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O TEMPLO
E O PARLATÓRIO
André Luiz
Terminada a fase culminante do caso Antônio
Olimpio e interessados na continuidade de nossos estudos, Hilário e eu
procuramos o Instrutor Druso, que aconselhou solicitamente, após
ouvir-nos:
-Compreendo que a Mansão em si já
lhes terá fornecido elementos básicos a graves conclusões em torno da lei
de causa e efeito...Aqui, na maioria dos problemas, quase sempre
encontramos os frutos concretos da ação. Junto de nós é possível
verificar, de perto, a colheita do sofrimento em todas as suas fases
difíceis e dolorosas.
E, sorrindo, acentuou:
-A região infernal permanece
superlotada de contas maduras. Aqui, a sovinice suporta o azinhavre de
atrozes padecimentos, o crime defronta com todas as espécies de angústia
no remorso tardio, e a delinquência responsável é surpreendida pelas
trevas que lhe agravam as amarguras, porque as coletividades dos
lavradores culpados pela plantação de tantos espinhos não dispõem de
coragem para recolher o fruto envenenado da sementeira a que se afeiçoam.
Desorientados e dementes, sublevam-se contra as flagelações que geraram e
caem nas profundezas da rebelião e do desespero... Segundo é fácil de
observar, em derredor de nossa casa de reajuste e socorro, tudo, em quase
todas as circunstâncias, é sombra e conflito uniformes, assim como vasto
campo incendiado por criaturas imprevidentes, a tolerarem compulsoriamente
o fogo e o fumo com que lesaram a gleba das próprias vidas...
Druso calou-se, caminhou na
direção de larga janela que se abria para os nevoeiros exteriores, mirou,
compadecido, a triste paisagem que os nossos olhos conseguiam descortinas
e, em seguida, voltou para perto de nós, asseverando:
-Ainda assim será bom prolonguem
o trabalho em que empenham, anotando os princípios de compensação em mais
amplos setores. Nesse sentido, consideramos de suma importância as
realizações em andamento na esfera carnal, como fatores determinantes de
céu ou de inferno nas pessoas que os procuram, razão pó que auguramos aos
dois o melhor aproveitamento nas atividades que venham a empreender na
zona de relações entre nossa casa e o homem comum não distante. Precisamos
reconhecer que todos criamos o destino ou renovamo-lo, todos os dias, e,
aqui, o exame de semelhante lição é mais vagaroso, porquanto o nosso
Instituto mais se nos afigura uma estação de chegada em que a culpa se
movimenta com lentidão. Entre os Espíritos encarnados, porém, mais
facilmente se nos revela o mecanismo da Lei, através da qual vive a alma
nas suas próprias edificações. No vaso da carne, a planta da existência se
desenvolve, floresce e frutifica. A morte fisiológica realiza a grande
ceifa. Em nosso mundo, temos, desse modo, a seleção natural dos frutos. Os
raros que se mostram aprimorados são conduzidos à lavoura da Luz Divina,
nos planos celestiais, para mais ampla ascensão ao grande futuro; todavia,
a massa esmagadora dos que chegam deteriorados ou imperfeitos estaciona
nos celeiros de sombra das regiões inferiores em que nos achamos, à espera
de novo plantio nas leiras do mundo. É que cada criatura transpõe os
umbrais do túmulo com as imagens que em si mesma plasmou, utilizando os
recursos do sentimento, da idéia e da ação que a vida lhe empresta,
irradiando as forças que acumulou no espaço e no tempo terrestres. Cremos,
pois, seja oportuna a observação do assunto, entre as almas encarnadas,
para que se lhes enriqueça a experiência.
Aquelas ponderações, ditas em tom
paterno, comoviam-nos intensamente.
Druso promunciava-se com
afabilidade e tristeza, não obstante sorrisse.
Como sempre, encantado com a sua
personalidade dificilmente abordável no conjunto, silenciei, acatando-lhe
as manifestações, mas Hilário perguntou, irrequieto, valendo-se da pausa
que surgira:
-Que nos sugere, porém, a fim de
que atendamos aos estudos a que se reporta?
O Instrutor respondeu, de pronto:
-Possuímos sempre renovado
material de consulta no templo e no parlatório exteriores de nosso
domicílio, usualmente freqüentados por irmãos do plano físico;
provisoriamente desligados da habitação corpórea por influência do sono,
bem como pelos companheiros desencarnados que vagueiam em torno da Mansão,
à caça de reconforto. Muitos deles estão ligados ao nosso santuário pelos
fios da reencarnação, enquanto muitos outros chegam até nós em busca de
socorro. Dispomos aí de atendentes numerosos que lhes coletam as
reclamações e registram os problemas para orientarmos com segurança o
nosso esforço de paz e cooperação. É interessante, assim, que os amigos se
incorporem, durante alguns dias, às nossas equipes de serviços,
colaborando conosco e relacionando apontamentos diversos.
