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A HISTÓRIA
DE SILAS
André Luiz
Na noite imediata,
acompanhado do Assistente, eu e Hilário achamo-nos de novo na residência
de Luís.
Os irmãos de Antônio
Olimpio receberam-nos de bom grado.
Em larga copa da
fazenda, reunia-se a família a dois agregados, em repasto ligeiro.
Marcava o relógio
vinte e uma horas.
A fisionomia do dono
da casa era quase a mesma a véspera, não obstante a diferença que a
máscara física lhe impunha.
Enquanto Adélia
acariciava as crianças, entontecidas de sono, o marido comentava o
noticiário radiofônico, destacando tópicos alarmantes que assinalara nos
setores da economia. E, falando para os amigos assombrados, salientou as
dificuldades públicas, relacionou misérias imaginárias, criticou os
políticos e os administradores e referiu-se às pragas do café e da
mandioca, detendo-se, particularmente, sobre as epizootias.
Por fim, não
satisfeito em enunciar as calamidades da Terra, falou, inconseqüente,
quanto à suposta ira do Céu, afirmando crer que o fim do mundo estava
próximo e clamando contra o egoísmo dos ricos, que agravava o infortúnio
dos pobres.
Silenciosos todos,
ouvíamos-lhe a palavra, quando Leonel, mais confiado, dirigiu-se ao
Assistente, observando:
― Estão vendo? Este
homem ― e apontou Luís, cujo verbo dominava a pequenina
assembléia familiar
― é o derrotismo em pessoa. Enxerga tudo em termos de cinza e lama, ajuíza
com firmeza sobre os desastres sociais e conhece as zonas mais tristes da
indigência coletiva; entretanto, não sabe desfazer-se de um só centavo dos
milhões que retém, a favor dos que sofrem nudez e fome...
E, depois de um
sorriso irônico:
― Acreditam, acaso,
possa ele continuar merecendo a felicidade da permanência num corpo
carnal?
Silas contemplou as
personagens da cena doméstica, mostrando imensa piedade no semblante
amigo, e considerou:
― Leonel, todas as
suas observações apresentam lógica e verdade, à primeira vista.
Superficialmente,
Luís é um exemplar consumado de pessimismo e usura.Todavia, no fundo, ele
é um doente necessitado de compaixão. Há moléstias da alma que arruínam a
mente por tempo indeterminado. Quem seria ele, amparado por influências
outras? Espiritualmente abafado entre as visões da fortuna terrestre com
que lhe assediamos o pensamento, o infeliz perdeu o contato com os livros
nobres e com as nobres companhias. Tem a socorrê-lo apenas a religião
domingueira dos crentes que se julgam exonerados de qualquer obrigação
para com a fé, contanto que participem do ofício de adoração a Deus, no
fim de cada semana. Quem poderia prever-lhe as mudanças benéficas, desde
que pudesse receber outro tipo de assistência?
Clarindo e Leonel
registraram-lhe as ponderações como se se vissem apunhalados no âmago, tal
a expressão de revolta que lhes assomou ao olhar coruscante.
― No entanto, ele e
o pai são nossos devedores... Roubaram-nos, assassinaram-nos... ―
exclamou Leonel com
a inflexão da criança voluntariosa e inteligente que se vê contrariada em
seus caprichos.
― E que desejam
vocês que eles façam? ― acrescentou o Assistente, sem se perturbar.
― Hão de pagar! ...
Pagar! ... ― bramil Clarindo, cerrando os punhos.
Silas sorriu e
obtemperou:
- Sim, pagar é o
verbo próprio... Contudo, como pode o devedor resgatar-se, quando o
credor lhe subtrai
todas as possibilidades de solver os débitos? Que a nós mesmos cabe sanar
os males de que somos autores, não padece qualquer dúvida... Entretanto,
se nos compete retificar hoje uma estrada que ontem desorganizamos, como
proceder se nos decepam agora as mãos? O próprio Cristo aconselhou: ―
<<Ajudai aos vossos inimigos.>> (*) Muitas vezes, penso que semelhante
afirmativa, corretamente interpretada, quer assim dizer: ― ajudai aos
vossos inimigos para que possam pagar as dívidas em que se emaranharam,
restaurando o equilíbrio da vida, no qual tanto eles quanto vós sereis
beneficiados pela paz.
