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CONVERSAÇÃO
PRECIOSA
André Luiz
Facilitando-nos a
tarefa, Druso apresentou-nos, mais intimamente ao Ministro Sânzio,
informando que estudávamos, em alguns problemas da Mansão, as leis de
causalidade. Anelando penetrar mais amplas esferas de conhecimento, acerca
do destino,indagávamos sobre a dor...
O grande mensageiro
como que abdicou por momentos a elevada posição hierárquica que lhe
quadrava à personalidade distinta, e, tanto pelo olhar quanto pela
inflexão da voz, parecia agora mais particularmente associado a nós,
mostrando-se mais à vontade.
- A dor, sim, a
dor... - murmurou, compadecido, como se perscrutasse transcendente questão
nos escaninhos da própria alma.
E fitando-nos, a
Hilário e a mim, com inesperada ternura acentuou, quase doce:
- Estudo-a,
igualmente, filhos meus. Sou funcionário humilde dos abismos. Trago
comigo a penúria e a desolação de muitos. Conheço irmãos nossos,
portadores do estigma de padecimentos atrozes, que se encontram
animalizados, há séculos, nos despenhadeiros infernais; entretanto,
cruzando as trevas densas, embora o enigma da dor me dilacere o coração,
nunca surpreendi criatura alguma esquecida pela Divina
Bondade.
Registrando-lhe a
palavra amorosa e sábia, inexprimível sentimento me invadiu a alma toda.
Até ali, não
obstante ligeiramente, convivera com numerosos Instrutores. De muitos
deles conseguira ensinamentos e observações magistrais, mas nenhum, até
então, me trouxera ao espírito aquele amálgama de enlevo e carinho,
admiração e respeito que me assomava ao sentimento.
Enquanto Sânzio
falava, generoso, cintilações roxo-prateadas nimbavam-lhe a cabeça, mas
não era a sua dignidade exterior que me, fascinava. Era o caricioso
magnetismo que ele sabia exteriorizar.
Tinha a impressão de
achar-me à frente de meu pai ou de minha própria mãe, ao lado de quem me
cabia dobrar os joelhos.
Sem que me fosse
possível governar a comoção, lágrimas ardentes rolavam-me pela face.
Não pude saber se
Hilário estava preso ao mesmo estado d’alma, porque,diante de mim, passei
a ver Sânzio somente, dominado por sua grandeza humilde.
De onde vinha,
Senhor - perguntava sem palavras nos refolhos do coração, aquele vulto tão
ilustre,mas, .apesar disso, tão simples d’alma? onde conhecera eu aqueles
olhos belos e límpidos? Em que lugar lhe recebera, um dia, o orvalho, de
amor divino, assim como o verme na caverna ,sente a bênção do calor do Sol
?
() Ministro
percebeu-me a otividade,como o professor assinala a perturbação do
aprendiz,e, qual se quisesse, advertir-me sobre o aproveitamento das
horas, avançou para mim e observou carinhosamente:
- Pergunte, meu
filho, sobre questões não pessoais, e responderei quanto puder.
Percebi-lhe a nobre
intenção e busquei dominar-me. - Grande benfeitor - exclamei, comovido,
buscando olvidar os meus próprios sentimentos -, poderemos ouvi-lo, de
algum modo, acerca do “carma”?
Sânzio retomou a
posição que lhe era habitual, junto ao espelho cristalino, e obtemperou:
- Sim, o “carma”,
expressão vulgarizada entre os hindus, que em sânscrito quer dizer “ação”,
a rigor, designa “causa e efeito”, de vez que toda ação ou movimento
deriva de causa ou impulsos anteriores. Para nós expressará a conta de
cada um, englobando os créditos e os débitos que, em particular, nos digam
respeito. Por isso mesmo, há conta dessa natureza, não apenas catalogando
e definindo individualidades, mas também povos e raças, estados e
instituições.