-Não poderíamos contar com a
ajuda de Silas? – Indagou meu colega, referindo-se ao companheiro cuja
presença para nós significava alegria e coragem.
O Instrutor contemplou-nos de
maneira expressiva e comentou, surpreendendo-nos:
-Não fosse o objetivo das
informações que coligem e, certo, não nos seria possível permitir que o
Assistente mencionado lhes tutelasse a recolta de ensinamentos. Sabemos,
contudo, que o trabalho em andamento se destina a instruções para a esfera
dos companheiros reencarnados e semelhante tarefa nos obriga a considerar
a petição. Realmente, não lhes convém qualquer perda de oportunidade ou de
tempo. E embora sejam atualmente enormes as responsabilidades de Silas em
nossa casa, não vejo como priva-los do companheiro que, sem dúvida, é aqui
o depositário imediato de nossa melhor confiança.
Logo após, enquanto mergulhávamos
em silenciosas considerações, acerca de seguro serviço de inteligência com
que o grande benfeitor nos seguia a meta, Silas foi chamado à nossa
presença, recebendo recomendações no sentido de prestar-nos a assistência
precisa.
Instrutor e Assistente, em
conversação íntima e rápida, permutaram impressões, cuja significação
total não nos foi possível perceber.
Terminado o entendimento, Silas
marcou o horário exato em que nos cabia efetuar o reencontro e, com isso,
a nossa entrevista com o governador da Mansão fora praticamente encerrada.
No momento previsto, o Assistente
veio procurar-nos, solicito. Íamos visitar o Templo da Mansão.
Atravessamos longas filas de
corredores, até que, através de estreito postigo, tivemos acesso a vasto
recinto iluminado.
Assemelhava-se o ambiente ao de
grande capela, das que conhecemos no mundo. De face voltada para o
exterior, uma cruz de radiante material argênteo sobre alva e simples
mesa, encostada ao centro do fundo, era o único símbolo religioso ali
existente. Mas de todas as paredes laterais, a se caracterizarem por
brancura de neve, distinguiam-se pequena reentrâncias insculpidas em forma
de nichos.
A luz dominante casava-se de
encantadora maneira com a melodia cariciosa a ressoar docemente no largo
corpo da nave...
Que mãos invisíveis produziam a
música veludosa e terna que nos inclinava à reverência e à meditação?
Mas de duas centenas de entidades
diversas, formando piedoso conjunto, em fileiras quase do mesmo número,
postavam-se em prece ante os nichos vazios.
Não sei que estranha emotividade
me tomou a alma toda.
A fé simples da infância
reconquistara-me o intimo...Lembrei minha mãe, colocando a oração primeira
em meus lábios e, como se as vibrações daquela hora fossem abençoada chova
a lavar-me todos os escaninhos do espírito, olvidei por instantes minhas
velhas experiências da vida para somente pensar no Supremo Senhor, nosso
Deus e nosso Pai...
Lágrimas quentes rorejaram-me a
face.
Quis algo perguntar ao Assistente
bondoso; contudo, naquele primeiro contacto com o santuário externo da
Mansão, nada consegui fazer senão orar e chorar copiosamente. E, por isso
mesmo, embora pudesse controlar a expressão verbalística, para que a
palavra me não escapasse desordenadamente da boca, contemplava a luminosa
cruz, entre respeitoso e comovido...Recordei o Mensageiro Divino que a
utilizara em sacrifício para traçar-nos o caminho da vitoriosa
ressurreição, e repetia no imo d’alma:
- “Pai Nosso que está nos Céus,
santificado seja o Teu nome.
Venha a nós o Teu reino.
Seja feita a Tua vontade, assim
na Terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia dá-nos
hoje.
Perdoa as nossas dívidas, assim
como perdoamos aos nossos devedores.
Não nos deixeis cair em tentação
e livrai-nos do mal, porque são Teus o reino, o poder e a glória para
sempre, assim seja “”.
Reparei que Silas me acompanhava
os menores movimentos interiores, porque, ao terminar a prece dominical,
disse-me, afetuoso:
-É verdade, André, raros
conseguem penetrar este ambiente sem se escudarem na oração.
