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A INTERVENÇÃO
NA MEMÓRIA
André Luiz
O novo companheiro que
o dirigente da casa nos apresentou como sendo o Assistente Barreto,
exibindo recôndita aflição a sombrear-lhe os olhos, comunicou:
_ Instrutor Druso, na
Enfermaria Cinco, três dos irmãos recém-acolhidos entraram em crise de
angustia e rebeldia...
_ Já sei – replicou o
interpelado -, é a loucura por telepatia alucinatória. Ainda não se
encontram suficientemente fortes para resistir ao impacto das forças
perversas que lhes são desfechadas, a distância, pelos companheiros
infelizes.
_ Que fazer?
_ Retire os enfermos
normais e aplique na enfermaria os raios de choque. Não dispomos de outro
recurso.
Despedia-se o
mensageiro, renteando conosco, e outro funcionário já se apresentava,
notificando:
_ Instrutor, a tela de
aviso que não funcionava, em conseqüência da tormenta agora em declínio,
acaba de transmitir aflitiva mensagem... Duas das nossas expedições de
pesquisas estão em dificuldade nos desfiladeiros das Grandes Trevas...
_ A posição foi
precisamente indicada?
_ Sim.
_ Conduza os textos
recebidos à consideração do diretor de operações urgentes. O auxilio deve
ser enviado o mais breve possível.
De inesperado, outro
colaborador veio até nós e pediu:
_ Instrutor, rogo-lhe
providências na solução do caso Jonas. Recolhemos agora recado de
nossos irmãos, cientificando-nos de que a reencarnação dele talvez seja
frustrada em definitivo.
Pela primeira vez,
notei que o dirigente da mansão mostrou intensa preocupação no olhar.
Patenteando enorme surpresa, indagou do emissário:
_ Em que consiste o
obstáculo?
_ Cecina, a futura
mãezinha, sentindo-lhe os fluidos grosseiros, nega-se a recebê-lo. Estamos
presenciando a quarta tentativa de aborto, no terceiro mês de gestação, e
vimos fazendo o que é possível por mantê-la na dignidade maternal.
Druso esboçou no
semblante um sinal de serena firmeza e acentuou:
_ É inútil. A jovem
aceitá-lo-á, segundo os compromissos dela própria. Além disso, precisamos
da internação de Jonas, no corpo físico, pelo menos durante sete anos
terrestres. Tragam Cecina até aqui, ainda hoje, logo se entregue ao sono
natural, para que possamos auxiliá-la com a necessária intervenção
magnética.
Outros elementos de
serviço vinham chegando e, faminto de esclarecimentos, qual me achava,
procurei um recanto próximo, em companhia do Assistente Silas, a quem
crivei de indagações em tom discreto, de modo a não perturbar o recinto.
Quem eram aqueles
funcionários? Seria justo que o diretor da casa fosse molestado, assim,
com tantas consultas, quando os trabalhos de administração poderiam ser
compreensivelmente subdivididos?
O amigo deu-se pressa
em elucidar-me, informando que os mensageiros não eram simples tarefeiros,
mas condutores de serviços em subchefias determinadas, todos eles
Assistentes e Assessores, cultos e dignos, com enormes responsabilidades,
e que somente demandavam a presença de Druso depois de movimentarem todas
as providências cabíveis no âmbito da autoridade a eles inerente. O
problema não era, pois, de centralização, mas de luta intensiva.
_ E aquele caso de
reencarnação pendente? _ ousei perguntar, respeitoso. _ A casa podia
opinar com segurança na solução de semelhante assunto?
O interpelado sorriu,
benevolente, e respondeu:
_ Para que me faça
compreendido, convém esclarecer que, se existem reencarnações ligadas aos
planos superiores, temos aquelas que se enraízam diretamente nos planos
inferiores. Se a penitenciaria vigora entre os homens, em função da
criminalidade corrente no mundo, o inferno existe, na Espiritualidade, em
função da culpa nas consciências. E assim como já podemos contar na esfera
carnal com uma justiça sinceramente interessada em auxiliar os
delinqüentes na recuperação, através do livramento condicional e das
prisões-escola, organizadas pelas próprias autoridades que dirigem os
tribunais humanos em nome das leis, aqui também os representantes do Amor
Divino podem mobilizar recursos de misericórdia, beneficiando espíritos
devedores, desde que se mostrem dignos do socorro que lhes abrevie o
resgate e a regeneração.
_ Quer dizer – exclamei
– que, em boa lógica terrena, e utilizando-me de uma linguagem de que
usaria um homem na experiência física, há reencarnações em perfeita
conexão com os planos infernais...