Via-se que o
Assistente, com a simpatia conquistada na véspera e com a argumentação
despretensiosa e límpida, lograra inequívoca superioridade moral sobre o
ânimo dos obsessores de sentimento enrijecido. Ainda assim, Leonel
perguntou a medo:
― Que considerações
são essas? Será você algum padre disfarçado? Intentará,
porventura, a nossa
modificação?
― Engana-se, meu
amigo – informou o Assistente ―; se algo procuro, em nossa
comunhão fraterna, é
a minha própria renovação.
E talvez porque
longa pausa se fez sentir em nosso grupo, Silas continuou:
― Pela sedução do
dinheiro, também caí na última passagem pela Terra. A paixão da
posse governava-me
todos os ideais... A fascinação pelo ouro tomou-me o ser de tal modo que,
apesar de ter recebido o título de médico numa universidade venerável,
fugi ao exercício da profissão para vigiar os movimentos de meu velho pai,
a fim de que nem ele mesmo viesse a dispor, com largueza, dos bens de
nossa casa. O apego às nossas propriedades e aos nossos haveres
transformou-me num réprobo do paraíso familiar, convertendo-me, ainda, num
verdugo intratável, naturalmente odiado por todos os que viviam em
subalternidade no vasto círculo de minha temporária dominação...Para
amontoar moedas e multiplicar lucros fáceis, comecei pela crueldade e
acabei nas malhas do crime... Abominei a amizade, desprezei os fracos e os
pobres e, no temor de perder a fortuna cuja posse total ambicionava, não
hesitei adotar a delinqüência como sócia infernal de meu terrível
caminho...
Ante as palavras do
Assistente, enorme surpresa me tomara de improviso.
Estaria Silas
reportando-se à verdade crua ou se utilizava naquela hora de recursos
extremos, incriminando indevidamente a si próprio, para regenerar os
carrascos que nos ouviam?
De qualquer modo, eu
e Hilário havíamos prometido não lhe comprometer a tarefa e, por
isso,tacitamente,nos limitamos a escutá-lo com atenção.
Sentindo, decerto,
que Leonel e Clarindo se mostravam um tanto comovidos, dando ensejo à
assimilação de pensamentos novos, Silas convidou-nos a todos à retirada do
ambiente.
Pretendia dizer-nos
algo de sua experiência ― falou ele ―, mas preferia conversar conosco ante
o altar abençoado da noite, a fim de que a sua memória pudesse evocar
tranquilamente os fatos que buscaria relatar.
Lá fora, as
constelações resplendiam, como lares pendentes da Criação, e o vento
perfumado corria, célere, como quem se propunha transportar-nos a oração
ou a palavra para a glória do Céu.
Incapaz de penetrar
o verdadeiro sentido da inesperada atitude que o Assistente vinha de
assumir, notei-o efetivamente emocionado, qual se fixasse os olhos da alma
em painéis distantes.
Clarindo e Leonel,
naturalmente dominados pela simpatia a se lhe irradiar do semblante,
observavam-no, submissos.
