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ENTENDIMENTO
André Luiz
Na noite imediata,
em seguida a serviços rotineiros, Silas procurou-nos para a continuação da
tarefa encetada.
De regresso ao lar
de Luíz, alimentamos conversação comum, sem qualquer alusão aos temas da
véspera, e, como que sintonizados em nossa onda mental de respeito mútuo,
Clarindo e Leonel receberam-nos com discrição e carinho.
Afiguraram-se-nos,
ambos, sobremaneira trabalhados pelas idéias que o Assistente lhes
ofertara indiretamente ao espírito.
Em casa do situante,
o quadro não se alterara.
Luíz e os amigos
cavaqueavam cordialmente, comentando as pragas do campo e as doenças dos
animais, a carestia da vida e os negócios infortunados... Entretanto, os
dois irmãos demonstravam-se agora claramente desligados de semelhante
painel de sombra.
Cumprimentaram-nos
com a gentileza irradiante de quem se punha à vontade para acolher-nos e
fitaram Silas com desusado interesse.
Adivinhava-se que
haviam tomado a confissão do Assistente para valiosas reflexões.
Observando-lhes a
metamorfose com inequívocos sinais de contentamento, o chefe de nossa
expedição nem de leve se reportou ao problema de Luíz e convidou-nos com
lhanesa de trato a acompanhar-nos.
Mostrando a
renovação de que se achavam possuídos, incorporaram-se, de pronto, à nossa
pequena caravana e, atendendo à recomendação de Silas, os dois, de mãos
entrelaçadas com as nossas, conseguiram volitar com certa facilidade e
segurança.
Findos alguns
minutos, chegamos a vasto hospital de movimentada cidade terrestre.
Na portaria, um dos
vigilantes espirituais dirigiu-se carinhosamente a Silas, em situação
fraterna, e o nosso dirigente no-lo apresentou, atencioso:
― Este é o nosso
companheiro Ludovino, que no momento se encontra encarregado da
necessária
vigilância, a benefício de alguns enfermos de cuja reencarnação cuida a
nossa casa.
Abraçamo-nos todos,
irmãmente.
Logo após, o
responsável por nossa equipe de trabalho tomou a palavra, indagando:
― E a nossa irmã
Laudemira? Recolhemos hoje notícias graves...
― Sim ― concordou o
interpelado ―, tudo faz acreditar que a pobrezinha sofrerá perigosa
intervenção. Envolta
nos fluidos anestesiantes que lhe são desfechados pelos perseguidores,
durante o sono, tem a vida uterina sensivelmente prejudicada por extrema
apatia. O cirurgião voltará dentro de uma hora e, na hipótese de os
recursos aplicados não surtirem efeito, providenciará uma cesariana como
remédio aconselhável...
Nosso amigo mostrou
funda preocupação a vincar-lhe o semblante habitualmente calmo, e ajuntou:
― Uma operação dessa
espécie acarretar-lhe-á grandes prejuízos para o futuro.
Consoante o programa
organizado, em favor dela, cabe-lhe receber ainda mais três filhos no
templo do lar, de modo a utilizar-se do presente estágio humano, com tanta
eficiência quanto se torne possível...
O guarda fixou um
gesto de respeito e ponderou:
― Creio, então, que
não há tempo a perder.
Silas tomou-nos a
dianteira e conduziu-nos a pequena enfermaria, onde jovem senhora se
lamentava, aflita.
Simpática matrona de
nevados cabelos, em cuja ternura percebíamos a presença materna, velava,
atenta, acariciando-lhe as mãos inquietas.
Notando a expressão
de pavor que os olhos da doente exibiam em pranto, procurei a palavra de
Silas, quanto à causa de tão agoniado padecimento.
― Nossa irmã ―
esclareceu, prestativo ― será novamente mãe, em minutos breves.
Encontra-se, porém,
algemada a provas difícies. Demorou-se muito tempo, em nossa Mansão, antes
de retornar ao corpo denso de carne, sempre vigiada por inimigos que ela
mesma criou em outro tempo, quando se valeu da beleza física para
acumpliciar-se com o crime. Bela mulher, atuou em decisões políticas que
arruinaram a estrada de muita gente. Padeceu muitos anos nas trevas
infernais, entre a carne e a sombra, até que mereceu agora a felicidade de
renascer com a tarefa de restaurar-se, restaurando alguns dos companheiros
de crueldade que, na feição de filhos, com ela se levantarão para mais
amplos serviços regeneradores...
Silas, contudo,
lançou-me expressivo olhar e acrescentou:
― Historiaremos o
assunto mais tarde. Agora, é indispensável agir...
