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SANÇÕES E
AUXÍLIOS
André Luiz
Depois do
entendimento com os internados, o Instrutor Druso aquiesceu em
dispensar-nos alguns minutos de conversação educativa.
Explanara
brilhantemente sobre o problema das provas na experiência terrestre.
Alertara-nos quanto à necessária renovação mental nos padrões do bem,
destacando a necessidade do estudo, para a assimilação do conhecimento
superior, e do serviço ao próximo, para a colheita de simpatia, sem os
quais todos os caminhos da evolução surgem complicados e difíceis de ser
transitados.
Junto dele, enquanto
prelecionava, fora colocada singular escultura – uma estátua notável
reproduzindo o corpo humano, transparente aos nossos olhos, à qual apenas
faltava o sopro espiritual para revelar-se viva.
Patenteavam-se, ali,
à nossa visão, todos os órgãos e apetrechos do carro físico, sob a
proteção do sistema nervoso e do sistema sangüíneo.
O coração, à maneira
de um grande pássaro no ninho das artérias enrodilhadas na árvore dos
pulmões; o fígado, à feição de um condensador vibrante; o estômago e os
intestinos como digestores técnicos e os rins, quais aparelhos complexos
de filtragem, convidavam-nos a profunda admiração; contudo, nosso maior
interesse concentrava-se no sistema endócrino, no qual as glândulas se
salientavam por figurações de luz.
A epífise, a
hipófise, a tireóide, as paratireóides, o timo, as supra-renais, o
pâncreas e as bolsas genésicas caracterizavam-se, perfeitas, sobre o fundo
vivo dos centros perispirituais, que se combinavam uns com os outros, em
sutilíssimas ramificações nervosas, singularmente ajustadas, através dos
plexos, emitindo cada centro irradiações próprias, constituindo-se o
conjunto num todo harmônico, que nos impelia á contemplação extática.
Percebendo-nos a
surpresa, o chefe da casa disse, bondoso:
-
Habitualmente convidamos a atenção de nossos internados para os veículos
de nossas manifestações, mostrando-lhes, quanto possível, a
correspondência entre nossos estados espirituais e as formas de que nos
servimos.
É indispensável
compreendamos que todo mal por nós praticado conscientemente expressa, de
algum modo, lesão em nossa consciência e toda lesão dessa espécie
determina distúrbio ou mutilação no organismo que nos exterioriza o modo
de ser. Em todos os planos do Universo, somos espírito e manifestação,
pensamento e forma. Eis o motivo por que, no mundo, a Medicina há de
considerar o doente como um todo psicossomático, se quiser realmente
investir-se da arte de curar.
E, tocando a bela
escultura à nossa vista, continuou:
-
Da
mente clareada pela razão, sede dos princípios superiores que governam a
individualidade, partem as forças que asseguram o equilíbrio orgânico, por
intermédio de raios ainda inabordáveis à perquirição humana, raios esses
que vitalizam os centros perispiríticos, em cujos meandros se localizam as
chamadas glândulas endócrinas, que, a seu turno, despedem recursos que nos
garantem a estabilidade do campo celular.
Como é óbvio, nas
criaturas encarnadas esses elementos se consubstanciam nos hormônios
diversos que atuam sobre todos os órgãos do corpo físico, através do
sangue. O homem como, que já conhece a tiroxina e a adrenalina, energias
fabricadas pela tireóide e pelas supra-renais, com influência decisiva no
trabalho circulatório, nos nervos e nos músculos, não ignora que todas as
demais glândulas de secreções internas produzem recursos que decidem sobre
saúde e enfermidade, equilíbrio e desequilíbrio nos indivíduos encarnados.
Ora, em substância, como é fácil de ver, todos os estados acidentais das
formas de que nos utilizamos, no espaço e no tempo, dependem, assim, do
comando mental que nos é próprio.
É por isso que a
justiça, sendo instituto fundamental de ordem, na Criação, começa
invariavelmente em nós mesmos, em toda e qualquer ocasião que lhe
defraudemos os princípios. A evolução para Deus pode ser comparada a uma
viagem divina.
O bem constitui
sinal de passagem livre para os cimos da Vida Superior, enquanto que o mal
significa sentença de interdição, constrangendo-nos a paradas mais ou
menos difíceis de reajuste.
Aproveitando breve
pausa, Hilário observou:
-
É
admirável o trabalho educativo em andamento nas zonas inferiores, com
vistas à reencarnação...