E Silas começou em
voz pausada:
― Tanto quanto posso
abranger com a minha memória presente, lembro-me de que, em
minha última viagem
pelos domínios da carne, desde a meninice, me entreguei à paixão pelo
dinheiro, o que hoje me confere a certeza de que, por muitas e muitas
vezes, fui usurário terrível entre os homens da terra. Hoje sei, por
informações de instrutores abnegados, que, como de outras ocasiões,
renasci na derradeira existência, num lar bafejado por grande fortuna, a
fim de sofrer a tentação do ouro farto e vence-la, a golpes de vontade
forme, na lavoura incessante do amor fraterno, caindo, porém,
lamentavelmente, por minha infelicidade. Era eu filho único de um homem
probo que herdara dos avoengos consideráveis bens. Meu pai era um advogado
correto que, por excesso de conforto, não se dedicava aos misteres da
profissão, mas, profundamente estudioso, vivia rodeado de livros raros,
entre obrigações sociais, que, de alguma sorte, lhe subtraíam a
personalidade às cogitações da fé. Minha mãe, porém, era católica romana,
de pensamento fervoroso e digno, e, embora sem descer conosco a qualquer
disputa na esfera devocional, tentava incutir-nos o dever da beneficência.
Recordo-me, com tardio arrependimento, dos reiterados convites que nos
dirigia, bondosa, para que lhe palmilhássemos as tarefas de caridade
cristã, convites esses que meu pai e eu recusávamos, sem discrepância,
encastelados em nossa irreverência enfatuada e risonha. Minha genitora
cedo percebeu que meu pobre espírito trazia consigo o azinhavre da usura
e, reconhecendo que lhe seria extremamente difícil colaborar na renovação
íntima de meu pai, homem já feito e desde a infância habituado à dominação
financeira, concentrava em mim seus propósitos de elevação. Para isso,
buscou estimular-me ao gosto pelos estudos de medicina, alegando que, ao
lado do sofrimento humano, poderia eu encontrar as melhores oportunidades
de auxílio ao próximo, tornando-me agradável a Deus, ainda mesmo que não
me fosse possível entesourar os recursos da fé. Intimamente eu escarnecia
das sagradas esperanças de quem me era a criatura mais cara ao espírito;
contudo, sem poder resistir-lhe ao cerco afetivo, consagrei-me à carreira
médica, muito mais interessado em explorar os enfermos ricos, cujos
agravos do corpo, indiscutivelmente, me facultariam amplas vantagens
materiais. Entretanto, em vésperas da vitória estudantil esperada, minha
mãe, relativamente moça, despediu-se da experiência física, vitimada por
um acidente de angina. Nossa dor foi enorme. Recebi meu diploma de
medicina, qual se me fora ele detestada recordação, e, não obstante os
estímulos da bondade paterna, não cheguei a ingressar na prática da
profissão conquistada. Recolhi-me à intimidade doméstica, de que me
ausentava tão-somente para as estações de entretenimento e repouso, então
mais que nunca chafurdado na sovinice, porquanto acompanhei o inventário
de minha mãe, com vigilância tão rigorosa que as minhas estranhas atitudes
chegaram a surpreender meu próprio pai, egoísta e displicente, mas nunca
avarento como eu. Compreendi que a fortuna herdada me situava, para meu
infortúnio moral, a cavaleiro de qualquer necessidade da vida física, por
largos anos, desde que não me confiasse à dissipação... Ainda assim,
quando vi meu genitor inclinado às segundas núpcias, quase aos sessenta de
idade, fiz quanto pude, indiretamente, para dissuadi-lo, afastando-o de
tal intento. Ele, todavia, era um homem resoluto nas decisões e desposou
Aída, uma jovem da minha idade, que mal se avizinhava dos trinta anos...
Recebi a madrasta como intrusa em nosso campo doméstico, e, tomando-a por
aventureira comum, à caça de fortuna fácil, jurei vingar-me. Apesar das
carinhosas requisições do casal e não obstante o tratamento gentil que a
pobre moça me dispensava, exibia sempre um pretexto para fugir-lhe à
convivência. O novo matrimônio, no entanto, passou a exigir do esposo mais
dilatados sacrifícios no mundo social de Aída não pretendia afastar-se, e
foi assim que, ao término de alguns meses, meu genitor era obrigado a
procurar socorro médico, recolhendo-se, então, a necessário repouso.