Sob a atenção de
Clarindo e Leonel que nos seguiam, surpresos, convocou-nos, a Hilário e a
mim, para o socorro imediato.
Determinando
permanecêssemos ambos em oração, com a destra colada ao cérebro da doente,
começou a fazer operações magnéticas excitantes sobre o colo uterino.
Substancia leitosa,
qual neblina leve, irradiava-se-lhe das mãos, espalhando-se por todos os
escaninhos do aparelho genital.
Decorridos alguns
minutos de pesada expectativa, surgiram contrações que, pouco a pouco, se
acentuaram intensamente.
Silas, atencioso,
controlou a evolução do parto, até que o médico ingressou no recinto.
Longe de
registrar-nos a presença, sorriu, satisfeito, reclamando o concurso de
competente enfermeira.
A cesariana foi
esquecida.
Convidou-nos o
Assistente ao regresso, informando-nos mais tranqüilo:
― O organismo de
Laudemira reagiu brilhantemente. Esperamos possa continuar na obra
que lhe compete, com
o êxito necessário.
Puséramos, de novo,
a caminho.
Leonel, cuja
inteligência aguda não perdia os nossos menores movimentos, perguntou a
Silas, com ar respeitoso, se os trabalhos a que se dedicava exprimiam
alguma preparação, diante do porvir, ao que o Assistente respondeu sem
pestanejar:
― Sem dúvida. Ainda
ontem lhes falei dos meus erros de médico, que praticamente jamais
o fui, e comentei o
plano de abraçar a Medicina no futuro, entre os encarnados, nossos irmãos.
Todavia, para que eu mereça a ventura de tal reconquista, consagro-me, nas
regiões inferiores que ma servem de domicílio, ao ministério do alívio,
criando causas benéficas para os serviços que virão...
― Causas? Causas? ―
murmurou Clarindo, algo espantado.
― Sim, procurando
ajudar espontaneamente além dos deveres que me são impostos, na
luta pela
recuperação moral de mim mesmo, com a Bênção Divina alongarei a sementeira
de simpatia em meu favor.
E, relanceando
significativamente o olhar sobre nós, acentuou, em seguida a breve minuto
de reflexão:
― Um dia, consoante
as dívidas que me pedem resgate, estarei novamente entre as
criaturas encarnadas
e, para solver minhas culpas, também sofrerei obstáculo e dúvida,
enfermidade e aflição... Que mãos caridosas e amigas me amparem daqui, em
nome de Deus, porque isoladamente ninguém consegue vencer... E para que
braços amorosos se me estendam, mais tarde, é imperioso movimente agora os
meus no voluntário exercício da solidariedade.
O ensinamento era
precioso, não apenas para os dois perseguidores que o registravam,
perplexos, mas também para nós que reconhecíamos, mais uma vez, a Infinita
Bondade do Supremo Senhor, que, ainda mesmo nos mais tenebrosos ângulos da
sombra, nos permite trabalhar pelo incessante engrandecimento do bem, como
abençoado preço de nossa felicidade.
Enquanto volitávamos
de retorno, Hilário, antecipando-me a curiosidade, inclinou a conversação
para o caso de Laudemira.
Era conhecida de
Silas, desde muito tempo? Assumira, assim, compromissos tão graves para
com a maternidade? Que papel representavam os filhos junto dela? Credores
ou devedores?
Silas sorriu
complacente para a argüição cerrada e explicou:
― Inegavelmente,
creio que o processo redentor de nossa amiga serve por tema palpitante
nos estudos de causa
e efeito que vocês vão acumulando.