-
Inegavelmente – respondeu o instrutor. – É preciso informar a todos os
nossos irmãos, em vias de retorno ao círculo dos homens, que o corpo
carnal, com as tarefas que lhe são conseqüentes, vale por verdadeiro
prêmio da Bondade Divina, que é necessário valorizar. Aqui, nas esferas
purgatoriais, contamos com verdadeiras multidões de criaturas
desencarnadas que procedem do mundo, em deploráveis crises alucinatórias,
após malversarem, os bens da vida humana. Muitas, por infelicidade da
própria ignorância, não puderam acomodar-se a qualquer tipo de concepção
religiosa, entretanto, milhões de pessoas, longe do respeito pela fé
maternal que as esclarecia, nos compromissos esposados perante Deus,
entregavam-se, conscientemente, à crueldade mental, cavando ruína e
amargura para si mesmas, porque o mal infligido a outrem era sempre mal
que amontoavam sobre as suas cabeças.
É assim que,
desentrançadas da matéria densa, aqui aportam, batidas pelo remorso e pelo
arrependimento, padecendo frustrações lamentáveis, quando não estacionam
por tempo mais ou menos longo em furnas expiatórias, nas quais, presas de
antigos adversários ou de velhos comparsas do vício, sofrem tristes
alterações em seus centros de força, a se lhes expressarem na mente por
desequilíbrios funestos. Depois de acolhidos em nosso pouso de amor,
refazem-se a pouco e pouco...
A reencarnação
retificadora, isto é, a internação da carne em condições penosas, surge
por alternativa inevitável. Será preciso renascer, suportando os
obstáculos tremendos, oriundos da desarmonia perispirítica criada por nós
mesmos. Ainda assim, quanto possível, antes do novo berço entre os homens,
é imprescindível melhorar as contas... Daí o motivo por que instituições
qual a nossa funcionam, em vários campos das regiões inferiores, que, na
velha teologia, equivalem a regiões infernais...
O que, porém,
existe, de fato, é o imenso Umbral, situado entre a Terra e o Céu,
dolorosa região de sombras, erguida e cultivada pela mente humana, em
geral rebelde e ociosa, desvairada e enfermiça. Os companheiros
desencarnados que despertam, devagarinho, para a responsabilidade de
viver, encarando face a face o imperativo do renascimento difícil no
mundo, passam a trabalhar aqui laboriosamente, vencendo óbices terríveis e
superando tempestades de toda a sorte, para a conquista dos méritos que
descuram durante a permanência no corpo, de modo a implantarem, no próprio
espírito, os valores morais de que não prescindem para a sustentação de
novas e abençoadas lutas no plano material.
O orientador,
mostrando o olhar coruscante de entendimento e carinho, à feição do
professor emérito e bondoso que deseja o progresso dos aprendizes, fez
longa pausa e perguntou-nos:
-
Compreenderam?
-
Sim,
sim... – respondemos a um só tempo, interessados em maior amplitude da
lição.
-
É
assim que todos nós – continuou ele – para o recomeço das lides carnais,
solicitamos o regime de sanções, ou alguém, quando não disponhamos do
direito de fazê-lo, no-lo obtém, suplicando-o, em nosso beneficio, às
autoridades superiores.
-
Regime
de sanções? – indagou Hilário, surpreendido.
-
Perfeitamente. Não nos reportamos aqui às medidas de natureza moral, pelas
quais enfrentamos, compreensivelmente, na família consangüínea ou na
intimidade da luta, a reaproximação com os Espíritos de que sejamos
devedores de paciência e ternura, tolerância e sacrifico, na solução de
certas dívidas que nos obscurecem a senda, mas sim a providências
retificantes, depois de muitas quedas reiteradas nos mesmos deslizes e
deserções, que imploramos em favor de nós e em nós mesmos, quais sejam as
deficiências congeniais com que ressurgimos no berço físico. Aqueles que
por vezes diversas perderam vastas oportunidades de trabalho na Terra,
pela ingestão sistemática de elementos corrosivos, como sejam o álcool e
outros venenos das forças orgânicas, tanto quanto os inveterados cultores
da gula, quase sempre atravessam as águas da morte como suicidas indiretos
e, despertando para a obra de reajuste que lhes é indispensável, imploram
o regresso à carne em corpos desde a infância inclinados á estenose do
piloro, à ulceração gástrica, ao desequilíbrio do pâncreas, à colite e às
múltiplas enfermidades do intestino que lhes impõe torturas sistemáticas,
embora suportáveis, no decurso da existência inteira. Inteligências
notáveis, com sucessivas quedas morais, através da leviandade com que se
utilizaram do esporte e da dança, espalhando desespero e infortúnio nos
corações afetuosos e sensíveis, pedem formas orgânicas ameaçadas de
paralisia e reumatismo, visitadas de achaques e neoplasmas diversos, que
lhes obstem os movimentos demasiado livres. Companheiros que, em muitas
circunstâncias, se deixaram envenenar pelos olhos e pelos ouvidos,
comprometendo-se em vasta rede de criminalidade, através da calunia e da
maledicência, imploram veículos fisiológicos castigados por deficiências
auditivas e visuais que lhes impeçam recidivas desastrosas.