O Ministro fez uma
pausa, como quem dava a perceber que o assunto era complexo, e continuou:
- Para melhor
entender o “carma” ou “conta do destino criada por nós mesmos”, convém
lembrar que o Governo da Vida possui igualmente o seu sistema de
contabilidade, a se lhe expressar. no mecanismo de justiça inalienável. Se
no círculo das atividades terrenas qualquer organização precisa
estabelecer um regime de contas para basear as tarefas que lhe falem à
responsabilidade, a Casa de Deus, que é todo Universo, não viveria
igualmente sem ordem, A Administração Divina, por isso mesmo, dispõe de
sábios departamentos para relacionar, conservar, comandar e engrandecer a
Vida Cósmica, tudo pautando sob a magnanimidade do mais amplo amor e da
mais criteriosa justiça. Nas sublimadas regiões celestes de cada orbe
entregue. à inteligência e à razão, ao trabalho e ao progresso dos filhos
de Deus, fulguram os gênios angélicos, encarregados do rendimento e da
beleza, do aprimoramento e da ascensão da Obra Excelsa, com ministérios
apropriados à concessão de empréstimos e moratórias, créditos especiais e
recursos extraordinários a todos os Espíritos encarnados ou desencarnados,
que os mereçam, em função dos serviços referentes ao Bem Eterno: e, nas
regiões atormentadas como esta, varridas por ciclones de dor
regenerativa, temos os poderes competentes para promover a cobrança e a
fiscalização, o reajustamento e a recuperação de quantos se fazem
devedores complicados ante a Divina Justiça, poderes que têm a função de
purificar os caminhos evolutivos e circunscrever as manifestações do mal.
As religiões na Terra, por esse motivo, procederam acertadamente,
localizando o Céu nas esferas superiores e situando o Inferno nas zonas
inferiores, porquanto, nas primeiras, encontramos a crescente glorificação
do Universo e, nas segundas, a purgação e a regeneração indispensáveis à
vida, para que a vida se acrisole e se eleve ao fulgor dos cimos.
Ante o intervalo
espontâneo e reparando que o Ministro se propunha a manter contacto
conosco, através da conversação, aduzi, com interesse:
- Comove saber que
sendo a Providência Divina a Magnanimidade Perfeita, sem limites gerando
tesouros de amor para distribuí-los com abundância, em favor de todas as
criaturas, é também a Eqüidade Vigilante, na direção e na aplicação dos
bens universais.
- Efetivamente, não
poderia ser de outro modo ajuntou Sânzio, bondoso. - Em assuntos da lei de
causa e efeito, é imperioso não olvidar que todos os valores da vida,
desde as mais remotas constelações à mais mínima partícula subatômica,
pertencem a Deus, cujos inabordáveis desígnios podem alterar e renovar,
anular ou reconstruir tudo o que está feito. Assim, pois, somos simples
usufrutuários da Natureza que consubstancia os tesouros do Senhor, com
responsabilidade em todos os nossos atos, desde que já possuamos algum
discernimento. O Espírito, seja onde for, encarnado ou desencarnado, na
Terra ou noutros mundos, gasta, em verdade, o que lhe não pertence,
recebendo por empréstimos do Eterno Pai os recursos de que se vale para
efetuar a própria sublimação no conhecimento e na virtude. Patrimônios
materiais e riquezas da inteligência, processos e veículos de
manifestação, tempo e forma, afeições e rótulos honoríficos de qualquer
procedência são de propriedade do Todo-Misericordioso, que no-los concede
a título precário, a fim de que venhamos a utilizá-los no aprimoramento de
nós mesmos, marchando nas largas linhas da experiência, de modo a
entrarmos na posse definitiva dos valores eternos, sintetizados no Amor e
na Sabedoria com que, em futuro remoto, Lhe retrataremos a Glória
Soberana. Desde o elétron aos gigantes astronômicos da Tela Cósmica, tudo
constitui reservas das energias de Deus, que usamos, em nosso proveito,
por permissão dEle, de sorte a promovermos, com firmeza, nossa própria
elevação a Sua Majestade Sublime. Dessa maneira, é fácil perceber que,
após conquistarmos a coroa da razão, de tudo se nos pedirá contas no
momento oportuno, mesmo porque não há progresso sem justiça na aferição de
valores.
Lembrei-me
instintivamente da nossa errada conceituação de vida na Terra, quando nos
achamos sempre dispostos a senhorear indebitamente os recursos do estágio
humano, em terras e casas, títulos e favores, prerrogativas e afetos,
arrastando, por toda a parte, as algemas do mais gritante egoísmo...