E relançando o olhar sobre
Hilário, que igualmente enxugava lágrimas espontâneas, como a inclui-lo no
carinho das observações que exteriorizava, continuou:
-Este pequeno campo de pensamento
está sublimado pela compunção e pela dor de milhares...Incontáveis legiões
de almas edificadas no sofrimento e na fé por aqui hão passado, em pranto
de arrependimento ou de esperança, de gratidão ou de angústia... Nosso
templo interno, de cujos serviços vocês já participaram, funciona qual se
fora o vivo coração de nossa casa, enquanto que este santuário exterior é
o símbolo das nossas mãos em prece.
Apontando as criaturas que oravam
em silêncio, ante os altares despovoados, ousei perguntar ao irmão
prestimoso:
-Que significam no recinto a
imagem da cruz e estes nichos vazios?
-A cruz recorda a todos os
visitantes que o Espírito de Nosso Senhor Jesus-Cristo aqui se encontra
presente, não obstante estejamos nos abismos infernais. E os nichos vazios
dão oportunidade a que todos se dirijam aos Céus, segundo a fé que
abraçam. Até que a alma obtenha a Sabedoria Infinita é indispensável
caminhe na longa estrada dos símbolos de alfabetização e cultura que a
dirigem na senda de elevação intelectual, e, até que atinja o Infinito
Amor, é necessário palmilhe as longas rotas da caridade e da fé religiosa,
nos múltiplos departamentos da compreensão que lhe assegura o acesso à
Vida Superior. Os poderes Divinos que nos regem, determinam que toda
classe de fé sincera e respeitável aqui encontre amorosa veneração,
Observando que a reduzida
comunidade de almas em prece se alinhava em posições diversas, de vez que
algumas se mantinham de pé ou comodamente sentadas, enquanto que a maioria
se punha de joelhos, Hilário ensaiou algumas indagações a que Silas
respondeu, condensando os assuntos:
-Sim, desde que o respeito mútuo
seja necessariamente guardado, todos aqui podem orar como melhor lhes
pareça.
E, amparando-nos a curiosidade
sadia, indicou certa matrona que chorava, pacientemente genuflexa, diante
de nicho próximo, e falou:
-Acompanhamos, por exemplo,
aquela nossa irmã em súplica. Postar-nos-emos na retaguarda, de modo a não
incomodar com a nossa presença. E, envolvendo-a nas vibrações de nossa
simpatia, assimilar-lhe-emos a faixa mental, percebendo, com clareza, as
imagens que ela cria em seu processo pessoal de oração.
Obedecemos maquinalmente e, de
minha vez, à medida que concentrava a atenção naquela cabeça grisalha e
pendente, mais se alterava o estreito espaço do nicho aos meus olhos...
Pouco a pouco, qual se emergisse
da parede lirial, linda tela se me desdobra à visão, tomada de espanto.
Era a reprodução viva da formosa escultura de Teixeira Lopes (5),
representando a Mãe Santíssima chorando o Divino Filho morto...
E as frases inarticuladas da
veneranda irmã em prece ressoavam-na nos ouvidos:
- “Mãe Santíssima, Divina Senhora
da Piedade, compadece-te de meus filhos que vagueiam nas trevas!...
Por amor de teu filho sacrificado
na cruz, ajuda-me o espírito sofredor para que eu possa ajuda-los...
Bem sei que por sinistro apego às
posses materiais, não vacilaram em abraçar o crime.
Em verdade, Senhora, são eles
homicidas infortunados que a justiça terrestre não conheceu...Por isso
mesmo, padecem com mais intensidade o drama das próprias consciências,
enleadas à culpa...”“.
Nesse ponto da petição. Silas
tocou-nos de leve, os ombros, convidando-nos ao ensinamento devido e
explicou:
-É uma pobre mãe desencarnada que
roga pelos filhos transviados nas sombras. Invoca a proteção de nossa Mãe
Santíssima, sob a representação de Senhora da Piedade, segundo a fé que o
seu coração pode, por enquanto, albergar, no âmbito das recordações
trazidas do mundo...
-Isso quer dizer que a imagem de
nossa visão...
-Esta observação ficou, porém, no
ar, porque Silas completou, presto:
-É uma criação dela mesma,
reflexo dos próprios pensamentos com que tece a rogativa, pensamentos
esses que se ajustam à matéria, sensível do nicho, plasmando a imagem
colorida e vibrante que lhe corresponde aos desejos.
