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ALMAS
ENFERMIÇAS
André Luiz
Findo o repouso a que nos dedicáramos,
Silas por inspiração do dirigente da casa, veio convidar-nos a rápido
passeio pelos arredores.
Druso, aliás, com semelhante
lembrete, atendia-nos ao propósito de algo estudar sobre os princípios de
causa e efeito, nas criaturas recém-desencarnadas.
Sabíamos que a morte do corpo
denso era sempre o primeiro passo para a colheita da vida e, por isso, não
ignorávamos que o ambiente era dos mais favoráveis à nossa investigação
construtiva, porque o imenso Umbral, à saída do campo terrestre, vive
repleto de homens e mulheres que vararam a grande fronteira, em plena
conexão com a experiência carnal.
Hilário e eu, alegremente,
pusemo-nos no encalço do companheiro que, transpondo conosco largo portão
de acesso ao exterior, nos disse, bem0humorado, decerto ciente de nossos
objetivos:
-Sem qualquer dúvida para nós,
que voltamos recentemente da Terra, as províncias infernais, muito mais do
que as celestes são adequadas às nossas pesquisas sobre a lei de causa e
efeito, de vez que o crime e a expiação, o desequilíbrio e a dor fazem
parte de nossos conhecimentos mais simples nas lides cotidianas, ao passo
que a glória e o regozijo angélicos representam estados superiores de
consciência que nos transcendem a compreensão.
E, espraiando o olhar pelos
quadros tristes em derredor, acrescentou, reconduzindo a frase a comovente
inflexão:
Estamos psiquicamente mais perto
do mal e do sofrimento...Em razão disso, entendemos sem qualquer
discrepância os problemas aflitivos que se multiplicam aqui...
À medida que nos afastávamos,
empreendíamos mais vasta penetração na sombra densa, a espessar-se cada
vez mais, alumiada, porém, aqui e ali, por tochas mortiças, como se a luz,
nos sítios em torno, lutasse terrivelmente para nutrir-se e sobreviver.
Soluços e gritos, imprecações e
blasfêmias emergiam da treva.
Compreendemos de relance que o
espaço ocupado pela instituição era de forma retangular e que o terreno
sob nosso exame se lhe localizava à retaguarda, à maneira de enorme
povoação extramuros.
Percebendo-nos a curiosidade e o
interesse, o Assistente veio ao encontro de nossas indagações, explicando:
-Achamo-nos efetivamente na zona
posterior ao nosso instituto, em larga fixa superlotada de Espíritos
conturbados e sofredores.
Hilário, que não se via menos
surpreendido que eu, observou sem rebuços:
Mas, toda essa gente parece
relegada à intempérie. Não seria razoável que a Mansão se estendesse,
abarcando-a com o seu amparo e defendendo-a com seus muros?
-Logicamente – respondeu Silas
sem alterar-se -, esse plano é o mais desejável; entretanto, estamos à
frente de compacta multidão de almas em reajuste. Este imenso conglomerado
de criaturas sem o corpo de carne começou num grupo de seres desencarnados
que clamavam pelo socorro da Mansão, sem os necessários requisitos para
recolher-lhe a assistência. Firme na execução do programa que lhe assiste,
nossa casa não lhes podia abrir as portas de imediato, em face do
desespero e da revolta em que se comprazem, mas também não desdenhava a
possibilidade de prestar-lhes a ajuda possível, fora do campo de ação em
que vive sediada. Iniciou-se, dessa forma, a presente organização, que,
contra a nossa vontade, é um abismo de sofrimento. Aqui se reúnem de
maneira indiscriminada, milhares de entidades, vítimas dos seus
pensamentos desvairados ou de angústias de que são portadoras, o que pode
perdurar por dias, messes ou anos, são trazidas à nossa instituição que,
tanto quanto possível evita abrir-se às consciências ainda positivamente
encravadas na revolta sistemática.
Talvez porque evocássemos em
silêncio os episódios da véspera, lembrando os desencarnados acolhidos no
grande asilo; nosso companheiro acrescentou:
-Vocês acompanharam ontem o
socorro prestado a um irmão infeliz, seviciado nas trevas, e viram a
chegada de sofredores arrebatados à carne, em libertação recentíssima.
