. Assim é que somos atraídos por
determinadas almas e por determinadas questões, nem sempre por que as
estimemos em sentido profundo, mas sim por que o passado a elas nos reúne,
a fim de que por elas e com elas venhamos a adquirir a experiência
necessária à assimilação do verdadeiro amor e da verdadeira sabedoria. É
por isso que a maioria dos consórcios humanos, por enquanto, constituem
ligações de aprendizado e sacrifício, em que muitas vezes, as criaturas se
querem mutuamente e mutuamente sofrem pavorosos conflitos na convivência
uma das outras. Nesses embates, alinham-se os recursos da redenção. Quem
for mais claro e mais exato no cumprimento da Lei que ordena seja mantido
o bem de todos, acima de tudo, mais ampla liberdade encontra para a vida
eterna. Quanto mais sacrifício com serviço incessante pela felicidade dos
corações que o Senhor nos confia, mais elevada ascensão à glória do Amor
Divino.
-Então – aduzi -, nosso amigo
Ildeu estará interrompendo o pagamento da dívida em que se empenhou...
-Isso mesmo.
-E Marcela? – perguntou Hilário –
garantirá por ela a sustentação do lar?
-É o que esperamos e, tudo
faremos para auxilia-la, já que o esposo, mais uma vez, faliu nos
contratos assumidos.
-Não será lícito contar,
matematicamente, com o heroísmo dela à frente da casa? – insistiu meu
colega.
-Quem poderá medir a resistência
dos outros? – Falou Silas, sorrindo!. – Marcela é senhora de si e, com a
deserção do esposo, é chamada a encargos duplos. Desejamos sinceramente
que ela seja forte e se sobreponha às vicissitudes da existência, mas se
resvalar para delituosos desequilíbrios, que lhe comprometam a
estabilidade doméstica, na qual os filhos devem crescer para o bem, mais
complicado e mais extensos se fará o débito de Ildeu, porquanto as falhas
que ela venha a cometer serão atenuadas pelo injustificável abandono em
que a lançou o marido. Quem se faz responsável por nossas quedas,
experimenta em si mesmo a ampliação dos próprios crimes.
Hilário meditou... Meditou... E
disse, em seguida:
-Imaginemos, porém, que Marcela e
os filhinhos consigam vencer a crise, esmagando com o tempo as
necessidades de que são agora vítimas... Figuremo-los terminando a atual
reencarnação, com plena vitória moral em confronto com Ildeu, retardado,
impenitente, devedor... Se a esposa e os filhos, então definitivamente
guinados à luz, dispensarem qualquer contacto com a sombra, em franca
ascensão às linhas superiores da vida, a quem pagará Ildeu o montante das
dívidas em que se agrava?
Silas estampou significativo
gesto facial e explicou:
-Embora estejamos todos, uns
diante dos outros, em processo reparador de culpas recíprocas, em verdade,
antes de tudo, somos devedores da Lei em nossas consciências. Fazendo mal
aos outros, praticamos o mal contra nós mesmos. Caso Marcela e os
filhinhos se ergam, um dia, a plenos céus, e na hipótese de guardar-se
nosso amigo mergulhado na Terra, vê-los-á Ildeu na própria consciência,
sofredores e tristes quais os tornaram, atormentados pelas recordações que
traçou para si mesmo e pagará em serviço a outras almas da senda evolutiva
o débito que lhe onera o Espírito, de vez que ferindo os outros, na
essência estamos ferindo a obra de Deus, de cujas leis soberanas nos
fazemos réus infelizes, reclamando quitação e reajuste.
-Isso quer dizer...
A palavra de Hilário, porém, foi
cortada pela observação do Assistente que, em lhe surpreendendo as idéias,
falou firme:
-Isso quer dizer que, se Ildeu,
mais tarde, desejar reunir-se a Marcela, Roberto, Sônia e Márcia, então
redimidos nas Esferas Superiores, deverá possuir uma consciência tão
dignificada e sublime quanto a deles, de modo a não se envergonhar de si
mesmo, considerando-se a probabilidade de triunfo para a esposa e os
filhinhos nas provas árduas que o porvir lhes reserva.
-Deus meu!... – Clamou Hilário,
triste – quanto tempo então para uma empresa dessas!... E quanta
dificuldade para o reencontro, se os entes queridos não se dispuserem a
esperar!...
-Sim – confirmou Silas -, quem se
retarda por gosto não pode queixar-se de quem avança. “A cada um segundo
as suas obras”, ensinou o Divino Orientador, e ninguém no Universo
conseguirá fugir à Lei.
Eu e hilário, profundamente
tocados pela lição, calamo-nos, confundidos para orar e pensar.
(8) – Mateus, 19:7-8 – (Nota
do Autor espiritual).
Da obra “AÇÃO E REAÇÃO” – ESPÍRITO: ANDRÉ LUIZ –
MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
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