CARNEIRO  REVOLTADO

 

Neio Lúcio

 

 

Certo carneiro muito inteligente, mas indisciplinado, reparou os benefícios que a lã espalhava em toda parte, e, desde então, julgou-se melhor que os outros seres da Criação, passando a revoltar-se contra a tosquia.

 

– Se era tão precioso – pensava –, porque aceitar a humilhação daquela tesoura enorme? Experimentava intenso frio, de tempos a tempos, e, despreocupado das ricas rações que recebia no redil, detinha-se apenas no exame dos prejuízos que supunha sofrer.

 

Muito amargurado, dirigiu-se ao Criador.

 

– Meu Pai, não estou satisfeito com a minha pelagem. A tosquia é um tormento... Modifica-me, Senhor!...

 

O Todo-Poderoso indagou, com bondade:

 

– Que desejas que eu faça?

 

Vaidosamente, o carneiro respondeu:

 

– Quero que a minha lã seja toda de ouro.

 

A rogativa foi satisfeita. O carneiro tornou-se de ouro.

 

Assim que o orgulhoso ovino se mostrou cheio de pêlos preciosos, várias pessoas ambiciosas atacaram-no sem piedade. Arrancaram-lhe, violentamente, todos os fios, deixando-o em chagas.

 

O infeliz, a lastimar-se, correu para o Altíssimo e implorou:

 

– Meu Pai, muda-me novamente! Não posso exibir lã dourada, encontraria sempre salteadores sem compaixão.

 

O Sábio dos Sábios perguntou:

 

– Que queres que eu faça?

 

O carneiro, com mania de grandeza, suplicou:

 

– Quero que a minha lã seja lavrada em porcelana primorosa.

 

E o carneiro teve sua lã transformada em porcelana.

 

Logo que tornou ao vale, apareceu no céu enorme ventania, que lhe quebrou todos os fios, dilacerando-lhe a carne.

 

 Aflito, queixou-se ao Todo-Misericordioso:

 

– Pai, renova-me!... A porcelana não resiste ao vento... estou exausto...

 

Disse-lhe o Senhor:

 

– Que desejas que eu faça?

 

O carneiro nem pensou e foi dizendo:

 

– Para não provocar os ladrões e nem me ferir com porcelana quebrada, quero que a minha lã seja feita de mel.

 

O Criador satisfez o pedido. A lã do carneiro tornou-se do mais puro mel.

 

Mas, logo que o pobre se achou no redil, bandos de moscas asquerosas cobriram-no em cheio e, por mais corresse campo afora, não evitou que elas lhe sugassem os fios adocicados.

 

O mísero voltou ao Altíssimo e implorou:

 

– Pai, modifica-me... as moscas deixaram-me em sangue!

 

O Senhor indagou, de novo. – Que queres que eu faça?

 

Dessa vez, o carneiro pensou mais tempo e considerou:

 

Eu seria mais feliz se tivesse minha lã semelhante às folhas de alface.

 

Atendido, voltou à planície, na caprichosa alegria de parecer diferente dos demais.

 

Quando alguns cavalos lhe puseram os olhos no carneiro,ele não conseguiu melhor sorte que das outras vezes. Os eqüinos prenderam-no com os dentes e, depois de lhe comerem a lã, abocanharam-lhe o corpo.

 

O carneiro correu na direção do Juiz Supremo, gotejando sangue das chagas profundas, e, em lágrimas, gemia:

 

 

 O Todo-Compassivo, vendo que ele se arrependera com sinceridade, observou:

 

– Reanima-te, meu filho! Que pedes agora?

 

– Meu Pai, não suporto mais!...

 

O infeliz replicou, em pranto:

 

– Pai, quero voltar a ser um carneiro comum, como sempre fui. Não pretendo a superioridade sobre meus irmãos.

 

E terminou: Quero ser simples e útil, qual o Senhor me fez!...

 

- Hoje sei que meus tosquiadores são meus amigos. Nunca me deixaram ferido e sempre me deram de beber e de comer.

 

O Pai sorriu, bondoso, abençoou-o com ternura e falou:

 

– Volta e sega seu caminho em paz. Você compreendeu enfim, que meus desígnios são justos. Cada criatura está colocada, por minha Lei, no lugar que lhe compete e, se pretendes receber, aprende a dar.

 

Então o carneiro, envergonhado, mas satisfeito, voltou para o vale, misturou-se com os outros e daí por diante foi muito feliz.

 

 

Livro “A Vida Fala II”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.