Contudo, entre os beneficiados, viram Espíritos inconscientes e devedores,
mas não insensatos e rebelados.
Antes esta observação que, de
alguma sorte, nos asserenava a mente inquieta, Hilário indagou:
-E este ambiente assim tumultuado
pelo infortúnio, conta com o amparo de que necessita?
-Sim – aclarou nosso amigo -,
muitas criaturas recuperadas na Mansão aceitam aqui preciosas tarefas de
auxílio, incumbindo-se da assistência fraterna, em largos setores desta
região torturada. Melhoradas lá, trazem para aqui as bênçãos recolhidas,
transformando-se em valiosos elementos de serviço de ligação. Através
delas, a administração do nosso instituto atende a milhares de
consciências necessitadas e sabem com segurança quais os irmãos sofredores
que se fazem dignos de acesso a nossa casa, após a transformação gradual a
que se ajustam. Espalhando-se nos campos de sombra, em pequenos santuários
domésticos, aqui continuam a própria restaurações, aprendendo e servindo.
-Entretanto – continuou Hilário,
curioso -, tão infortunada colônia de almas em desajuste não sofrerá o
domínio das Inteligências perversas, quais as que vimos ontem no lado
oposto a estes sítios?
-Sim -, os assaltos dessa ordem
são aqui constantes e inevitáveis, principalmente em torno das entidades
que largaram cúmplices bestializados em antros infernais ou em núcleos de
atividades terrestres. Em tais casos, as vítimas de semelhantes feras
humanas desencarnadas padecem longos e inenarráveis suplícios, através da
fascinação hipnótica de que muitos gênios do mal são cultores exímios.
E, depois de ligeira pausa, Silas
acentuou:
-São esses alguns dos fenômenos
de flagelação compreensível que alguns místicos do mundo, em desdobramento
mediúnico, no reino das trevas, classificaram como sendo vastação
purificadora. Para lês, as almas culpadas, depois da morte,
experimentam horríveis torturas por parte dos demônios aclimatados nas
sombras.
As informações do Assistente,
casadas aos gemidos e lamentações que ouvíamos sem cessar, impunham-no
desagradável impressão.
Foi por isso talvez que Hilário,
penosamente, tocado pelos gritos em torno, interrogou, surpreendido:
-Mas por que diz você
flagelação compreensível?
E, num desabafo:
-Acha justo que tanta gente aqui
se aglutine em semelhante desolação?
Silas sorriu, triste, e
obtemperou:
-Compreendo-lhe o pesar.
Indiscutivelmente, tanta dor reunida não seria justa se não viesse de
quantos preferiram no mundo o trato diário com a injustiça. Não é claro,
porém, que todos venhamos a colher o fruto da plantação que nos pertence?
Na mesma leira de terra dadivosa e neutra, quem acalenta a urtiga recolhe
a urtiga que fere, e quem protege o jardim tem a flor que perfuma. O solo
da vida é idêntico para nós todos. Não encontraremos aqui neste imenso
palco de angústia almas simples e inocentes, mas sim criaturas que
abusaram da inteligência e do poder, e que, voluntariamente surdas à
prudência, se extraviaram nos abismos da loucura e da crueldade, do
egoísmo e da ingratidão, fazendo-se temporariamente presas das criações
mentais, insensatas e monstruosas, que para si mesmas teceram.
Nossa conversação foi
interrompida de imediato, à frente de pequena casa a confundir-se com o
nevoeiro, de cujo interior brotava reconfortante jorro de luz.
Cães enormes que podíamos divisar
cá fora, na faixa de claridade bruxuleante, ganiam de estranho modo,
sentindo-nos a presença.
De súbito, um companheiro de alto
porte e rude aspecto apareceu e saudou-nos da diminuta cancela, que nos
separava de limiar, abrindo-nos passagem.
Silas no-lo apresentou,
alegremente.
Era Orzil, um dos guardas da
Mansão, em serviço nas sombras.
A breves instantes, achávamo-nos
na intimidade de pouso tépido.
