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COMOVENTE
SURPRESA
André Luiz
Durante três anos
estivemos quase que diariamente na <Mansão Paz>, estudando lições
preciosas e aprendendo a servir.
Ali, ao pé de Druso,
na comunhão fraternal de Silas e junto de outros amigos prestimosos,
recolhemos experiências e apontamentos sublimes.
Em verdade, o
sofrimento, naquele pouso castigado de extrema luta, era a nota constante
em todas as direções.
Muitas vezes, a casa
tremia nos alicerces sob convulsões magnéticas indescritíveis, noutras
ocasiões, sob o ataque de legiões ferozes, assemelhava-se a fortaleza, em
regime de sítio inquietante, que só a Misericórdia Divina poderia salvar.
Todavia, em
quaisquer emergências, Druso convocava-nos a todos à oração e nossas
preces nunca ficaram sem resposta. Suprimentos e recursos, diretrizes e
bálsamos, fluíam invariavelmente dos Planos Superiores, amparando-nos a
necessidade ou subtraindo-nos a indecisão.
O orientador da casa
constituía para nós o mais elevado padrão de intangibilidade moral, não
obstante a humildade com que pautava todas as atitudes.
Nunca lhe
surpreendemos o mínimo gesto em desacordo com o nobre e extenso mandato de
que dispunha. Sabia ser firme sem rispidez, justo sem parcialidade,
bondoso sem fraqueza. Valorizava não apenas o conselho dos grandes
Espíritos que visitavam o Cenáculo, mas também os voto humildes dos
míseros sofredores que nos batiam à porta. Mantinha amorosa reverência
diante dos supervisores da Mansão, a cujos avisos atendia, presto, tanto
quanto mostrava o melhor carinho no desvelo incessante em favor dos
infelizes que nos rogavam concurso e entendimento. Desdobrava-se. Não se
circunscrevia ao venerável mister do administrador central, a quem
devíamos homenagem constante. Era o conselheiro devotado de todos os
assessores, o médico dos internados, o mentor das expedições e o
enfermeiro tolerante e simples, sempre que as circunstâncias o exigissem.
Contudo, onde lhe
notávamos a mais impressionante assiduidade era justamente à cabeceia dos
desditosos irmãos, recolhidos nos tenebrosos desfiladeiros em que se
situava a instituição.
Noite a noite,
sempre que desejávamos, podíamos acompanhar-lhe os serviços magnéticos,
junto de Silas, identificando criaturas infortunadas que, a se desvairarem
nas sombras, haviam perdido a noção de si mesmas, dementadas pela viciação
ou transtornadas pelo próprio desespero.
Era sempre doloroso
encarar os companheiros disformes e irreconhecíveis que a flagelação
mental ensandecera.
Por mais de uma vez,
Hilário e eu desfizéramo-nos em pranto, à frente daquelas torvas
fisionomias que o extremo desequilíbrio imobilizava em terrível prostração
ou amotinava em crises de loucura.
Druso, porém,
inclinava-se sobre os infelizes, sempre com a mesma ternura. Depois da
oração costumeira, articulava operações magnéticas assistenciais e, logo
após, com a devida segurança, interrogava os recém-recolhidos, enquanto
fixávamos anotações diversas, atinentes à colaboração que nos cabia
desenvolver.
Duas, três, quatro
horas despendia ele, pessoalmente, cada noite, no trabalho socorrista que
considerava sagrado, sem que nenhum dos companheiros encontrasse a menor
oportunidade de substituí-lo. À exceção dele, todos nos revezávamos na
cooperação solicitada ou espontânea, no serviço de amparo e consulta aos
irmãos que o mergulho indiscriminado nas sombras havia enlouquecido.
Foi assim que, certa
noite para nós inesquecível, pobre mulher cadaverizada foi trazida pelos
enfermeiros à sala de nossas atividades habituais para o socorro
necessário.
O corpo seviciado,
que imundos trapos mal cobriam, as mãos cujos dedos terminavam em forma de
garras e o semblante completamente alterado por terrível hipertrofia
falavam sem palavras dos longos tormentos de que fora vítima.
Embora
preliminarmente atendida pela enfermagem da Mansão, a infortunada criatura
exalava nauseante bafio.
Druso, no entanto,
qual acontecia noutros casos, afagava-lhe a fronte com paternal carinho.
Finda a prece com
que assinalava o inicio da tarefa assistencial, começou a aplicação de
passe, acordando-lhe as energias. Em seguida, notando que fundos gemidos
se lhe exteriorizavam do peito, o abnegado amigo concentrou os seus
potenciais de força magnética no cérebro da infeliz, que começou a
mover-se subitamente reanimada.
Via-se claramente
que Druso interferia no córtex encefálico, incentivando-a ao necessário
despertamento.