_ Sim. Como não? Valem
como preciosas oportunidades de libertação dos círculos tenebrosos. E como
tais renascimentos na carne não possuem senão característicos de trabalho
expiatório, em muitas ocasiões são empreendimentos planejados e executados
daqui mesmo, por benfeitores credenciados para agir e ajudar em nome do
Senhor.
_ E, nesses casos –
aduzi -, o Instrutor Druso dispõe da necessária delegação de competência
para resolver os problemas dessa espécie?
_ Nosso dirigente –
falou o amigo prestimoso -, como é razoável, não goza de faculdades
ilimitadas e esta instituição é suficientemente ampla para absorver-lhe os
maiores cuidados. Entretanto, nos processos reencarnatórios, funciona como
autoridade intermediaria.
_ De que modo?
_ Duas vezes por semana
reunimo-nos no Cenáculo (2) da Mansão e os mensageiros da luz, por
instrumentos adequados, deliberam quanto ao assunto, apreciando os
processos que a nossa casa lhes apresenta.
_ Mensageiros da luz?
_ Sim, são prepostos
das Inteligências angélicas que não perdem de vista as plagas infernais,
porque, ainda que os gênios da sombra não o admitam, as forças do Céu
velam pelo inferno que, a rigor, existe para controlar o trabalho
regenerativo na Terra.
E, sorrindo:
_ Assim como o doente
exige remédio, reclamamos a purgação espiritual, a fim de que nos
habilitemos para a vida nas esferas superiores. O inferno para a alma que
o erigiu em si mesma é aquilo que a forja constitui para o metal: ali ele
se apura e se modela convenientemente...
o companheiro ia
continuar, mas estranho ruído nos tomou a atenção, ao mesmo tempo que um
emissário varou das portas, situada rente a nós, e, abeirando-se de Druso,
anunciou:
_ Instrutor, depois de
amainada a tormenta, voltou o assalto dos raios desintegrantes...
O orientador esboçou um
gesto de preocupação e recomendou:
_ Liguem as baterias de
exaustão. Observaremos a defensiva, instalados na Agulha de Vigilância.
Em seguida,
convidou-nos a acompanhá-lo.
Silas, Hilário e eu
seguimo-lo sem hesitar.
Atravessamos
vastíssimos corredores e largos salões, em sentido ascendente, até que
começamos a subir de maneira direta.
O local conhecido por
Agulha de Vigilância era uma torre, provida de escadaria helicoidal,
algumas dezenas de metros acima do grande e complicado edifício.
No topo, descansamos em
pequeno gabinete, em cujo recinto interessantes aparelhos nos facultaram a
contemplação da paisagem exterior.
Assemelhavam-se a
telescópios diminutos, que funcionavam com lançadores de raios que
eliminavam o nevoeiro, permitindo-nos exata noção do ambiente
constrangedor que nos cercava, povoado de criaturas agressivas e exóticas,
que fugiam, espavoridas, ante vasto grupo de entidades que manobravam
curiosas maquinas à guisa de canhonetes.
_ Estaremos assediados
por um exercito atacante? – perguntei, intrigado.
_ Isso mesmo –
confirmou Druso, calmamente -, esses ataques, porém, são comuns. Com
semelhante invasão, pretendem nossos irmãos infelizes deslocar nossa casa
e levar-nos a inércia, a fim de senhorearem a região.
_ E aquelas equipagens?
Que vêm a ser? – enunciou meu companheiro, assombrado.
_ Podemos defini-las
como canhões de bombardeio eletrônico – informou o orientador. – As
descargas sobre nós são cuidadosamente estudas, a fim de que nos atinjam
sem erro na velocidade de arremesso.
_ E se nos alcançassem?
– perguntou meu colega.
_ Decerto provocariam
aqui fenômenos de desintegração, suscetíveis de conduzir-nos à ruína
total, sem nos referirmos às perturbações que estabeleceriam em nossos
irmãos doentes, ainda incapazes de qualquer esforço para a emigração,
porque os raios desfechados contra nós contêm princípios de flagelação,
que provocam as piores crises de pavor e loucura.
Não longe de nós, ruído
soturno vibrava na atmosfera.
Tínhamos a impressão de
que milhares de projeteis invisíveis cortavam o ar, violentamente,
sibilando a reduzida distância e acabando em estalidos secos, a nos
infundirem pavorosa impressão.
Talvez porque Hilário e
eu demonstrássemos insofreável espanto, Druso ponderou, paternal:
_ Estejamos tranqüilos.