Entregou-se a longa
pausa de consulta à memória e prosseguiu:
― Não podemos, assim
de relance, mergulhar pormenorizadamente no pretérito que lhe
diz respeito, nem
posso de mim mesmo cometer qualquer indiscrição, abusando da confiança que
a Mansão me outorga, no exercício de meus encargos. Entretanto, a título
de nossa edificação espiritual, posso adiantar-lhes que as penas de
Laudemira, na atualidade, resultam de pesados débitos por ela contraídos,
há pouco mais de cinco séculos. Dama de elevada situação hierárquica na
Corte de Joana II, Rainha de Nápoles, de 1414 a 1435, possuía dois irmãos
consangüíneos que lhe apoiavam todos os planos loucos de vaidade e
domínio. Casou-se, mas sentindo na presença do marido um entrave ao
desdobramento das leviandades que lhe marcavam o caráter, acabou
constrangendo-o a enfrentar o punhal dos favoritos, arrastando-o para a
morte. Viúva e dona de bens consideráveis, cresceu em prestígio, por haver
favorecido o casamento da rainha, então viúva de Guilherme, Duque da
Áustria, com Jaime de Bourbon, Conde de la Marche. Desde aí, mais
intimamente associada às aventuras de sua soberana, confiou-se a prazeres
e dissipações, nos quais perturbou a conduta de muitos homens de bem e
arruinou as construções domésticas, elevadas e dignas, de várias mulheres
de seu tempo. Menosprezou sagradas oportunidades de educação e
beneficência que lhe foram concedidas pela Bondade Celeste,
aproveitando-se da nobreza precária para desvairar-se na irreflexão e no
crime. Foi assim que, ao desencarnar, no fastígio da opulência material,
nos meados do século XV, desceu a medonhas profundezas infernais, onde
padeceu o assédio de ferozes inimigos que lhe não perdoaram os delitos e
deserções. Sofreu por mais de cem anos consecutivos nas trevas densa,
conservando a mente parada nas ilusões que lhe eram próprias, voltando à
carne por quatro vezes sucessivas, por intercessão de amigos do Plano
Superior, em cruciantes problemas expiatórios, no decurso dos quais, na
condição de mulher, embora abraçando novos compromissos, experimentou
pavorosos vexames e humilhações da parte de homens sem escrúpulos que lhe
asfixiavam todos os sonhos...
― Mas ― perguntou
Hilário ―, de cada vez que se retirava da carne, nas quatro
existências a que
alude, continuava ligada às sombras?
― Como não? ―
exclamou o Assistente ― quando a queda no abismo é de longo curso,
ninguém emerge de um
salto. Ela naturalmente entrava pela porta do túmulo e saía pela porta do
berço, transportando consigo desajustes interiores que não podia sanar de
momento para outro.
― Se a situação era
assim inalterável ― ponderou meu colega ―, para que retornar ao
corpo físico? Não
lhe bastaria sofrer na dolorosa purgação daqui deste lado, sem renascer na
esfera carnal?
― A observação é
compreensível ― ajuntou Silas, paciente ―, entretanto, nossa irmã,
com o amparo de
abnegados companheiros, voltou ao pagamento parcelado das suas dívidas,
reaproximando-se de credores reencarnados, não obstante mentalmente
jungida aos planos inferiores, desfrutando a bênção do ouvido temporário,
com o que lhe foi possível angariar preciosa renovação de forças.
― Mas sempre
conseguiu ressarcir, de alguma sorte, os débitos em que se emaranhou?
― De alguma sorte,
sim, porque padeceu tremendos golpes no orgulho que trazia
cristalizado no
coração... Contudo, a par disso, contraiu novas dívidas, de vez que, em
certas ocasiões, não conseguiu superar a aversão instintiva, diante dos
adversários aos quais passou a dever trabalho e obediência, chegando ao
infortúnio de afogar uma criancinha que mal ensaiava os primeiros passos,
de modo a ferir a senhora da casa em que servia de ama, tentando vingar-se
de crueldades recebidas. Depois de cada desencarnação, regressava
habitualmente às zonas purgatoriais de que procedia, com alguma vantagem
no acerto das suas contas, mas não com valores acumulados, imprescindíveis
à definitiva libertação das sombras, porque todos somos tardios na decisão
de pagar nossos débitos, até o integral sacrifício...
― Contudo ― tornou
Hilário ―, sempre que regressava á esfera espiritual, decerto
contava com o
auxílio dos benfeitores que procuram refrear-lhe os desatinos.
― Exatamente ―
confirmou Silas ―; ninguém está condenado ao abandono. Vocês não
ignoram que o
Criador atende à criatura por intermédio das próprias criaturas. Tudo
pertence a Deus.
― Ainda mesmo no
inferno? ― acrescentou Leonel, preocupado.
O Assistente sorriu
e aclarou:
― O inferno, a
rigor, é obra nossa, genuinamente nossa, mas imaginemo-lo, assim, à
maneira de uma
construção indigna e calamitosa, no terreno da vida, que é Criação de
Deus. Tendo abusado de nossa razão e conhecimento para gerar semelhante
monstro, no Espaço Divino, compete-nos a obrigação de destruí-lo para
edificar o Paraíso no lugar que ele ocupa indebitamente. Para isso, o
Infinito Amor do Pai Celeste nos auxilia de múltiplos modos, a fim de que
possamos atender à Perfeita Justiça. Entendido?