Foi então que a boca
hirta, arrastada hipnoticamente à movimentação, descerrou-se, de leve, e
gritou:
-
Druso!...
Druso!... compadece-te de mim!...
Surpreendidos, vimos
o chefe da Mansão cambalear, quase desfalecente, qual se fora atingido por
invisíveis raios de angústia e morte. Mas a estupefação não o atingira
tão-somente. Silas, fazendo-se lívido, avançou para ele, enlaçando-lhe o
busto, como se lhe temesse a queda inevitável.
Algo de estranho
ocorria, cujo sentido, de pronto, não conseguíamos perceber.
Buscando dominar-se,
o venerável diretor ergueu os olhos lúcidos para o Alto, em pranto mudo,
invocando a inspiração divina, na linguagem da prece silenciosa em que a
alma se comunica particularmente com Deus, e, após momentos rápidos,
perguntou à infeliz:
-
Irmã,
que tens a dizer-nos?
A interpelada abriu
os olhos que se reviravam na órbita, sem qualquer expressão de lucidez e,
parecendo temer a presença de inimigos ocultos, clamou triste:
-
Tragam
meu esposo!...
Druso
me perdoará...
Estou cansada,
vencida... Por amor de Deus, libertem-me!... Libertem-me!...Quero ar!...
ar puro!... Não terei pago suficientemente o meu crime?...Não creio que
Deus nos criasse para o inferno sem-fim. Se errei, conscientemente,
adquirindo grande culpa, não desconheço... que as minhas penas
reparadoras... têm sido igualmente enorme!... Conduzam-me à presença de
meu esposo... para que me ajoelhe... Druso retirar-me-á do local dos
réprobos... Compreenderá que não sou assim tão cruel, como querem que eu
seja... Meu marido era sumamente bondoso, tratava-me como um pai!... Há
quantos anos padeço, ó Senhor!? Tu que curaste os leprosos e os
endemoninhados, estende-me os braços de amor! Retira-me do inferno a que
fui arrastada!... Ajuda-me, ó Cristo!... Deixa que eu recolha do esposo
que humilhei o perdão de que necessito, para que a minha consciência possa
orar com fervor!... O remorso é fogo que me consome!...
Piedade!... Piedade!... Piedade!...
Ante o intervalo que
se fizera espontâneo, vimos que o grande condutor jazia entregue a
lágrimas copiosas.
Pela primeira vez
aos nossos olhos, Silas interferiu no socorro magnético.
Embora o espanto que
se lhe estampava na face, com a tácita aprovação do chefe que lhe cedia o
lugar em silêncio, interrogou, preocupado e indeciso:
-
Como
te chamas?
-
Aída... – foi a resposta que nos despertou mais acurada atenção.
O Assistente,
contudo, no evidente propósito de obter mais informes, tão seguros quanto
possíveis, continuou indagando em voz trêmula:
-
Aída,
se és a esposa de Druso, como nos fazes crer, não te recordas de mais
alguém? De mais alguém que te partilhasse no mundo a vida no lar?
-
Oh!
Sim... – retrucou a interlocutora com indizível carinho – lembro-me...
lembro-me... Meu esposo trazia um filho das primeiras núpcias, um jovem
médico de nome Silas...
E dando-nos a
conhecer a extrema fixação mental a que se ajustava, exclamou sussurrante:
-
Onde
está Silas que também não me ouve?
A princípio...
contrariava-se com a minha presença...Entretanto... com o tempo...
tornou-se-me um filho do coração, condescendente amigo... Silas!... sim...
sim... quem me fez recordar o passado?!...
Agigantava-se-nos a
constrangedora surpresa.
Ambos os socorristas
caíram de joelhos em pranto insofreável.
Num átimo,
entendemos tudo, rememorando a noite inolvidável em que Silas algo nos
falara de sua historia comovente.
A pobre dementada
era Aída, a madrasta sofredora.
Somente agora
percebíamos que o Instrutor e o Assistente haviam sido, entre os homens,
pai e filho...
Daí, a discreta
intimidade com que se associavam, automaticamente, em todos os serviços.
Decerto – pensei -,
haviam abraçado aflitiva missão naquele perseguido instituto de caridade,
não apenas atendendo aos desencarnados infelizes, mas também com elevados
objetivos do coração.
Entretanto, não
consegui divagar muito tempo, de vez que Druso, num gesto enternecedor,
recolheu a infortunada criatura nos braços generosos e, genuflexo, após
conchegá-la de encontro ao peito, exclamou para o Alto, com voz sumida em
lágrimas:
-
Obrigado, Senhor!... Os penitentes como eu encontram igualmente o seu dia
de graças!... Agora que me devolves ao coração criminoso a companheira que
envenenei no mundo, dá-me forças para que eu possa erguê-la do abismo de
sofrimento a que se precipitou por minha culpa!...