Aos ralhos do guardião, dois dos
seis grandes cães acomodaram-se junto de nós, deitando-se-nos aos pés.
Orzil era de constituição
agigantada, figurando-se-nos um urso em forma humana.
No espelho dos olhos límpidos
mostrava sinceridade e devotamento.
Tive a nítida idéia de que éramos
defrontados por um penitenciário confesso, a caminho da segura
regeneração.
Na sala estreita e simples,
alinhavam-se alguns bancos e, acima deles, destacava-se um nicho ovalado,
em cujo bojo havia uma cruz tosca, alumiada por uma candeia estruturada em
forma de concha.
Afastou-se Orzil para sossegar os
grandes animais menos domesticados, no interior da choupana e, enquanto
isso, o Assistente informou-nos:
-É um amigo de cultura ainda
escassa que se comprometeu em delitos lamentáveis no mundo. Sofreu muito
sob o império de antigos adversários, mas presentemente, após longo
estágio na Mansão, vem prestando valioso concurso nesta vasta região em
que o desespero se refugia. É ajudado, ajudando. E, servindo com
desinteresse e devoção fraternal, não somente se reeduca, como também
suavizará o campo da nova existência que o aguarda na esfera carnal, pelas
simpatias que vem atraindo em seu favor.
-Vive só? – perguntei, mal
sopitando a curiosidade.
-Dedica-se a meditações e estudos
de natureza pessoal – comentou Silas, paciente -, mas, como acontece a
muitos outros auxiliares, tem consigo, algumas celas ocupadas por
entidades em tratamento, prestes a serem recebidas em nossa instituição.
Nesse ponto do entendimento,
Orzil voltou até nós e o Assistente interpelou-o, com bondade:
-Como passamos de serviço?
-Muito trabalho, chefe –
respondeu ele, humilde. – A tempestade de ontem trouxe imensa devastação.
Creio ter havido muito sofrimento nos pântanos.
Percebendo que se referia aos
precipícios abismais em que se debatiam milhares de almas infelizes e
conturbadas, Hilário perguntou:
-E não será possível atingir
semelhantes lugares para aliviar a quem padece?
Nosso novo amigo esboçou dolorosa
carantonha de tristeza e resignação, ajuntando:
-Impossível...
Como quem se punha em socorro do
companheiro, Silas aduziu:
-Os que se agitam nestas furnas
jazem, de modo geral, quase sempre extremamente revoltados e, na insânia a
que entregam, fazem-se verdadeiros demônios de insensatez. É necessário se
disponham à conformação clara e pacífica para que, ainda mesmo
semi-inconscientes, consigam acolher com proveito o auxílio que se lhes
estende aos corações.
E como se quisesse passar à
demonstração do que asseverava, convidou-nos a inspecionar as celas
próximas.
-Quantos doentes agora
internados?
-Orzil, atencioso, respondeu sem
titubear:
-Temos três amigos em franca
situação de inconsciência.
Depois de alguns passos, ouvimos
gritaria estentórica.
As acomodações reservadas aos
enfermos jaziam ao fundo, à maneira de largos boxes de confortável
cavalariça. Essa é a figura mais adequada à nossa tarefa descritiva,
porque a construção em si denunciava rusticidade e segurança, naturalmente
adstrita aos objetivos de contenção.
À medida que nos acercávamos do
refúgio, desagradável odor nos afetava as narinas.
Respondendo-nos à inquirição
íntima, o Assistente salientou:
-Vocês não ignoram que todas as
criaturas vivem cercadas pelo halo vital das energias que lhes vibram no
âmago do ser e esse halo é constituído por partículas de força a se
irradiarem por todos os lados, impressionado-nos o olfato, de modo
agradável ou desagradável, segundo a natureza do indivíduo que as irradia.
Assim sendo, qual ocorre na própria Terra, cada entidade aqui se
caracteriza por exalação peculiar.
-Sim, sim... – confirmamos
Hilário e eu, simultaneamente.
Entretanto, o cheiro alarmante de
carne em decomposição era para nós, ali, um acontecimento excepcional.