Sânzio registrou-me
os pensamentos, porque acentuou com paternal sorriso, após ligeira pausa:
- Realmente, no
mundo o homem inteligente deve estar farto de saber que todo conceito de
propriedade exclusiva não passa de simples suposição. . Por empréstimo,
sim, todos os valores da existência lhe são adjudicados pela Providência
Divina, por determinado tempo, de vez que a morte funciona como juiz
inexorável, transferindo os bens de certas mãos para outras e marcando com
inequívoca exatidão o proveito que cada Espírito extrai das vantagens e
concessões que lhe foram entregues pelos Agentes da Infinita Bondade. Aí,
vemos os princípios de causa e efeito, em toda a força de sua
manifestação, porque, no uso ou no abuso das reservas da vida que
representam a eterna Propriedade de Deus, cada alma cria na própria
consciência os créditos e os débitos que lhe atrairão inelutavelmente as
alegrias e as dores, as facilidades e os obstáculos do caminho. Quanto
mais amplitude em nossos conhecimentos, mais responsabilidade em nossas
ações. Através de nossos pensamentos, palavras e atos, que nos fluem,
invariáveis, do coração, gastamos e transformamos constantemente as
energias do Senhor, em nossa viagem evolutiva, nos setores da experiência,
e, do quilate de nossas intenções e aplicações, nos sentimentos e práticas
da marcha, a vida organiza, em nós mesmos, a nossa conta agradável ou
desagradável ante as Leis do Destino..
Nesse ponto do
valioso esclarecimento, Hilário inquiriu com humildade:
- Amado Instrutor, à
face da gravidade de que a lição se reveste para nós, que devemos entender
como sendo “bem” e “mal”?
Sânzio fez um gesto
de tolerância bondosa e replicou:
- Evitemos o
mergulho nos labirintos da Filosofia, não obstante o respeito que a
Filosofia nos merece, porquanto não nos achamos num cenáculo simplesmente
destinado à esgrima da palavra. Busquemos, antes de tudo, simplificar. É
fácil conhecer o bem quando o nosso coração se nutre de boa-vontade à
frente da Lei. O bem, meu amigo, é o progresso e a felicidade, a segurança
e a justiça para todos os nossos semelhantes e para todas as criaturas de
nossa estrada, aos quais devemos empenhar as conveniências de nosso
exclusivismo, mas sem qualquer constrangimento por parte de ordenações
puramente humanas, que nos colocariam em falsa posição no serviço, por
atuarem de fora para dentro, gerando, muitas vezes, em nosso cosmo
interior, para nosso prejuízo, a indisciplina e a revolta. O bem será,
desse modo, nossa decidida cooperação com a Lei, a favor de todos, ainda
mesmo que isso nos custe a renunciação mais completa, visto não
-ignorarmos que, auxiliando a Lei do Senhor e agindo de conformidade com
ela, seremos por ela ajudados e sustentados no campo dos valores
imperecíveis. E o mal será sempre representado por aquela triste vocação
do bem unicamente para nós mesmos, a expressar-se no egoísmo e na vaidade,
na insensatez e no orgulho que nos assinalam a permanência nas linhas
inferiores do espírito.
Finda breve pausa, o
Ministro ajuntou:
- Possuímos
em Nosso Senhor
Jesus-Cristo
o paradigma do Eterno Bem sobre a Terra. Tendo dado tudo de si, em
benefício dos outros, não hesitou em aceitar o supremo sacrifício no
auxílio a todos, para que o bem de todos prevalecesse, ainda mesmo que a
ele, em particular, se reservassem a incompreensão e o sofrimento, a
flagelação 'e a morte.
Em vista da pausa
que se fizera espontânea, ousei ainda interrogar, faminto de luz:
- Generoso amigo,
poderíamos ouvi-lo, de alguma sorte, quanto aos sinais cármicos que
trazemos em nós mesmos?