Notava-se-lhe o
esforço para continuar clamando pela Compaixão Celeste; no entanto, os
soluços embargaram-lhe de todo a voz, enquanto vasto jorro de safirina luz
fluía do teto, como se a Infinita Bondade respondesse, de imediato, à
comovente súplica.
Silas, extremamente
abatido, ajudou-o a levantar-se e ambos se agastaram, carregando consigo
aquele trapo de mulher, com a solene emoção de quem havia conquistado
precioso troféu.
Informados de que o
serviço magnético não teria prosseguimento naquela, noite, retiramo-nos
para nosso aposento particular, confiando-nos ao estudo das nossas
impressões.
No dia seguinte,
entretanto, Silas veio ao nosso encontro.
Tocava-se da alegria
misteriosa de quem solucionara um problema longamente sofrido. E,
lembrando-nos o estudo da Lei de Causa e Efeito, explicou-se, rápido.
Druso e ele tinham
sido pai e filho na existência última, e, tendo ambos recebido a
necessária permissão para trabalhar em busca de Aída, cuja perda haviam
provocado, devotavam-se ao serviço da Mansão, sob o beneplácito de amigos
do Plano Superior. Ao preço de tremendas lutas na própria recuperação,
chegaram a conquistar amizades sólidas e experiências notáveis; contudo, a
recordação da jovem sacrificada constituía-lhes envenenado acúleo nos
refolhos do ser. Assim era que, para mais ampla elevação na Luz Infinita,
necessitavam ressarcir o infamante débito.
E acentuava,
esperançoso, com ignota ventura a luzir-lhe no olhar;
-
Dentro
de três dias, meu pai deixará o encargo de orientador da instituição,
alçando-se, por fim, à companhia de minha mãe, para regressarem brevemente
à reencarnação que os espera, sob a guarda de alguns amigos nossos. Meu
pai partirá primeiramente, pouco depois minha abnegada genitora o seguirá
para a internação na carne e, mais tarde, quando se consorciarem na esfera
dos homens, recolher-me-ão nos braços, na condição de primogênito, para
que nós três venhamos a receber Aída, sofredora, em nossos corações.
-
Conceder-nos-á Jesus a felicidade de resgatar a imensa dívida, com a
assistência amorosa de minha mãe, que renunciou à alegria da ascensão
imediata, em nosso benefício... Como podem observar, nós mesmos, segundo a
Lei, buscamos a Justiça por nossas próprias mãos.
O Assistente
mostrava na face o deslumbramento de uma criança feliz.
-
E
você? – perguntou Hilário, de chofre. – Continuará você ainda aqui?
-
Não –
respondeu o companheiro generoso. – Com o afastamento de meu pai, obtive
permissão para ingressar em grande educandário, no qual me habilitarei
para as novas tarefas na medicina humana, com vistas à minha próxima
romagem terrestre.
O comunicado
alterava-nos o programa.
Convinha, de nossa
parte, encerrar os estudos na generosa instituição, porquanto Druso e
Silas, desde a primeira hora, haviam sido ali nosso apoio claro e fiel.
Abracei o
Assistente, sentindo-lhe a falta por antecipação.
Silas era mais um
amigo de quem me devia apartar.
Felicitei-o pela
vitória alcançada e, com ele, consideramos igualmente o impositivo de
nosso adeus.
A mudança
administrativa na casa não nos encorajaria qualquer dilação.
Para nós também a
partida fazia-se inadiável.
O denodado
companheiro enlaçou-nos com irreprimível carinho e lágrimas de sublime
reconhecimento jorraram-nos dos olhos.
Quem admitirá que a
separação seja apenas uma flor triste na Terra dos homens?
..............................................................
Decorridos três dias
sobre a nossa derradeira conversação, achávamo-nos no maior recinto do
grande instituto de socorro espiritual.
O Instrutor e o
Assistente despediam-se dos amigos.
O enorme salão
estava repleto.
No largo estrado, em
que se destacava a direção, Druso aparecia, ladeado pelo Instrutor Aranda,
a quem passaria o governo do estabelecimento, e, pela esposa querida,
aquela que lhe ofertara no mundo os sonhos doces do primeiro matrimônio,
cujos olhos serenos exprimiam irradiante bondade.
Outros benfeitores,
incluindo o nosso caro Silas, ali também se encontravam, atenciosos e
emocionados.
Na multidão dos
ouvintes, estávamos nós, renteando com os assessores e funcionários do
grande hospital-escola, ao pé de mais de trezentos internados.
Todos os enfermos,
abrigados e servidores vinham trazer a Druso preciosos testemunhos de
reconhecimento.
As manifestações
comovedoras multiplicavam-se, incessantes.