Nossas barreiras de exaustão funcionam com eficiência.
E designou-nos ao olhar
assustadiço longa muralha, constituída por milhares de hastes metálicas,
cerceando a cidade em toda a extensão, qual se fosse larga serie de
pára-raios habilmente dispostos.
Em todos os lances do
flanco atacado, surgiam faíscas elétricas, fulgurarem nos pontos de
contacto, atraídas pelas pontas a prumo.
O espetáculo, em sua
beleza terrível, caracterizava-se, a olho nu, pela cintilação dos
contrastes, entre a sombra imensa e a luz relampagueante.
_ Os conflitos aqui são
incessantes – disse-nos o orientador com dignidade serena -; no entanto,
temos aprendido nesta Mansão que a paz não é conquista da inércia, mas sim
fruto do equilíbrio entre a fé no Poder Divino e a confiança em nós
mesmos, no serviço pela vitória do bem.
Nesse instante, porém,
um servidor da casa penetrou no recinto e disse:
_ Instrutor conforme as
recomendações havidas, o doente recolhido na noite passada foi instalado
no gabinete de socorro magnético, aguardando-lhe a intervenção.
_ Conseguiu dizer algo?
_ Não. Continua apenas
com os gemidos periódicos.
_ Nenhum indício de
identificação?
_ Nenhum.
O mentor infatigável
convidou-nos a segui-lo, explicando que a operação em perspectiva poderia
oferecer importantes elementos de estudo ao trabalho que nos propúnhamos
realizar.
A breve trecho de
tempo, vimo-nos os quatro numa sala de regulares proporções, que primava
pela simplicidade e pelo azul repousante.
Em mesa desmontável, um
homem disforme estirava-se em decúbito dorsal, respirando apenas.
Para referir-nos com
franqueza à criatura sob nossos olhos, cabe-nos afirmar que o aspecto do
infeliz chegava a ser repelente, apesar dos cuidados de que já fora
objeto.
Parecia sofrer
inqualificável hipertrofia, mostrando braços e pernas enormes. Entretanto,
onde o aumento volumétrico do instrumento perispirítico se fazia mais
desagradável era justamente na mascara fisionômica, em que todos os traços
se confundiam, qual se estivéssemos à frente de uma esfera estranha, à
guisa de cabeça.
Seria um homem
desencarnado em algum atropelamento terrestre, aguardando, ali, o imediato
alívio que se deve aos acidentados comuns?
Druso sentiu-nos a
pergunta silenciosa e explicou:
_ Trata-se de um
companheiro, dificilmente identificável, trazido até aqui por uma de
nossas expedições socorristas.
_ Mas terá sido
recentemente liberto do mundo físico? – indagou meu colega, tanto quanto
eu, dolorosamente impressionado.
_ por enquanto, não
sabemos – elucidou o orientador. – É uma dessas pobres almas que terá
deixado o círculo carnal sob o império de terrível obsessão, tão terrível
que não terá podido recolher o amparo espiritual das caridosas legiões que
operam nos túmulos. Indubitavelmente, largou o corpo denso sob absoluta
subjugação mental, caindo em problemas angustiantes.
_ Mas, por que
semelhante calamidade? – inquiriu Hilário, empolgado de assombro.
_ Mau amigo – replicou
Druso, benevolente -, não será mais justo sondar os motivos pelos quais
nos decidimos a contrair débitos, assim tão escabrosos?
E, modificando o tom de
voz que se fez algo triste e comovedor, aconselhou:
_ As regiões infernais
estão superlotadas do sofrimento que nós mesmos criamos. Precisamos
equilibrar a coragem e a compaixão no mesmo nível, para atender com
segurança aos nossos compromissos nestes lugares.
Fitei o irmão
desventurado que se mantinha em funda prostração, qual enfermos em estado
de coma, e, considerando os imperativos de nosso aprendizado, indaguei:
_ Poderemos conhecer a
razão da surpreendente deformidade sob nosso exame?
O orientador percebeu a
essência construtiva de minha perquirição e respondeu:
_ O fenômeno, todo ele,
é de natureza espiritual. Recorda-se você de que a dor no veículo físico é
um acontecimento real no encéfalo, mas puramente imaginário no órgão que
supõe experimentá-la. A mente, através das células cerebrais, registra a
desarmonia corpórea, constrangendo a urdidura orgânica ao serviço, por
vezes torturado e difícil, do reajuste. Aqui, também, o aspecto anormal,
até monstruoso, resulta dos desequilíbrios dominantes na mente que,
viciada por certas impressões ou vulcanizadas pelo sofrimento, perde
temporariamente o governo da forma, permitindo que os delicados tecidos do
corpo perispirítico se perturbem, tumultuados, em condições anormais. Em
tal situação, a alma pode cair sob o cativeiro de Inteligências perversas
e daí procedem as ocorrências deploráveis pelas quais se despenha em
transitória animalização por efeito hipnótico.