Sânzio refletiu
alguns momentos e ponderou:
-É muito difícil
penetrar o sentido das Leis Divinas, com os recursos limitados da palavra
humana. Ainda assim, iniciemos o tentame, recorrendo a imagens tão simples
quanto seja possível. Apesar da impropriedade, comparemos a esfera humana
ao reino vegetal. Cada planta produz na época própria, segundo a espécie a
que se ajusta, e cada alma estabelece para si mesma as circunstâncias
felizes ou infelizes em que se encontra, conforme as ações que pratica,
através de seus sentimentos idéias e decisões na peregrinação evolutiva. A
planta de começo, jaz encerrada no embrião, e o destino, ao princípio de
cada nova existência, está guardado na mente. Com o tempo, a planta
germina, desenvolve-se, floresce e frutifica e, também com o tempo, a alma
desabrocha ao sol da eternidade, cresce em conhecimento e virtude,
floresce em beleza e entendimento e frutifica em amor e sabedoria. A
planta, porém, é uma crisálida de consciência, que dorme largos milênios,
rigidamente presa aos princípios da genética vulgar que lhe impõe os
caracteres dos antepassados, e a alma humana é uma consciência formada,
retratando em si as leis que governam a vida e, por isso, já dispõe, até
certo ponto, de faculdades com que influir na genética, modificando-lhe a
estrutura, porque a consciência responsável herda sempre de si mesma,
ajustada às consciências que lhe são afins. Nossa mente guarda consigo, em
germe, os acontecimentos agradáveis ou desagradáveis que a surpreenderão
amanhã, assim como a pevide minúscula encerra potencialmente a planta
produtiva em que se transformará no futuro.
Nessa altura,
Hilário perguntou, inquieto:
- Não teremos, nesse
postulado, a consagração do determinismo de ordem absoluta? Se trazemos
hoje, no campo mental, tudo aquilo que nos sucederá amanhã... Sânzio,
contudo, esclareceu, complacente:
- Sim, nas esferas
primárias da evolução, o determinismo pode ser considerado irresistível. É
o mineral obedecendo a leis invariáveis de coesão e o vegetal respondendo,
fiel, aos princípios organogênicos, mas, na consciência humana, a razão e
a vontade, o conhecimento e o discernimento entram em função nas forças do
destino, conferindo ao Espírito as responsabilidades naturais que deve
possuir sobre si mesmo. Por isso, embora nos reconheçamos subordinados aos
efeitos de nossas próprias ações, não podemos ignorar que o comportamento
de cada um de nós, dentro desse determinismo relativo, decorrente de nossa
própria conduta, pode significar liberação abreviada ou cativeiro maior ,
agravo ou melhoria de nossa condição de almas endividadas perante a Lei.
- Mas, ainda mesmo
nas piores posições expiatórias - inquiri -, goza a consciência dos
direitos inerentes ao livre arbítrio?
- Como não? - falou
o Ministro, generoso - imaginemos um delinqüente monstruoso, segregado na
penitenciária. Acusado de vários crimes, permanece privado de toda e
qualquer liberdade na enxovia comum. Ainda assim, na hipótese de
aproveitar o tempo no cárcere, para servir espontaneamente à ordem e ao
bem-estar das autoridades e dos companheiros, acatando com humildade e
respeito as disposições da lei que o corrige, atitude essa que resulta de
seu livre arbítrio para ajudar ou desajudar a si mesmo, a breve tempo esse
prisioneiro começa por atrair a simpatia daqueles que o cercam, avançando
com segurança para a recuperação de si mesmo.
