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comentário do
instrutor
André Luiz
O recinto a que
demandáramos era confortável e amplo; mas a expressiva assembléia que o
lotava era, em grande parte, desagradável e triste.
Ao clarão de vários
lampadários, podíamos observar, do largo estrado em que nos instaláramos
com o orientador, os semelhantes disformes que, em maioria, ali se
congregavam.
Aqui e ali se
acomodavam assistentes e enfermeiros, cuja posição espiritual era
facilmente distinguível pela presença simpática com que encorajavam os
sofredores.
Calculei em duas
centenas, aproximadamente, o numero de enfermos que à nossa frente se
reuniam.
Mais de dois terços
apresentavam deformidades fisionômicas.
Quem terá visitado um
sanatório de moléstias da pele, analisando em conjunto os doentes mais
graves, poderá imaginar o que fosse aquele agregado de almas silenciosas e
dificilmente reconhecíveis.
Notando a quase
completa quietude ambiente, indaguei de Druso quanto à tempestade que se
contorcia lá fora, informando-me o generoso amigo que nos achávamos-nos em
salão interior da cidadela, exteriormente revestido de abafadores de som.
Integrando a equipe
dirigente, Hilário e eu passamos a conhecer companheiros agradáveis e
distintos, os Assistentes Silas e Honório e a irmã Celestina, três dos
mais destacados assessores na condução daquela morada socorrista.
Não nos foi possível
qualquer entendimento, além das saudações comuns, porque o orientador,
após indagar um dos enfermos para proferir a oração de inicio, que ouvimos
emocionadamente, tomou a palavra e falou com naturalidade, qual se
estivesse conversando numa roda de amigos:
_ Irmãos, continuemos
hoje em nosso comentário acerca do bom animo.
Não me creiam separado
de vocês por virtudes que não possuo.
A palavra fácil e bem
posta é, muita vez, dever espinhoso em nossa boca, constrangendo-nos à
reflexão e á disciplina.
Também sou aqui um
companheiro à espera da volta.
A prisão redentora da
carne acena-nos ao regresso.
É que o propósito da
vida trabalha em nós e conosco, através de todos os meios, para guiar-nos
à perfeição. Cerceando-lhe os impulsos, agimos em sentido contrário à Lei,
criando aflição e sofrimento em nós mesmos.
No plano físico, muitos
de nós supúnhamos que a morte seria ponto final aos nossos problemas,
enquanto outros muitos acreditavam privilegiados da Infinita Bondade, por
haverem abraçado atitudes de superfície, nos templos religiosos.
A viagem do sepulcro,
no entanto, ensinou-nos numa grande e nova – a de que nos achamos
indissoluvelmente ligados às nossas próprias obras.
Nossos atos tecem asas
de libertação ou algemas de cativeiro, para a nossa vitória ou nossa
perda.
A ninguém devemos o
destino senão a nós próprios.
Entretanto, se é
verdade que nos vemos hoje sob as ruínas de nossas realizações
deploráveis, não estamos sem esperança.
Se a sabedoria de nosso
pai Celeste não prescinde da justiça para evidenciar-se, essa mesma
justiça não se revela sem amor.
Se somos vitimas de nós
mesmos, somos igualmente beneficiários da Tolerância Divina, que nos
descerra os santuários da vida para que saibamos expiar e solver,
restaurar e ressarcir.
Na retaguarda,
aniquilávamos o tempo, instilando nos outros sentimentos e pensamentos que
não desejávamos para nós, quando não estabelecíamos pela crueldade e pelo
orgulho vasta sementeira de ódio e perseguição.
Com semelhantes
atitudes, porém, levantamos em nosso prejuízo a desarmonia e o sofrimento,
que nos sitiam a existência, quais inexoráveis fantasmas.
O pretérito fala em nós
com gritos de credor exigente, amontoando sobre as nossas cabeças os
frutos amargos da plantação que fizemos... Daí, os desajustes e
enfermidades que nos assaltam a mente, desarticulando-nos os veículos de
manifestação.
Admitíamos que a
transição do sepulcro fosse lavagem miraculosa, liberando-nos o Espírito,
mas ressuscitamos no corpo sutil de agora com os males que alimentamos em
nosso ser.
Nossas ligações com a
retaguarda, por essa razão, continuam vivas. Laços de afetividade mal
dirigida e cadeias de aversão aprisionam-nos, muitos deles em
desequilíbrios mais graves e constringentes que os nossos.
Nutrindo propósitos de
regeneração e melhoria, somos hoje criaturas despertando entre o Inferno e
a Terra, que se afinam tão entranhadamente um com o outro, como nós e
nossos feitos.