Acompanhava-lhe a decadência orgânica, tomado de vivas apreensões. Não era
a saúde paterna que me feria a imaginação, mas sim a extensa reserva
financeira de nossa casa. Na hipótese de súbito falecimento do homem que
me trouxera à existência, de modo algum me resignaria a partilhar a
herança com a mulher que, aos meus olhos, indebitamente ocupava o espaço
de minha mãe.
O Assistente fez
longa pausa, enquanto lhe fixávamos o semblante melancólico.
De mim mesmo,
atônito, diante do que me era dado ouvir, indagava no íntimo, se tudo
aquilo de fato se passara... Fora Silas realmente o homem a quem se
reportava ou compunha ele aquela história para alterar o ânimo dos
perseguidores?
Contudo, não me foi
possível desfechar qualquer interrogação, porquanto o nosso amigo, como
que desejoso de castigar-se com a dolorosa confissão, prosseguiu,
pormenorizando:
― Passei a
arquitetar planos delituosos, quanto à melhor maneira de alijar Aída de
qualquer
possibilidade de ingresso futuro ao nosso patrimônio, sem melindrar meu
pai doente... E nos projetos criminosos que me visitavam a cabeça, a
própria morte da madrasta comparecia como solução. Entretanto, como
suprimi-la sem causar maior sofrimento ao enfermo que eu desejava
conservar?...
Não seria
aconselhável desmoralizá-la, antes de tudo, aos olhos dele, para que não
padecesse qualquer saudade da mulher, condenada por mim à desvalia?
Tramava no silêncio e na sombra, quando a ocasião esperada veio ao meu
encontro... Convidado a comparecer com a esposa numa festividade pública,
meu pai chamou-me e insistiu para que eu acompanhasse Aída,
representando-lhe a autoridade... Pela primeira vez, acedi com prazer...
Pretendia conhecer-lhe agora, de mais perto, as afeições... Funestos
propósitos nasciam-me no crânio... Desse modo, durante alegre ágape, tomei
contato com Armando, primo de minha madrasta e que a cortejara em
solteira. Armando era um rapaz pouco mais velho que eu, perdulário e
fanfarrão, que dividia o tempo entre mulheres e taças espumantes, a quem
contrariamente aos meus hábitos, ofereci premeditada comunhão afetiva...
Tanto quanto possível, dominando moralmente o ânimo de meu pai, desde
então o associei ao nosso campo doméstico, favorecendo-lhe o mais amplo
retorno à intimidade com a criatura de quem se havia enamorado, anos
antes. A praia, o teatro, o cinema, bem como passeios de variados matizes,
eram agora os pontos costumeiros de nossa presença, nos quais
intencionalmente eu atirava os dois primos nos braços um do outro... Aída
não me percebeu a manobra e, embora resistisse, por mais de um ano, à
galanteria do companheiro, acabou por ceder à constante ofensiva dele...
Fingi desconhecer-lhes as relações até que eu pudesse conduzir meu pai ao
testemunho direto dos acontecimentos... Inventava jogos e distrações para
reter o sedutor em nossa casa... captei-lhe a confiança absoluta, de modo
a usa-lo com0o peça importante em meu criminoso ardil e, certa noite, em
que, cauteloso, aparentei completa ausência de nosso templo familiar,
sabendo os amantes segregados em determinado aposento contíguo ao meu,
procurei meu pai em sua dependência de enfermo e, mascarando-me com
intensa dignidade ofendida, chamei-o a brios, numa exposição sintética dos
fatos... Lívido e trêmulo, o doente exigiu provas e nada mais fiz que
conduzi-lo, cambaleante, até a porta do quarto, cujo fecho eu próprio
deixara enfraquecido... Bastou um empurrão mais forte e meu genitor,
desolado, encontrou o flagrante que eu desejava... Armando, cínico, não
obstante o desapontamento, afastou-se, lépido, ciente de não poderia
esperar qualquer golpe grave de um sexagenário abatido... Minha madrasta,
porém, profundamente ferida em seu amor próprio, dirigiu ao velho esposo
acusações humilhantes, procurando os seus aposentos particulares, numa
explosão de amargura. Completando a obra terrível a que me devotara,
mostrei-me mais carinhoso para com o enfermo, intimamente aniquilado...