O raciocínio era
claro, mas, não desejando perder o fio da lição simples e preciosa,
indaguei:
- Venerável
benfeitor, para nossa edificação, poderemos recolher mais amplas anotações
sobre a melhor maneira de colaborar com a Lei Divina em nosso próprio
favor? Dispomos de algum meio para escapar à justiça? Sânzio sorriu e
observou:
- Da justiça ninguém
fugirá, mesmo porque a
nossa consciência,
em acordando para a santidade da vida, aspira a resgatar dignamente todos
os débitos de que se onerou perante a Bondade de Deus; entretanto, o Amor
Infinito do Pai Celeste brilha em todos os processos de reajuste. Assim é
que, se claudicamos nessa ou naquela experiência indispensável à conquista
da luz que o Supremo Senhor nos reserva, é necessário nos adaptemos à
justa recapitulação das experiências frustradas, utilizando os patrimônios
do tempo. Figuremos um homem acovardado diante da luta, perpetrando o
suicídio aos quarenta anos de idade no corpo físico. Esse homem penetra no
mundo espiritual sofrendo as conseqüências imediatas do gesto infeliz,
gastando tempo mais ou menos longo, segundo as atenuantes e agravantes de
sua deserção, para recompor as células do veículo perispirítico, e, logo
que oportuno, quando torna a merecer o prêmio de um corpo carnal na Esfera
Humana, dentre as provas que repetirá, naturalmente se inclui a extrema
tentação ao suicídio na idade precisa em que abandonou a posição de
trabalho que lhe cabia, porque as imagens destrutivas, que arquivou em sua
mente, se desdobrarão, diante dele, através do fenômeno a que podemos
chamar «circunstâncias reflexas, dando azo a recônditos desequilíbrios
emocionais que o situarão, logicamente, em contacto com as forças
desequilibradas que se lhe ajustam ao temporário modo de ser. Se esse
homem não houver amealhado recursos educativos e renovadores em si mesmo,
pela prática da fraternidade e do estudo, de modo a superar a crise
inevitável, muito dificilmente escapará ao suicídio, de novo, porque as
tentações, não o11stante reforçadas por fora de nós, começam em nós e
alimenta-se de nós mesmos.
O esclarecimento era
valioso e, por essa razão, interroguei com a curiosidade respeitosa do
aluno interessado em aprender:
- E como pode a
criatura habilitar-se devidamente para resgatar o preço da sua libertação?
Sânzio não se deu
por surpreendido e replicou, de pronto:
- Como qualquer
devedor que, de fato, se empenhe na solução dos seus compromissos. Decerto
que o homem, sumamente endividado, precisa aceitar restrições no seu
conforto para sanar seus débitos com as suas próprias economias. Em razão
disso, não pode viver à farta, mas sim com abstinência e suor, de modo a
liberar-se tão depressa quanto possível..
O grande orientador
fez uma pausa de momento, como para refletir, e continuou:
- Voltemos ao
símbolo da planta. Imaginemos que .uma semente de laranjeira caiu em
terreno pobre e seco. Segundo as leis que regem as atividades agrícolas,
germinará ela sob constringentes obstáculos, transformando-se num arbusto
mirrado, com lamentável produção no tempo devido. Mas, se o lavrador lhe
acode às necessidades e exigências, desde o início da luta, oferecendo-lhe
adubo, água e defesa, tanto quanto ajudando-a com a poda salutar no
momento oportuno, a laranjeira atenderá, brilhantemente, ao próprio
destino... Semelhantes cuidados, no entanto, devem ser postos em ação, na
hora justa, isto é, quando na Terra a alma, e tanto quanto possível deve
começar essa restauração nos melhores tempos da jornada física...
Hilário, que
acompanhava a exposição, fascinado quanto eu mesmo pela lógica daquelas
palavras sábias e simples, interrogou:
- E quando a
criatura não pode contar, na infância ou na mocidade, com preceptores
afeiçoados ao bem, capazes de funcionar como lavradores diligentes, junto
daqueles que recomeçam a luta humana?
- Sem dúvida -
ponderou o Ministro -, a meninice e a juventude são as épocas mais
adequadas à construção da fortaleza moral com que a alma encarnada deve
tecer gradativamente a coroa da vitória que lhe cabe atingir. Entretanto,
é imperioso entender que, no Espírito consciente, a vontade simboliza o
lavrador a que nos reportamos, e o adubo, a irrigação e a poda constituem
o serviço incessante a que deve consagrar-se nossa vontade, na
recomposição de nossos próprios destinos. Em vista disso, todo minuto da
vida é importante para renovar e redimir, aprimorar e purificar.
Compreendamos que a tempestade, como símbolo de crise, surgirá para todos,
em determinado momento, contudo, quem puder dispor de abrigo certo,
superar-lhe-á os perigos com desassombro e valor.
A explicação
alcançava-nos a mente, qual réstia de Sol penetrando um cubículo
escuro.
Meu colega, no
entanto, voltou a considerar:
- Ação por ação,
temos igualmente muito trabalho, depois da morte do corpo denso. Assim
como perpetramos faltas na carne para sofrer-lhes, muitas' vezes, as
conseqüências aqui, é natural que por nossas ações deploráveis, aqui,
venhamos a padecer na carne?