Achamo-nos imbuídos do
sonho de renovação e paz, aspirando à imersão na Vida Superior,
entretanto, quem poderia adquirir respeitabilidade sem quitar-se com a
Lei?
Ninguém avança para a
frente sem pagar as dívidas que contraiu.
Como trilhar o caminho
dos anjos, de pés amarrados ao carreiro dos homens, que nos acusam as
faltas, compelindo-nos a memória ao mergulho nas sombras?!...
Druso fez ligeira pausa
e, depois de significativo gesto, como que indicando a torturada paisagem
exterior, prosseguiu em tom comovente:
_ Em derredor do nosso
pouso de trabalho e esperança, alongam-se flagelos infernais...
quantas almas
petrificadas na rebelião e na indisciplina aí se desmandam no aviltamento
de si mesmas?
O Céu representa uma
conquista, sem ser uma imposição.
A Lei Divina,
alicerçada na justiça indefectível, funciona com igualdade para todos.
Por todo esse motivo,
nossa consciência reflete a treva ou a luz de nossas criações individuais.
A luz, aclarando-nos a
visão, descortina-nos a estrada. Atreva, enceguecendo-nos, agrilhoa-nos ao
cárcere de nossos erros.
O Espírito em harmonia
com os Desígnios Superiores descortina o horizonte próximo e caminha,
corajoso e sereno, para diante, a fim de superá-lo; no entanto, aquele que
abusa da vontade e da razão, quebrando a corrente das bênçãos divinas,
modela a sombra em torno de si mesmo, insulando-se em pesadelos aflitivos,
incapaz de seguir em frente.
Definindo, assim, a
posição que nos é peculiar, somos almas entre a luz das aspirações
sublimas e o nevoeiro dos débitos escabrosos, para quem a reencarnação,
como recomeço de aprendizado, é concessão da Bondade excelsa que nos cabe
aproveitar, no resgate imprescindível.
Em verdade, por muito
tempo ainda sofremos os efeitos das ligações com os nossos cúmplices e
associados de intemperança e desregramento, mas, dispondo de novas
oportunidades de trabalho no campo físico, é possível refazer o destino,
solvendo escuros compromissos, e, sobretudo, promovendo novas sementeiras
de afeição e dignidade, esclarecimento e ascensão.
Sujeitando-nos às
disposições das leis que prevalecem na esfera carnal, teremos a felicidade
de reencontrar velhos inimigos, sob o véu de temporário esquecimento,
facilitando-se-nos, assim, a reaproximação preciosa.
Dependerá, desse modo,
de nós mesmos, convertê-los em amigos e companheiros, de vez que,
padecendo-lhes a incompreensão e a antipatia, com humildade e amor,
sublimaremos nossos sentimentos e pensamentos, plasmando novos valores de
vida eterna em nossas almas.
Ante a pausa que o
Instrutor imprimiu às suas considerações, voltei-me para a assembléia que
o escutava, suspensas nas flamas de elevada meditação.
Alguns dos enfermos ali
enfileirados tinham lagrimas nos olhos, enquanto outros mostravam o
semblante extático dos que se conservam entre o consolo e a esperança.
Druso, que também
sentia o efeito de suas palavras nos ouvintes reconfortados, continuou:
_ Somos Espíritos
endividados, com a obrigação de dar tudo, em favor de nossa renovação.
Comecemos a articular idéias redentoras e edificantes, desde agora,
favorecendo a reconstrução do nosso futuro.
Disponhamo-nos a
desculpar os que nos ofenderam, com o sincero propósito de rogar perdão às
nossas vitimas.
Cultivando a oração com
serviço ao próximo, reconheçamos na dificuldade o gênio que nos auxilia, a
desafiar-nos ao maior esforço.
Reunindo todas as
possibilidades as nosso alcance, espalhemos, nas províncias de treva e dor
que nos rodeiam, o socorro da prece e o concurso do braço fraternal,
preparando o regresso ao campo de luta – o plano carnal -, em que o Senhor
pela benção de um corpo novo nos ajudará a esquecer o mal e replantar o
bem.
Para nós, herdeiros de
longo passado culposo, a esfera das formas físicas simboliza a porta de
saída do inferno que criamos.
Superando nossas
enfermidades morais e extinguindo antigas viciações, no triunfo sobre nós
mesmos, acrisolaremos nossas qualidades de espírito, a fim de que, em nos
elevando, possamos estender mãos amigas aos que jazem na lama do
infortúnio.