Duas semanas arrastaram-se pesadas para a nossa equipe familiar...
Enquanto Aída ocupava o leito, assistida por doía médicos de nossa
confiança, que nem de longe nos conhecia a tragédia oculta, afagava meu
pai com lamentações e sugestões indiretas para que os bens de nossa casa
fossem, na maioria, guardados em meu nome, já que o segundo matrimônio não
poderia desfazer-se, perante as autoridades legais. Prosseguia em minha
faina delituosa, quando minha madrasta apareceu morta... Os clínicos de
nossa amizade positivaram um envenenamento fulminante e, constrangidos,
notificaram a meu pai tratar-se de um suicídio, decerto motivado pela
insofreável neurastenia de que a doente se via objeto. Meu genitor estava
mais sombrio nos aparatos funerais, contudo, em meus destruidores
propósitos, regozijei-me... Agora, sim... A fortuna total de nossa casa
passaria a pertencer-me... Minha satânica alegria, porém, durou muito
pouco... Desde a morte da segunda mulher, meu pai acamou-se para não mais
se erguer... Debalde, médicos e padres amigos procuraram oferecer-lhe
melhoras e consolações... Ao fim de dois meses, meu pai, que nunca mais
sorriu, entrou em dolorosa agonia, na qual, através de confidência
entrecortada de lágrimas, me confessou haver envenenado Aída,
administrando-lhe violento tóxico no calmante habitual. Isso, no entanto ―
assegurava-me vencido ―, impunha-lhe também a morte, de vez que não
conseguia perdoar a si mesmo, passando a carregar consigo um fardo de
remorso constante e intolerável... Pela primeira vez, minha consciência
doeu, fundo. O apego aos bens da carne arrasava-me a vida... O velho
querido morreu nos meus braços, crendo que os meus soluços de
arrependimento fossem pranto de amor. Deixando-lhe o corpo fatigado na
terra fria, tornei a nossa casa solarenga, sentindo-me o mais infortunado
dos seres... O ouro integral do mundo não me garantiria agora o mais leve
consolo. Achava-me sozinho, sozinho e... infinitamente desgraçado. Todos
os recantos e pertences de nossa habitação falavam-me de crime e
remorso... Muitas vezes, a sombra noturna pareceu-me povoada de fantasmas
horripilantes a escarnecerem de minha dor, e, em meio da malta de
insensíveis demônios, a investirem contra mim, tinha a idéia de escutar a
voz inconfundível de meu pai, clamando para minhalma: ― <<Meu filho! Meu
filho! Recua enquanto é tempo.>> Fiz-me arredio, desconfiado... Em
pavorosa crise moral, demandei à Europa, em longa viagem de recreio, mas o
encanto das grandes cidades do Velho Mundo não conseguiu aliviar-me as
chagas interiores. Em toda parte, a refeição mais nobre amargava-me na
boca e os mais belos espetáculos artísticos deixavam-me apenas ansiedade e
desolação. Regressei ao Brasil, mas não tive coragem de retomar a
intimidade com a nossa antiga residência. Amparado pela afeição de velho
amigo de meu genitor, aceitei-lhe o acolhimento, por alguns dias, até que
minha saúde orgânica me permitisse pensar numa transformação radical da
existência... Embalado pelo carinho familiar daquele amigo, deixei que
longos meses passassem, tentando imerecida fuga mental... até que, numa
noite inolvidável para mim, na qual minha gastralgia se transformara num
azorrague de dor, tomei de um frasco de arsênico na adega de meu
anfitrião, acreditando usar o bicarbonato de sódio que ali deixara na
véspera, e o veneno expulsou-me do corpo, impondo-me sofrimentos
terríveis... Qual acontecera à minha madrasta, que desencarnara em
padecimentos atrozes, eu também passei pela morte em condições análogas...