A explicação não
podia ser mais clara; entretanto, Hilário parecia interessado em solver
qualquer dúvida e, talvez por isso, inquiriu novamente:
― Considera possível
venhamos a saber quais seriam as existências de Laudemira, antes
de haver ingressado
na Corte de Joana II?
― Sim ― elucidou
Silas, tolerante ―,será fácil conhecê-las, mas não nos convém num
simples estudo
efetuar o tentame, porque o assunto em si reclamaria largas quotas de
atenção e de tempo. Basta lhe pesquisemos a condição referida para
definir-lhe as lutas redentoras de agora, porquanto nossos estágios em
qualquer eminência social no mundo, seja no campo da influência ou das
finanças, da cultura ou da idéia, servem como pontos vivos de referência
da nossa conduta digna ou indigna, no usufruto das possibilidades que o
Senhor nos empresta, designando com clareza nosso avanço na direção da luz
ou nosso aprisionamento maior ou menor nos círculos da treva, pelas
virtudes conquistadas ou pelos débitos assumidos.
A conceituação
luminosa de Silas era verdadeiro jorro solar em meu entendimento...
Ainda assim, meu
companheiro insistiu:
― Não obstante os
seus valiosos conceitos já expendidos, quanto à memória nas regiões
inferiores, será
interessante saber se Laudemira, antes da atual reencarnação, chegava a
lembrar-se com nitidez dos estágios porque passou nas difícies provações a
que se refere...
Nosso amigo
esclareceu com a maior tolerância:
― Estou na Mansão há
oito lustros, e acompanhei-lhe a internação em nossa casa, faz
precisamente trinta
anos. Havia encerrado a existência última, no plano carnal, no início
deste século, e atravessara longos padecimentos, nas esferas de baixo
nível. Ingressou em nosso instituto acusando terrível demência e,
submetida à hipnose, revelou os fatos que venho de narrar, fatos esses que
constam naturalmente da ficha que lhe define a personalidade, no arquivo
das observações que nos orientam. Nossos instrutores, porém, não julgaram
necessário mais amplo mneumônico, pelo menos por enquanto, para lhe
prestarem auxílio. Sei, no entanto, que Laudemira, conturbada qual se
achava, não dispunha de forças para articular qualquer reminiscência na
vigília comum, mesmo porque foi trazida à reencarnação atual, sob os
auspícios de benfeitores que velam por nossa organização, ainda
mentalmente sintonizada com os laços menos dignos do caminho que escolheu.
Deve agora receber cinco de seus antigos cúmplices na queda moral, para
reerguer-lhe os sentimentos, na direção da luz, em abençoado e longo
sacerdócio materno. Do seu êxito no presente, dependerão as facilidades
que espera recolher no futuro, para a libertação definitiva das sombras
que ainda lhe ofuscam o Espírito, pois, se conseguir formar cinco almas na
escola do bem, terá conquistado enorme prêmio, diante da Lei amorosa e
justa.
O problema de
Laudemira, debatido em nosso regresso, valia por preciosa contribuição no
tema <<causa e efeito>> que nos decidíramos estudar.
E, reparando em que
a nossa curiosidade se Quedara, satisfeita, Silas voltou-se com mais
carinho para Leonel e Clarindo, sondando-lhes os ideais. Decerto, para
conhecer-lhes naturalmente as esperanças, reportou-se aos próprios
anseios, quanto aos trabalhos médicos do futuro. Não pretendia perder
tempo. Tinha agora a sede de aprender e servir, para demandar o campo
humano com os melhores valores do espírito, que se lhe exprimiriam na
mente, quando encarnado, em forma de tendência e facilidade na chamada
<<vocação inata>>.
Os dois irmãos,
sabiamente tocados pela palavra do amigo que lhes ganhara a confiança,
sentiam-se agora mais à vontade.
A confissão do
Assistente e o exemplo de humildade que nos fornecera, espontâneo,
penetrara-lhes, fundo.
Clarindo, impulsivo
e franco, falou dos ideais de que se inflamara, anos antes. Possuía
entranhado amor ao solo e projetara, quando jovem, a organização de um
reduto agrícola em que lhe fosse possível consagrar-se a nobilitantes
experiências. Anelaria ter vivido largo tempo na propriedade familiar,
criando um setor de ação própria. Entretanto, comentou algo triste, mas
sem o tom de revolta de suas anteriores conversações, a criminosa decisão
de Antônio Olímpio aniquilara-lhe os sonhos. Vira-se esbulhado dos seus
ideais, em tremenda frustração que, depois do sepulcro, lhe dementava a
cabeça... Não conseguia disposições mentais para refazer a esperança...