Nós, que temos errado
nas sombras, atormentados viajores do sofrimento, nós, que conhecemos o
deserto de gelo e o suplício do fogo na alma opressa, poderíamos, acaso,
encontrar maior felicidade que a de subir alguns degraus no Céu, para
descer, com segurança, aos infernos, hoje quais nos achávamos ontem, nas
furnas da miséria e da morte?
Dezenas de
circunstantes entreolhavam-se, admirados e felizes.
A essa altura,
mostrava-se o mentor nimbado de doce claridade a se lhe irradiar do tórax
em cintilações opalinas.
Fitei meu companheiro
e, reparando-lhe os olhos enevoados de pranto, busquei sufocar minha
própria comoção.
O Instrutor não falava
como quem ensinasse, teorizando. Estampava na voz a inflexão de quem
trazia uma dor imensamente sofrida e dirigia-se aos companheiros humildes,
ali congregados; quais, se lhes fossem, todos eles, filhos queridos ao
coração.
_ Supliquemos ao Senhor
– prosseguiu, comovidamente – nos conceda forças para a vitória -, vitória
que nascerá em nós para a grande compreensão. Somente assim, ao preço de
sacrifício no reajuste, conseguiremos o passaporte libertador!...
calando-se o dirigente
da casa, levantou-se da assembléia uma senhora triste, e, caminhando até
nós dirigiu-se a ele em lagrimas:
_ Meu amigo, releve-me
a intromissão. Quando partirei para o campo terrestre com meu filho? Tanto
quanto posso, visito-o nas trevas... Não me vê, nem me escuta... Sem se
dar conta da miséria moral a que se acolhe, continua autoritário e
orgulhoso... Paulo, no entanto, não é para mim um inimigo... é um filho
inolvidável... Ah! Como pode o amor contrair tamanho débito?!...
_ Sim... – exclamou
Druso, reticencioso -, o amor é a força divina que freqüentemente
aviltamos. Tomamo-la pura e simples da vida com que o Senhor nos criou e
com ela inventamos o ódio e o desequilíbrio, a crueldade e o remorso, que
nos fixam indefinidamente nas sombras... Quase sempre, é mais pelo amor
que nos enredamos em pungentes labirintos no tocante a Lei... amor mal
interpretado... mal conduzido...
Como se voltasse de
rápida fuga ao mundo interior, acendeu novo brilho no olhar, afagou as
mãos da torturada mulher e anunciou:
_ Esperamos possa você
reunir-se, em breve, ao seu rapaz na valiosa empresa do resgate. Pelos
informes de que dispomos, não se demorará ele nas inibições em que ainda
se encontra. Tenhamos serenidade e confiança...
enquanto a pobrezinha
se retirava com um sorriso de paciência, o Instrutor ponderou conosco:
_ Nossa irmã possui
excelentes qualidades morais, mas não soube orientar o sentimento materno
para com o filho que jaz nas sombras. Instilou nele idéias de
superioridade malsã, que se lhe cristalizaram na mente, favorecendo-lhe os
acessos de rebeldia e brutalidade. Transformando-se em tiranete social, o
infeliz foi fisgado, sem perceber, ao pântano tenebroso, em seguida à
morte do corpo, e a desventurada genitora, sentido-se responsável pela
sementeira de enganos que lhe arruinou a vida, hoje se esforçar para
reavê-lo.
_ E realizará
semelhante propósito? – perguntou Hilário com interesse.
_ Não podemos duvidar –
replicou nosso amigo, convincente.
_ Mas... como?
_ Nossa amiga, que
amoleceu a fibra da responsabilidade moral no excesso de reconforto,
voltará á reencarnação em círculo paupérrimo, recebendo aí, quando
novamente mulher jovem, então desprotegida, o filho que ela própria
complicou nas antigas fantasias de mulher fútil e rica. Ser-lhe-á, na
carência de recursos econômicos, a inspiradora de heroísmo e coragem,
regenerando-lhe a visão da vida e purificando-lhe as energias na forja da
dificuldade e do sofrimento.
_ E vencerão no difícil
tentame? – indagou meu companheiro, de novo, evidentemente intrigado.
_ A vitória é a
felicidade que todos lhes desejamos.
_ E se perderem na
batalha projetada?
_ decerto – falou o
orientador com expressiva inflexão na voz – regressarão em piores
condições aos precipícios que nos circundam...
depois de um sorriso
triste, Druso ajuntou:
_ Cada um de nós, os
Espíritos endividados, em renascendo na carne, transporta consigo para o
ambiente dos homens uma réstia do céu que sonha conquistar e um vasto
manto do inferno que plasmou para si mesmo. Quando não temos força
suficiente para seguir ao encontro do céu que nos confere oportunidades de
ascensão até ele, retornamos ao inferno que nos fascina à retaguarda...