Notei, contudo, que o
Instrutor, compadecido, não desejava alongar entendimentos que se não
reportassem ao socorro devido ao infortunado, e calei-me.
Druso inclinou-se sobre
ele com a ternura de alguém que auscultasse um irmão muito amado, e
anunciou:
- Procuremos ouvi-lo.
Incapaz de conter o
assombro que me empolgava, inquiri:
_ Ele dorme?
O mentor fez um gesto
afirmativo, notificando:
_ Nosso desventurado
amigo encontra-se sob terrível hipnose. Inegavelmente, foi conduzido a
essa posição por adversários temíveis, que, decerto, para torturá-lo,
fixaram-lhe a mente em alguma penosa recordação.
_ mas – insisti,
emocionado – semelhante martírio poderia sobrevir, sem razão justa?
_ meu amigo – falou o
orientador, expressivamente -, com exceção do caminho glorioso das grandes
almas, que elegem no sacrifício próprio o apostolado de amor com que
ajudam os companheiros da Humanidade, não se ergue o espinheiro do
sofrimento sem as raízes da culpa. Para atingir a miserabilidade em que se
encontra, nosso irmão terá acumulado débitos sobremaneira escabrosos.
Em seguida,
contrariando-nos qualquer propósito de divagação, acentuou:
_ Desintegremos as
forças magnéticas que lhe constringem os centros vitais e ajudemos-lhe a
memória, para que se liberte e fale.
E talvez porque o meu
olhar lhe endereçasse mudo apelo a esclarecimento mais amplo, acrescentou:
_ Não seria lícito agir
à base de hipóteses. É indispensável ouvir os delinqüentes e as vítimas, a
fim de que, através das informações deles mesmos, saibamos por onde
começar a obra de auxílio.
Procurei sopitar
inquirições extemporâneas e entreguei-me à expectativa.
Logo após, o
Assistente, Hilário e eu, de maneira instintiva, estabelecemos uma
corrente de oração, sem previa consulta, e nossas forças reunidas como que
fortaleciam o Instrutor, que, demonstrando fisionomia calma e otimista,
passou a operar, magneticamente, aplicando passes dispersivos no
companheiro em prostração.
O enfermo reagiu com
movimentação gradativa, qual se acordasse de longo sono.
Decorridos alguns
minutos, o orientador pousou a destra sobre a cabeça disforme, como se lhe
chamasse a memória ao necessário despertamento e, logo em seguida, o
desventurado começou a gemer, revelando o pavor de quem suspira por
desvencilhar-se de um pesadelo.
Porque Druso
interrompesse a operação, detendo-o neste estado, Hilário indagou, aflito:
_ Deverá permanecer,
então, assim, à beira da vigília, sem reapossar-se de si mesmo?
_ Não lhe convém o
imediato retorno à realidade – esclareceu o mentor amigo. – Poderia sofrer
deplorável crise de loucura, com graves conseqüências. Conversará conosco,
assim qual se vê, com a mente enovelada à idéia fixa que lhe encarcera os
pensamentos no mesmo círculo vicioso, a fim de que lhe venhamos a conhecer
o problema crucial, sem qualquer distorção.
A palavra do orientador
denotava grande experiência na psicologia dos Espíritos vitimados nas
trevas.
Depois de nova
intervenção do mentor sobre a glote, o infeliz descerrou as pálpebras e,
mostrando os olhos esgazeados, começou a bramir:
_ Socorro! Socorro!...
sou culpado, culpado!... Não posso mais... Perdão! Perdão!
Dirigindo-se a Druso, e
tomando-o decerto por magistrado, exclamou:
_ Senhor juiz, senhor
juiz!... até que enfim, posso falar! Deixem-me falar!...
o dirigente da Mansão
afagou-lhe a cabeça atormentada e replicou em tom amigo:
_ Diga, diga o que
deseja.