Enquanto música leve
nascia de instrumentos ocultos, espalhando-se em surdina, todos os
doentes, em fila movimentada, queriam dizer uma palavra ao abnegado
Instrutor que os acolhera, generoso.
Velhinhos trêmulos
abençoavam-lhe o nome, irmãs, cujo aspecto falava de laboriosa renovação,
ofertavam-lhe as flores torturadas e tristes que o clima inquietante da
Mansão era capaz de produzir, entidades diversas, recuperadas ao hálito de
seu incansável devotamento, endereçavam-lhe expressões respeitosas e
amigas enquanto jovens inúmeros lhe osculavam as mãos...
Para todos possuía
Druso uma frase de enternecimento e carinho.
Choro discreto
surgia aqui e ali...
Todos devíamos, ao
mentor admirável esclarecimento e esperança, energia e consolação.
O novo chefe, após a
cerimônia simples da transmissão de responsabilidades, levantou-se e
prometeu dirigir a casa com lealdade a Nosso Senhor Jesus-Cristo. Para
falar a verdade, porém, não creio que o Instrutor Aranda, recém-chegado a
casa, pudesse naquela hora atrair-nos mais dilatada atenção, e , tão logo
se acomodou na poltrona que a solenidade lhe reservava, Druso ergueu-se e
rogou permissão para orar à despedida.
Todas as frontes
penderam silenciosas, enquanto a voz dele se elevou para o Infinito, à
maneira de melodia emoldurada de lágrimas.
-
Senhor
Jesus! – clamou, humilde – neste instante em que te oferecemos o coração,
deixa que nossa alma se incline, reverente, para agradecer-te as bênçãos
de luz que a tua incomensurável bondade aqui nos concedeu em cinqüenta
anos de amor...
Tu, Mestre, que
ergueste Lázaro do sepulcro, levantaste-me também das trevas para a
alvorada remissora, lançando no inferno de minha culpa o orvalho de tua
compaixão...
Estendeste os braços
magnânimos ao meu espírito mergulhado na lodosa corrente do crime.
Trouxeste-me do
pelourinho do remorso para o serviço da esperança.
Reanimaste-me quando
minhas forças desfaleciam...
Nos dias agoniados,
foste o alimento de minhas ânsias; nas sendas mais escabrosas, era, em
tudo, o meu companheiro fiel.
Ensinaste-me, sem
ruído, que somente através da recuperação do respeito a mim mesmo, no
pagamento de meus débitos, é que poderei empreender a reconquista de minha
paz...
E confiaste-me,
Senhor, o trabalho neste pouso restaurador, como assistência constante de
tua benevolência infinita, a fim de e eu pudesse avançar das sombras da
noite para o fulgor de novo dia!...agradeço-te, pois, os instrutores que
me deste, a cuja devoção afetuosa tão pesado tenho sido, os companheiros
generosos que tantas vezes me suportaram as exigências e os irmãos
enfermos que tantos ensinamentos preciosos me trouxeram ao coração!...
E agora, Senhor, que
a esfera dos homens me descerrará de novo as porta, acompanha-me, por
acréscimo de misericórdia, com a graça de tua bênção.
Não permitas que o
reconforto do mundo me faça esquecer-te e constrange-me ao convívio da
humildade para que o orgulho me não sufoque.
Dá-me a luta
edificante por mestra do meu resgate e não retires o teu olhar de sobre os
meus passos, ainda que, para isso, deva ser o sofrimento constante a marca
de meus dias.
E, se possível,
deixa que os irmãos desta casa me amparem com os seus pensamentos em
orações de auxílio, para que, no pedregoso caminho da regeneração de que
careço, não me canse de louvar-te o excelso amor para sempre!...
Calou-se Druso, em
pranto.
No recinto, choviam
pequenos flocos luminescentes, à maneira de estrelas minúsculas que se
desfaziam, de leve, em nos tocando a fronte...
Lá fora, gritava a
tempestade em convulsões terríveis.
Cá dentro, todavia,
reinava em nós a certeza de que, além da faixa das trevas, o céu ilimitado
resplendia eternamente em luz...
Reunimo-nos a Silas
e, juntos, abeiramo-nos do abnegado Instrutor para as últimas saudações,
porque também nós, Hilário e eu, deveríamos partir, já que a nossa tarefa
estava encerrada.
Druso enlaçou-nos
paternalmente e, talvez porque nos demorássemos no abraço carinhoso,
tentando definir-lhe o nosso imenso afeto, pousou em nós o olhar, falando
comovido:
-
Deus
nos abençoe, meus filhos!... Um dia, reencontrar-nos-emos de novo...
Com a voz embargada
de emoção, beijamos-lhe a destra em profundo silêncio, porque somente as
lágrimas poderiam algo dizer de nossa gratidão e de nosso enternecimento,
no adeus inesquecível...
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
Xavier |