Nosso anfitrião ia
continuar, no entanto, um velhinho cambaleante veio até nós e disse-lhe
humildemente:
_ Ah! meu Instrutor,
estou cansado de trabalhar nos tropeços daqui!... Há vinte anos carrego
doentes loucos e revoltados para este asilo!... Quando terei meu corpo na
Terra para descansar no esquecimento da carne, aos pés dos meus?...
Druso afagou-lhe a
cabeça e respondeu, comovido:
_ Não desfaleça, meu
filho! Console-se! Também nós, faz muitos anos, estamos presos a esta
casa, por injunções de nosso dever. Sirvamos com alegria. O dia de nossa
mudança será determinado pelo Senhor.
Calou-se o ancião, de
olhos tristes.
Logo após, o orientador
fez vibrar pequena campainha e a assembléia se colocou à vontade para a
livre conversão.
Um moço de expressão
simpática abeirou-se de nós e, depois de saudar-nos afetuosamente,
observou, inquieto:
_ Instrutor amigo,
ouvindo-lhe a palavra educativa e ardente, fico a cismar nos enigmas da
memória... Por que este olvido para cá da morte física? Se tive
existências outras, antes da última, cujos erros agora procuro reparar,
por que razão me não lembro delas? Antes de partir para o campo físico, na
romagem que me fixou o nome pelo qual hoje respondo, devo ter deixado bons
amigos na vida espiritual, assim como alguém que, viajando na Terra de um
continente para outro, comumente deixa no cais afeiçoes queridas que não o
esquecem... Como justificar a amnésia que me não permite recordar os
companheiros que devo possuir a distância?
_ Bem -, ponderou o
interpelado, sabiamente -, os Espíritos que na vida física atendem aos
seus deveres com exatidão, retomam pacificamente os domínios da memória,
tão logo se desenfaixam do corpo denso, reentrando em comunhão com os
laços nobres e dignos que os aguardam na Vida Superior, para a
continuidade do serviço de aperfeiçoamento e sublimação que lhes diz
respeito; contudo, para nós, consciências intranqüilas, a morte no veiculo
carnal não exprime libertação. Perdemos o carro fisiológico, mas
prosseguimos atados ao pelourinho invisível de nossas culpas; e a culpa,
meu amigo, é sempre uma nesga de sombra eclipsando-nos a visão. Nossas
faculdades mnemônicas, relativamente às nossas quedas morais,
assemelham-se, de certo modo, às conhecidas chapas fotográficas, as quais,
se não forem convenientemente protegidas, sempre se inutilizam.
O mentor fez prevê
pausa em suas considerações e continuou:
_ Imaginemos a mente
como sendo um lago. Se as águas se acham pacificadas e límpidas, a luz do
firmamento pode retratar-se nele com segurança. Mas, se as águas vivem
revoltadas, as imagens se perdem ao quebro das ondas moveis,
principalmente quando o lodo acumulado no fundo aparece à superfície. A
rigor, somos aqui, nas zonas inferiores, seres humanos muito distantes da
renovação espiritual, não obstante desencarnados.
O consulente
escutava-o, visivelmente surpreendido, e dispunha-se a formular
interrogações novas, ante a pausa que se fizera, mas Druso,
antecipando-se-lhe à palavra, acentuou em tom amigo:
_ Observe a realidade
em si mesmo. A despeito dos estudos a que presentemente se confia e apesar
das sublimes esperanças que lhe ocupam agora o coração, seu pensamento
vive preso aos sítios e passagens de que, pela morte, supostamente se
desvencilhou. Em pleno caminho da espiritualidade, você se identifica com
as escuras reminiscências que permanecem ao longe, no tempo: o lar, a
família, os compromissos imperfeitamente solucionados... Tudo isso é
lastro, inclinando a sua mente para o mundo físico, onde nossos débitos
reclamam sacrifício e pagamento.
_ É verdade, é
verdade... – suspirou o rapaz, compungidamente.
Mas o Instrutor
prosseguiu:
_ Sob a hipnose nossa
memória pode regredir e recuperar-se por momentos. Isso, porém, é um
fenômeno de compulsão... E em tudo convém satisfazer à sabedoria da
Natureza. Libertemos o espelho da mente que jaz sob a lama do
arrependimento, do remorso e da culpa, e esse espelho divino refletirá o
Sol com todo o esplendor de sua pureza.
Druso ia continuar, mas
a chegada de um colaborador impeliu-nos à conclusão do assunto.
André Luiz, em: Ação e Reação de Chico
Xavier |