Sentia-se como o desespero em pessoa, como alguém que se identificasse
irremediavelmente agrilhoado a pelourinho degradante...
E Clarindo mostrava
agora inflexão de pranto na voz, revelando-se imensamente transformado.
Leonel, cuja
inteligência refinada nos infundia cauteloso respeito, estimulado por
Silas, começou a dizer de sua inclinação para a música...
Quando menino entre
os homens, acreditava-se talhado para a arte sublime. Jovem, apaixonara-se
pela obra de Beethoven, cuja biografia guardava de cor. Em razão disso,
não buscava tão somente o título de bacharel para o qual se preparava, mas
também os louros de pianista, com o que se sentiria sumamente feliz...
No entanto, e
exprimia-se carregando a voz de insofreável amargura, o homicídio de que
fora vítima turvara-lhe a visão. Albergava no íntimo tão-somente o ódio
que passara a reger-lhe a existência e, com o ódio no coração, não sabia
rearquitetar os castelos do princípio...
Leonel fez longa
pausa e acentuou com agradável surpresa para nós:
― Entretanto, em
nossos contactos pessoais nos dias últimos, começo a perceber que, se
tivemos a
experiência física ceifada em plena juventude do corpo, indubitavelmente
possuíamos débitos que justificavam provação assim tão rude, embora isso
não exima Antônio Olímpio, o irmão ingrato, da culpa que carrega,
esposando a responsabilidade do horrível assassínio com que nos precipitou
nas sombras.
― Exatamente ―
acrescentou Silas, emocionado ―, seu argumento denuncia grande
renovação...
Contudo, o
Assistente não pôde continuar, porque Leonel mergulhou a cabeça nas mãos
e clamou em lágrimas:
― Mas, ó Deus, por
que só conhecemos a alta virtude do perdão, quando já nos
enodoamos no crime?
Por que só tão tarde o desejo de restaurar o campo de nossas aspirações,
quando a vingança já nos crestou a vida no incêndio do mal ?! ...
Enquanto Clarindo
lhe acompanhava a explosão de dor e remorso, com sinais de aprovação, e
Silas o acolhia, generoso, de encontro ao peito, pressentimos que Leonel
se reportava à morte de Alzira, debaixo da obsessão que, sem dúvida, ele e
o irmão haviam comandado.
O orientador de
nossa excursão, todavia, deu-se pressa em consolá-lo, exortando, bondoso:
― Chora, meu amigo!
Chora, que as lágrimas purificam o coração!... Ainda assim, não
permitas que o
pranto te esmague a lavoura da esperança... Quem de nós, aqui, jaz sem
culpa? Todos temos compromissos a resgatar e o Tesouro do Senhor jamais se
empobrece de compaixão. O tempo é a nossa bênção... Com os dias coagulamos
a treva ao redor de nós e, com os dias, convertê-la-emos em sublimada
luz... Entretanto, para isso, é indispensável perseveremos na coragem e na
humildade, no amor e no sacrifício. Levantemo-nos na direção do futuro,
dispostos à reconstrução de nossos destinos.
Notamos que Leonel,
naquela hora, propunha-se vazar o coração em nossos ouvidos. Queria
desabafar, confessar-se...
Silas, no entanto,
restituindo-o à meditação, convidou-nos ao regresso, prometendo voltar na
noite seguinte.
Os dois
companheiros, completamente modificados, reinstalaram-se no lar de Luíz, e
prosseguimos de retorno.
A caminho, o
Assistente rejubilava-se. O processo Antônio Olímpio, a nós confiado,
atingia bom termo.
A renovação dos
obsessores coroara-se de êxito.
E o chefe da nossa
expedição dizia aguardar para a noite imediata o entendimento entre Alzira
e aqueles que lhe seriam filhos no porvir, depois do qual seriam ambos
internados na Mansão, com o pleno assentimento deles mesmos, tendo em
vista a preparação do futuro... Na casa dirigida por Druso, trabalhariam e
reeducar-se-iam, encontrando novos interesses mentais e novos estímulos
para a necessária recuperação...
Assim que o nosso
amigo entrou em silêncio, Hilário indagou, preocupado:
― Quanto tempo
gastarão Clarindo e Leonel, aplainando os caminhos para a volta ao
corpo físico?
― Provavelmente um
quarto de século...
― Por que tanto?