O rosto do asilado
cobriu-se de lagrimas, entremostrando a superexcitação dos sonâmbulos que
transformam a própria fraqueza em energia inesperada, e começou a falar,
compungidamente:
_ Sou Antônio
Olímpio... o criminoso!... Contarei tudo. Em verdade, pequei, pequei...
por isso é justo... que eu sofra no inferno... O fogo tortura minhalma sem
consumi-la... è o remorso, bem sei... Se eu soubesse, não teria...
cometido a falta... entretanto, não pude resistir à ambição... Depois da
morte de meu pai... vi-me obrigado... a partilhar nossa grande fazenda com
meus dois irmãos mais novos... Clarindo e Leonel... Trazia, porém, a
cabeça... dominada de planos... Pretendia converter a propriedade... que
eu administrava... em larga fonte de renda, contudo... a partilha me
estorvava... Notei que os manos... tinham idéias diferentes das minhas...
e comecei a maquinar o projeto que acabei... executando...
uma crise de soluços
embargou-lhe a voz, mas Druso, amparando-o magneticamente, insistiu:
_ Continue, continue...
_ Admiti – continuou o
enfermo com acento mais firme – que somente poderia ser feliz, aniquilando
meus irmãos e... quando o inventario estava prestes a decidir-se,
convidei-os a passear comigo... de barco... inspecionando grande lago de
nosso sítio... Antes, porém, dei-lhes a beber um licor entorpecente...
Calculei o tempo que a droga reclamaria para um efeito seguro e... quando
a nossa conversação ia acesa... percebendo-lhes os sinais de fadiga... num
gesto deliberado desequilibrei a embarcação, em conhecido trecho... onde
as águas eram mais fundas... Ah! Que calamidade inesquecível!... Ainda
agora, escuto-lhes os brados arrepiantes de horror, implorando socorro...
mas... de nervos dormentes... a breves minutos... encontraram a morte...
nadei de consciência pesada, mas firme em meus aloucados propósitos...
abordando a praia e clamando por auxílio... Com atitudes estudadas, pintei
um imaginário acidente... Foi assim que me apossei da fazenda inteira,
legando-a, mais tarde, a Luís... o meu filho único... Fui um homem rico e
tido por honesto... O dinheiro granjeou-me considerações sociais e
privilégios públicos que a política distribui com todos aqueles que se
fazem vencedores no mundo... pela sagacidade e pela inteligência... De
quando em quando... recordava meu crime... nuvem constante a sombrear-me a
consciência... mas... em companhia de Alzira... a esposa inolvidável...
procurava distrações e passeios que me tomassem a atenção... Nunca pude
ser feliz... Quando meu filho se fez jovem... minha mulher adoeceu
gravemente... e da febre que a devorou por muitas semanas... passou á
loucura... com a qual se afogou no lago... numa noite de horror. Viúvo...
perguntava a mim mesmo se não estava sendo joguete... do fantasma de
minhas vítimas... entretanto... temia todas as referências em torno da
morte... e busquei simplesmente gozar a fortuna que era bem minha...
o infeliz entregou-se a
larga pausa de repouso, diante de nossa expectativa, continuando, logo
após:
_ Ai de mim, porém!...
Tão logo cerrei os olhos físicos... diante do sepulcro... não me valeram
as preces pagas... porque meus irmãos que eu supunha mortos... se fizeram
visíveis à minha frente... transformados em vingadores, ladearam-me o
túmulo... Atiraram-me o crime em rosto... cobriram-me de impropérios e
flagelaram-me sem compaixão... até que... talvez... cansados de me
espancaram... conduziram-me a tenebrosa furna... onde fui reduzido ao
pesadelo em que me encontro... Em meu pensamento... vejo apenas o barco no
crepúsculo sinistro... ouvindo os brados de minhas vítimas... que soluçam
e gargalham estranhamente... Ai de mim!... estou preso à terrível
embarcação... sem que me possa desvencilhar... Quem me fará dormir ou
morrer?...
como se o término da
confissão lhe trouxesse algum descanso, arrojou-se o doente a enorme
apatia.
Druso enxugou-lhe o
pranto, dirigiu-lhe palavras de consolo e carinho e recomendou ao
Assistente recolhê-lo à enfermaria especializada e, em seguida, falou-nos,
pensativo:
_ Já sabemos o
necessário para estabelecer um ponto de partida na tarefa assistencial.
Tornaremos ao caso em momento oportuno.
E acrescentou,
cismativo, depois de longa pausa:
_ Que Jesus nos ampare.
Não nos foi possível,
contudo, aditar observações, porque um mensageiro vinha comunicar ao
Instrutor que uma caravana de recém-desencarnados estava prestes a chegar
e acompanhamo-lo ao serviço que ele nomeou como sendo "tarefa de
inspeção".
(2) Templo íntimo da
instituição. _ (Nota do Autor espiritual.)
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
Xavier |