E os amigos que me
asilavam no templo doméstico, desconhecendo o equívoco de que eu fora
vítima, admitiram, sem qualquer sombra de dúvida, que eu buscara no
suicídio a extinção das penas morais que me castigavam a alma de <<moço
rico e entediado da vida>>, segundo a versão a que deram curso.
Silas relanceou o
olhar tristonho sobre nós, como quem procurava o efeito de suas palavras,
e prosseguiu:
―Isso, porém, não
bastou para ressarcir minhas tremendas culpas... Dementado, depois
do sepulcro,
atravessei meses cruéis de terror e desequilíbrio, entre os quadros vivos
a se me exteriorizarem da mente algemada às criações de si própria, até
que fui socorrido por amigos de meu pai, que se achava igualmente a
caminho da sua recuperação, e, unindo-me a ele, passei a empenhar todas as
minhas energias na preparação do futuro...
Transcorridos alguns
instantes de pesado silêncio, concluiu:
― Como vêem, a
fascinação pelo ouro foi o motivo de minha perda. Tenho necessidade de
grande esforço no
bem e de fé vigorosa para não cair outra vez, porquanto é indispensável me
consagre a nova experiência entre os homens...
Leonel e Clarindo
não se achavam mais surpreendidos que eu e Hilário, habituados a
encontrar, em Silas, um admirável companheiro, aparentemente sem aflição e
sem problemas.
Foi Leonel quem
rompeu a pausa, perguntando ao Assistente que emudecera, qual se fora
subjugado pela força das próprias reminiscências:
― Voltará, então,
para a carne, assim tão breve?
― Oh! quem me dera a
ventura de regressar tão apressadamente quanto possível!... ―
suspirou o chefe de
nossa expedição, algo ansioso. ― O devedor está inelutavelmente ligado ao
interesse dos credores... Assim, antes de tudo, é imprescindível venha
encontrar minha madrasta, no vasto país de sombra em que nos achamos, para
encetar a difícil tarefa de minha liberação moral.
― Como assim? ―
perguntei, emocionado.
― Sim, meu amigo ―
falou Silas, abraçando-me ―, meu caso não aproveita simplesmente
a Clarindo e Leonel,
que procuram a justiça pelas próprias mãos, o que muitas vezes, apenas
significa violência e crueldade, mas também a Hilário e a você que estudam
presentemente a lei do carma, ou seja, da ação e reação... Aqui somos
impelidos a recordar novamente a lição do Senhor: <<ajudai aos vossos
inimigos>>, porque, sem que eu mesmo auxilie a mulher em cujo coração
criei uma importante adversária de minha paz, não posso receber-lhe o
auxílio fraterno, sem o qual não reconquistarei minha serenidade...
Vali-me da fraqueza de Aída para arrojá-la ao despenhadeiro da
perturbação, fazendo-a mais frágil do que já era em si mesma... Agora, eu
e meu pai, que lhe complicamos o caminho, somos naturalmente constrangidos
a buscá-la, soergue-la, ampara-la e restituir-lhe o equilíbrio relativo na
Terra, para que venhamos a solver, pelo menos em parte, a nossa imensa
dívida...
― Seu pai?
Referiu-se a seu pai? ― inquiriu Hilário, afoito.