― Precisarão
reconstituir as idéias, no campo do bem, plasmando-as de modo indelével na
mente, a fim de que
se consagrem à efetivação dos novos planos. Refugiar-se-ão no serviço
ativo, ajudando aos outros e criando, assim, preciosas sementeiras de
simpatia, que lhes facilitarão as lutas na Terra, amanhã... No trabalho e
no estudo, tanto quanto nos empreendimentos da pura fraternidade,
amealharão incorruptíveis valores morais, e a reeducação, dessa forma,
aperfeiçoar-lhes-á as tendências, predispondo-os à vitória de que
necessitam nas provações promissoras.
― E Antônio Olímpio?
― insistiu Hilário ― pelo que deduzo, permanecerá muito menos
tempo na Mansão...
― Sim ― aprovou o
Assistente ―, Antônio Olímpio, depois de breve reconciliação com os
manos, renascerá,
sem dúvida, dentro de dois a três anos.
― Por que tão grande
diferença?
― Não podemos
esquecer ― explicou Silas, sereno ― que foi ele quem começou a
criminosa trama sob
nosso estudo. Por isso, do grupo de reencarnantes, será o companheiro
menos favorecido na Lei, durante a viagem prevista à esfera humana, pelas
agravantes que lhe marcam o problema individual. Com o espírito ainda
sombreado de angústia e arrependimento, ressurgirá no berço da família que
ele prejudicou, pela prática da usura, movimentando-se num horizonte
mental muito restrito, de vez que, instintivamente, a sua maior
preocupação será devolver aos irmãos espoliados a existência física, o
dinheiro e as terras que deles furtou... Em razão disso, apenas disporá de
facilidades íntimas para a cultura e o aprimoramento de si mesmo, na idade
madura do corpo, quando houver encaminhado os filhos para o triunfo que a
eles compete alcançar.
― Entretanto ―
ponderou meu colega ―, Clarindo e Leonel também mataram...
― E decerto pagarão
por isso; contudo, não podemos negar-lhes atenuantes no
lamentável
delito...Antônio Olímpio planejou o crime, friamente, para acomodar-se nas
vantagens materiais que lhe adviriam da crueldade e da violência, e os
irmãos infelizes agiram no pesadelo do ódio, traumatizados de pavorosa
dor... Inegavelmente, Clarindo e Leonel padecem angústia e remorso,
devendo sofrer doloroso resgate, em momento oportuno, mas, ainda assim,
são credores do irmão que lhe retardou os passos evolutivos...
― E Alzira nessa
história?
― Alzira já
conseguiu entesourar bastante amor para entender, perdoar e auxiliar...
Por
esse motivo, dispõe,
diante da Lei, do poder de ajudar, tanto ao esposo como aos cunhados, até
agora infelizes, tanto ao filho Luíz, ainda na carne , como a todos os
descendentes de sua organização familiar, porque, quanto mais amor puro no
Espírito, mais amplos recursos da alma perante Deus...
E, lançando
expressivo olhar sobre nós, acentuou:
― Aqueles que amam
realmente, governam a vida.
Sentia-me
satisfeito. Os conceitos não poderiam ser mais claros.
Hilário, contudo,
pedindo desculpas pela insistência, levantou ainda nova questão.
Por que sofrera
Alzira aflitiva desencarnação no lago?
Silas, no entanto,
considerou:
― Compreendendo-se
que nossa amiga já conquistou a felicidade do perdão irrestrito, filho
do amor que não se
preocupa em ser amado, não nos convém mais profunda imersão no pretérito,
tornando nosso estudo fastidioso.
E sorrindo:
― Alzira, diante de
nós outros, já é alguém que possui larga de céu no coração... Os
assuntos que lhe
dizem respeito devem ser analisados no Céu...
Atingíramos a Mansão
e, recolhidos a nós mesmos, passamos a digerir as lições da hora em
curso... As peças de amor e ódio, sofrimento e vingança do processo
Antônio Olímpio eram as mesmas de nossos dramas pessoais, destacando a
necessidade de amor e perdão em nossas vidas, para que, através do
sentimento puro, pudéssemos avançar da sombra para a luz...
Nessas graves
reflexões, aguardamos ansiosamente a noite seguinte.
E, em chegando a
hora abençoada de nossos estudos, o Assistente entendeu-se com a irmã
Alzira, em longa conversação particular, solicitando-lhe nos
reencontrasse, a determinada hora, no lago em que ocorrera a desencarnação
dela. Em seguida, recomendou a duas cooperadoras da casa lhe acompanhassem
a viagem, instruído-as para que nossa amiga somente viesse até nós quando
chamada por nosso grupo em serviço.
Depois da costumeira
excursão, entrávamos no lar de Luíz, onde Clarindo e Leonel nos aguardavam
com carinhoso interesse.