Silas percebeu-nos a estranheza e
endereçou interrogativo olhar ao encarregado daquele oratório de purgação,
o qual informou, presto:
-Temos conosco o irmão Corsino,
cujo pensamento continua enrodilhado ao corpo sepulto, de maneira total.
Enredado à lembrança dos abusos a que se entregou na carne, ainda não
conseguiu desvencilhar-se da lembrança daquilo que foi, trazendo a imagem
do próprio cadáver à tona de todas as suas recordações.
Silas não teceu qualquer
comentário novo, porque atingíamos, de chofre, o primeiro abrigo, cuja
porta gradeada nos deixava contemplar, lá dentro, um homem envelhecido, de
cabeça pendida entre as mãos e a clamar:
-Chamem meus filhos! Chamem meus
filhos...
-É o nosso irmão Veiga – disse
Orzil, prestimoso. – Mantém fixa a idéia na herança que perdeu ao
desencarnar: vasta quantidade de ouro e bens que passou à propriedade dos
filhos, três rapazes que concorrem no mundo ao melhor e maior quinhão,
prevalecendo-se, para isso, de juízes venais e rábulas inconseqüentes.
Acostados agora aos varais da
porta, Silas recomendou-nos observar com atenção mais detida o ambiente
que formava a psicosfera do enfermo.
Efetivamente, de minha parte
percebi quadro que surgiam e desapareciam, fugazes, semelhantes às
figurações efêmeras que se desprendem, silenciosas, dos fogos de
artifício.
Desses painéis que se avivavam e
se apagavam ao mesmo tempo transpareciam três jovens, cujas imagens
passageiras vagueavam entre documentos esparsos, cédulas e cofres repletos
de valores, como que pincelados no ar com tinta tenuíssima, que se
adelgaçava e se recompunha, sucessivamente.
Compreendi que registrávamos as
formas-pensamentos, criadas pelas reminiscências do nosso amigo que,
decerto, na situação em que se nos apresentava, não podia, de momento,
senão viver o seu drama íntimo, tal a insistência da fixação mental em que
se encarcerava.
Amparado evidentemente pelas
vibrações de auxílio que o Assistente lhe enviava; segundo percebi,
esfregou os olhos como quem buscava liberar-se de garoa imperceptível e
assinalou-nos a presença. Avançou de um salto para nós e, apoiando-se nas
grades que nos separavam, gritou, dementado:
-Quem sois? Juizes? Juizes?...
E derramou-se em lamúrias que nos
tocavam o coração.
-Lutei por vinte e cinco anos
para reaver a herança que me cabia por morte de meus avós...E, quando a vi
nas mãos, a morte me arrebatou ao corpo, sem piedade...Não me resignei a
essa injunção e permaneci em minha velha casa...Desejava, pelo menos,
acompanhar a partilha do espólio que me interessava, mas meus rapazes
amaldiçoaram-me a influência, impondo-me, a cada passo, frases venenosas e
hostis... Não satisfeitos com as agressões mentais que me infligiam,
começaram a perseguir minha segunda esposa, que lhes foi mãe ao invés de
madrasta, administrando-lhe tóxicos por medicação inocente, até que a
pobrezinha foi internada numa cada de loucos, sem esperança de
recuperação...Tudo por causa do nosso rico dinheiro que os malandros
querem pilhar...Diante de tal injustiça, pensei suplicar o favor dos seres
que povoam as trevas, porque somente os gênios do mal devem ser os fiéis
executores da grande vingança...
Tentou enxugar as lágrimas de
desespero e acrescentou:
-Dizei-me!... Por que motivo
terei alimentado infelizes ladrões, julgando acariciar filhos de minha
alma? Casei-me quando moço, acalentando sonhos de amor, e gerei
espinheiros de ódio!...
E como a voz de Silas se fez
ouvir, rogando calma, o infortunado vociferou, desabrido:
-Nunca! Nunca
perdoarei!...Recorri aos infernos sabendo que os santos me aconselhariam
conformidade e sacrifício... Quero que os demônios torturem meus filhos,
tanto quanto meus filhos me torturaram...
Transformando, o choro convulso
em gargalhadas estridentes, passou a bradar:
-Meu dinheiro, meu dinheiro,
exijo meu dinheiro!