E respondendo automaticamente às
indagações que o problema nos sugeria, continuou:
-Isso, contudo, não significa que
a prece esteja sendo respondida por ela mesma. Petições semelhantes a esta
se elevam a planos superiores e aí são acolhidas pelos emissários da
Virgem De Nazaré, a fim de serem examinados e atendidas, conforme o
critério da verdadeira sabedoria.
Espraiando o olhar pelos
circunstantes, prosseguia esclarecendo:
-Encontram-se aqui devotos de
vários grandes heróis do Cristianismo, em diversos cultos de fé.
E olhando em torno, com a sua
ampla experiência apontou outra senhora em oração, acrescentando:
-Ali temos nobre matrona exorando
a proteção de Teresinha de Lisieux (6), a doce monja do
Carmelo desencarnada na França.
-E a mensagem dela alcança o
coração da famosa freira? – indagou Hilário com o otimismo de sempre.
-Como não? – respondeu o
interlocutor. – Depois da morte do corpo, as criaturas efetivamente
santificadas encontram as mais altas quotas de serviço, na expansão da luz
ou da caridade, do conhecimento ou da virtude, de que se fizeram a fonte
viva de inspiração, quando no aprendizado humano. O céu beatífico e
estanque existe apenas na mente ociosa daqueles que pretendem progresso
sem trabalho e paz sem esforço. Tudo é criação, beleza, aprimoramento,
alegria e luz incessantes na obra de Deus a expressar-se, divina e
infinita, através daqueles que se elevam para o Infinito Amor. Assim,
pois, o coração que deixa na Terra uma sementeira de fé e abnegação passa
a nutrir, do plano espiritual, a lavoura das idéias e dos exemplos que
legou aos irmãos de lutas evolutivas, lavoura essa que se expande naqueles
que lhe continuam o ministério sagrado, crescendo assim, em trabalho e
influência para o bem, no setor de ação iluminativa e santificante que o
Senhor lhe confia.
-E na hipótese de a alma julgada
santa entre os homens não ser realmente santa no Plano da Verdade? As
preces que lhe sejam dirigidas atingem os objetivos visados, ainda mesmo
quando o suposto santo permaneça em duras experiências nas regiões as
sombras?
-Sim, Hilário – aclarou o
Assistente -; as orações podem não encontrar, de imediato, o Espírito a
que se destinam, mas alcançam-lhe os grupos de companheiros a que deveria
ajustar-se e que, amorosamente, o substituem na obra assistencial do bem,
em nome do Senhor, visto que, na realidade, todo amor na Criação Eterna é
de Deus. Imaginemos, para exemplificar, que a referida monja não
estivesse, temporariamente, em condições de prestar auxílio...Se isso
acontecesse, as grandes almas, acrisoladas na disciplina da instituição em
que tanto se distinguiu se encarregariam de fazer por ela o trabalho
necessário e justo, até que pudesse tomar sobre os ombros o apostolado que
lhe compete.
Todavia, - ponderou meu colega -,
será de crer que o espírito das congregações religioso ainda permaneça
vivo nas Esferas Mais Altas?
O Assistente sorriu e ajuntou:
-Não no sentido estreito do
sectarismo terrestre. Quanto mais se eleva aos cimos da vida, mais se
despe a alma das convenções humanas, aprendendo que a Providência é luz e
amor para todas as criaturas. Entretanto, até que a alma se identifique
com os fatores sublimes da consciência cósmica, os círculos de estudo e
fé, aperfeiçoamento e solidariedade, pelo bem que realizam, estejam onde
estiverem, merece o maior acatamento das Inteligências Superiores que
atendem à execução dos Planos Divinos.
Logo após, como se quisesse fixar em nosso
espírito os méritos da lição, dirigiu o olhar para certa senhora que se
mantinha em prece, não distante de nós, e, depois de ligeira observação,
conduziu-nos até ela, recomendando-nos atenção.
Procuramos assimilar-lhe a faixa
mental e, estabelecida a sintonia, surpreendemos no nicho a imagem viva e
simpática do nosso abnegado Dr. Bezerra de Menezes (7), ao
mesmo tempo que ouvíamos a súplica de nossa companheira desolada:
- “Doutor Bezerra, por amor de
Jesus, não abandones meu pobre Ricardo nas trevas da desesperação!... Meu
esposo, infeliz atravessa rudes provas!... Ó generoso amigo socorre-nos!
Não permitas que ele desça ao abismo do suicídio... Dá-lhe coragem e
paciência, sustenta-lhe o bom ânimo!... As dificuldades e as lágrimas que
o afligem no mundo caem sobre minha alma como chuva de fel!...”.