Silas reconduziu-nos
ao hospital que visitáramos na véspera, administrando passes magnéticos em
Laudemira e no filhinho recém-nato e, findas essas ligeiras atividades de
assistência, transportou-nos para vasto domicílio, em cujo umbral um
velhinho desencarnado, de fisionomia simpática, recebeu-nos amavelmente.
― É o nosso irmão
Paulino, que vem amparando as obras do filho, dedicado à
engenharia na Terra
― explicou o orientador de nossas tarefas.
E Paulino deu-nos
acesso ao interior familiar, situando-nos num espaçoso gabinete em que um
homem maduro jazia debruçado sobre um livro.
O generoso anfitrião
no-lo apresentou como sendo o filho encarnado, cuja missão técnica
assistia com invariável desvelo. E, porque indagasse ao diretor de nossa
excursão em que poderia servir-nos, Silas rogou-lhe os bons ofícios, junto
ao filho, para que nos fosse propiciado, ali, o prazer de alguns momentos
de música, solicitando-lhe, se possível, alguma página especial de
Beethoven.
Com surpresa, vimos
nosso amigo abeirar-se do engenheiro, segredando-lhe algo aos ouvidos. E,
longe de assinalar-nos a presença, qual se estivesse constrangido por si
mesmo a ouvir música, o cavalheiro interrompeu a leitura, dirigiu-se à
eletrola e consultou pequena discoteca, de que retirou a Pastoral do
grande compositor a que nos referimos.
Em breves momentos,
o recinto povoava-se para nós de encantamento e alegria, sonoridade e
beleza.
Silas, com alma e
coração, ouvia conosco a sinfonia admirável, toda ela estruturada em
bênçãos da Natureza sublimada.
Com Clarindo,
atraído para as lides campestres, sentíamos mentalmente a presença do
bosque, repleto de pássaros cantores sobrevoando um regato cristalino a
deslizar sobre leitosos seixos, e, qual se a paisagem imaginária
obedecesse à narração melódica, vimo-la transformar-se, de repente,
dando-nos a idéia de que o céu, dantes azul, se cobria de nuvens pesadas e
pardacentas, a despejarem faíscas e trovões, para depois retornar ao
quadro florido, entre cânticos e preces...E, com Leonel, apaixonado pela
arte divina, registrávamos o império da música, em sua majestade soberana,
arrebatando-nos às mais sublimes emoções.
Aqueles minutos
valiam para nós como abençoada oração.
Os lances da
magnífica sinfonia como que nos elevavam a círculos harmoniosos de ignota
beleza e todos trazíamos lágrimas abundantes, de vez que os encantadores
acordes em movimento possuíam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente,
os refolhos do ser.
Findas as notas
derradeiras, despedimo-nos, maravilhados.
Nossos pensamentos
vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais
fraternos.
Por solicitação de
Leonel, que parecia atender instintivamente à sugestão de Silas,
demandamos o lago na velha propriedade dos Olímpios.
O plenilúnio coroava
o campo de prateadas fulgurações.
A noite ia alta...
Tomando a
iniciativa, o irmão Clarindo passou, então, a relatar-nos quanto já
sabíamos, detendo-se em copioso pranto, ao referir-se à morte da cunhada,
sobre quem atirara as farpas de sua ira...
Extremamente
surpreendidos, Hilário e eu anotávamos a paciente atenção de Silas em lhe
ouvindo a confissão, qual se o assunto lhe fora absoluta novidade.
Depois de mais de
uma hora, em que nosso companheiro sofredor se mantivera com a palavra, o
assistente, em particular, chamou-nos a mais nobre compreensão, declarando
a Hilário e a mim que o nosso amigo tinha necessidade de expungir do
coração ferido as suas dores, e que, de nossa parte, embora lhe
conhecêssemos o drama íntimo, não nos cabia cercear-lhe a confissão e sim
recolhe-la fraternalmente, partilhando-lhe a carga de aflição, para que se
lhe aliviassem as chagas do pensamento.
Logo após, Silas
envolveu a ambos os irmãos numa interessante palestra, propondo-lhes o
reajustamento por meio de luta reparadora.
Não desejariam
retomar, porventura, o caminho terrestre? por que não abraçarem trabalho
novo, buscando o renascimento na mesma família de que provinham? não seria
mais agradável e mais fácil conquistar a reconciliação e, com isso,
reentrar na posse das antigas aspirações, marchando com elas, no plano
físico, ao encontro de preciosos degraus para a Vida Superior?