Intelectuais e
artistas que despedem sagrados recursos do espírito na perversão dos
sentimentos humanos, por intermédio da criação de imagens menos dignas,
rogam aparelhos cerebrais com inibições graves e dolorosas para que, nas
reflexões de temporário ostracismo, possam desenvolver as esquecidas
qualidades do coração.
Homens e mulheres
que abusaram de dotes físicos, manobrando a beleza e a perfeição das
formas para disseminar a loucura e o sofrimento naqueles que lhes admitiam
as falsas promessas, solicitam corpos vulneráveis às dermatoses aflitivas,
quais o eczema e a tumoração cutânea, ou portadores de alterações da
tireóide que os constranjam a reiteradas lutas educativas.
Grandes faladores
que escarneceram da divina missão do verbo, conturbando multidões ou
enlouquecendo almas desprevenidas, suplicam doenças das cordas vocais,
para que, atravessando afonias periódicas, desistam de tumultuar os
espíritos por intermédio da palavra brilhante.
E milhares de
pessoas que transformaram o santuário do sexo numa forja de perturbações
para a vida alheia, arruinando lares e infelicitando consciências,
imploram equipamentos físicos atormentados por lesões importantes no campo
genésico, experimentado, desde a puberdade, inquietantes desequilíbrios
ovarianos e testiculares.
A cegueira, a mudez,
a idiotia, a surdez, a paralisia, o câncer, a lepra, a epilepsia, o
diabete, o pênfigo, a loucura e todo o conjunto das moléstias dificilmente
curáveis significam sanções instituídas da Justiça Universal,
atendendo-nos aos próprios rogos, para que não venhamos a perder as
bênçãos eternas do espírito a troco de lamentáveis ilusões humanas.
-
Mas,
existem institutos especiais que providenciem, por exemplo, as
irregularidades orgânicas pedidas para a reencarnação? – perguntou meu
colega, intrigado.
O interlocutor
generoso sorriu, significativamente, e acentuou:
-
Sim,
Hilário, a Bondade do Senhor é infinita e permite-nos a graça de suplicar
os impedimentos a que nos referimos, porque o reconhecimento de nossas
fraquezas e transgressões nos faz imenso bem ao espírito endividado. A
humildade, em qualquer situação, acende luz em nossas almas, gerando, em
torno de nós, abençoados recursos de simpatia fraterna.
Entretanto, ainda
mesmo que não pedíssemos a aplicação das penas de que necessitamos, nossa
posição não se modificaria, porquanto a prática do mal opera lesões
imediatas em nossa consciência, que, entrando em condição desarmônica,
desajusta, ela própria, os centros de força em que se mantém. Desse modo,
os nossos institutos de trabalho para a reencarnação colaboram para que
todos venhamos a receber na ribalta terrestre a vestimenta carnal
merecida.
-
Então,
de que vale a súplica, rogando essa ou aquela medida, atinente à nossa
reeducação?
-
Oh!
Não formule semelhante problema! – falou Druso em voz grave. – A prece, no
sentido que aludimos, é sempre um atestado de boa-vontade e compreensão,
no testemunho da nossa condição de Espíritos devedores... Sem dúvida, não
poderá se modificar o curso das leis, diante das quais nos fazemos réus
sujeitos a penas múltiplas, mas renova-nos o modo de ser, valendo não só
como abençoada plantação de solidariedade em nosso beneficio, mas também
como vacina contra reincidência no mal. Além disso, a prece faculta-nos a
aproximação com os grandes benfeitores que nos presidem os passos,
auxiliando-nos a organização de novo roteiro para a caminhada segura.