O Assistente voltou-se para Orzil
e considerou compadecido:
-Sim, por agora a situação de
nosso amigo é demasiado complexa. Não pode ausentar-se da grade, sem
prejuízo.
Deixamos o doente, imprecando
contra nós, de punhos cerrados e abeiramo-nos de outra cela.
Ante a palavra de Silas, que nos
recomendava observar o quadro em foco, fitamos o novo enfermo, um homem
profundamente triste, sentado ao fundo da prisão de cabeça pendida entre
as mãos e de olhos fixos em parede próxima.
Seguindo-lhes a atenção no ponto
que concentrava os seus raios visuais, a modo de espelho invisível
retratando-lhe o próprio pensamento, vimos larga tela viva em que se
destacava enluarada rua de grande cidade, e, na rua, conseguimos
distingui-lo no volante de um carro, perseguindo um transeunte bêbado, até
mata-lo, sem compaixão.
Achávamo-nos diante de um
homicida preso a constrangedores quadros mentais que o encerravam em
punitivas recordações.
Notava-se-lhe a intraduzível
angústia, entre o remorso e o arrependimento.
A leve chamado de Silas,
despertou como fera roubada à quietação do sono.
Instintivamente precipitou-se
sobre nós, num salto espetaculoso que a enxovia conteve, e bramiu...
-Não há testemunhas...Não há
testemunhas!...Não fui eu quem atropelou o infeliz, não obstante o odiasse
com razão...Que pretendem de mim? Denunciar-me? Covardes! Espreitavam,
então, a rua morta?
Não respondemos.
Silas, após feitá-lo,
compadecido, falou:
-Deixemo-lo. Está completamente
enleado às recordações do crime que cometeu, crendo continuar, depois da
morte, a escarnecer da justiça.
Hilário, estupefado, interferiu,
ponderando:
-Naquele doente que vimos,
cercados pela figura de três mancebos, e neste companheiro que contempla
uma cena de morte...
Nosso amigo apreendeu-lhe o
pensamento e completou-lhe a anotação, asseverando:
-Vimos dois irmãos infelizes;
vivendo entre as imagens mantidas por eles mesmos, através da força mental
com que as alimentam.
Nesse instante, alcançávamos o
terceiro cubículo, em que um homem feridento cavurmava as feias chagas,
usando as próprias unhas.
A atmosfera francamente
pestilencial exigia enorme disciplina contra a eclosão de nossas náuseas.
Assinalando-as a presença,
avançou para nós, clamando amargamente:
-Compadecei-vos de mim! Sois
médicos? Atendei-me por amor de Deus! Vede os detritos em que me apoio!...
Voltei-me, de imediato, para o
chão, seguindo-lhe os gestos e notei, efetivamente, que o mísero se
movimentava num montão de sujeira, coberto por filetes de sangue podre.
Somente depois de mais ampla
atenção, averigüei que o quadro repugnante era constituído pelas emanações
mentais do companheiro infeliz sob nossos olhos.
-Doutores! – continuou ele, em
tom de súplica – há quem diga que roubei dos outros, a fim de satisfazer
meus vícios no alcoice que eu freqüentava...Mas é por espírito de
caridade...As mulheres desditosas requeriam defesas...Auxiliei-as quanto
pude...Ainda assim, adquiri, junto delas, a enfermidade que me aniquilou o
corpo físico e que ainda me empesta a respiração, convertendo-se aqui em
meu próprio hálito!... Socorrei-me por quem sois!...Socorrei-me por quem
sois!...
A respeito dos rogos, contudo,
derramava-se em tom imperativo, como se as palavras humildes do petitório
fossem apenas o disfarce de uma ordem tiranizante.
O Assistente convidou-nos à
retirada e explicou:
-É um antigo e inveterado gozador
que despendeu em prazeres inúteis largos recursos que lhe não pertenciam.
Por muito tempo ainda, a mente dele oscilará entre a irritação e o
desencanto, nutrindo o ambiente horrível de que se fez o fulcro
desequilibrado.