Leonel e Clarindo,
porém, quase que de modo simultâneo, lamentaram-se quanto ao problema de
Alzira... Em verdade, no desespero da própria causa, haviam aceitado as
sugestões da loucura, gastaram anos a fio estendendo a crueldade nas
trevas; entretanto, nada lhes doía tanto como a violência praticada contra
a esposa de Antônio Olímpio que, horrorizada ante a perseguição deles, se
havia arrojado naquelas águas de terríveis reminiscências...
Mas... e se Alzira
lhes trouxesse em pessoa o abraço de entendimento e de auxílio?
E como sorrissem de
esperança, no turbilhão das próprias lágrimas, o Assistente afastou-se por
alguns minutos e voltou, trazendo em sua companhia a generosa irmã que,
envergando cintilante roupagem, lhes estendeu as mãos, a ofertar-lhes o
colo maternal, resplendente de amor.
Leonel e Clarindo,
qual se fossem feridos de morte, caíram genuflexos, esmagados de medo e
júbilo...
Alzira, no entanto,
afagou-lhes as cabeças submissas e falou em tom comovente:
― Filhos de minhalma,rendamos
graças a Deus por essa hora de bênção.
E porque Leonel
tentasse debalde pedir-lhe perdão, ensaiando monossílabos cortados pelos
soluços, a genitora de Luíz suplicou humilde:
― Sou eu quem deve
ajoelhar-se, implorando-lhes caridoso indulto!... O crime de meu
esposo é também meu
crime... Vocês foram espoliados dos mais belos sonhos, quando a mocidade
terrestre começava a sorrir-lhes. Nossa desregrada ambição, contudo,
furtou-lhes os recursos e as possibilidades, inclusive a existência...
perdoe-nos!... Pagaremos nossas dívidas. Ajudar-nos-á o Senhor na
recuperação de nossa casa... Em breve, Antônio Olímpio e eu estaremos
novamente no plano físico e, com o apoio da Misericórdia Divina,
restituiremos a vocês o sítio que não nos pertence... Permitam, meus
filhos, possa honrar-se minha alma com o privilégio de ser-lhes amorosa
mãe no mundo... Para restaurar-lhes a esperança e refazer-lhes o ideal,
oferecendo-lhes o meu coração... Conceder-me-á o Senhor a bênção de
agasalhá-los em meu seio, criando-os com o hálito de meus beijos e com o
orvalho de minhas lágrimas... Para isso, porém, é necessário que o ouvido
de nossos pesares nasça, puro, do amor que devemos uns aos outros...
Esqueçamos ressentimentos e Deus nos suprirá de recursos para que venhamos
a solver nossos débitos... Ergam-se, filhos queridos... Sabe Jesus que
desejo conchegá-los de encontro ao meu peito e guarda-los nos meus
braços!...
Alzira, porém, não
conseguiu continuar. Copioso pranto orvalhava-lhe a face, mas algo como
que se lhe represava na garganta, abafando-lhe a voz.
Ainda assim, vimos a
gloriosa vitória do amor, naqueles momentos rápidos... Do tórax de Alzira,
chispas flamejantes emergiam em sucessivas ondas de safirino esplendor,
dando-nos a idéia de que a sua grandeza íntima se havia transformado em
fonte de imensa luz. Amparados por ela, Clarindo e Leonel levantaram-se, à
maneira de duas crianças atraídas pela ternura materna, e enlaçaram-na em
comovedores soluços.
Nossa companheira,
acariciando-os, reconhecida, acolheu-os no regaço, como se passasse a
reter consigo dois tesouros do coração.
Atendendo a mudo
sinal do orientador de nossa excursão, auxiliamo-la como se fazia preciso,
e, depois de algum tempo, transportando conosco os dois novos amigos,
dávamos entrada no grande instituto.
Após interná-los em
departamento adequado, falou Silas contente:
― Graças a deus,
nossa tarefa está cumprida. Agora, esperemos se habilitem todos, ante
a nova batalha que
ferirão na Terra, para o serviço salvador em que se misturam afeto e
aversão, alegria e dor, luta e dificuldade, em busca da redenção.
Em meu entendimento,
perguntas diversas nasciam, imperiosas, mas compreendi que a lei de causa
e efeito agiria, infatigável, para as personagens de nossa história, e
meditei nas minhas próprias dívidas... Foi então que, ao invés de indagar,
beijei, respeitoso, as mãos do Assistente, na condição do aprendiz
reconhecido ao instrutor generoso, e recolhi-me à prece em silêncio,
agradecendo a Jesus a valiosa lição.
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
Xavier |
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