― Sim, como não?―
retrucou o Assistente ― meu pai e eu, assistidos por minha mãe,
hoje nossa
benfeitora nas Esferas Mais Altas, estamos associados no mesmo
empreendimento ― nossa própria regeneração moral, em busca do levantamento
de Aída ―, sem o que não conseguiremos desintegrar o visco envenenado do
remorso que nos aprisiona o campo mental nas faixas inferiores da vida
terrestre. É assim que nos cabe reencontra-la, a benefício de nós
mesmos... Tão logo a Divina Misericórdia nos permita semelhante
felicidade, meu genitor, envolvido no amor e na renúncia de minha mãe que,
com ele, retornará às lides da carne, vestir-se-á de nova expressão
corpórea no plano das formas físicas e, ambos, na mocidade terrena,
retomando os laços humanos do casamento, recolher-nos-ão por filhos
abençoados... Aída e eu seremos irmãos nas teias consangüíneas...
Consoante nossas aspirações que o Céu protegerá, à face da Magnanimidade
Divina, serei novamente médico no futuro, ao preço de imenso esforço, para
consagrar-me à beneficência, nela recuperando minhas valiosas
oportunidades perdidas... Minha madrasta, que, por certo, viverá sofrendo
deplorável intoxicação da alma, nos tenebrosos abismos, será socorrida em
momento oportuno e, não obstante o tempo longo de assistência que nos
reclamará neste plano, em necessário refazimento, sem dúvida renascerá em
franzino corpo físico, junto de nós, de maneira a sanar As difícies
psicoses que estará adquirindo sob o domínio das trevas, psicoses que lhe
marcarão a existência na carne, sob a forma de estranhas enfermidades
mentais... ser-lhe-ei, assim, não apenas o irmão do lar, mas também o
enfermeiro e o amigo, o companheiro e o médico, pagando em sacrifício e
boa-vontade, afeto e carinho, o equilíbrio e a felicidade que lhe
furtei...
A confissão do
Assistente valia por todo um compêndio vivo de experiências preciosas, e,
talvez por isso mesmo, entráramos todos em grave meditação.
Hilário, contudo,
como quem não desejava perder o fio do ensinamento, dirigiu-se ao nosso
amigo, considerando:
― Meu caro, disse
você estar aguardando, em comunhão com o genitor, a alegria de ―
reencontrar a
madrasta... Como entender-lhe a alegação? Porventura, com o seu grau de
conhecimento, sofre alguma dificuldade para saber-lhe a moradia?
― Sim,sim... ―
confirmou o Assistente, tristonho.―
― E os benfeitores
espirituais que atualmente lhes guiam a senda? Não conhecerão eles o
paradeiro dela,
orientando-lhes os movimentos no objetivo a alcançar?
― Inegavelmente ―
ponderou Silas, bondoso ― nossos instrutores não padecem a ignorância
que me caracteriza o
assunto... Entretanto, qual ocorre entre os homens, também aqui o
professor não pode chamar a si, os deveres do aluno, sob pena de
subtrair-lhe o mérito da lição. Na terra, por muito nos amem, nossas mães
não nos substituem no cárcere, quando devamos expiar algum crime, e nossos
melhores amigos não podem avocar para si, em nome da amizade, o direito de
sofrer a mutilação que a nossa imprudência nos tenha infligido ao próprio
corpo. Sem dúvida as bênçãos de amor dos nossos dirigentes hão trazido à
minhalma inapreciáveis recursos...Conferem-me luz interior para que eu
sinta e reconheça minhas fraquezas e auxiliam-me a renovação, a fim de que
eu possa demandar, com mais decisão e facilidade, a meta que me proponho
atingir... mas, em verdade, o serviço de meu próprio resgate é pessoal e
intransferível...
Leonel e Clarindo
ouviam-no, boquiabertos.
Falando de si mesmo,
o Assistente, sem lhes ferir o amor-próprio, trabalhava indiretamente,
para que se entregassem ao reajuste. E, pela expressão do olhar, via-se
que os dois verdugos revelavam agora admirável mudança íntima.
Hilário refletiu
alguns instantes e voltou a considerar:
― Mas todo esse
drama deve estar vinculado a causas de pretérito...