- Perfeitamente -
confirmou Sânzio, bondoso -; nossas manifestações contrárias à Lei Divina,
que é, invariavelmente, o Bem de Todos, são corrigidas em qualquer parte.
Há, por isso, expiações no Céu e na Terra. Muitos desencarnados que se
enleiam em desregramentos passionais até às raias do crime, mormente nos
processos de obsessão, não obstante advertidos pela própria consciência e
pelos avisos respeitáveis de instrutores benevolentes, criam para si
mesmos pesadas e aflitivas contas com a vida, cujo resgate lhes reclama
luta e sacrifício em tempo longo. Aliás, com alusão ao assunto, é justo
lembrar que o nosso esforço de auto-reajustamento na vida espiritual,
antes da reencarnação, na maioria das circunstâncias ameniza-nos a
posição, garantindo-nos uma infância e uma juventude repletas de esperança
e tranqüilidade, para as recapitulações a se efetuarem na madureza,
exceção feita, naturalmente, aos problemas de dura e imediata expiação,
nos quais a alma é compelida a tolerar rijos padecimentos, muitas vezes
desde o ventre materno, tanto quanto os desenganos e os achaques, as
humilhações e as dores da velhice ou da longa enfermidade, antes do
túmulo. Essas dores, angústias e sofrimentos vários nos suavizam a ficha
de Espíritos devedores, permitindo-nos abençoada trégua nos primeiros
tempos da esfera espiritual, logo após a peregrinação pelo campo físico.
A maioria das
pessoas encarnadas no mundo, ao atingirem a idade provecta, habitualmente
se confiam, nas últimas fases da existência, à ponderação e à meditação, à
serenidade e à doçura. As mentes infantis, ainda mesmo na senectude das
forças genuinamente materiais, continuam levianas e irresponsáveis, mas os
corações amadurecidos no conhecimento se valem, por intuição natural, da
velhice ou da dor para raciocinar com mais segurança, seja consagrando-se
à fé nos templos religiosos, com o que asseguram a si próprios mais amplo
equilíbrio íntimo, seja devotando-se à caridade, com o que esbatem na
memória as recordações menos desejáveis, preparando, assim, com louvável
acerto e admirável sabedoria, a irrevogável passagem para a Vida Maior.
Concluí, pelo olhar
de Druso, que a nossa entrevista estava prestes a encerrar-se. E, por
isso, aventurei ainda uma indagação:
- Ministro amigo,
compreendendo que há dívidas que, por sua natureza e extensão, exigem de
nós várias existências ou romagens na carne terrestre para o respectivo
resgate, como apreciá-las do ponto de vista da memória? Sinto, por
exemplo, que tenho na retaguarda imensos débitos para ressarcir, dos quais
não me lembro agora. . .
- Sim, sim... -
explicou ele - a questão é de tempo. Ã medida que nos demoramos aqui na
organização perispirítica, no fiel cumprimento de nossas obrigações para
com a Lei, mais se nos dilata o poder mnemônico. Avançando em lucidez,
abarcamos mais amplos domínios da memória. Assim é que, depois de largos
anos em serviço nas zonas espirituais da Terra, entramos espontaneamente
na faixa de recordações menos felizes, identificando novas extensões de
nosso “carma” ou de nossa «conta» e, embora sejamos reconhecidos à
benevolência dos Instrutores e Amigos que nos perdoam o passado menos
digno, jamais condescendemos com as nossas próprias fraquezas e, por isso,
vemo-nos impelidos a solicitar das autoridades superiores novas
reencarnações difíceis e proveitosas, que nos reeduquem ou nos aproximem
da redenção necessária. Compreenderam? Sim, havíamos entendido.
Sânzio fitou o
diretor da casa, como a dizer-lhe que o horário se esgotara, e Druso
lembrou, com gentileza, que não devíamos reter o Instrutor atencioso e
complacente.
Agradecemos com
humildade as lições recebidas, enquanto o Ministro voltava à câmara
brilhante, onde a neblina móvel passou, de novo, a adensar-se,
apagando-lhe a figura venerável aos nossos olhos.
Em breves minutos, o
ambiente retomou os característicos que lhe eram habituais e a palavra
comovedora de Druso em prece encerrou a inolvidável reunião.
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
Xavier |
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