Silas interrompeu-nos a reflexão,
acentuando:
-Segundo reconhecemos, o
santuário serve à oração digna, sem cultos especiais. Ali, alguém recorre
ao amparo da mona de Lisieux, aqui um coração infortunado pede socorro ao
notável companheiro dos espíritas no Brasil.
Antes de desviar a minha atenção,
fitei o semblante do grande médico, segundo as recordações da irmã que
orava, confiante, anotando o primor da fotografia mental que ela
exteriorizava.
Víamos, ali, o retrato do Dr.
Bezerra, qual o conhecemos, sereno, simples, bondoso, paternal...
Procedendo-nos as interrogações
costumeiras, o Assistente informou:
-Com mais de cinquenta anos
consecutivos de serviço à Causa Espírita, depois de desencarnado, Adolfo
Bezerra de Menezes fez jus à formação de extensa equipe de colaboradores
que lhe servem à bandeira de caridade. Centenas de Espíritos estudiosos e
benevolentes obedecem-lhe às diretrizes na lavoura do bem, na qual opera
ele em nome do Cristo.
-Desse modo – alegou Hilário -, é
tão fácil compreende-lo agindo em tantos lugares ao mesmo tempo...
-Perfeitamente – concordou Silas.
– Como acontece na radiofonia, em que uma estação emissora está para os
postos de recepção, assim qual uma só cabeça pensante para milhões de
braços, um grande missionário da luz, em ação no bem, pode refletir-se em
dezenas ou centenas de companheiros que lhe acatam a orientação no
trabalho ajustado aos desígnios do Senhor. Bezerra de Meneses, invocado
carinhosamente, em tantas instituições e lares espíritas, ajuda em todos
eles, pessoalmente ou intermédio das entidades que o representam com
extrema fidelidade.
-Para isso – aduziu meu colega –
terá o seu campo próprio de atividade, assim como um chefe de serviço
humano possui a sede administrativa da qual distribui com os comandados o
pensamento diretor da organização...
-Como não? – Falou-nos o
Assistente, sorrindo – O Senhor, que tem meios de instalar condignamente
qualquer dirigente de trabalho humano, ainda mesmo nas mais ínfimas
experiências da vida social no Planeta, não relegaria à intempérie os
missionários da luz no Plano Espiritual.
Assim dizendo, Silas
discretamente nos compelia a caminhar na direção da porta de acesso ao
pátio exterior do templo.
Alcançando a saída, notamos que a
claridade ambiente se apagava quase que de chofre, a poucos metros do
pórtico, dando-nos a idéia de sofrer tremendo impacto das sombras
circundantes.
No enorme átrio, adensava-se
turba imensa...
Grupos diversos conversavam em
alta voz... Havia quem chorasse, quem deprecasse, quem gemesse...
Nossa visão, ainda não adaptada,
mal registrava os contornos da grande multidão que ali se aglomerava:
entretanto, podíamos ouvir com precisão palavras e gritos, rogativas
ardentes e desconsoladores apelos...
Notando-nos a estranheza, o
Assistente observou, comovido:
-Aqui temos o parlatório da
Mansão, ao qual comparecem grandes fileiras de almas sinceras e
sofredoras, mais habitualmente em profundo desespero, a inibir-lhe as
vantagens da oração pacífica...
E, com expressivo gesto, ajuntou:
-Neste grande recinto, dedicado à
palavra livre, encontramos realmente a nossa divisa vibratória... Além
dele, é a dor inconformada e terrível, gerando monstruosidade e
desequilíbrio a exprimirem o inferno da interpretação religiosa comum; no
entanto, muros adentram de nossa casa, é a dor paciente e compreensiva,
criando renovação e reajuste para o caminho dos Céus...
Diante dos quadros deprimentes
sob nossa vista, não dispúnhamos de expressão para qualificar o estupor de
que nos sentíamos dominados. Foi por isso que nos calamos, de maneira
instintiva, perante a quietação do Assistente que, a nosso ver,
silencioso, ao favor da oração.
(5 –Antônio Teixeira Lopes,
notável escultor português) – (Nota do Autor espiritual).
(6 –Santa Teresa do Menino Jesus
na Igreja Católica, desencarnada no Carmelo de Lisieux, França, em 30 de
setembro de 1897). –(Nota do Autor espiritual).
(7 – Dr. Adolfo Bezerra de
Menezes, apóstolo do Espiritismo Cristão no Brasil, desencarnado no Rio de
Janeiro, em 11 de abril de 1900). (Nota do autor espiritual)
Da obra “AÇÃO E REAÇÃO” – ESPÍRITO: ANDRÉ LUIZ –
MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
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