Meu companheiro
guardou, reverente, a anotação e considerou:
-
Caro
instrutor, depreendemos da elucidação que, ao nos reencarnarmos,
conduzimos conosco os remanescentes de nossas faltas, que nos partilham o
renascimento, na máquina fisiológica, como raízes congeniais dos males que
nós mesmos plantamos...
-
Perfeitamente – acentuou o mentor amigo -, nossas disposições, para com
essa ou aquela enfermidade no corpo terrestre, representam zonas de
atração magnética que dizem de nossas dívidas, diante das Leis Eternas,
exteriorizando-nos as deficiências do espírito.
Druso meditou alguns
instantes, como se estivesse ponderando no íntimo a gravidade do assunto,
e apreciou:
- Nossas assertivas
não excluem, decerto, a necessidade da assepsia e da higiene, da medicação
e do cuidado preciso, no tratamento dos enfermos de qualquer procedência.
Desejamos
simplesmente acentuar que a alma ressurge no equipamento físico
transportando consigo as próprias falhas a se lhe refletirem na veste
carnal, como zonas favoráveis à eclosão de determinadas moléstias,
oferecendo campo propício ao desenvolvimento de vírus, bacilos e bactérias
inúmeros, capazes de conduzi-la aos mais graves padecimento, de acordo com
os débitos que haja contraído, mas também carreia consigo as faculdades de
criar no próprio cosmo orgânico todas as espécies de anticorpos,
imunizando-se contra as exigência da carne, faculdades essas que pode
ampliar consideravelmente pela oração, pelas disciplinas retificadoras a
que se afeiçoe, pela resistência mental ou pelo serviço ao próximo com
que atrai preciosos recursos em seu favor. Não podemos esquecer que o bem
é o verdadeiro antídoto do mal.
-
Ainda
assim – ajuntou Hilário -, será lícito recordar que os animais igualmente
sofrem moléstias diagnosticáveis, como sejam a aftosa, a raiva e a
pneumonia...
-
Como
também as plantas experimentam enfermidades peculiares, reclamando adubo e
fungicidas – completou o mentor, sorrindo.
E acrescentou:
-
A dor
é ingrediente dos mais importantes na economia da vida em expansão.O ferro
sob o malho, a semente na cova, o animal em sacrifício, tanto quanto a
criança chorando, irresponsável ou semiconsciente, para desenvolver os
próprios órgãos, sofrem a dor-evolução, que atua de fora para dentro,
aprimorando o ser, sem a qual não existiria progresso. Em nosso estudo,
porém, analisamos a dor-expiação, que vem de dentro para fora, marcando a
criatura no caminho dos séculos, detendo-a em complicados labirintos de
aflição, para regenerá-la, perante a Justiça... É muito diferente...
-
Curioso! – exclamou Hilário – não havia pensado ainda em semelhantes
conceitos... Dor-evolução, dor-expiação...
-
Como
temos ainda dor-auxílio – atalhou Druso, benevolente.
-
Como
assim?
E percebendo a
surpresa que se nos estampava no rosto, o orientador aduziu:
-
Em
muitas ocasiões, no decurso da luta humana, nossa alma adquire
compromissos vultosos nesse ou naquele sentido. Habitualmente, logramos
vantagens em determinados setores da experiência, perdendo em outros. Às
vezes, interessamo-nos vivamente pela sublimação do próximo, olvidando a
melhoria de nós mesmos.
É assim que, pela
intercessão de amigos devotados à nossa felicidade e à nossa vitória,
recebemos a bênção de prolongadas e dolorosas enfermidades no envoltório
físico, seja para evitar-nos a queda no abismo da criminalidade, seja,
mais freqüentemente, para o serviço preparatório da desencarnação, a fim
de que não sejamos colhidos por surpresas arrasadoras, na transição da
morte.
O enfarte, a
trombose, a hemiplegia, o câncer penosamente suportado, a senilidade
prematura e outras calamidades da vida orgânica constituem, por vezes,
dores-auxílio, para que a alma se recupere de certos enganos em que haja
incorrido na existência do corpo denso, habilitando-se através de longas
reflexões e benéficas, disciplinas, para o ingresso respeitável na Vida
Espiritual.
Druso, no entanto, a
essa altura, foi chamado a outras linhas de ação, deixando-nos entregues
aos nossos pensamentos.
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
Xavier |
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