― Sim, decerto ―
confirmou o Assistente ―, mas em nossa atormentada região, não há
tempo mental para
qualquer prodígio da memória. Achamo-nos presos à recordação das causas
próximas de nossas angústias, dificultando-se a possibilidade de penetrar
o domínio das causas remotas, porquanto a situação de nosso espírito é a
de um doente grave, necessitado de intervenção urgente, a favor do
reajuste. O inferno, a exprimir-se nas zonas inferiores da Terra, está
repleto de almas que, dilaceradas e sofredoras, se levantam, clamando pelo
socorro da Providência Divina contra os males que geraram para si mesmas,
e a Providência Divina lhes permite a ventura de trabalhar, com os dardos
da culpa e do arrependimento a lhes castigarem o coração, em benefício das
suas vítimas e dos irmãos, cujas faltas se afinem com os delitos que
cometeram, para que se rearmonizem, tão apressadamente quanto possível,
com o Infinito Amor e com a Perfeita Justiça da Lei... Paguemos nossas
dívidas, que respondem por sombras espessas em nossas almas, e o espelho
de nossa mente, onde estivermos, refletirá a luz do Céu, a pátria da
Divina Lembrança!...
Compreendemos que
Silas auxiliava Clarindo e Leonel, identificando-os como irmãos de luta e
aprendizado, no que, indiscutivelmente, ampliaria os próprios méritos.
Muitas inquirições
explodiam, em pensamento, no meu acanhado mundo íntimo... Quem lhe seria o
pai amigo? Onde viveria sua abnegada genitora? Esperava despender, ainda,
longo tempo na procura da madrasta infeliz?...
Entretanto, a
grandeza espiritual do assistente não nos favorecia qualquer pergunta
indiscreta.
Apenas tive coragem
para considerar, respeitoso:
― Oh! meu Deus,
quanto tempo gastamos para refazer, às vezes, a inconseqüência de um
simples minuto!
― Você tem razão,
André ― comentou Silas, generoso ―, a lei é de ação e reação... A
ação do mal pode ser
rápida, mas ninguém sabe quanto tempo exigirá o serviço da reação,
indispensável ao restabelecimento da harmonia soberana da vida,quebrada
por nossas atitudes contrárias ao bem...
E, sorrindo:
―Por isso mesmo,
recomendava Jesus às criaturas encarnadas: - <<reconcilia-te
depressa com o teu
adversário, enquanto te encontras a caminho com ele...>> É que Espírito
algum penetrará o Céu sem a paz de consciência, e, se é mais fácil apagar
as nossas querelas e retificar nossos desacertos, enquanto estagiamos no
mesmo caminho palmilhado por nossas vítimas na Terra, é muito difícil
providenciar a solução dos nossos criminosos enigmas, quando já nos
achamos mergulhados nos nevoeiros infernais.
A ponderação era
cabível e justa.
Não nos foi
possível, porém, prosseguir a conversa.
Leonel, cuja
impassibilidade reconhecíamos, com grande surpresa para nós tinha os olhos
umedecidos...
Silas ergueu os
olhos para o Alto, agradecendo a bênção da transformação que se esboçava e
recolheu-o em seus braços.
O desditoso irmão de
Clarindo queria falar...
Percebemos que
tencionava referir-se à morte de Alzira, no lago, mas o Assistente
prometeu-lhe que voltaríamos na noite seguinte.
Logo após,
voltávamos, mas nem Hilário nem eu nos animamos a conversar com o denodado
companheiro, que entrara, melancólico, em expressivo silêncio.
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(*) André Luiz põe
nos lábios de sua personagem uma síntese dos v. 27 e 28 do cap. 6 de
Lucas, para ser mais facilmente compreendido por aqueles Espíritos cheios
de ódio, aos quais repugnaria o verbo “amar”. Eles se rebelariam diante do
texto completo. Seria inabilidade falar em “amar” naquele momento; mas
“ajudar” a pagar foi bem aceito, porque eles queriam receber. (Nota da
Editora.)
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
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