De regresso ao tugúrio de Orzil,
perguntei sem preâmbulos:
-Nossos irmãos doentes, desse
modo, estarão segregados, até que se renovem?
-Perfeitamente – aclarou Silas,
bondoso.
-E que devem fazer para atingir a
melhora necessária? – indagou Hilário com insofreável assombro.
Nosso amigo sorriu e obtemperou:
-O problema é de natureza mental.
Modifiquem as próprias idéias e modificar-se-ão.
Entregou-se a ligeira pausa,
mostrou novo brilho no olhar percuciente e acentuou com segurança:
-Isso, porém, não é tão fácil.
Consagram-se vocês, presentemente, a estudos especiais dos princípios de
causa e efeito. Fiquem, pois, sabendo que nossas criações mentais
preponderam fatalmente em nossa vida. Libertam-nos quando se enraízam no
bem que sintetiza as Leis Divinas, e encarceram-nos quando se firmam no
mal, que nos expressa a delinquência responsável, enleando-nos por essa
razão ao visco sutil da culpa. Afirma velho aforismo popular na Terra que
“o criminoso volta ao local do crime”. Daqui podem asseverar que, mesmo
desfrutando a possibilidade de ausentar-se da paisagem do crime, o
pensamento do criminoso está preso ao ambiente e à própria substância da
falta cometida.
E, reparando em nossa
perplexidade, acrescentou:
-Recordemos, ainda, o pensamento,
atuando à feição de onda, com velocidade muito superior à da luz, e
lembremo-nos de que toda mente é dínamo gerador de força criativa. Ora,
sabendo que o bem é expansão da luz e que o mal é condensação da sombra,
quando nos transviamos na crueldade para com os outros, nossos
pensamentos, ondas de energia sutil, de passagem pelos lugares e
criaturas, situações e coisas que nos afetam a memória, agem e reagem
sobre si mesmos, em circuito fechado, e trazem-nos, assim, de volta, as
sensações desagradáveis, hauridas ao contacto de nossas obras infelizes.
Estudamos três tipos de almas que deixaram na existência última somente
quadros tristes e lamentáveis, nos quais não dispõem de atenuantes que
lhes empalideçam as faltas indiscutíveis. Os filhos do nosso amigo que
sofre a fixação de usura não receberam dele quaisquer recursos de educação
dignificante que os habilitem a ajuda-lo, quando visitados pelas ondas do
pensamento paternal, que voltam ao centro de origem carregados pelos
princípios mentais de ódio e egoísmo dos jovens litigantes. Nosso irmão
que padece a fixação de remorso, não tendo expiado nos cárceres da justiça
humana o crime que perpetrou deliberadamente, recolhem, de retorno, as
ondas de pensamento que emite, sem qualquer auxílio que lhe amenize o
arrependimento doloroso; e o nosso companheiro que se detém no vício
reabsorve as ondas de seu próprio campo mental, acumuladas de fatores
deprimentes, que a elas se incorporam nos lugares por onde passam,
restituídas a ele mesmo com multiplicados elementos de corrupção.
Diante de nosso espanto, o
Assistente inquiriu:
-Compreenderam?
Sim, havíamos entendido...
Sob forte emoção, Hilário
considerou:
-Agora percebo, com mais clareza
o benefício concreto da oração e da piedade, da simpatia e do socorro que,
na Terra, deveríamos dispensar, sinceramente, aos chamados mortos...
-Sim, sim... – respondeu Silas,
prestimoso – todos estamos ligados uns aos outros, na carne e fora da
carne, e achamo-nos livres ou prisioneiros, no campo da experiência,
segundo as nossas obras, através dos veículos de nossa vida mental. O bem
é a luz que liberta, o mal é a treva que aprisiona...Estudando as leis do
destino, é preciso atentar para semelhantes realidades indefectíveis e
eternas.
Calamo-nos, preocupados e
meditativos.
Em razão disso, nosso regresso à
Mansão, depois de breve repouso na choupana de Orzil, foi consagrado à
meditação e ao silêncio, em torno das preciosas lições colhidas.
Da obra “AÇÃO E REAÇÃO” – ESPÍRITO: ANDRÉ LUIZ –
MÉDIUM: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
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